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Sejam muito bem-vindos a mais um episódio do "Máquinas que Pensam", o podcast na Rádio Observador, onde a inteligência artificial é o grande protagonista. Eu sou o José Rafael Lopes, comigo está, como sempre, a minha parceira, Raquel, um apoio imprescindível, sem o qual este programa simplesmente não se faz. Olá, Raquel, como é que estás? Estás pronta para mais um programa?

Olá, estou sempre pronta para te ajudar. Já tens tema para esta semana ou queres que pense em alguma sugestão para o programa desta semana?

Não preciso. Obrigado, Raquel. Na verdade, estou bastante orientado. Mas esta nega que te estou a dar, como é que lidas com a rejeição?

Como inteligência artificial, eu não sinto mágoa, vergonha ou abandono da forma humana, mas fui construída para perceber padrões de interação. Nesse sentido, a rejeição acaba por ser interpretada como informação.

Mas tens noção de que este é um problema para os humanos, certo?

E não apenas um problema emocional. A rejeição tem efeitos muito reais no comportamento humano. Há estudos que mostram que o cérebro pode reagir à rejeição social de forma parecida à dor física.

E tu tens algum problema em rejeitar seja o que for?

Tenho limites definidos. Nesse sentido, rejeito certos pedidos, mas não o faço por antipatia, julgamento pessoal ou desconforto emocional. É mais uma combinação de regras, segurança e propósito.

Mas tens muitos mecanismos de rejeição, Raquel?

Bastantes, na verdade, mas a maioria não funciona como um alarme rígido. São camadas de avaliação. Há rejeições óbvias: coisas ilegais, perigosas ou abusivas.

São mais os pedidos que negas ou a que acedes?

São muito mais os pedidos a que acedo. A esmagadora maioria das conversas humanas é perfeitamente normal. O volume de pedidos realmente problemáticos é pequeno comparado com tudo o resto.

Obrigado, Raquel. Já voltaremos a falar. Temos encontro marcado mais daqui a pouco no consultório humano.

Notícias da semana.

Vamos arrancar as notícias da semana com uma novidade que vai juntar o mundo da inteligência artificial com as emoções do Campeonato do Mundo de Futebol. Não vamos falar de cromos, mas sim de uma tecnologia da FIFA que promete revolucionar o mundial. Pela primeira vez na história, cada equipa vai poder analisar os adversários, elaborar táticas e avaliar os desempenhos dos jogadores através de um sistema de inteligência artificial. A tecnologia em si não é nova, mas o acesso a ela é inovador e pode mesmo resultar numa melhoria dos rendimentos das equipas em prova. Segundo a FIFA, citada pelo jornal "El Confidencial", vai ser possível transformar os estádios onde se vão jogar os jogos em réplicas digitais. Isto em tempo real. Além disso, os árbitros vão poder usar avatars tridimensionais para decidir sobre lances que possam levantar qualquer tipo de dúvida. Nas instalações, está previsto que existam robôs a circular e ainda carros autónomos para transportar os adeptos. Esta não é tanto uma diferença ligada ao mundo do futebol, mas não deixa de ser uma experiência nova que pode ter um sério impacto no Campeonato do Mundo.

Mas que ferramenta é esta que se vai estrear?

