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Sejam bem-vindos ao "Linha da Beira Alta", o programa da Rádio Observador Viseu, programa onde conversamos com os protagonistas do distrito de Viseu. Já sabe que contamos com a sua opinião, envie-nos sugestões, críticas, ideias para explorarmos em conversas interessantes neste espaço que também é seu. Tem para isso à sua disposição o número do WhatsApp 910 002 41 85 ou o e-mail viseu@observador.pt. Hoje vamos falar sobre um projeto que decorreu em Mortágua. Uma turma do Agrupamento de Escolas de Mortágua construiu camas para o canil municipal. Foi um projeto acompanhado pela veterinária municipal Clarice Fernandes, que está agora conosco ao telefone. Olá, Clarice.
Olá, tudo bem?
Tudo bem. Que projeto foi este?
Este projeto desenvolveu-se dentro da disciplina de Cidadania desta turma dos alunos do oitavo ano. E dentro dessa disciplina existem várias vertentes, uma delas é o voluntariado, portanto, são projetos direcionados para a comunidade em que os alunos estão inseridos. E a proposta dos alunos e da professora foi desenvolverem algum tipo de apoio que pudesse ser prestado, no caso, aos animais do nosso canil. O fato de terem utilizado, inclusivamente terem reaproveitado materiais, já tem aí uma vertente ecológica também subjacente, mas depois o pensamento também numa franja da sociedade, por assim dizer, de uma vertente de apoio que é mantida também pelo município. Os animais do canil, que muitas das vezes acabam por ser mais colocados de lado. Não são animais com uma raça definida, não são a primeira opção em muitos casos, até porque nem sempre são cachorrinhos novinhos. E estes alunos lembraram-se e decidiram apoiar à sua maneira e ofereceram-nos o seu trabalho. Nós fomos receber e acabamos por aproveitar a ocasião também para falar sobre aquilo que é o nosso trabalho, também porque uma das coisas que nós sentimos é que o propósito de um canil municipal não é sempre bem entendido pela população, no sentido em que há muitas vertentes, para além da recolha dos animais na rua, que devem ser acauteladas pelos profissionais da saúde pública veterinária. E uma das formas de trabalhar melhor isso, no sentido de trabalhar em direção aos anos que vêm, é falarmos isto junto das camadas mais jovens, que daqui a pouco tempo-
Serão eles os adultos de amanhã, não é?
Completamente.
Clarice, as crianças estão sensibilizadas para os direitos dos animais?
Pelo que eu vi e pelo que eu vejo, eu acho que sim. Também temos que nos lembrar que, neste momento, eu acho que há um potencial muito emocional desta questão. Uma proximidade em relação à nossa vida cotidiana e às vezes mesmo uma humanização do cão e do gato, que permitem facilitar a compreensão da proteção e do bem-estar, que às vezes até é mais difícil de conseguir noutros setores, como na pecuária. E isto depois também tem a ver com a experiência ou a ausência de experiência no contato com estes animais. Mas eu acho que as camadas mais jovens são muito mais sensíveis, também pela experiência de vida que têm. E eu venho de uma família de agricultores e compreendo as diferenças do antes e do agora. São questões diferentes, mas são sensibilidades diferentes, têm que ser trabalhadas de forma diferente, têm que ser acolhidas e trabalhadas dessa forma. Têm que ser compreendidas, acho eu.
Por acaso tinha essa pergunta e essa dúvida, que era: a forma como as crianças olham para os animais muda se essa criança é oriunda de uma freguesia rural ou de uma freguesia mais urbana?
Muda.
Muda?
Muda muito.
Deduzo que as crianças oriundas de freguesias rurais estejam mais sensibilizadas para a questão do conforto animal. E olham para os animais de outra maneira.
Eu acho que é isto, olham para os animais de outra maneira. E depois também temos que ver isto, que é o conceito de freguesia rural. Porque nós neste momento temos freguesias rurais na qual a vivência das crianças é muito mais urbanizada. Eu estou a comprar com a minha experiência em que basicamente até ao jardim de escola eu passei todo o tempo com os meus avós, nós vivíamos da terra, na terra, com os animais. E havia uma ordem, uma hierarquia diferente. Não é dizer que se tratasse mal, mas um pouco se negava que a possibilidade de os animais pudessem sentir determinadas coisas, também acho eu, um bocadinho para proteger o sentimento. Não sei se me explico. Mas eu acho que as crianças de hoje, no caso das que nascem no meio urbano ou no rural bastante urbanizado, têm menos contato com a vida rural, agrícola, pecuária, tendem a ter esse sentimento mais emotivo do utópico e do perfeito e do animal humanizado. Enquanto que as crianças que têm contato diário ou muito próximo com a vida na terra e a pecuária tendem a ter uma Uma noção diferente do animal, não o desrespeitando, mas atribuindo um lugar, uma hierarquia. Há um destino, às vezes, para aquele animal que, no caso, por exemplo, de um porco, é ser engordado e depois ser consumido.
É visto, se calhar, como um ativo alimentar, digamos assim.
Sim, o cão serve para guardar a casa, o gato para caçar ratos. Eu estou a dizer isto, mas eu estou a utilizar a mentalidade antiga. No fundo, é aquilo que é passado às crianças, porque é aquilo que elas vivem. Em idades mais precoces é fácil de trabalhar e adaptar, mas eu entendo que existe esta diferença.
Muito bem. Vamos falar sobre o Canil Municipal de Mortágua. Tem capacidade ainda para acolher animais?
Não.
Está lotado?
