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Este é o segundo episódio de uma entrevista de vida com Agostinho Pereira de Miranda. Deixe-me voltar à sua vida, porque há vários pontos muito interessantes e este é mais um deles. Já com o curso de Direito na mão, faz uma aposta original: entra para delegado do Ministério Público ou para agente do Ministério Público, vai-me dizer qual é o termo correto, mas vai para a Polícia Judiciária e se eu não me engano, nem sequer tentou a advocacia nessa altura. Ou tentou?

Mas como tentar a advocacia? Para se começar como advogado era preciso ter dinheiro. Eu não tinha forma nenhuma de pagar a minha parte da renda num escritório de colegas. Não tinha poupanças, não tinha família que me pudesse ajudar e portanto eu percebi rapidamente que tinha que ir juntar dinheiro para esse efeito. De facto, concorri para delegado procurador da República, fui colocado em Elvas, não aqueci o lugar porque entretanto conheci uma senhora, uma rapariga holandesa, a Lia Laper, e como diria mais tarde um amigo meu-

Apaixonou-se

... primeiro, antes a Lia do que a lei. E a verdade é que eu deixei rapidamente Elvas e encontrei um poiso aqui na Polícia Judiciária. Absolutamente. Eu não queria ser polícia e de facto até acabei por me revelar um medíocre detetive. Eu era responsável por uma das duas secções de homicídios. Durante quatro anos eu era um inspetor dos homicídios, da segunda secção, neste caso, e felizmente tive sempre subinspetores fantásticos, com muita experiência e muito inteligentes. Mas ali estive até ter conseguido juntar dinheiro para pagar uma renda.

Mas antes chegou a ter uma formação na Scotland Yard também. Chegou a ter essa formação.

Sim. Aliás, tanto quanto me recordo, fui escolhido para essa formação na Bomb Squad da Scotland Yard, pelo diretor José Ferreira Vidigal

Pelo diretor da Polícia Judiciária.

Devo-lhe essa viagem única na minha vida, não tanto pela viagem e por ter ido a Londres pela primeira vez, mas especialmente porque aprendi muito — não me recordo se foram duas, três semanas — no contacto com aqueles especialistas ingleses. Por que fui eu? Eu e um outro inspetor, Francisco Garcia. Por quê? Porque tinha, entre 1974 até àquela altura, já finais de 76, tinha havido mais de 500 atentados bombistas. E de facto tinha havido mortes, e nós nos homicídios, a verdade é que-

Há aí uma história, era uma pergunta que eu ia fazer genérica, mas agora recordo-me que eu tive um caso muito interessante num desses atentados bombistas.

Sim.

Foi a Embaixada de Cuba.

É, o atentado na Embaixada de Cuba, que julgo ter sido em abril de 76. Eu fui à Bomb Squad mais tarde, em novembro ou dezembro de 76. Mas esse atentado foi particularmente marcante na minha vida profissional.

Só para dar um contexto para os nossos ouvintes mais novos que não se recordam, era um tempo do período revolucionário.

Sim.

A situação política estava longe de estar estabilizada. Havia ataques bombistas, seja no norte, seja em Lisboa, com alguma regularidade, seja à esquerda, seja à direita.

Sim. Era sempre muito difícil descobrir, porque a esquerda dizia que era a direita.

E as organizações da direita bastante ativas, o LP e o MDLP.

Exatamente. E no caso concreto da Embaixada de Cuba, a bomba que explodiu na Embaixada de Cuba matou dois cidadãos cubanos e feriu uma dúzia deles. Coube-me a mim essa investigação e aconteceu, hoje quase 50 anos depois, acho que eu posso dizer sem especial receio. Obviamente, os serviços secretos cubanos também estavam a investigar. Já agora, há um livro recente do Miguel Carvalho, acho que era "Os Anos em que o País Ardeu", ou um título semelhante, em que descreve a minha atuação nessa investigação, que é descrita como competente. A verdade é que eu não fazia a mínima ideia, e a minha secção e as duas brigadas que estavam a trabalhar, tínhamos tantas indicações que tínhamos dificuldade em trabalhar toda a informação que tínhamos. E a dada altura, já que como seria natural, os serviços secretos cubanos também estavam a fazer a sua investigação e procuraram influenciar-me e foram mesmo ao ponto de sugerir-

Tentar recrutá-lo?

Sim, não há outra forma de o descrever. Aliás, disseram: "Você pode ser tudo o que quiser neste país, mas vai precisar da nossa ajuda." E havia uma outra forma-

Isso causou-lhe desconfiança, não? Eles tentarem recrutá-lo.