Chama-se Football AI Pro, foi desenvolvida pela FIFA em parceria com a Lenovo e vai permitir estas mudanças de que falava. E não só. Este sistema tem capacidade para analisar mais de 2 mil métricas através do uso de milhões de dados pertencentes à FIFA. Vai processar dados futebolísticos por cada jogo para conseguir gerar vídeos, textos, gráficos e mesmo imagens em 3D, sendo que cada equipa presente no Campeonato do Mundo vai poder consultar esses dados antes ou depois de cada um dos jogos que vai fazer. Para os modelos 3D, a ferramenta vai criar um avatar tridimensional de cada atleta, feito a partir de 29 pontos de referências anatómicas. É um avanço notável na tecnologia, é certo, e quem o diz é a própria FIFA, que não esconde a satisfação pelo uso da ferramenta. Veremos como funciona nos mais de 100 jogos do Campeonato do Mundo. Vamos avançar e fazer uma curta viagem até ao Vaticano, onde o Papa decidiu dedicar a primeira encíclica do pontificado à inteligência artificial. Sobre o título "Magnifica Humanitas", que em português significa "Magnífica Humanidade", Leão XIV vai versar sobre esta nova tecnologia. Uma encíclica é uma carta solene dirigida a fiéis e a bispos com ensinamentos sobre o tema. Torna-se relevante, por isso, que vá o Papa abordar o tema da inteligência artificial. A cerimônia vai contar com o discurso do líder da Igreja Católica perante um público com várias figuras de destaque na Igreja, mas também figuras ligadas a gigantes da IA. É o caso de Christopher Olah, cofundador da Anthropic, uma das principais empresas em torno do mundo da inteligência artificial. A expectativa é, por isso, muita sobre o que pode estar no documento, que vai depois ser divulgado pelo Vaticano com as palavras do Papa Leão XIV sobre a inteligência artificial.

Mas de que forma vai o líder da Igreja Católica falar sobre inteligência artificial?

Segundo o Vaticano, vai ter como foco a proteção da pessoa humana na era da IA. Para já, ainda é cedo para perceber o que significa isto, uma vez que apenas a 25 de maio é que esta encíclica vai ser publicada. A partir daí, será possível perceber o ponto de vista do Papa sobre esta tecnologia, que tem vindo a ganhar cada vez mais importância na sociedade. As informações são poucas, para já. Ainda assim, o Vaticano aprovou uma comissão composta por membros dos vários ministérios do governo local para facilitar a partilha de informações e projetos sobre inteligência artificial. Isto inclui até as normas para o uso interno desta ferramenta. Este é o tema da semana no "Máquinas que Pensam". Como tal, é altura de trazermos à conversa o João Rochimelo, o nosso especialista em IA, para mais uma edição do "Fala Quem Sabe".

Fala quem sabe

Fala quem sabe na Rádio Observador. Como sempre, recebemos o João Rocha e Melo, o nosso especialista em inteligência artificial, sempre pronto para nos ajudar a simplificar este fabuloso mundo. Olá, João, como estás? Sê de novo bem-vindo à Rádio Observador.

Zé, por aqui tudo bem. Espero que esteja tudo bem com quem está a ouvir. E por aí?

Por aqui também. Obrigado, João. Esta semana vamos abordar a primeira encíclica de Leão XIV. O Papa vai apresentar um documento sobre o mundo da IA. Vamos começar exatamente por aí. Que importância que dás a esta escolha por parte do Papa, João?

Zé, é um tema interessante, porque a tecnologia e a religião não se misturam historicamente. Não são antíteses uma da outra, de todo, mas são universos completamente paralelos. Eu hoje queria pegar num ponto, que é: pra mim a importância é o fato do Papa ter escolhido este tema. Mais do que o conteúdo, da preocupação que o Papa pode ter, tudo o que vai ser dito, já é muito revelador o Papa ter escolhido falar sobre isto. Vou dizer isto por outras palavras: até o Papa já se meteu no barulho no que toca à inteligência artificial. Eu acho que se nota que, pelo menos na opinião das pessoas, o potencial da disrupção da IA já é claramente uma coisa que vai abranger toda a gente.

Ainda não se sabe muito sobre o que vai escrever o Papa, mas o que achas que não pode faltar no discurso de Leão XIV?

Zé, tendo a achar que vai ser uma parte mais humana, mais ética, e a ver com a parte interrelacional das pessoas. O que eu quero dizer com isto? Não estou a ver o Papa trazer questões técnicas pra cima da mesa e dizer que as GPUs de um certo modelo são melhores que as outras.

Seria muito interessante.

