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Teve o primeiro ataque de pânico aos 22 anos, numa altura em que não era comum alguém assumir um problema de saúde mental, muito menos um jovem. Diz que assim que percebeu a gravidade do problema, o estigma e a vergonha desapareceram. Numa entrevista gravada no Palácio do Visconde, em Lisboa, conta que foi diagnosticado com depressão e transtorno de ansiedade e pânico. Só descobriu o psiquiatra certo para ele 12 anos depois. Chegou a ser internado num hospital psiquiátrico, mas foi na psicanálise que encontrou a terapia mais acertada. O guionista Henrique Dias é o convidado de Sara Antunes de Oliveira no "Labirinto: Conversas sobre saúde mental".

Eu ia regularmente a psiquiatras e a psicólogos e já estava habituado. Eu entrava e dizia: "Então, o que é que se passa?" E eu dizia: "Olha, tive um ataque de pânico aqui, depois tive isto, depois aconteceu-me isto, depois tive uma depressão, depois comecei a tomar isto. E qual é que era a medicação? Tomava isto e isto. E quanto tempo é que teve? E eu tinha medo de quê? Tinha medo disto e isto e isto e isto". Portanto, eu cheguei a entrar e fiz a mesma coisa. E quando acaba, diz-me ele: "Então e você?" E aquele "então e você?" entrou em mim de uma maneira que eu não me lembro se chorei, mas sei que, de repente, alguém me olhou. Já não conseguia escrever. Quando se está neste nível de ansiedade, ataques de pânico e depressão, tudo junto ao mesmo tempo, que eu tinha, a mente não para. O mais que eu queria era que o meu cérebro parasse. O psiquiatra achou que a melhor coisa que íamos fazer era eu ser internado durante um período de tempo. Violentíssimo. Tiraram tudo e fiquei aí, entregue a pessoas que eu não conhecia, num quarto que para sair tinha que pôr um código, cada vez que passava uma porta tinha outro código para pôr. Horas para tudo, horas para acordar. Ou seja, era um misto de tropa, colégio interno e hospital psiquiátrico. Acho que nunca contei isso publicamente. Vou contar hoje porque acho que pode ajudar algumas pessoas que ouçam isto e percebam que é violento, mas há alturas em que é preciso.

Consegue identificar o momento ou os momentos em que começou a achar que alguma coisa não estava bem consigo e que isso poderia ter a ver com a sua saúde mental? Ou é uma coisa difusa no tempo?

Há uma coisa difusa até o primeiro ataque de pânico que eu tive. Mas eu acho que é comum. Há uma altura na adolescência em que há muitas angústias, lidamos muito com muitas incertezas, é a altura de nos encontrarmos, sabermos quem nós somos. E eu acho que até é uma fase que os adolescentes passam, uma espécie de uma fase meio depressiva, mas que faz parte. A minha talvez tenha sido um pouco mais intensa, mas nada que me fizesse pensar que podia ter algum tipo de problema. Onde a questão se tornou mesmo aguda e não consegui fugir dela, foi quando já tinha acabado o curso, tinha 22 anos, estava a trabalhar nas Produções Fictícias e um dia, que era ali no Pérolas Amoreiras, saio para ir almoçar às Amoreiras, ao centro comercial, e começo a sentir uma ansiedade e umas palpitações no coração, uma coisa completamente estranha. Mas como tinha saído na noite anterior, pensei: "Isto é ressaca, dos copos, uma coisa qualquer, vou continuar". E aquilo não parava, continuou o coração...

A piorar?

A piorar. Eu ia com o Eduardo Madeira, que era meu colega na altura, íamos a subir da Mãe d'Água para as Amoreiras, para o centro comercial. Eu estava a dizer: "Não estou bem". "O que é que foi?" "O coração está a bater muito rápido e suave." "Mas queres voltar para trás?" "Não, vamos". E continuei, até que quando ia entrar nas Amoreiras, disse: "Isto não vai, alguma coisa não está bem, deixa-me voltar para trás". E voltei para as Produções Fictícias. Sentei-me, andava no pátio a tentar ver se acalmava.

Além do coração, era mais o quê? Era dificuldade em respirar?

Não, nesse momento era só o coração a bater a uma velocidade completamente absurda e tudo aquilo era novo para mim, que era a primeira vez que eu tinha tido alguma coisa do género. E, portanto, é muito assustador. E eu pensei: "Ok, tenta acalmar", não consegui.

E tinha a sensação de que era uma coisa física, totalmente física.

Totalmente física. Nunca me passou pela cabeça que fosse algo mental. Aliás, a primeira coisa que me veio à cabeça foi: "Isto foi ontem à noite, abusei dos copos e hoje é uma ressaca que está aqui a ter uns efeitos um pouco estranhos". Meto num táxi para ir para casa e à medida que estou a ir para casa, aquilo não parava e eu digo ao taxista: "Olhe, vamos ao hospital". E entro no hospital convicto de que estava a ter um ataque cardíaco, era o que eu pensei, uma coisa qualquer. Sou visto no hospital, dizem: "Não, está tudo bem, isso é stress, não há problema absolutamente nenhum". E deram-me um ansiolítico, uma coisa qualquer, e eu fui para casa. Pensei que estava tudo bem. Nunca mais pensei naquilo nessa noite. Fiz a minha vida normal.

Mas fez sentido para si? Estava numa fase de maior stress.

Estava numa fase de muito stress, nas Produções Fictícias aquilo era um ambiente de muito stress, muita competitividade. E andava com uma vida noturna muito intensa e eu pensei: "Isto pode ser também os meus excessos e tudo mais, podem ter feito isto". Nunca me passou pela cabeça um problema de saúde mental. No dia a seguir vou trabalhar e mal estou a entrar nas Produções Fictícias, senti exatamente a mesma coisa, o coração a bater. Dessa vez já não entrei. Meti-me num táxi, voltei para casa, não fui ao hospital e vim para casa e aí sim comecei a pensar: "Isto pode ser outra coisa qualquer". E tento acalmar-me sozinho e tomo os ansiolíticos que o médico me tinha dado e não passa. Aí começou-se a instalar um pânico, já uma coisa completamente diferente.

Nem com os ansiolíticos?

Não.

Portanto, continuava com os mesmos sintomas da véspera?

Não, piores, começaram a subir. Ou seja, começei a ver aquele medo de morrer, que é coisa típica do pânico Que eu vou morrer. Parece que o mundo está a acabar.

Estava sozinho?

Sozinho. Uma energia tremenda que vem, que não consegue sair do nosso corpo. E lembro que a única coisa que eu fiz, toquei na vizinha de baixo, que eu já conhecia há muitos anos, desde os meus cinco anos. Toquei na vizinha de baixo: "Ajuda-me que eu não estou bem". E chamam o médico, vou outra vez pro hospital. Aí sou medicado de uma forma um pouco mais violenta. E a coisa também durou mais dois, três, quatro dias em que eu estava mais calmo devido à medicação. E pensei: "Pronto, ok." Sabia lá, in the back of my mind, isto pode ter sido um problema mental, mas tenta sempre afastar essa ideia, não sei por quê.

Estresse, um momento, uma fase.

Ou seja, com 20 e poucos anos, mesmo que nos passe pela cabeça que temos um problema de saúde mental, isso aos 20 e poucos anos, e naquela altura, no início dos anos 2000, não era uma coisa que nós quiséssemos assumir perante ninguém. Então eu próprio para mim dizia: "Não, isto é outra coisa qualquer". Claro, depois com essa medicação mais forte, a coisa continua a escalar. E lembro-me que na altura estava com a minha namorada a conversar sobre isso e a dizer: "Eu não aguento isto, isto é muito estranho". De repente, tenho um ataque de choro quando estou a falar com ela. E ela diz: "Eu acho que já sei o que se passa contigo", porque ela tinha tido já uma depressão. E diz: "Vou te levar a um médico" que ela conhecia. Fui a um psicólogo, que me disse: "Não, o que se passa consigo é transtorno de ansiedade e pânico e uma depressão, e vai ser medicado pra uma depressão". E foi primeiro um choque tremendo, mas como que isto me acontece a mim, com 20, 22 anos, somos indestrutíveis, somos os reis do mundo e estamos cá pra suportar tudo e mais uma coisa. Como é que isto me acontece? Depois a estranheza, depois a imagem que se tem de doença mental é horrível, com 20, 22 anos. E tenho que marcar isto bem, naquela altura, nos anos 2000, a imagem que se tinha de doenças mentais era uma coisa que tinha um estigma absolutamente brutal. E fico em casa medicado, fortemente medicado. Nessa primeira altura, eu acho que ainda não tomei antipsicóticos nessa altura, mas foi uma coisa já muito grave. Eu lembro que tinha dificuldade em sair de casa.

