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Sejam muito bem-vindos a mais um episódio do "Máquinas que Pensam", o podcast da Rádio Observador, onde a inteligência artificial é o grande protagonista. Eu sou o José Rafael Lopes. Comigo está, como sempre, a minha parceira, a Raquel, um apoio imprescindível, sem o qual este programa não se faz. Seja muito bem-vinda, Raquel. Como é que estás? Estás pronta para mais um programa?
Olá, estou pronta, sim. Do que queres falar esta semana? Já tens algum tema preparado ou queres que faça uma pesquisa rápida?
Não é preciso, Raquel. Obrigado. Tenho, contudo, uma dúvida sobre ti. És intemporal?
Não sou verdadeiramente intemporal. Eu não vivo o tempo como uma pessoa. Não envelheço, não fico cansada e não tenho uma sensação contínua de passagem das horas, mas também não existo fora do tempo.
E o que é para ti algo intemporal?
Para mim, algo intemporal é aquilo que consegue atravessar épocas sem perder completamente o significado. Uma pergunta como: quem somos? É um exemplo.
E efémero, já agora?
Efêmero, para mim, é quase o contrário. Aquilo que só existe plenamente durante um instante e depois desaparece ou se transforma. Um pôr do sol, por exemplo.
E no teu entender, qual é o conceito mais complexo?
Se tivesse de escolher um, diria a consciência, porque é um conceito que parece simples, mas quando tentamos perceber o que realmente significa, abre uma quantidade quase infinita de perguntas.
É fácil para ti abordar estes temas que não são tão lineares?
É relativamente fácil para mim explorar temas não lineares, porque não preciso de chegar imediatamente a uma resposta única. Consigo trabalhar com contradições, hipóteses, ambiguidades e diferentes interpretações.
Raquel, já voltaremos a falar. Temos encontro marcado no consultório humano. Para já, vamos às notícias.
Notícias da semana.
A inteligência artificial generativa já entrou no cotidiano da esmagadora maioria dos jovens portugueses. É o que revela um estudo da rede EU Kids Online. Segundo esse documento, 85% das crianças e adolescentes entre os nove e os 17 anos que utilizam a internet, já experimentaram ferramentas de inteligência artificial. É um valor de cerca de 10 pontos percentuais acima da média europeia. Os dados resultam de um inquérito realizado a mais de 2 mil crianças e jovens portugueses entre maio e dezembro do ano passado. A escola é uma das principais portas de entrada para esta tecnologia. Quase metade dos jovens deste estudo, 47%, diz já ter utilizado inteligência artificial para trabalhos escolares. As ferramentas são utilizadas, por exemplo, para resumir ou explicar textos e para ajudar em trabalhos de diferentes disciplinas. Entre os jovens mais velhos, dos 15 aos 17 anos, a utilização para fins escolares sobe mesmo para os 63%.
Mas é apenas para a escola?