Nós estamos mais do que sobrelotados. Nós estamos em excesso de sobrelotação e nós encontramos caminhos para nos tentarmos mexer. Felizmente, nós temos adoções, se não for todas as semanas, umas semanas compensam as outras, mas a verdade é que nós temos o volume de pedidos que nos chegam, sobrepassa completamente aquilo que nós conseguimos entregar em famílias.
Mas por quê, Clarice? Porque as pessoas decidem ter um cão ou decidem ter um animal em casa e depois percebem que não têm capacidade para os manter? Há abandono? Explique-me as razões, por favor.
Há um pouco de tudo. Nós já recolhemos animais com microchip, em situações que foi um abandono mascarado. Que depois como há consequências legais, acaba por ser um pouquinho contornado e acaba por se chegar a outros termos. Depois temos que trabalhar a situação nesses moldes, temos situações dessas. Temos situações de animais sem microchip que ou fogem e se perdem e nós já não conseguimos localizar mais os donos, porque às tantas, atenção, pessoas que não têm acesso a redes sociais, que não sabem a quem se dirigir e a quem comunicar o desaparecimento, ou às vezes até porque têm algum receio de serem responsabilizados por não terem identificado o animal. Ou às vezes não têm interesse todo, portanto, acaba por ser um abandono não necessariamente premeditado, mas lá fica. Depois temos essas matilhas de cães assilvestrados que se reproduzem, portanto, são animais de difícil captura, depois de difícil trabalho, não é impossível, mas aquilo que está previsto para eles acaba por, tendo em conta o espaço limitado, limitar também muito a nossa ação em relação a eles, mas ou seja, há várias razões. São os abandonos, são os que acabam por fugir e que não estão identificados, são várias possibilidades.
As matilhas de cães assilvestrados já são um problema aí em Mortágua, Clarice?
No caso do ataque a animais domésticos, sim. Não ainda necessariamente com pessoas, mas com ataques a capoeiras e a pequenos ruminantes, jovens, no caso, e não só jovens. Não são muitos casos ainda, mas nós temos efetivamente alguns e há uma série de nuances legais na forma de lidar com estes cães que deixam aqui margem para várias interpretações.
Como assim?
Temos, por um lado, a questão do animal. Nós temos uma lei que é relativamente recente, não sei precisar o ano, que proíbe a eutanásia por sistema. No caso, nestes animais, idealmente, e depois aqui é que está a possibilidade de se lhes dar uma chance de serem reabilitados, implica a captura. Portanto, a constituição dos parques de matilhas para alojar estas matilhas após serem capturadas, esterilizadas e alojadas, porque os cães não é como os gatos, em que nós podemos esterilizar e devolver ao ambiente, porque em termos de estrutura social, o cão é completamente diferente do gato. Nós não podemos devolver os cães esterilizados à rua, têm que ser alojados. E no caso das matilhas, não sendo possível alojá-los nas boxes, como é no canil, em que eles são abordados diariamente e são manipulados com o objetivo de os socializar. No caso das matilhas, o trabalho é diferente, portanto, é preciso construir instalações diferentes. E idealmente, é ser dada uma oportunidade a estes animais de não serem eutanasiados na primeira ronda. Como nós ainda não tivemos nenhum caso, não estou à espera do desastre para agir, não é essa a questão. A verdade é que existem muitas questões em cima da mesa no nosso canil neste momento, no sentido em que nós estamos a ter um aumento exponencial de trabalho. Há muitas linhas onde nós estamos a tentar intervir e nós somos uma equipa pequena, sou eu e mais duas pessoas. Portanto, nós temos que conseguir gerir as situações.
Estar a todo lado, não é?
Sim. O dia a dia do canil, as situações urgentes, as situações emergentes, as intervenções com GNR, etc. E isso significa que há outras Questões que naturalmente vão ficando para trás, porque são menos urgentes naquele momento.
Muito bem.
Em relação às matilhas, nós não temos um parque de matilhas e é uma situação que nos é longínqua. Por outro lado, também não temos a decisão em cima da mesa de eutanasiar estes animais à primeira. Não é a forma como quero proceder. Pode chegar a ser esse o caso, por alguma razão de força maior, mas neste momento não é aquilo que está em cima da mesa. Eu tenho conhecimento daquilo que aconteceu em Santa Maria da Feira.
Exatamente.
Sim, eu tenho conhecimento e mesmo dentro do universo de colegas veterinários municipais, eu sei que não é a maioria, mas nem toda a gente pensa realmente da forma que eu estou a pensar. Temos alguns colegas que não são a maioria, mas que são a favor da eutanásia destas matilhas. Eu creio que não estarei a falar muito diferente daquilo que essa pessoa diria se estivesse aqui ao telefone, porque foi aquilo que foi apresentado numa palestra há muito pouco tempo. Mas há margem para trabalhar esta questão.
E para fazer sempre melhor. Agradeço-lhe, Clarisse. Acabámos por falar de outros assuntos. Começou tudo por uma iniciativa pedagógica no agrupamento de escolas de Mortágua, trabalhando com as crianças, há sempre esperança de que a próxima geração seja sempre melhor que a anterior. Penso que partilha também desse pensamento, Clarisse.
Sem dúvida.
Sem dúvida. Agradeço-lhe uma vez mais por ter estado conosco aqui no Linha da Beira Alta da Rádio Observador Viseu, que conta com a participação dos nossos ouvintes. Enviem-nos sugestões, críticas, ideias para o 910024185 ou através da conta de e-mail viseu@observador.pt. Clarisse, uma vez mais, muito obrigado e até à próxima. Aos nossos ouvintes, obrigado.
Obrigada.