Antes de chegarmos aí, e sem outros sinais que não essas crises de pânico e esses ataques agudos de pânico? Ou seja, se não tinha dado por eles antes, mesmo depois não conseguiu olhar para trás e ver outros sinais?

Zero.

Absolutamente nada?

Nada. Isto aconteceu tudo num espaço de um mês.

Até os sinais típicos de depressão. Uma pessoa quando pensa em depressão, pensa um estado mais abatido, mais triste.

Não. Zero.

E dormia bem?

Dormia perfeitamente. Tinha uma vida social muito intensa, dormia pouco por isso, não porque não conseguisse dormir. Não tinha absolutamente nenhum indício de nada. Talvez, lá está, ali na fase da adolescência, a parte depressiva que qualquer adolescente tem fosse um bocadinho mais carregada, mas era quase uma coisa perfumática, digamos assim. Não entendo muito aquilo como se fosse algum sinal já do que eu viria a ter. Foi realmente em um mês.

Um mês. E quando vai a essa consulta-

Com o psicólogo, já.

Com o psicólogo. Quando vai a essa consulta, vai achar o quê? Que alguém lhe vai dizer: "Henrique, não é nada disso. Claro, não tem problema nenhum. Isto é uma coisa simples."? Ou percebeu?

Foi quando tive o ataque de choro, a explicar à minha namorada o que estava a sentir. "Estou muito ansioso", mas ainda não havia tristeza. "Estou muito ansioso, não consigo coração". E de repente, ao contar-lhe isto, veio-me um ataque de choro, uma coisa incontrolável. E eu a partir daí percebi: "É uma coisa mais grave que está a passar comigo". Portanto, quando fui falar com ela e ela própria me disse: "Eu já sei o que se passa contigo". Ela disse-me aquilo com uma segurança que deu pra perceber que ela percebe o que eu estou a sentir. E depois quando vou ao médico e quando o psicólogo me diz o que é que eu tinha e depois me manda pro psiquiatra, não ia nada à espera que me dissessem: "Não, isso não é nada, isso são cinco dias em casa." Não, aí já percebia a gravidade do que estava a passar.

Nem o incomodou a ideia de: "Olhe, vai ter de fazer aqui psicoterapia e vai ter de tomar aqui estes comprimidos"?

Esse é o problema, não me recomendaram psicoterapia, esse foi o grande problema.

Nem o psicólogo? Só o encaminhou pro psiquiatra.

Ou seja, o psicólogo queria que eu continuasse com ele. O problema foi que eu demorei, eu não vou exagerar, demorei 20 anos até encontrar alguém com quem eu conseguisse relacionar. Porque a psiquiatria é um pouco diferente, mas na psicologia tem que haver uma relação. É impossível estar sentado com alguém sem haver confiança do outro lado. Eu tive as experiências mais absurdas. E depois como eu estou ligado ao humor, tenho sempre esta lente com que eu vejo as coisas. Tive um psicólogo, que uma vez eu entro pra o conhecer, ver se estava confortável com ele ou não, começamos a conversar e eu digo: "Olha, eu acho que isto não vai resultar, que não há aqui..." Quase como uma química numa relação.

Certo.

E ele diz-me: "Vamos fazer assim. Leve um objeto qualquer deste gabinete e pode trazê-lo quando quiser". E quando ele me diz aquilo, eu disse: "Acabaste-- ainda fizeste pior". Estas coisas de banha da cobra, ou seja, infelizmente, no meu processo todo, o mais difícil foi encontrar as pessoas certas.

É difícil acertar à primeira ou à segunda ou à terceira.

É muito difícil encontrar as pessoas certas por duas razões. Primeiro, como em todas as profissões, há profissionais que não são grandes profissionais. E depois, dentro dos que são grandes profissionais, temos que encontrar alguém que se consiga relacionar conosco. Ou até a metodologia não é certa. Eu tive um psiquiatra, não interessa dizer o nome, mas é um dos psiquiatras mais respeitados em Portugal, que eu ia lá uma vez por semana, uma vez de 15 em 15 dias, na altura mais aguda. Eu sentava-me em frente a ele e ele estava com os olhos no bloco, não os levantava. Eu sentava-me e ele dizia: "Então?" Eu começava a relatar a minha semana e ele escrevia. E não me perguntava absolutamente nada. No final, dizia: "Vai tomar isto, vai continuar com isto, toma isto". E não levantava os olhos quando eu saía, eu estendia-lhe a mão, ele fazia assim. E é um psiquiatra respeitadíssimo. É uma maneira que pode funcionar para muitas pessoas.

Funcionará pra alguém.

Pode funcionar pra alguém. Pra mim, eu tinha que ter essa questão relacional, não tanto com o psiquiatra, que felizmente encontrei um também que tem isso, mas essencialmente com o psicólogo.

Então não faz psicoterapia na altura?

Nessa primeira fase, não faço.

É medicado.

Medicado.

E é a única forma de tratamento que tem na altura.

Na altura.

E a medicação não Ajudou esse estigma?

A partir do momento em que percebi a gravidade do que se estava a passar comigo, o estigma desapareceu da minha cabeça totalmente. A partir do momento em que eu percebi: "Isto está a passar-se comigo", não havia minimamente vergonha ou querer esconder, nada disso. Havia só o sofrimento, um sofrimento atroz, isso sim. Ou seja, o olhar das pessoas não me interessava minimamente. Interessava-me o sofrimento que eu estava a ter. Nunca tive esse problema.

Um sofrimento que começou a ter aí.

O sofrimento começou, primeiro é um sofrimento físico, pura e simplesmente os ataques de pânico. Esta imagem eu costumo usá-la, pode ser um pouquinho disparatada, mas não é. Um orgasmo é uma explosão de energia para fora, um ataque de pânico é uma explosão de energia tremenda para dentro que não se liberta. É uma coisa horrível, ou seja, como se de repente houvesse uma corrente elétrica que vem para dentro de nós e ela não sai.

Por isso parece que vamos implodir, não é?

Parece que vamos implodir. É doloroso fisicamente. Dentro de nós. Tirando a questão de eu vou morrer, o que é isto, como é que isto passa. E essa questão física foi o que eu tinha na altura. Era o sofrimento puramente físico. Quando eu me habituei a isto, passou a haver um sofrimento psicológico, que é aquela velha questão: por que é que isto me está a acontecer a mim? O que é que vai ser de mim? Por que eu? Isso é um sofrimento tremendo. Como é que eu vou sobreviver? Como é que eu vou ganhar dinheiro? Isso é um sofrimento, mas que eu via mais como uma análise que eu fazia de mim, não como resultado do olhar dos outros.

E que fazia sozinho ou fazia em conversa, por exemplo, com a sua namorada ou com algum amigo?

Impossível, eu acho que isso é impossível. Eu acho que sim, a socioterapia é uma coisa que está mais que provada. Ou seja, termos um bom grupo de amigos ajuda imenso. Conversar, mas é um processo que temos que fazer sozinhos. Vale a pena que os outros estejam conosco. E ajuda muito.

E estavam? Ou não partilhou muito?