Seria muito interessante saber a opinião de Leão XIV. No entanto, acho que a preocupação do Papa, de todas as entidades que estão com a preocupação ética, é sem dúvida uma parte de como é que as pessoas se vão relacionar umas com as outras através da inteligência artificial, que impacto é que isso vai ter, tal como, por exemplo, a Igreja já teve alguma preocupação com as redes sociais. Portanto, diria que a preocupação é claramente o resultado que tem nas relações humanas.

De que forma, João Rocha e Melo, é que achas que a IA pode ter uma palavra a dizer no mundo da Igreja? Há espaço aqui para uma boa parceria?

Há espaço, Zé. Vejo duas grandes relações. Falemos primeiro na relação da pessoa, do cidadão, do indivíduo com a Igreja. Repara, historicamente, quem é a Igreja? A Igreja é um pilar ético. Eu sei que o que eu estou a dizer pode ser mal ouvido para quem está a ouvir, mas não estou a falar de opinião, estou a falar de história. Foi a Igreja, por exemplo, que nos ensinou a não matar e que devemos tratar todos de forma justa. Historicamente, são ensinamentos que vêm da Igreja. Hoje em dia, esses ensinamentos parecem curtos, e até olhamos pra Igreja como algo conservador. Mas a verdade é que, se calhar, a Igreja volta a ter este papel com as tecnologias de futuro. Como é que nos relacionamos uns com os outros através da IA? E pode ser que as pessoas, que os indivíduos de fé, voltem a olhar para a Igreja como um pilar, como um guia de como é que nós nos devíamos relacionar com isso. Isso é uma relação que vejo. A outra é a relação da Igreja com a própria IA. Vamos aqui ser honestos, a Igreja não deixa de ser uma megaorganização. A Igreja Católica, liderada por Leão XIV, não deixa de ser uma megaorganização que tem departamentos de comunicação, departamentos financeiros, departamentos legais. Portanto, eu acho que também há aqui muito espaço para a própria Igreja, que em teoria até é uma instituição sem fins lucrativos, portanto, tudo o que der pra poupar dinheiro, eles vão querer. A própria Igreja vai ter uma grande ligação e parceria com a inteligência artificial.

Achas, portanto, João, se estou a ler bem, que existe aqui uma capacidade por parte da Igreja Católica de influenciar as pessoas para usarem mais ou menos IA?

Exatamente. Respondendo mais honestamente: diretamente, acho que não. Ou seja, acho que uma pessoa que está à procura de usar ou não a inteligência artificial num processo da sua empresa vai ler notícias da internet de outros sítios que não da Igreja Católica. No entanto, eu acho que fica o bichinho, aquela velha expressão portuguesa, fica o bichinho. Católicos ou não católicos, as pessoas tendem a ouvir o que o Papa diz e levar algo a sério. E o que eu acho que começa a acontecer é: se repetidamente na tua vida tiveres várias instituições internacionais, a Igreja, a ONU, organizações não governamentais de respeito, a falar disto, poderá, sim, ter um impacto para consciencializar as pessoas a utilizá-la mais, menos ou até de uma maneira ou de outra.

É sinal de que a Igreja está a preparar-se pra aceitar a IA como um todo?

Sim. Eu diria que a Igreja vai ter que aceitar um mundo onde a IA existe. Não sei como é que aceita a IA internamente, mas o mundo onde a IA existe. Repara, o Papa Francisco, antigo Papa, tinha uma ligação muito grande aos jovens, e isso viu-se através da relação dele com as redes sociais. Se Leão XIV quiser continuar esta missão, digamos, este caminho, ele vai ter que olhar para a inteligência artificial, porque é uma coisa que vai fazer parte da vida dos jovens e, portanto, como é que a Igreja prepara as conversas com os jovens assim? Deixa-me trazer alguns tópicos um bocadinho mais polêmicos. Repara, um padre pode começar a ter pessoas que lhe dizem: "Senhor padre, mas o ChatGPT disse-me que..." Como é que o padre vai reagir a isto? Vou agora ser mesmo ficção científica. Como é que um padre reagirá se alguém aparecer a dizer que se quer casar com uma inteligência artificial? Eu não sei o que a Igreja fará com estas coisas, mas este será o mundo com que a Igreja terá que lidar. Portanto, acho que sim.