Muita desconfiança. É evidente que, a seu tempo, transmiti essa informação a quem devia transmitir.

Mas quando fala em desconfiar, por que eles o queriam recrutar? Será que teriam alguma coisa a ver com o atentado?

Não, eu tenho a certeza de que para o governo cubano a autoria era da CIA. Aliás, naquele período, naqueles três ou quatro anos, tinha havido várias ações contra instalações cubanas por todo o mundo, especialmente na América Latina. Eles achavam que eu devia ter mais informação e mais ligações. Pouco importa.

Foi um caso que marcou.

Os pormenores são muito interessantes.

Mas nessa altura, ainda antes de falarmos aqui do seu trabalho como jurista, que é na área da energia, também começou a colaborar com a comunicação social. Como é que começou essa colaboração? Não só colaborou com jornais como o Expresso, como também chegou a ser comentador televisivo, uma espécie de comentador da área da Justiça na televisão.

Sim, especialmente da área criminal.

O senhor seria um concorrente meu.

De certa maneira, é assim.

De certa forma, seria mais competente do que eu.

Não creio, porque eu, como tinha sido um detetive medíocre, dediquei boa parte do tempo em que estive na Judiciária a estudar criminologia, vitimologia, criminogênese, enfim, essas disciplinas. E assim acabei por ser uma das primeiras pessoas em Portugal que escreveu, designadamente ao grande público, sobre essas matérias. Por que eu tive esse tempo de colaboração com os jornais e designadamente com o segundo canal, mercê do Mega Ferreira, da televisão? Porque eu, enquanto estive na Judiciária, de certa maneira, era uma espécie de porta-voz informal. E tinha aprendido aqueles truques todos: não confirmamos nem desmentimos, enfim, aquelas coisas. E portanto, tinha conhecido muitos jornalistas, nomeadamente o Joaquim Vieira e Benjamim Formigo, que já não está entre nós, muitos outros.

Eram os principais jornalistas naquela época.

E então surgiu a oportunidade de escrever para o Jornal, que era, digamos assim, mais da minha linha, mas também mais tarde para o Expresso.

O Jornal era mais de centro-esquerda.

É.

Não era o Diário, que era o jornal do PCP.

Acho que nunca li.

Mas era o jornal centro-esquerda.

Sim. E o jornal acabei por-

Depois veio dar origem à revista Visão.

Exatamente. E acabei por ter uma proximidade não só do José Carlos Vasconcelos, como também de outros jornalistas do Jornal que eram referências naquele tempo. De facto, eu acabei até por ser enviado pelo Expresso a um congresso de criminologia na Venezuela e depois a uma outra reunião. E portanto, ainda hoje tenho com muito orgulho o cartão do Expresso a credenciar a minha intervenção.

Muito bem. O Agostinho foi jurista do departamento legal e de negociações e de relações internacionais do grupo Gulf Oil Chevron, entre 82 e 87. Trabalhou em Houston e São Francisco. Como é que surgiu essa hipótese? Como é que isso aconteceu? Como é que o senhor passa da Polícia Judiciária e do Canal 2 para Houston e para São Francisco?

Por acaso, eu diria, tem tudo a ver, porque eu não teria sido escolhido entre os 60 candidatos ao lugar, porque a Gulf Oil fez publicar um anúncio no Expresso, claramente. Éramos 60 candidatos. Acabei por ser eu escolhido. Foi um processo muito longo, na verdade. Mas se não fosse o meu, hoje dir-se-ia, protagonismo, provavelmente não havia grande razão para me escolherem para ir primeiro para Londres e mais tarde para Houston. Entretanto, naqueles anos, fui advogado em Vila Franca de Xira, tinha um modestíssimo escritório em Vila Franca e percebi que não era por ali, que tinha muito trabalho e um rendimento limitado e, portanto, não obstante o meu inglês ser muito deficiente, lá concorri e acabei por ir primeiro para Londres, depois para Houston. E em Houston, onde estive seis anos, fiz um percurso normal de todos os outros imigrantes, neste caso, um imigrante muito bem pago e com apoios, designadamente profissionais, muito significativos.

Era uma realidade muito diferente naqueles anos 80, Portugal e Estados Unidos, mesmo a Europa. A Europa e os Estados Unidos, hoje em dia, com a globalização, nós vamos aos Estados Unidos e vemos coisas semelhantes, muitos pontos de contacto, etc., embora também seja uma outra tipicidade, outra cultura. Mas na altura era uma diferença, de facto, extremamente acentuada. Como é que o senhor adaptou à cultura norte-americana?