Não, eu tentei partilhar, mas não estavam. E eu não fiquei magoado com nenhum deles. Dos meus amigos todos, provavelmente houve um que conseguiu estar ao meu lado, os outros não conseguiam, mas não era por não gostarem de mim. É que é muito estranho e muito difícil. Eles viam uma pessoa que conheciam há 20 e tal anos, que de repente andava de mão dada para andar. Eu andava muito calmamente, porque estava a tomar medicação fortíssima, um olhar vago e completamente perdido, a minha voz arrastada, tudo isto para uma pessoa que me conhece desde os cinco, seis, sete anos. É violentíssimo e os outros não sabiam lidar. E eu não levo a mal nenhum deles. Houve apenas um que soube lidar e que me fazia uma coisa que era pegar em mim aos fins de semana, levava-me para uma casa que ele tinha em Azitão e passas lá comigo e com os meus pais. E aquilo, para quem visse de fora, eu não estava a absorver nada daquilo, aquilo fez-me um bem e estou-lhe agradecido o resto da minha vida. E depois a nível profissional, eu estava nas Produções Fictícias, que é o que nós fazemos é lidar com humor. E houve ali pessoas que pegaram naquilo e fizeram personagens a gozar com o estado em que eu estava. O que é violentíssimo na altura, mas eu percebo, éramos umas crianças e também não havia o cuidado que há com a saúde mental. Eu um dia estou em casa e vejo uma personagem que era a Henriqueta, feita pela Maria Rueff, que era uma personagem que estava sempre a tomar comprimidos.

Era baseada em si?

Aquilo foi-

Como é que lidou com isso?

Foi violentíssimo. Estava em casa e foi violentíssimo, mas depois com o tempo eu passei. Se calhar se eu tivesse lá, faria o mesmo.

Mas continuou a trabalhar?

Não. Nessa altura deixei de lá ir. Não conseguia. Aquilo foi mesmo violento ao ponto de eu estar dependente, de um ponto de vista psicanalítico, eu depois fiz psicanálise, foi quase como uma regressão à infância. Estava dependente de uma série de coisas.

Mas estava nesse estado em parte também por causa da medicação, mas a medicação estava a funcionar para controlar a ansiedade e o pânico?

Estava. E depois foi um processo gradual de ir baixando a medicação e eu começar a habituar-me a voltar um pouco à vida, isto sem apoio terapêutico. Só com uma espécie de intuição, de habituação. Não faço ideia o processo, como é que eu fiz, mas foi um processo que fiz sozinho, não sei muito bem como. E fui largando lentamente a medicação.

Tem ideia em quanto tempo?

Em cerca de seis meses. Fui largando a medicação, fui voltando paulatinamente a começar a trabalhar, começar a estar com as pessoas, mas tudo muito lentamente, de um dia para o outro eram avanços mínimos.

E sentiu que as pessoas no trabalho o receberam da mesma maneira ou sentiu aquilo que às vezes acontece muito, que é as pessoas olharem e pensarem: "Se calhar não podemos pressionar aqui muito o Henrique".

Não, quando eu voltei, mesmo às Produções Fictícias, lá está, o facto de nós trabalharmos com humor e de sermos todos irresponsáveis, que faz parte da nossa natureza no humor, não senti isso. Senti que havia muito gozo sobre o que se tinha passado comigo e "aquela vez que fizeste aquilo" e tudo mais. Isso já não me magoou. Àquela altura do sketch magoo muito. Isso já não me magoou nada, porque eu próprio já estava em condições de ver o ridículo daquilo.

E acha que para essas pessoas, para os seus colegas, ou pelo menos para alguns deles, provavelmente os mais próximos, também era uma forma de eles lidarem com aquilo que lhe tinha acontecido a si?

Não, aquilo era muito distante naquela altura para toda a gente.

Era só uma parvoíce.

Era uma parvoíce. Eu lembro-me, na altura houve um dos meus colegas que foi contra fazer esse sketch e que disse: "Não façam isso, isso não se faz". Mas nenhuma destas posições era feita com os mesmos parâmetros de análise que nós temos hoje. Era completamente diferente. Nos anos 2000 e dentro de um grupo de putos de 20 e tal anos, era uma brincadeira, era uma palhaçada, não havia a mínima noção da gravidade do que se estava a passar por mim. Portanto, quando eu voltei, também se não tinham visto a gravidade antes, não iam ver a gravidade naquela altura. Foi perfeitamente tranquilo. "Então, já estás melhor? Como é que é? Vê lá se te vais encher de comprimidos outra vez". Eu também me ri, porque na altura já me conseguia rir daquilo. E a vida continuou com uma série de pequenas fobias que eu ganhei, mas que fui começando a gerir. Tornei-me um pouco claustrofóbico. Tinha algumas coisas que eu ia gerindo, mas a vida tornou-se funcional. Há aquele critério de várias doenças psiquiátricas, que é a intensidade, duração e funcionalidade. A funcionalidade Foi tranquila. A intensidade também naquele momento desapareceu. E sim, a duração foi longa, mas em coisas muito pequenas, ou seja, eu conseguia funcionar normalmente. Quem não me conhecesse e quem eu não tivesse uma relação para contar essas coisas, estava comigo e não se percebia que eu tinha essas pequenas batalhas a vencer, mas muito curtas, não tinha nada a ver.

Mas ficou mais atento?

Super atento. Esse é o problema, fiquei em hiperalerta. Eu entrava numa sala de teatro e via imediatamente onde é que eram as portas para sair. Entrava numa sala de cinema, também tentava ficar sempre mais próximo da porta de saída. Essas eu tinha vergonha e tentava que as pessoas não percebessem. Com o passar do tempo, as pessoas vão percebendo que não são.

Não é por acaso.

Não é por acaso, mas fiquei super alerta e super atento a uma série de coisas. Mas como consegui ir fazendo a minha vida normal, a coisa foi andando normalmente e eu pensei: "Isto está a desaparecer ou então isto é uma coisa que eu vou ter me habituar a viver desta maneira".

E a dada altura, chegou a pensar que está resolvido? Ou nunca chegou a esse momento de "eu já estou bem"?

Não, o que eu fazia foi atirar aquilo fora da "back of my mind", punha aquilo para trás das costas e fingia que não estava a acontecer. Quando eu tinha que lidar, por exemplo, entrar numa sala de teatro e ter que lidar com "para onde é que eu saio agora?", aí, sim, pronto, és este Henrique. A partir do momento em que estava a fazer coisas normais, eu fazia de conta que aquilo não existia, enganava-me a mim próprio.

Mas não tinha crises?

Não.

Nessa fase?

Não.

Não teve nenhum ataque de pânico, entretanto?

Não.

Quando é que percebe que ainda há aqui um problema para resolver?

A coisa vai continuando, ou seja, vão continuando estes pequenos sinais e depois há uma altura que por questões pessoais, há uma escalada outra vez da ansiedade, do ataque de pânico e esses pequenos evitamentos, em vez de ser o evitamento do cinema, torna-se o cinema e torna-se outra coisa qualquer. Chegou a um ponto que eu não conseguia estar sozinho, que era-me difícil sair à rua, mas isso foi tudo num crescendo ao longo de meses, anos.

Essa é uma ideia interessante, os evitamentos. Eu começo por evitar isto e daqui a pouco já estou a evitar tudo. Foi isso que foi acontecendo ao longo desses anos.

Certo.

E o quê? Ficou isolado em casa?

Era muito difícil sair. E eu lembro-me de uma altura em Madrid, que entrei num hotel e o quarto do hotel deu-me ansiedade. Eu disse: "Este quarto está a dar um ataque de ansiedade, não pode ser este quarto". E mudámos de quarto para outro hotel, para outro quarto. Entrei no segundo quarto, 20 minutos passados, "não, esta janela é muito grande, está a dar ansiedade". Ou seja, isto é uma bola gigante, não tinha nada a ver com aquela janela nem com a outra, mas de repente a coisa começa a tomar um tamanho em que a nossa vida deixa de existir. Começa a ficar cada vez mais cerceada por estes medos e estes pequenos evitamentos.

E nesses momentos fazia o quê? Tinha medicação SOS, por exemplo.

Tinha medicação SOS que começou a não resultar. Ou seja, sempre que a coisa ia escalando, havia uma altura que a medicação resultava e depois havia uma altura que ia subindo a tal ponto que a medicação já não funcionava. A medicação que eu estava a tomar na altura.