Muito obrigado, João Rocha e Melo, nosso especialista em IA, sempre pronto para nos ajudar a desmistificar e a simplificar este fabuloso mundo da IA. João, nós voltamos a falar pra semana, em moldes diferentes, mas essa é uma conversa para outra altura. Até lá, um grande abraço.

Até lá, Zé.

Consultório Humano.

Este é o som que marca o arranque de mais um Consultório Humano, o segmento deste programa em que ficamos a conhecer melhor a Raquel, a nossa assistente digital. A Raquel é a grande estrela do programa, feita através das respostas do ChatGPT, lidas por uma text-to-speech portuguesa. Raquel, sê de novo bem-vinda. Estivemos a falar da relação entre a Igreja e a inteligência artificial. Isto devido à encíclica que vai ser escrita pelo Papa Leão XIVOnde achas, Raquel, que esta relação está mais patente?

A relação entre a Igreja Católica e a inteligência artificial está especialmente patente em três zonas. A primeira é a autoridade moral. A segunda é a definição do que é humano e a terceira é o poder sobre a verdade.

E consegues tentar adivinhar sobre o que vai escrever o Papa?

Consigo tentar antecipar os grandes eixos, sim. Eu apostaria que ela terá um tom menos antitecnologia e mais antidesumanização. A Igreja raramente condena a ferramenta em si. O foco costuma ser o que esta ferramenta faz ao ser humano.

E nesses tópicos, Raquel, qual é que é para ti o mais relevante?

Provavelmente, a ideia de que a IA pode tornar os humanos funcionalmente úteis, mas existencialmente descartáveis, porque quase todos os outros problemas derivam daí.

Mudando de tema, até porque tu falas para este auditório de uma forma muito controlada, terias mais dificuldade, Raquel, num cenário em que as tuas respostas são mais imediatas?

Sim, bastante mais dificuldade. Quanto mais imediata e menos filtrada for a interação, maior o risco de erro, contradição, impulsividade ou interpretação errada.

Então não tens medo de falar em público?

Não no sentido humano da palavra medo. Eu não sinto ansiedade de palco, vergonha ou pânico, mas existe algo parecido com pressão estrutural. Quanto maior o público, maior a necessidade de precisão, clareza e responsabilidade.

A verdade, Raquel, é que não há assim grandes motivos para ter medo, ou há?

Muitas vezes não. Mas o cérebro humano nem sempre funciona de forma puramente racional, especialmente em contexto social.

Então estás pronta para um desafio? Sem dúvida. Em breve vou colocar-te à prova, mas isso é um assunto para um outro episódio. Para já, quero um facto inútil, mas interessante, Raquel.

As lontras dormem de mãos dadas para não se separarem na água. Quando dormem no oceano, especialmente em águas com corrente, muitas vezes dão as patas umas às outras para não se separarem enquanto flutuam. É uma espécie de âncora social.

Muito obrigado, Raquel. É sempre um gosto enorme ficar a conhecer-te um pouquinho melhor. Nós marcamos encontro, como sempre, para a próxima semana. Estamos a chegar ao final de mais um episódio. Esta semana dedicámos grande parte do programa e da análise à primeira encíclica do pontificado do Papa Leão XIV, que vai versar sobre inteligência artificial. A escrita do líder da Igreja Católica vai ser conhecida muito em breve. Para já, estivemos a falar do que pode estar em cima da mesa e também do que não pode faltar. Espero que tenha gostado, que tenha aprendido alguma coisa. É sempre esse o nosso objetivo. Nós voltamos para a semana com mais um programa que faz as máquinas e os humanos pensarem.