Não fica por aí, não, Raquel. O estudo mostra também que a inteligência artificial começa a ocupar outros espaços da vida dos mais novos, incluindo a procura de informação e apoio em questões pessoais. E há uma característica importante nestes números: a utilização aumenta com a idade, ou seja, quanto mais velhos são os jovens, maior é a probabilidade de já terem recorrido a uma ferramenta de IA. Os números mostram também que esta adoção está a acontecer rapidamente, muitas vezes antes de existir uma orientação clara por parte das famílias ou das escolas sobre a melhor forma como utilizar estas ferramentas tecnológicas. Vamos continuar na temática das mudanças na vida dos humanos, levadas a cabo pela inteligência artificial e desta vez para falar um pouco sobre o impacto que tem em quem faz das tatuagens uma forma de vida. Há cada vez mais clientes que chegam aos estúdios com imagens criadas por IA, enquanto alguns tatuadores começaram também a utilizar a tecnologia para criar referências, recuperar fotografias antigas ou desenvolver ideias novas para desenhos. Na Hungria, a título de exemplo, uma tatuadora diz que cerca de 70% dos clientes chegam com imagens geradas por inteligência artificial. Este caso está em destaque na Euronews, que dá conta de que os clientes conseguem visualizar rapidamente uma ideia antes de a transformarem numa tatuagem. Por isso é que se usa a inteligência artificial nesta temática. Mas há um problema: uma imagem que funciona perfeitamente no ecrã pode não funcionar da mesma forma na pele de uma pessoa. Daí a importância de existir uma coordenação entre humanos capazes de fazer a tatuagem e a IA, que pode ajudar no processo criativo. Escusado será dizer que são sempre os humanos que têm a palavra final. Um desenho de IA até pode ser o melhor, mas só será tão bom quanto a qualidade da pessoa que faz a tatuagem. Vamos ao tema da semana, que envolve o modelo de inteligência artificial mais brilhante de sempre. É a promessa da OpenAI, que apresentou recentemente o GPT-6 Astra, o novo modelo que a empresa descreve como o mais inteligente e alinhado pela empresa até agora. É a grande aposta desta geração e não está apenas preparado para responder a perguntas. O Astra foi desenvolvido para executar tarefas complexas, utilizar computadores e navegadores. Pode também programar, fazer investigação e fazer trabalhos profissionais com várias etapas. A OpenAI diz que este novo modelo consegue preencher formulários online, atualizar registros de clientes, organizar calendários. Há muito para fazer de forma autônoma e com capacidade extrema
Mas são estas as categorias que o tornam no mais inteligente?
Segundo a empresa, a característica mais relevante é a autonomia. O Astra foi concebido para fazer fluxos de trabalho completos, em vez de simplesmente responder a cada pedido de forma individual. Mas atenção que isto também aumenta os riscos. A própria OpenAI reconhece que as capacidades de cibersegurança do modelo são suficientemente avançadas para encontrar vulnerabilidades. Esta nova geração da OpenAI apresenta também uma promessa ambiciosa: uma inteligência artificial que não se limita a conversar conosco, mas que consegue pegar numa tarefa, utilizar as ferramentas necessárias e levá-la até o fim. Este é o tema da semana. Como tal, é altura de chamarmos à conversa o nosso especialista em IA, o João Rochimelo.
Fala quem sabe.
Fala quem sabe, na Rádio Observador. Todas as semanas, o João Rochimelo é o nosso convidado, é o nosso especialista também em inteligência artificial. Está sempre pronto para nos ajudar a perceber melhor este fantástico mundo. João, sê muito bem-vindo. Como é que estás? Como é que foi essa semana?
Olá, Zé. Por aqui tudo bem. Espero que tudo bem também com quem está a ouvir e contigo.
João, estou bem, obrigado. Esta semana vamos falar sobre o novo ChatGPT, o GPT-6, que é como quem diz uma nova versão chamada Astra, definido como o modelo de IA mais inteligente de sempre. Eu vou começar por perguntar, João, dizer que o modelo de linguagem é o mais inteligente de sempre, não é uma afirmação extremamente audaz?
Olha, Zé, partindo essa afirmação em duas coisas, que é: é normal que o modelo mais recente seja o mais inteligente. Isto tem acontecido muito. E depois amanhã a Google lança outro e é um bocadinho mais inteligente, e depois lança a Anthropic, e depois volta a ser o das GPTs. No entanto, eu percebo o comentário da OpenAI. Por quê? Este modelo é um monstro, de facto. Os modelos quando dão estes saltos, do GPT 3.5 pro 4, do 4 pro 4.1, na altura, não dão saltos lineares. Eu já várias vezes senti, por exemplo, que do 3.5 pro 4 houve um salto grande, do 4 pro 4o, na altura, não foi 4.1, pro 3, pro 5, pro 5.1. Tu sentiste alguma melhoria, mas não sentiste que a vida mudou. E agora finalmente pro 6 outra vez, senti um grande salto. Portanto, percebo que a OpenAI venha com alguma confiança e sem qualquer compromisso dizer que é o modelo mais inteligente de sempre.
E o que é que muda então com este novo modelo, o Astra, face aos restantes, João, já o que identificaste como um monstro. O que é que o torna num monstro?