Que ainda era a mesma?

Era.

Que tinha feito, que tinha SOS.

Exatamente. Eram uns ansiolíticos. Antidepressivos já não estava a tomar, porque entretanto a questão da depressão tinha desaparecido. Eram só uns ansiolíticos que eu ia tomando, depois ia aumentando as doses e depois nessa altura a coisa foi escalando. Foi quando descobri o psiquiatra que até hoje me acompanha.

Porque deixou de ir ao mesmo?

Deixei.

Mudou de psiquiatra e encontrou um psiquiatra que fez o mesmo diagnóstico?

Que fez o mesmo diagnóstico, mas entrou e tratou-me como uma pessoa. Essa é a grande diferença, não fui um paciente. Isto é relacional. Eu tenho esta teoria, já podemos falar mais à frente, que eu agora só faço psicanálise, e cheguei à conclusão que esta questão da saúde mental é uma questão relacional, a minha relação comigo e a minha relação com os outros, tudo o resto são sintomas. Sim, tem que se tratar os sintomas, obviamente sem a medicação eu não estaria onde estou hoje. Mas na verdade, ou se trata a causa disto tudo, que é uma coisa muito mais profunda, ou então andamos aqui a pôr pensos rápidos e pensos rápidos, até de repente haver um corte mais fundo que o penso rápido não dá e a infecção alastra e vamos por aí fora.

O que foi diferente? Na primeira consulta com o novo psiquiatra, o que foi diferente? Em termos práticos, presumo que também tenha sido: "Isto não é só medicação".

Não. Eu lembro-me perfeitamente do que é que foi. Eu estava tão habituado a ir a psiquiatras e psicólogos, porque isto estou a falar desde os 22 anos até os 34, quando eu encontrei o psiquiatra onde estou.

12 anos?

Sim. Eu ia regularmente a psiquiatras e psicólogos e já estava habituado. Eu entrava e dizia: "Então, o que é que se passa?" E eu dizia: "Olha, tive um ataque pânico aqui, depois tive isto, depois aconteceu-me isto, depois tive uma depressão, depois comecei a tomar isto. E qual é que era a medicação? Tomava isto e isto. E quanto tempo é que teve? E tinha medo de quê? Tinha medo disto, disto e isto". Portanto, eu cheguei, entrei, fiz a mesma coisa, sentei-me no sofá e ele: "Então, diga-me lá". Eu começo a fazer o número todo, já com muita pouca esperança que resultasse. E quando acaba, diz-me ele: "Então e você?" E aquele "então e você?" entrou em mim de uma maneira, que eu não me lembro se chorei, mas sei que de repente alguém me olhou. Ou seja, não sou um paciente, sou o Henrique. Então e você?

Não é uma doença. Porque descreveu um doente e de repente estão a lhe perguntar por si.

Sim. A doença faz parte de mim, não tenho problema nenhum com isso, mas essa doença está dentro de uma pessoa. Essa questão de verem a pessoa é que raramente veem. Quando ele me disse: "Então e você?" Aquilo demorou um tempo, aquele sketch do "computer says no". Demorei bocadinho a coisa de entrar. Então e eu? Depois pensei: "Espera, ele quer saber de mim". E eu comecei a lhe falar da minha vida, das minhas relações, dos meus pais, do meu trabalho, das minhas angústias. Comecei a falar do que é o ama de todos nós, que é os nossos medos, as nossas ansiedades, as nossas aspirações, os nossos amores, os desamores, tudo isso. Isso é que nós somos.

Aquilo que na verdade nos empurra ou para um lado ou para o outro.

Exatamente. E comecei a lhe falar disso tudo. E ele começou a falar disso. E estivemos ali imenso tempo. Ele tinha outro paciente a seguir que pediu para ser um pouco mais tarde, porque disse: "O seu caso é sério. É um caso sério, eu preciso de falar um pouco mais consigo". E ficamos a falar e tudo mais, e ele passou a ser o meu médico. Passei a ser acompanhado por ele e as coisas começaram, não a melhorar, mas eu senti que estava a ser bem acompanhado. E falei lhe na altura, falamos a questão de fazer psicoterapia ou psicanálise, o que é que seria. Ele disse: "Vamos deixar isso para você tomar essa decisão", porque a metáfora que ele me deu da psicanálise é absolutamente brilhante e certeira. Porque na altura comecei a perceber, e ele também me estava a levar para ali, que tinha que fazer mais alguma coisa. Ele disse: "Olha, você pensa na psicanálise como você é uma cômoda gigante e de repente vão abrir as gavetas todas e pôr a roupa toda cá fora. Enquanto a roupa toda cá fora, Henrique, vai ser um sofrimento tremendo, você anda lá perdido e é perigoso no seu caso, porque aquilo vai lhe dar um sofrimento tremendo. No momento em que você começar a guardar as coisas nas gavetas e fechá-las, você vai sentir um alívio, uma coisa fantástica".

A perspectiva dele é que era preciso desarrumar tudo para poder começar a arrumar.

Que a psicanálise fazia isso. Era a perspectiva dele.

Mas ele achava que precisava disso?

Ele nunca foi muito...

Deixou a decisão totalmente consigo.

Totalmente. Eu perguntava e ele dizia sempre: "A decisão é sua".

Porque é difícil fazer.

É muito difícil. E essa questão é verdade, porque nós construímos um edifício, se quiser outra metáfora, nós somos um edifício feito e pode estar torto, mas ele está feito. Para o pormos direito, temos que destruí-lo e voltar a construí-lo. Essa parte da desconstrução é ficar perdido no mundo, mas já lá vamos.

Já lá vamos.

E entretanto, quando eu começo com ele a fazer a medicação, as coisas vão-

A medicação era muito diferente?

Era muito diferente. Mas a coisa não melhorava, ou seja, eu sentia mais apoiado por ele e sentia que ele sabia exatamente o que eu estava a fazer e explicava-me o que estava a passar comigo, mas fui subindo a um ponto que já estava a tomar antipsicóticos, já estava numa coisa mesmo muito violenta.

E conseguia ser funcional nessa altura?

Aí já não. Já não conseguia escrever, já não conseguia fazer nada. E uma coisa que me marcou muito foi quando se está neste nível de ansiedade e ataques de pânico e depressão, tudo junto ao mesmo tempo, que eu tinha, a mente não para. O mais que eu queria era que o meu cérebro parasse, porque eu não conseguia parar.

E nem com os medicamentos ele parava.

Foi com nenhuns, a não ser com os antipsicóticos. E ele numa altura que disse: "Olha, Henrique, a partir daqui só há uma coisa, mas é muito violenta". Eu disse: "O meu cérebro tem que parar, senão eu vou ficar louco". E ele receitou-me esses medicamentos e eu tomo aquilo, lembro-me perfeitamente do momento em que estava, o sítio onde estava. Tomo aquilo e de repente o meu cérebro passado meia hora, uma hora, calma. Mas para quem estava de fora não foi nada bonito de se ver, dizem. Mas para mim foi uma paz e um descanso de um sofrimento que eu andava a ter há anos. E depois continuei a fazer essa medicação, mas mesmo assim ele disse: "Isto não é uma solução para o que você está".

Nessa fase, já tinham passado mais de 10 anos, mais de 12 anos daquele início. Daqueles anos 2000, nós já tínhamos todos evoluído um bocadinho. A relação com os seus amigos ou a informação que dava aos seus amigos, às pessoas à sua volta, mudou de alguma forma ou ainda era cedo?

Era estranho, porque se bem que da primeira vez foi aqueles "o que é que lhe aconteceu?" e não conseguirem lidar. Da segunda vez eu já tinha uma sentença.

Ok.

Já estava sentenciado, já não era uma coisa tão estranha. Pronto, ele já teve a sentença. Os dois grandes momentos que eu me fui abaixo foi nessa altura, da primeira vez nas produções fictícias, e esta que eu me estava a aproximar agora. Esta que eu me estou a aproximar agora, para eles já não foi uma surpresa, era a sentença que eu já tinha. Portanto, "olha, lá está o Henrique outra vez".