Não tive dificuldade nenhuma, desde logo porque eu achava que o Texas, onde eu estive três anos, era uma espécie de versão ampliada e melhorada de Angola. Enorme energia, um otimismo avassalador, grande sentido de iniciativa, hoje chamar-se-ia empreendedorismo. E eu gostei muito. Além disso, eu era bastante novo e aquilo era uma cidade onde havia muita gente jovem. Era muito divertida. Acabei, na verdade, por ter as minhas pequenas aventuras também. E aí, sim, senti o choque brutal entre a convivência entre jovens. Havia uma realidade em Portugal e outra realidade nos Estados Unidos. E já agora, a realidade nos Estados Unidos era mais conservadora, isto é, menos aberta do que em Portugal.

Mais religiosas também.

Sim, várias razões, mas fundamentalmente porque eu era solteiro e, como é óbvio, em qualquer relação em que eu entrasse, o momento crucial é: isto é para casar ou não é para casar? E obviamente em Portugal nessa altura, isso não existia. Casávamos, com certeza.

Lá estava você, um homem progressista.

Absolutamente. E portanto, nessa altura acabava a relação, enfim, quase sempre com prejuízo meu.

Muito bem. Vamos fazer agora um curto intervalo. Regressamos já para continuar a conversar com Agostinho Pereira de Miranda. Estamos de regresso para a segunda parte, estamos a conversar com Agostinho Pereira de Miranda, é uma entrevista de vida do "Justiça Cega". Como representante da Chevron e de outras petrolíferas norte-americanas, também trabalhou muitos anos em Angola. Conheceu bem o regime do MPLA, seja durante a guerra civil, seja durante a paz e após a morte de Savimbi. Como é que um homem que preza tanto a liberdade, e eu sei que você preza mesmo a liberdade, conseguiu lidar com uma ditadura de partido único, primeiro, e com uma cleptocracia a seguir?

A resposta não é nada difícil. Em primeiro lugar, eu durante seis anos era apenas o advogado dos americanos, até o tradutor, o advogado. E portanto havia desde antigos colegas meus de faculdade que me chamavam o cão de guarda dos americanos, até aqueles que pensavam que eu estava a fazer uma função que "ainda bem que é o Agostinho". Houve de tudo. Isto passa-se entre 1982 e 1988, num período em que em Angola, julgo que eu posso dizer desta maneira muito crua, a corrupção era punida com pena de morte. Creio que nunca ninguém foi executado.

Bem duvido muito que alguma vez tenha sido executada. A minha perspectiva sobre o regime angolano é muito negativa.

Mas estamos a falar de um tempo que também existiu, e isto é muito relevante acentuá-lo, em que no Wall Street Journal, Angola era descrita como um país africano em que o seu investimento vai ser honrado, e a expressão é mesmo esta, mesmo que tenha assinado num lenço de papel do restaurante. E era, de facto, assim. Eu lembro-me que nesses anos, estamos a falar até mais ou menos 92, nesses anos claro que havia corrupção, soube-se mais tarde, mas ela era totalmente clandestina.

Nunca teve nenhum convite ou nenhuma oferta indecorosa, digamos assim?

Enquanto funcionário da Chevron, nunca tive nenhuma situação semelhante sequer, mas também não havia lugar a ela, por quê? Porque a lei, a Foreign Corrupt Practices Act, a lei norte-americana punia com cadeia quem era assim.

Independentemente da corrupção ter sido praticada nos Estados Unidos ou fora dos Estados Unidos.

Ou fora dos Estados Unidos. Era assim. E essas situações pura e simplesmente não existiam. Coisa muito diferente ocorreu quando eu passei a ser o advogado das empresas norte-americanas, o advogado português das empresas norte-americanas. Isso aconteceu a partir de 89, 90, daí em diante. E a minha linha era também relativamente simples. Eu era advogado das empresas norte-americanas, ou britânicas, ou francesas, ou o que fosse, mas não era advogado dos angolanos. Nesta altura, a maior parte das pessoas dirão: "Olha, é engraçado, se havia corrupção, a mim nunca ninguém me colocou nessa situação." Eu fui colocado várias vezes nessa situação.

E como é que lidou com isso?