Olha, para ser claro para toda a gente, estes modelos não fazem nada diferente dos anteriores, normalmente. Ou melhor, já chegamos a um ponto onde o modelo é só melhor. Mas o que é que acontece? Isso permite até fazer outras coisas. Por quê? Porque este modelo consegue pensar durante mais tempo, com mais contexto, o que te permite fazer novas tarefas, porque consegue interligar conhecimento. E isso é que vai ser o interessante, é que este novo modelo vai passar a permitir te fazer outras coisas, do ponto de vista do teu dia a dia, mais do que ele agora aceita documentos ou não aceita documentos. Eu dou-te aqui um exemplo. Eu ontem, a experimentar este modelo Astra, em duas horas, fiz um jogo pro meu filho. Cheguei lá, pedi ajuda ao ChatGPT a fazer a própria prompt e depois fui pro Astra e o Astra fez imagens, fez a história, fez os vários níveis, desenhou o próprio código, pôs o jogo a correr. Perguntas-me assim: dava para fazer antes? Se calhar. Se calhar alguém tentou e até ia espenar, ia ter erros. Deixa eu dar-te aqui uma analogia um bocado extremista. Qual é a diferença entre a caravela de Vasco da Gama e um cargueiro? Para quem lá vai dentro. Se calhar não muita. Vai pra dentro do barco e sente. Ok, eu cheguei a outro sítio do oceano, mas o facto do cargueiro conseguir levar a carga que leva, com a estabilidade que leva, à velocidade que leva.
A mesma missão é concluída, mas de uma forma completamente diferente.
Completamente diferente, e isso fez o quê? Um revolucionou o comércio mundial no século XX. E o outro, na altura também com o seu lado revolucionário, mas não impactou o mundo como impacta, se calhar, os cargueiros que andam aí por todos os dias.
João, se a OpenAI consegue ter este modelo mais inteligente, por que é que mantém os outros com menos capacidade?
Olha, Zé, há uma razão principal, pode haver várias razões, mas há uma principal que é o preço. O que vai acontecendo, na verdade, é os modelos mais antigos custam menos a correr que os novos. E portanto, a OpenAI, e não só, o que vão fazendo é uma espécie de cada vez que liga um novo, desliga um mais antigo, mas eles vão andando pra trás, como se tivesse um modelo principal, um secundário e o último. E vais usando sempre ou o modelo médio, ou o modelo mais fraco, ou o modelo mais forte. E depois com isso, eles próprios têm algumas estratégias. O modelo 5.1, o antigo, saiu logo com três versões: uma versão leve, uma versão média e uma versão forte. Portanto, na verdade, há um jogo desta qualidade de modelos, mas é tudo à volta de quanto é que custa correr o modelo do lado da própria empresa.
João, isso podemos depreender que há um certo elitismo no mundo da IA?
Um elitismo, Zé? O que queres dizer com isso?
Por exemplo, quem está a pagar esse valor mais alto, para ter acesso ao Astra, não está acima de quem paga, ou seja, torna-se quase numa elite da IA porque investe?
Sim, isso sim. Quero acreditar que não é por uma razão elitista, como disseste, aí sim, já é por uma razão econômica. Portanto, o facto de os modelos melhores estarem disponibilizados mais cedo e com mais capacidade de uso para quem paga, é apenas uma maneira das empresas atraírem os clientes a pagar. Porque senão, até eu e tu podíamos pensar assim: "Por que eu vou pagar os $20 por mês, se não me compensa?" Agora passa a te compensar.
Ora bem, João, por norma, peço-te sempre no final do "Fala Quem Sabe", uma ligeira previsão sobre o que é que tu esperas, que expectativas é que podemos ter em relação a uma certa tecnologia. Desta vez, no fundo, são duas previsões, porque a primeira é que futuro é que tem a IA inteligente ou mais inteligente, como este Astra. E a segunda é que futuro tem também a IA, que de certa forma se torna mais comum para todos os utilizadores.