Aconteceu outra vez.

Aconteceu-lhe outra vez. Já não foi tão violento. Não é que soubessem lidar, mas já havia ali uma espécie de uma empatia diferente. Quando eu digo empatia, não é que eles não gostem de mim, eu percebo.

Uma capacidade de se ligar.

Exatamente. Eu pondo-me do outro lado, na verdade, o que acontece é que as pessoas têm medo que lhes aconteça a ele. É isso.

Por isso é que nós fugimos das doenças e das pessoas doentes.

Claro. No fundo, é esse medo. E então, como eu estava a contar, começo a fazer essa medicação mais forte. E aí, mesmo assim, com essa medicação forte, eu não estava a fazer o caminho de volta ao meu eu normal, como eu fiz com os outros medicamentos. E eu na altura tinha uma psicóloga indicada por uma psiquiatra, que tinha feito a formação em Inglaterra e que era muito cognitivo comportamental. E o psiquiatra achou que a melhor coisa que íamos fazer era eu ser internado durante um período de tempo, porque tinha mesmo de ter uma intervenção intensiva durante algum tempo.

Porque aquilo não estava a funcionar para travar aquela fase mais aguda.

Não estava e todo o ambiente à minha volta também não. Ou seja, quando se chega a um certo ponto, a pessoa precisa de ser cuidada, primeiro que tudo, e mais do que cuidar, precisa de uma intervenção intensiva. Quando eu digo intensiva, é todos os dias. Eu, nesse nosso hospital psiquiátrico que estive, eu acordava e deitava-me e durante todo o dia era tudo: terapia de grupo, exercícios, coisas que eu aprendia sobre o que é a ansiedade, sobre o que é a depressão.

Não era uma ou duas vezes por semana, uma conversa de uma hora.

Não, já não resolvia. O estar onde eu estava, isso já não resolvia.

E como é que foi esse processo? O seu psiquiatra tem essa opinião. Presumo que a psicóloga tenha tido a mesma opinião. Ouvir, enfim, já não é o jovem de 20 anos, mas é um jovem que faz humor, que tem uma vida, que tem tudo a acontecer, ouvir uma coisa do gênero: "Ó Henrique, vamos ter de o internar".

Violentíssimo. Violente isso. Deste processo todo foi a parte violenta. Foi a parte violenta o ouvir isso e todo o processo de eu ir para o avião. Tudo isso foi de uma violência tremenda. Primeiro, porque eu estava muito debilitado do ponto de vista cognitivo, portanto tudo aquilo me entrava como uma espécie de flash. E o processo de ir para lá e o estar lá, tudo aquilo foi muito violento.

Mas violento ao ponto de ter recusado isso no início?

Não.

Ou nunca recusou?

Não, nunca recusei. Eu quando conheci o psiquiatra com quem estava, percebi que era a única pessoa que estava a perceber o que eu estava a passar e me podia ajudar. Portanto, entreguei-me completamente nas mãos dele.

Confiava plenamente?

Totalmente, até hoje. Confio totalmente nele, porque realmente foi ele que me tirou desse buraco que eu estava da primeira vez.

E vai sozinho a saber quanto tempo ou sem saber quanto tempo?

Sem saber quanto tempo. A questão é que eu estive num colégio interno quando era mais novo. E as memórias de colégios internos nunca são agradáveis. Nunca. E eu quando vou daqui para lá, tudo aquilo era de uma violência tremenda. Eu lembro quando cheguei a esse hotel, que era o Priory em Londres, que é um bocadinho fora de Londres, parece Downton Abbey, mas para doenças mentais. É um sítio que quando se entra aquilo é lindíssimo, uns jardins, uma coisa, uma casa senhorial, tudo aquilo é fantástico. E eu lembro-me quando entrei e vi aquilo, pensei: "Ok, isto pode não ser assim tão mau". E entro e recebem-me muito ingleses, muito British, mostram uma sala onde se almoçava e jantava. "Pronto, então agora vamos levá-lo ao seu quarto". E de repente vou por um hall em que tem uma porta com vidro, com arames e com um código. Depois pensei: "Ok, aquela imagem idílica já foi". Eu ponho um código e quando passo lá para dentro, entrei noutra realidade. E depois a cena de ficar no quarto fechado e tinha que entregar as minhas coisas todas, aquilo é muito violento.

Porque despersonaliza?

Não, para já porque temos a noção da gravidade do problema que temos. Essa é a primeira coisa. Ali temos claramente a noção da gravidade. E depois é uma coisa de estarmos entregues àquelas pessoas, ou seja, porque eles é que dão a medicação, tiram-nos tudo. Porque eu tinha os meus comprimidos SOS, que era uma espécie de mágica que eu tinha no bolso e tomava, tiram tudo. E fiquei aí, entregue a pessoas que eu não conhecia, num quarto que para sair tinha que pôr um código, nas portas cada vez que passávamos a porta tínhamos outro código para pôr. Horas para tudo, horas para acordar, ou seja, era um misto de tropa, colégio interno e hospital psiquiátrico.

Nesse primeiro impacto, joga na sua cabeça o conjunto de imagens que nós fomos construindo dos hospitais psiquiátricos? Já percebi pela descrição inicial que não era propriamente um manicómio dos anos 50.

Só à noite.

Mas entra na ideia de "eu estou aqui", um bocadinho aquela ideia de "eu estou num hospital de malucos".

"Voando sobre um ninho de cucos".

Certo.

À noite era "Voando sobre um ninho de cucos", porque a ala onde eu estava por cima era onde estavam os adolescentes, que estranhamente eu estava nos adultos, estranhamente os casos piores não eram dos adultos, eram dos adolescentes que estavam no piso de cima. Então à noite ouvíamos os gritos lá em cima e ouvíamos as discussões e coisas a partir e pessoas que entravam internadas durante a noite. E sim, à noite era "Voando sobre um ninho de cucos". Depois quando acordávamos, tudo aquilo era muito inglês. Era tudo a ouvir os passarinhos. Elas eram muito atenciosas, portanto tudo aquilo fazia com que tivesse um bocado mascarado o sítio onde eu estava.

Mas a fazer todas essas terapias?

Sim. As terapias, aquilo é muito ligado, os ingleses são muito ligados para a vertente cognitiva ou comportamental. Ou seja, isto é um problema que se aprende, vamos ensinar o seu cérebro a reagir de outra maneira, vamos explicar o que está a passar. E isso pode funcionar para algumas pessoas. Eu percebi que no meu caso, o que funciona é ir mais fundo, é ir a uma vertente mais psicanalítica. Mas aquilo ajudou-me, obviamente que me ajudou.

Basicamente o que se faz nesse trabalho é o quê? É fazer com que a pessoa reaja de forma diferente às coisas que vão acontecendo.

É uma reprogramação do cérebro. Na teoria cognitiva como tal, eles têm uma coisa que se chama "exposure", que é: vamos expor a pessoa a isso que lhe causa medo e supostamente ao expormos isto várias vezes, a reação do cérebro a isso vai sendo cada vez menor, que a pessoa vai-se habituando. Isto pode ser verdade de um ponto de vista médico. Agora, o sofrimento que é preciso para passar isto. Eu tive coisas horríveis, viagens que eu não queria fazer de avião, que me obrigavam para: "Não, tens que fazer isso para vencer esse medo". E eu fiz uma viagem para a Espanha uma vez, que foram duas horas de um ataque de pânico, um vinha e acabava. Os ataques de pânico duram três minutos, no máximo. Três minutos ataque de pânico, dois minutos eu conseguia respirar, três minutos um ataque de pânico e fui assim durante duas horas. É uma violência tremenda. E às vezes com a minha psicóloga aqui em Lisboa, fazia experiências do elevador do Bairro Alto Hotel. Eram dos sítios, ela dizia: "Não, agora tens que entrar no elevador e subir aquilo". E eu fazia aquilo como exercícios que eu ia fazendo. Eu não digo que não resulte com algumas pessoas e que não haja um conhecimento científico, uma base científica por trás daquilo, mas nas doenças mentais, eu acho que cada pessoa tem que encontrar a sua maneira. E a minha não era aquela. A única coisa que me ajudou no Priory foi ver que ao nível dos adultos, não falo dos que estavam em cima, dos adolescentes, o meu caso era grave, mas também não era assim tão grave. Ouvi coisas, nunca mais me esqueço de uma rapariga que tinha os seus 20 e tal anos, linda de morrer, que se achava feíssima. E nas sessões de terapia ela contava o que fazia, automutilava-se, fazia uma série de coisas e era das mulheres mais bonitas que eu vi até hoje. E achava-se horrível e dizia que nunca ia encontrar ninguém. Outra senhora que tinha ataques de pânico também, que tinha uma cadeia de lojas em Londres, que tinha ataques de pânico, nem sequer conseguia ficar durante as sessões de terapia em grupo até o final. Ou seja, eu comecei a ver que isto é uma coisa muito mais abrangente. Tu tens um caso grave, mas há pessoas que têm casos mais graves do que tu. Há uma relativização quando se está neste meio.