Lidei dizendo de uma forma, se calhar, um bocado artificial, com diplomacia, porque na minha cabeça, se eu queria ser Alguém, um advogado respeitado e um dia ter um escritório que rivalizasse com os outros escritórios grandes, designadamente aqueles que não permitiram a minha entrada. Estou me a lembrar de um, não vou dizer qual. Se eu queria rivalizar, eu tinha que ter aquela conduta que verdadeiramente eu aprendi nos Estados Unidos. Não há outra forma de eu descrever. E, portanto, na minha cabeça, como na altura havia aqui nas ruas sobre a droga, tudo o que precisa é dizer não. Portanto, só há uma palavra: não. E assim foi. Repare, eu sou o advogado português que mais anos tem de trabalho em Angola e honro-me, orgulho-me de nunca ter tido o meu nome envolvido em nenhuma situação irregular.

Mas deixe-me falar de uma questão, só para encerrar este tema e avançando aqui para outros, estamos já no final da nossa entrevista. Conheceu bem muitas figuras do regime angolano, como Isabel dos Santos. Acredita na história que Isabel dos Santos contou ao Financial Times que tinha enriquecido à sua custa, ou seja, pelo seu trabalho, o seu empreendedorismo, nascido da venda de ovos da Páscoa à família. E quem diz Isabel dos Santos, diz também de muitas figuras. Há um bocado aqui, todos nós sabemos em Portugal, que há aquela regra de que para abrir um negócio em Angola, um negócio relevante, quero dizer, um negócio que implique algum relacionamento com o Estado, tem que se ter sempre um sócio angolano com 50% do capital. E geralmente esse sócio angolano com 50% do capital é alguém ligado ao MPLA. Acredita nesta história de Isabel dos Santos?

Eu não posso dizer que a história é falsa. Agora, posso dizer é que eu estava a representar o meu cliente, Bill Bambau, da Mobil, quando a engenheira Isabel dos Santos fez o primeiro dos arrendamentos a um cliente do setor petrolífero. Eu estava lá, eu representava, e acho que eu posso dizer porque seguramente nenhuma obrigação deontológica, designadamente, me impede de fazer. Eu, se tenho algum mérito nestas situações— já agora, eu conheço a engenheira Isabel dos Santos desde o tempo em que ela era jovem e estudava em Londres. Portanto, conheço há muito tempo, respeito a sua capacidade empreendedora e de ação como gestora, mas obviamente, como hoje toda a gente sabe, era impossível construir aquele império, o que foi um império, hoje é bastante menos, sem o suporte do poder, no caso concreto, do seu pai. Aliás, também é a altura certa para dizer que eu fui convidado para ser advogado do então presidente Eduardo dos Santos, exatamente pela sua filha. E decidi não o ser, porque entendia que os meus clientes nunca o compreenderiam. Não foi por arrogância ética ou fosse o que fosse. Eu sabia que não o podia ser. E na verdade, o que fiz foi encontrar um outro advogado português, que aliás fez um trabalho magnífico, designadamente nessa disputa com o jornal Público.

Muito bem. Deixe-me fazer aqui duas últimas perguntas. Vou lhe fazer uma pergunta aberta, mas pedir-lhe uma resposta o mais sintética possível, que já estamos a ultrapassar o nosso tempo. Portugal passou por grandes transformações políticas, sociais e económicas desde o 25 de Abril. Progredimos muito em praticamente todos os campos, mas chegamos à década de 2000 e estagnamos. Vê futuro para Portugal? É possível que os seus netos possam ter uma vida melhor do que os seus filhos tiveram?

Vai ser muito difícil, penso eu. E dizendo de maneira muito sintética, eu acho que não há uma visão estratégica da parte das elites portuguesas. E não estou a falar apenas dos políticos, estou a falar de empresários, estou a falar da sociedade civil, em particular, elites acadêmicas, etc. Não vejo que consigamos alcançar mais do que esta modorra em que agora é o turismo, daqui a uns anos será, se calhar, a inteligência artificial. E, portanto, não temos um plano estratégico para o país, e isso é particularmente negativo, porque estamos a cair verdadeiramente no colo do nosso vizinho mais poderoso, que é a Espanha. E eu vejo sempre com muita preocupação a Espanha ganhar, que começou fundamentalmente no sistema financeiro, mas ganhar vantagem. Não é por nacionalismo bacoco, embora eu acho que temos de ser patriotas.

Só há dois Estados na Península Ibérica, Espanha e Portugal.

Absolutamente. E devemos ser merecedores daquilo que nos foi deixado por muitas gerações de antepassados. E, portanto, eu defendo a independência e, pelo amor de Deus, não me venham agora com a ideia de que vender 80% da refinaria de Sines aos espanhóis é fantástico para o país. Não, eu não compro isso.