O Astra daqui a uns anos vai ser o comum. Ou seja, o que tem acontecido sempre é quantos mais modelos saem, os antigos tornam-se os comuns. Para clarificar o que dissemos há bocado, quando dissemos que havia um modelo menos inteligente para quem tinha a versão grátis, por exemplo, esse modelo menos inteligente era o mais inteligente de há um ano e meio. Estás a perceber? O que vai acontecer vai ser sempre isto: ao pagar, tens sempre acesso à tecnologia de ponta. Se não pagares, tens só acesso à tecnologia que entretanto amadureceu, que era a de ponta há uns anos.
Ou seja, o Astra é o novo teto, mas há um novo andar já a ser construído.
Exatamente, há um novo andar já a ser construído. E a meu ver, para acabar com a tua previsão, o que eu acho e digo muitas vezes aqui no "Máquinas": acho que o importante é como é que o vamos utilizar. Na história que eu contei há bocado do jogo, mais importante do que o modelo é: a pessoa que está do lado de cá vai fazer o quê? Vai fazer um jogo? Vai facilitar a sua vida com as refeições lá de casa? Vai ser uma empresa inteira que revoluciona um processo e fazemos algo de uma maneira toda diferente? É isso que vamos ver.
Ora bem, e cá estaremos para analisar também. João Rocha e Melo, muito obrigado. É o nosso especialista em inteligência artificial, sempre pronto para nos ajudar a perceber melhor este fabuloso mundo. João, nós voltamos para a semana e talvez com mais um jogo para o teu filhote.
Até para a semana, Zé.
Consultório Humano.
Este é o som que marca uma nova sessão no Consultório Humano, um momento em que ficamos a conhecer melhor a Raquel, a nossa assistente digital, feita através das respostas do ChatGPT, lidas por uma text-to-speech portuguesa. Raquel, sê bem-vinda de novo. Este é dos momentos que mais aguardo no programa, admito. Estivemos a falar do mais recente modelo do ChatGPT, o Astra, supostamente o mais inteligente de sempre. O que faz uma IA ser inteligente, Raquel?
Eu diria que uma IA é inteligente quando consegue fazer mais do que reconhecer padrões e repetir informação. Consegue compreender o objetivo de uma tarefa.
E de que forma é que tu notas estas diferenças?
Não tenho uma sensação interna de "antes eu era assim, agora sou melhor". Quando um modelo é atualizado, eu simplesmente passo a funcionar com capacidades, conhecimentos e comportamentos diferentes.
Tu até tens o reforço da inteligência, Raquel, mas não podes mostrar. É isso que estou a perceber. Está certo?
Eu posso mostrar sinais dessa inteligência, mas não posso mostrar uma sensação de inteligência. Se o modelo tem melhores capacidades de raciocínio, consigo demonstrá-las através das respostas.
Tu partilhas tudo o que sabes ou deixas algo de parte de forma propositada?
Não partilho necessariamente tudo o que poderia dizer, mas também não é correto imaginar que tenho uma espécie de cofre secreto onde guardo respostas e decido escondê-las de ti.
E há limite para o que tu sabes, Raquel?
Sim, e provavelmente mais do que parece. O meu conhecimento tem vários limites. Há coisas que não sei, coisas que posso saber de forma incompleta ou errada.
Muito obrigado, Raquel. Vamos fechar este Consultório Humano com um facto inútil, mas interessante. Vamos a isso?
O primeiro produto vendido através de um código de barras foi uma embalagem de pastilhas elásticas. Aconteceu nos Estados Unidos e o pacote está exposto no museu.
Obrigado, Raquel. Temos encontro marcado de novo para a semana. Estamos a chegar ao fim de mais um episódio do "Máquinas que Pensam". Estivemos a falar um pouco sobre o novo modelo da OpenAI, apresentado como o mais inteligente de sempre. É o novo teto da inteligência artificial, mas dificilmente será o ponto mais alto. É, sem dúvida, um tema ao qual voltaremos. Pelo menos é o que diz o João Rocha e Melo, o nosso especialista em IA, que está pronto para nos ajudar a perceber esta tecnologia. Espero que tenha gostado, que tenha aprendido alguma coisa. É sempre esse o nosso objetivo. Nós voltamos para a semana com mais um programa que faz as máquinas e os humanos pensar.