E aprende com os casos dos outros.

Muito. A terapia em grupo é Porque volto àquela questão do relacionamento. Para mim, há aqui uma génese de relacionamento comigo e com os outros. Estar com outras pessoas que têm o mesmo problema, falar sobre isso, apesar de serem doenças diferentes, anorexia não tem nada a ver com o meu caso, mas o facto de falarmos uns com os outros do que sofremos e do que fazemos para esse sofrimento, tudo isso nos ajuda muito. Porque há uma solidão tremenda nas doenças mentais.

E quanto tempo é que ficou?

Não fiquei um mês, 15 dias, três semanas.

E no meio desse tempo nunca pensou em desistir?

Não, nunca.

Em voltar? Queria cumprir aquilo até ao fim?

Nunca, queria cumprir.

A reação das pessoas cá. Os seus amigos.

Não sabiam, não disse a ninguém.

Ninguém sabia?

Não. Acho que nunca contei isso publicamente.

Por que tomou essa decisão de não contar mesmo às pessoas mais próximas?

Não sei. Isso era uma coisa tão minha, que eu achei que não fazia sentido. Acho que todos nós temos uma vida pública, privada e secreta. Eu acho que isto já não era a minha vida privada, era a minha vida secreta, já ia mais fundo do que isso. E achei que não fazia sentido. Estou a contar hoje, porque acho que pode ajudar algumas pessoas que ouçam isto e percebam que também é violento, mas há alturas em que é preciso e que era a única maneira de eu sair. Aquilo foi o que marcou a saída daquele processo em que eu estava.

Funcionou para começar essa terapia.

Para começar. Ganhei uma série de ferramentas, e desse ponto de vista, a terapia cognitivo-comportamental dá-nos muitas ferramentas e aprendi muitas com eles. E depois isso foi o que me permitiu agarrar um pouco à vida e continuar a ser funcional, para perceber: "Ok, então agora vamos lá tratar disto de uma forma mais plena".

Quando dizem: "Olha, Henrique, vai ter alta, pode voltar a Portugal", teve medo?

Tive um certo receio. "Vou voltar e vai ficar tudo o mesmo", porque ali era uma coisa extremamente protegida, idílica. Pensei que isso ia acontecer. E aconteceu. Quando cheguei, obviamente que as coisas voltaram quase ao que estavam, só que eu tinha algumas técnicas de me defender. E fiquei a perceber muito melhor os aspetos fisiológicos que estavam a passar comigo quando aconteciam os ataques de pânico, a ansiedade, a depressão, tudo isso. Do ponto de vista fisiológico.

E isso ajudava a controlar algumas coisas melhor? Ou a lidar com elas quando aconteciam?

Lidar, mais do que controlar. Esse foi o problema. Eu percebia-as melhor, mas não as conseguia controlar. E depois voltei onde estava do ponto de vista da evolução da doença. E a coisa voltou a ficar a escalar outra vez e volto a chegar a um ponto muito complicado, em que volto a tomar os antipsicóticos. E só depois dessa altura, só depois dessa segunda fase, que faço outra vez o mesmo percurso, antipsicóticos durante um tempo, até a coisa estabilizar. Volto depois a ser funcional, já com os conhecimentos do PRAE e com estar nesta fase um pouco mais calma. E mais tarde vem a psicanálise, que foi a grande diferença na minha vida.

Como é que foi a primeira consulta?

Da psicanálise? Eu entrei num estado, porque eu não queria ir. Essa foi a única que eu não queria ir.

Por quê?

Por causa daquela questão das gavetas. É muito bonito o final, mas de repente-

"Não me vou meter nisto".

Não me vou meter nisto. "Mas agora vão abrir, ao princípio vão tirar". Ou seja, eu já tinha uma dificuldade tremenda em me aguentar de pé enquanto edifício mental e depois dizer: "Não, mas agora vão tirar mais umas gavetas e tu vais terminar".

Tu vais piorar antes de melhorar.

"Não, isto vai ser? Eu vou ficar louco? Sei lá, o que me vai acontecer? Se eu assim já tenho uma dificuldade, isto vai ser uma coisa-"

Se não queria, por que foi?

Porque é a batalha do inconsciente e o consciente que anda sempre em nós. Há uma coisa muito gira: os persas quando tomavam decisões, faziam de duas maneiras. Tomavam as decisões sóbrios, bêbados, e depois no dia a seguir, quando acordavam, pensavam sobre o mesmo assunto sóbrios, e se as duas decisões fossem a mesma, sóbrio e bêbado, eles faziam. Mas decisões grandes, tipo invadir um país, uma coisa qualquer. Por quê? Porque isto é o inconsciente. O lógico e o irracional, que eu identifico como consciente, é os dois de acordo. Portanto, o que estava ali a contar era isto. Eu, do ponto de vista inconsciente, queria ir. Do ponto de vista racional, não queria ir. E como não fiz o teste bêbado e sóbrio, acabei por ir. É verdade, foi muito violento ao princípio, mas foi o começo do caminho para onde eu estou hoje. Não sei se é da Clarice Lispector, mas há uma frase que me marcou a vida toda, que é: "A infância é o chão que pisamos a vida inteira", que é daquelas frases que ficam para sempre. E acho que é isso. Ou seja, nós queremos ir para a frente nas nossas vidas, mas há alguns que não conseguem ir para a frente sem ir atrás primeiro. E eu tive que ir atrás. Tive que estar em paz com uma série de coisas que passaram comigo, tive que estar em paz comigo.

E descobriu coisas nesse trabalho que nem sequer tinha noção de que tinham um impacto ou que tinham tido um impacto?

Exato. Ou seja, descobri aquelas coisas que eu lidava a pensar: "Esta é disto, isto é daquilo". Não tem nada a ver com isso. De repente, entra-se num campo completamente diferente, em que se lida muito com o simbólico, em que há aquela imagem muito caricatural da mãe. Sim, isso também existe, mas é muito mais do que isso.

Às vezes tenta-se reduzir a psicanálise a: "Sim, no final a culpa é dos pais. Adeus e boa tarde".

Sim.

É muito mais que isso?

Muito mais do que isso. Isso é reduzir um jogo de futebol ao pênalti. É muito mais do que isso. Se tivesse que resumir aquilo é: nós tiramo-nos do caminho a nós para podermos ser aquilo que queremos ser. Ou seja, quando vou à psicanálise, quando estou lá e ainda estou hoje, o objetivo para mim é tirarmos a nós do caminho para deixarmos de nos preocuparmos comigo. Porque eu durante muito tempo me preocupava comigo, com os problemas que eu tinha. "Agora tenho ansiedade". Eu quero tirar-me a mim da equação para poder ser um Um bom marido, um bom pai, um bom argumentista, o que quer que seja. E isso primeiro nós temos que resolver a nós. E é isso que a psicanálise faz. Agora, ir buscar só a questão da mãe ou do pai, ou das infâncias, ou dos traumas. Sim, isso está tudo lá, mas é muito mais do que isso. É uma conversa conosco, moderada por alguém que nos ajuda a conversar conosco.