Muito bem. Deixe-me lhe fazer uma pergunta que eu acho, já falei consigo sobre este tema, e acho fascinante a forma como a sua relação com a morte Você tem uma relação extraordinariamente saudável com a morte. Eu confesso que não tenho. Explique-me essa relação.

É um tema filosófico, obviamente, muito importante e é difícil abordá-lo em meia dúzia de frases, mas eu vou tentar fazê-lo. Eu tive uma familiaridade forçada com a morte quando era inspetor da Judiciária. Praticamente todos os dias via cadáveres e na altura lembro-me de ter lido um livro do Edgar Morin, "O Homem e a Morte". E foi por essa via e outras leituras, não necessariamente de Morin, que eu percebi que nós estamos verdadeiramente programados para negarmos. Aliás, o livro mais importante chama-se "Denial", para negarmos a morte. Nós vivemos como se a morte não existisse. Estamos formatados para isso. E é uma pena, porque conviver saudavelmente com a morte leva-nos a desfrutarmos melhor este milagre que é cada dia da nossa vida, e percebermos que nada nos está garantido e que tudo o que temos o deixaremos. Será, em última análise, retirado e que, mais importante do que qualquer outro aspecto, é que nós somos este milagre, que como termina em humilhação e destruição, só pode ser vivido com encanto e com humildade.

O que você fez já em relação à sua morte?

Digamos que, pelo menos do ponto de vista administrativo, está preparada. Além disso, eu escrevi a letra de um fado que se chama, por alguma razão, "Fado Último", que eu espero que seja tocado no funeral, que acontecerá, assim espero.

Você já encomendou a música do seu funeral?

Absolutamente. E fi-lo com grande alegria. Ainda cá estou e designadamente, ainda estou para a beleza e para a criação.

A última secção destas entrevistas de vida que estamos a fazer no "Justiça Cega", especial deste mês de agosto, inclui a seleção de um filme, de um livro e de uma música da sua vida. Vamos começar pelo filme. Qual é o filme da sua vida?

O filme da minha vida, é sempre difícil. É provavelmente "There Will Be Blood", "Haverá Sangue", de Paul Thomas Anderson, creio que é.

P. T. Anderson, não é Paul Thomas Anderson.

Devo dizer por quê?

Pode dizer, explicar sinteticamente.

É porque aborda de uma maneira muito rigorosa o que é o risco existencial do self-made man. É evidente que eu sou, de certa maneira, um self-made man. Não me orgulho especialmente disso, mas foi o que a vida me deu. E sei que a fixação na acumulação, a fixação na ganância, pode destruir tudo e tem uma tendência especial para destruir os self-made men.

Agora, mas qual é a mais difícil? A música da sua vida, que é a sua área natural.

Essa foi, de todas, a mais difícil. Eu escolheria "O Fado das Horas", da Maria Teresa de Noronha, letra escrita por António Bragança. Mas por que "O Fado das Horas"? Porque foi a harmonia que eu escolhi para o meu fado do neto, isto é, menino, fado do neto. E com isso eu dei, penso que me será reconhecido esse mérito, dei aos mais de três milhões de avós portugueses uma letra que eu espero que seja considerada boa. A melodia é claramente boa e é muito antiga. O fado Mouraria, que o Fado das Horas é o Fado Mouraria numa cadência mais lenta. E o Fado Mouraria é um dos três fados que se sabe terem praticamente 200 anos, um dos três mais antigos fados que se conhecem.

E o livro?

O livro, essa é mais fácil. As "Epístolas Morais a Lucílio", de Lúcio Anneu Sêneca.

Que trouxe, que tem aqui.

Absolutamente. E é, em particular, porque esta é a minha forma de combater, se quiser, a desinformação. Há na blogosfera, ou melhor, na net, várias frases e pensamentos reduzidíssimos, primitivíssimos, que são atribuídos a Sêneca. Por favor, leiam este livro, em Portugal publicado sob a designação "Cartas a Lucílio", porque é a leitura mais reconfortante, mais consoladora que se pode fazer numa vida que, como todas as vidas, passa por dificuldades, por dramas e se calhar até por tragédias.

Agostinho Pereira de Miranda, foi um grande prazer conversar consigo. Muito obrigado por ter vindo ao "Justiça Cega".

Obrigado eu, pela oportunidade e por poder falar daquilo que eu mais sei, que é sobre mim. Mas foi um verdadeiro privilégio. Espero não ter cansado os seus ouvintes.

Não, de todo. Muito obrigado.

Obrigado eu.