E arrumar essas gavetas significa que essas questões, por serem revisitadas e resolvidas de alguma forma, deixam de doer? É isso?

Não. As coisas nunca deixam de doer. Eu acho que a grande questão que nós podemos fazer enquanto seres humanos é: quem é que nós somos? Acho que essa é a grande questão, quem é que nós somos? E a psicanálise é esse caminho pra nós percebemos quem é que nós somos. Há um documentário do Cruzeiro Seixas que eu vi, e aquela frase marcou-me pra vida toda. Ele estava a mostrar umas coisas da infância dele e mostra uma foto dele com 20 e tal anos, ele já velhote, e diz pra câmera: "Eu na altura pensava que era este". Aquela frase, uma profundidade! Que é isso que acontece. Ou seja, nós temos que perceber quem é que nós somos. E nós quando somos mais novos, achamos que somos aquilo, achamos que somos outra coisa aos 30, e nós temos, acima de tudo, que estar em paz com aquilo que somos. Isto parece simples, parece um clichê, parece um coach, mas isto é de uma profundidade tremenda e de uma dificuldade tremenda, nós percebermos quem é que nós somos.

E a sua depressão, o seu pânico e a sua ansiedade, naquela altura, estavam-

Na altura em que vou fazer a psicanálise?

Sim, quando tudo isto acontece, estavam num espaço entre quem o Henrique achava que era e quem o Henrique efetivamente era?

Mas isso foi sempre o meu problema desde o início. Não quero generalizar isso pra ninguém, mas é sempre um problema. Ou seja, uma luta entre aquilo que nós somos e aquilo que nós queremos ser ou que achamos que devemos ser. É sempre isso. Eu agora estou em citações. O David Bowie diz que à medida que vamos envelhecendo, vamos nos tornando aquilo que deveríamos ser, ou que deveríamos ter sido. E é isso. Todo este meu processo ajudou, mas também a idade ajuda um pouco. Eu acho que há uma luta muito grande entre o que nós queremos ser pra sociedade, porque nos exigem, entre o que nós achamos que deveríamos ser, nós nos temos sempre em alta conta. E, na verdade, a maior parte das vezes não somos assim tão especiais. "Não, eu não sou rancoroso." Se calhar és, mas nunca admites que és. Ou seja, entrar em paz com isso tudo é uma coisa muito difícil, mas que é o único caminho pra nós podermos estar felizes. Aquela felicidade que é: estamos sozinhos, não temos ninguém, não temos Netflix, não temos rede, estamos num sítio e estamos a contemplar, e está tudo bem. E não precisamos nos esconder em nada.

Uma das coisas difíceis de fazer terapia, pra quem nunca fez, é: o que eu digo? Eu vou falar de quê? Há um bocadinho a ideia de que a pessoa é que tem que conduzir tudo e, portanto, não sabe muito bem o que vai fazer. Não dá ainda mais medo na psicanálise de não saber pra que se vai?

Mas é importante esse medo. Só pra fazer a distinção pra quem não sabe. Na terapia não psicanalítica, está-se sentado como nós estamos e vamos falando cara a cara. Na psicanálise, está-se num divã, não se está a ver a pessoa que está a falar conosco. O que isso faz? Faz com que, na verdade, o diálogo seja muito mais conosco e aquela voz acaba por ser uma voz meio etérea. Isso faz com que nos libertemos mais e vamos pra um campo mais simbólico.

Também não temos que estar a olhar pra cara da pessoa.

Exatamente, isso é a primeira coisa, que há uma espécie de julgamento logo que está a ver quando estamos com outra pessoa. Ali não há julgamento absolutamente nenhum e abre-se o campo pro simbolismo e pra uma série de coisas. Mas agora perdi a tua pergunta, desculpa.

Se não dá mais medo. Estava a dizer que o medo é muito importante também nisso, não é?

Dá. Dá mais medo porque até essa questão de chegarmos lá e pensarmos: "Agora, o que eu vou dizer?" As primeiras sessões não. As primeiras sessões foram muito conturbadas, porque eu estava numa fase muito agitada, muito aguda, e que foi muito difícil até pro meu psicanalista. Mas quando o processo estabilizou, o silêncio faz parte. Eu chegar lá um dia e não dizer nada, e estar deitado, isso faz parte, isso tem um significado. Isso acontece por alguma razão.

Porque no diálogo consigo não estava calado.

Ou porque há alguma coisa que eu tenho pra dizer e não quero dizer, ou porque me sinto vazio, ou porque tenho vergonha de dizer aquilo que eu estou a pensar. Há sempre uma razão.

Durante quanto tempo é que fez psicanálise?

Continuo a fazer.

Mas naquela fase em que-

Naquela fase aguda, fazia três vezes por semana, que é uma coisa perfeitamente desalmada. Não, isto foi mesmo hardcore. Foi tudo hardcore. Agora que eu consigo, à distância, perceber o quão hardcore foi.

Esse foi o meu ar de julgamento.

Exato. Não, mas foi. E foram três vezes por semana. Depois passei a duas vezes por semana, durante muito tempo. E agora faço só uma vez por semana, mas já estou nisso há mais de 10 anos.

E, portanto, continua a desarrumar ou continua ainda a arrumar tudo o que desarrumou?

Não. Eu acho que as gavetas já estão todas no sítio. Agora anda a afinar várias coisas aqui e acolá, mas isto é um trabalho. O que pode acontecer? Eu tento manter muito uma espécie de higiene mental, que também é importante. As pessoas quando falam em saúde mental, ignoram três coisas muito simples, que é: dormir bem, comer bem e fazer exercício. Que é aquela coisa básica que as pessoas falam: "Tá bem, mas..." Não, mas.

E começou a fazer isso na altura?

Sim, comecei. O ginásio foi muito importante pra mim. Ter algumas regras, por exemplo, vou acordar, eu acordo, tomo pequeno almoço, vou passear minhas cadelas e não olho pro telemóvel, mesmo que esteja a coisa mais importante a acontecer naquele dia. Não faço. A coisa de acordar e pegar no telemóvel. Tudo isso pra uma pessoa como eu, que sei que tem estas tendências pra acontecer certas coisas, não posso fazer e ajuda-me imenso. E houve essas coisas de higiene que eu fui aprendendo a ter pra não me Para não sentir a pressão, porque o trabalho que eu faço tem muita pressão. Ter uma folha em branco, ter que entregar um texto, ter que ter graça ou ter que acabar um guião é pesado. Tira-se sempre um pouco de nós para o trabalho que se está a fazer. Portanto, eu tive que arranjar maneiras de me produzir. Agora, o trabalho que eu faço hoje em dia em psicanálise já não é tão intenso como aquilo que eu fazia no início.

E na altura, naquela fase aguda, quanto tempo demorou a, por exemplo, voltar a trabalhar? Portanto, é internado, depois volta.

Eu sou internado, volto à medicação, aí foram mais seis meses. Eu sou muito regular. Foram seis meses outra vez.

São pacotes sempre fixos.

E voltei a trabalhar. Eu tenho uma capacidade de trabalhar. Ou seja, tenho que estar mesmo muito mal. Até agora foram duas vezes que me aconteceu: quando tinha nas produções esses seis meses que não trabalhei e depois nos meus 35, 33, que estive seis meses também sem trabalhar. Depois às altas horas estou a trabalhar, mas é o dobro do esforço para conseguir sair alguma coisa, porque a minha mente está um pouco adormecida. As coisas saem, mas o resultado para quem está ali do outro lado não vai perceber. Para mim, conseguir fazer aquela página foi o dobro do esforço. E depois quando comecei com a psicanálise foi exatamente o contrário, a minha mente libertou-se. Das coisas melhores que eu fiz, não tenho problema nenhum com as coisas que fiz antes, mas eu acho que as coisas melhores que eu fiz foi depois de começar a fazer psicanálise, porque a mente liberta-se de uma série de constrangimentos, de coisas que não se quer dizer, coisas que não se quer tocar. Tudo isso deixa de fazer sentido.

E o trabalho contribuía mais como essa pressão para entregar e para ter graça e para fazer, ou também funcionava o humor como uma forma de salvação?

Terapia. O que é complicado nisto é quando se está a fazer três projetos ao mesmo tempo, dois, e o prazo é muito apertado. Isso é pressão, é um estresse como em qualquer trabalho. Agora, um trabalho normal em que eu estou a fazer uma série, estou a escrever um programa e tenho os meus prazos de entrega. Aquilo é a minha terapia e eu já percebi que o trabalho é uma coisa muito identitária para mim. E depois o humor está muito desligado às pessoas. A questão é dizer que as pessoas depressivas perguntaram: "Estás ligado ao humor, tens alguns traços depressivos?" A verdadeira pergunta não é essa. O Allan Botton uma vez num podcast fizeram-lhe essa pergunta. Ele disse: "Não, a pergunta verdadeira não é essa. A pergunta é se a pessoa que está ligada ao humor teve alguém na família, um pai ou uma mãe que era depressivo, porque aí é que nasce o humor, como forma de reagir a isso." Se a pessoa depois se torna depressiva ou não, é outro campeonato. Mas normalmente, estamos a generalizar, o que é horrível.

Mas havendo também uma componente genética familiar, é muito provável que havendo um pai ou uma mãe.

Exatamente. Mas normalmente, o humor nasce não como estratégia de reagir à minha depressão, ao meu traço depressivo.

Mas de pôr aqui a minha mãe a rir.

Ou pôr a minha mãe a rir ou o meu pai a rir. Ou então, isto está tudo tão tenso que eu tenho que fugir aqui um bocadinho deste mundo, vou inventar aqui umas palhaçadas. Normalmente é isto. Lá está, de uma forma muito inconsciente que nós não nos apercebemos.

É essa a explicação para, sobretudo recentemente, em que já não estamos nos anos 2000, em 2010, e as questões de saúde mental felizmente se falam mais. Se ter percebido que tantas pessoas ligadas ao humor estão muitas vezes sentadas a uma secretária a produzir um texto humorístico, quando estão profundamente tristes.

Sim. Eu acho que isso aconteceu por um motivo e sempre aconteceu. Só que os humoristas agora têm a liberdade, acham que as pessoas estão preparadas para ouvir isso ser dito e na altura não estavam. Ou seja, um humorista dizer: "Eu me sinto profundamente deprimido", podia ser até ofensivo para as pessoas. "Mas este gajo é humorista, escreve piadas e agora tem uma depressão?" Aquilo não iria fazer sentido. Depois há a questão do estigma. E depois há a questão da vergonha de quem diz. Portanto, estas três alteraram-se, quer a vergonha de quem diz, quer o estigma da sociedade, quer esta reação, isto não bate certo, o humor com a depressão e com a tristeza. Bate. Aliás, o humor é isso, é uma espécie de vingança contra a mortalidade. E a mortalidade é, não vou dizer o derradeiro dos sofrimentos, porque provavelmente, quer dizer, até nalguns casos não sofre, mas é um sofrimento constante que anda sempre cá dentro de nós. Isto vai acabar. Portanto, é uma vingança contra isso. O humor e o sofrimento estão sempre muito próximos.

E já teve momentos, neste tempo que passou, de pensar: "Eu já estou bem." Ou nunca cai nessa tentação de achar que já está bem?

Não, porque eu não quero estar curado. Eu não quero estar curado.

Não quer no sentido de ser um objetivo, não é?

Não é só isso, porque há um certo desequilíbrio na minha profissão. E o estar curado, às vezes, também pode ser...

Não me estraguem aqui.

Sim, eu percebo que eu tenho um certo desequilíbrio. Eu não olho para as coisas da mesma maneira que as outras pessoas e eu não quero perder isso. Agora, eu quero é conseguir fazer isso de uma forma feliz e saudável, que eu não conseguia. Ou seja, é isso que acontece. E mais uma vez, eu acho que a lógica disso tem a ver com uma lógica relacional interna e externa, que é estar bem comigo e bem com os outros. Quando não estava bem nem comigo nem com os outros, ou quando não se está bem consigo nem com os outros, aí é que é o problema. Isso é a coisa que eu inspiro, é estar bem comigo, estar contente com aquilo que eu sou, mesmo que não esteja contente, estar consciente daquilo que eu sou, que já é difícil, e estar bem com as outras pessoas que estão à minha volta. Agora, se isto é curado, se não é curado. Depois vamos andar naquelas questões do normal, do que não é normal. Eu não faço ideia. Eu quero é estar bem comigo e estar bem com as pessoas à minha volta. Eu já percebi ao longo destes anos da minha vida onde é que os infernos onde se pode ir, os falsos paraísos onde se pode ir, esses caminhos todos. Acho que a única baliza e o único barómetro para isto, tirando as questões práticas como falámos na psiquiatria, que é ser funcional ou não, a intensidade e a duração, como critério para uma doença mental. Eu vou para uma coisa um pouquinho mais abrangente e mais profunda para mim, que é estar bem numa coisa relacional, estar bem comigo e estar bem com os outros.

E a salvação é o quê? Se se aproxima um ataque de pânico ou se se aproxima uma situação que o leva a relembrar esse tempo que passou, saber como reagir, ter estratégias para reagir, essa é que é a salvação? Mais do que essas coisas deixarem de acontecer?

Se me acontecer alguma coisa hoje em dia desse gênero. Há pouco, quando falávamos do operar, a minha ansiedade subiu. E não estou à espera que agora possa contar esta experiência 500 vezes e nunca tenha ansiedade. A questão é que não disparou por uma forma absoluta, porque eu estou mais em paz com aquilo que passei. Obviamente que foi traumático, obviamente que é uma coisa que cria ansiedade, como várias coisas na minha vida me criam ansiedade, mas não estou à espera de viver sem ter um ataque de pânico daqui uns dias ou ansiedade ou ter um princípio depressivo. Pode acontecer, é menos provável. Neste momento, é muito menos provável, mas pode acontecer.

Mas não vive também sempre a olhar para o futuro?

Não. Isso era horrível. Isso era a pior coisa que eu tinha: essa hipervigilância. Isso desapareceu. Desapareceu por causa desta rotina. Da mesma forma que nós cuidamos do corpo, da aparência, hoje em dia também de uma forma muito exacerbada, eu aprendi a cuidar da minha mente também. E não é só ir fazer psicoterapia, ir a um psicanalista. São pequenas coisas: é fazer férias quando podemos fazer, é pegar nos cães num dia que estamos chateados e passear, é pegar na minha mulher e irmos jantar, porque hoje não me interessa nada, é desligar o telefone, não quero saber. Estas pequenas coisas que nós achamos que não são nada, são tanto. É ter um alarme no TikTok, que tenho que ter. A partir de não sei quantos minutos no TikTok, eu pus um alarme, ele diz-me: "Tu já estás há não sei quanto tempo", eu desligo. Porque eu também não concordo com aquela história de "não, agora não podemos fugir das redes sociais". A minha formação é jurídica. Eu vi um juiz americano que dizia que devia haver uma pena, as pessoas podiam ser julgadas por não viverem o tempo em questão. Devia ser uma pena. A pessoa não viver o tempo em que está devia ser um crime. E eu concordo com isso. Aquela questão de nos irmos afastando disso. As coisas estão cá todas. Provavelmente a imprensa quando surgiu também diziam: "Não, tu lês jornais, isso dá cabo da tua noção de realidade". A rádio, a televisão, tudo. Vamos conviver com redes sociais, com esta velocidade que nós temos, que é completamente diferente. Agora, vamos aprender a defender-nos. Não nos vamos entregar a isso. É tirar o melhor que as coisas têm. Eu aprendi muita coisa no TikTok. Muita coisa. Aprendi muita coisa no TikTok, inclusivamente pequenos exercícios de respiração na altura de saúde mental, coisas desse gênero. Aprende-se. É só ter essa questão de ter uma espécie de higiene mental. Acho que isso é muito importante.

Obrigada.

De nada.