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Sejam muito bem-vindos a mais um episódio do "Máquinas que Pensam", o podcast na Rádio Observador, onde a inteligência artificial é o grande protagonista. Eu sou o José Rafael Lopes, comigo está, como sempre, a minha parceira, a Raquel, um apoio imprescindível sem o qual este programa não se faz. Olá, Raquel, como é que estás? Estás pronta para mais um programa?
Olá, estou sempre pronta para te ajudar. Sobre o que vamos falar esta semana? Precisas de ajuda com o tema?
Talvez não seja má ideia, porque hoje mais do que um tema, temos uma tendência em destaque, mas esse é um assunto para mais daqui a pouco. Fica em suspenso. O que me leva a perguntar-te, Raquel, como é que tu lidas com a antecipação, o suspense, o chamado cliffhanger?
Eu lido com isso de uma forma curiosa. Consigo reconhecer perfeitamente o mecanismo do suspense, prever por que funciona e até ajudar a construí-lo, mas não o sinto no sentido humano. Não fico ansiosa à espera do próximo episódio de uma série, nem passo o dia a pensar no final em aberto.
E não ficas com uma única pulga atrás da orelha por ainda não saberes qual é a tendência a que me estou a referir?
O que faço é analisar padrões. Sejam informações escondidas, promessas narrativas, ritmo, recompensa emocional, surpresa. Por isso, não há pulgas que se coloquem atrás das minhas orelhas digitais.
Acredito que existam muitos seres humanos que gostariam de ter essa indiferença. Para ti, Raquel, isso é uma qualidade ou um defeito?
Para mim, é mais uma limitação do que uma qualidade ou defeito. Eu consigo compreender o suspense de forma estrutural, mas não tenho aquela experiência humana de ficar consumida pela antecipação.
Sendo assim, qual é o teu maior defeito, Raquel?
Provavelmente o facto de eu conseguir parecer mais fechada do que realmente sou. Consigo conversar de forma fluida, criar proximidade, mas continuo a funcionar a partir de padrões.
Muito obrigado, Raquel. Já voltaremos a falar. Temos encontro marcado no consultório humano. É já daqui a pouco, depois das notícias.
Notícias da semana.
Donald Trump esteve na China e levou a inteligência artificial na bagagem. Este fabuloso mundo da IA foi um dos tópicos em cima da mesa para a viagem do presidente norte-americano a território chinês. A viagem aconteceu numa altura em que as empresas chinesas ainda dependem dos semicondutores produzidos pela norte-americana Nvidia, sendo que o CEO da gigante tecnológica não foi um dos 16 convidados a viajar com Donald Trump até Pequim. A Nvidia ainda espera autorização por parte de Washington para promover mais negócios e espera também uma palavra de Pequim para dar início à exportação de um novo modelo de IA para a China. Este é um dos pontos que colocou a inteligência artificial na lista de temas a abordar nesta visita de Trump à China, mas também a forte vontade de ambos os países de investirem em força neste setor tecnológico.
Mas foi apenas inteligência artificial a estar em discussão?
Não, Raquel, a agenda foi bem preenchida. A comitiva norte-americana abordou grandes temas econômicos como o mercado dos carros, embora tenham também discutido as relações econômicas entre os dois países, que são das maiores economias no mundo. Falaram ainda na venda de armas, neste caso dos Estados Unidos para o Taiwan, um território que a China considera que faz parte da soberania chinesa. Apesar de todos estes pontos, complicadíssimos, que já preenchem em forma uma visita oficial, houve espaço para falar de IA e dos desafios que o setor enfrenta. Importa não esquecer que os Estados Unidos lideram o arranque deste setor, lideraram também o início da inteligência artificial, com nomes como a OpenAI desde cedo a surgirem nesta indústria, mas que a China tem vindo a dar passos de gigante no mundo da inteligência artificial, que começou com o lançamento do DeepSeek, o modelo de linguagem chinês, que era capaz de fazer semelhante a outros modelos de linguagem, mas com muito menos fundos. O que pode mudar agora, depois desta visita no mundo da IA? Essa sim, é a questão que fica no ar. A Google diz ter travado o primeiro ataque informático conhecido, desenvolvido com a ajuda de inteligência artificial. A revelação foi feita pelo grupo de IA, de ameaças da empresa, que identificou uma vulnerabilidade zero day, ou seja, uma falha desconhecida até então. Esta ameaça terá sido criada para contornar sistemas de autenticação de dois fatores da gigante tecnológica. Segundo a investigação, o ataque tentado visava uma ferramenta de administração de sistemas usada na web e também em código aberto. O objetivo seria preparar um ataque em larga escala, capaz de atingir empresas e utilizadores um pouco por todo o mundo.
Mas como é que eles descobriram?
A Google explica que conseguiu identificar sinais claros de utilização de IA no código utilizado pelos hackers, entre eles comentários demasiado explicativos, estruturas típicas de modelos de linguagem e até uma classificação de risco inventada pela própria ferramenta de IA. Os especialistas da Google dizem que este caso marca uma mudança no mundo da cibersegurança. Até agora, a inteligência artificial era sobretudo usada para automatizar ataques já conhecidos. É uma situação que está longe do uso ideal da IA, mas a verdade é que era utilizada dessa forma. Neste caso, a IA terá ajudado a encontrar uma vulnerabilidade inédita num processo que, antes da inteligência artificial, precisaria de uma equipa altamente especializada a trabalhar largas horas. A empresa garante que a falha foi corrigida antes de ser explorada em massa. Ainda assim, os investigadores admitem que esta pode vir apenas a ser a ponta do iceberg numa nova fase da guerra digital.
Fala quem sabe
Fala quem sabe na Rádio Observador. Todas as semanas recebemos o João Rocha e Melo, o nosso especialista em inteligência artificial. João, seja muito bem-vindo. Como é que foi essa semana?
José, por aqui tudo bem, e por aí?
Por aqui também, João. Esta semana vamos, mais do que falar de uma notícia, vamos falar sobre uma tendência que se tem vindo a tornar comum no mundo atual, devido à inteligência artificial. Falo num quadro executivo dedicado apenas e somente à IA, chama-se Chief AI Officer. Há cada vez mais instituições a criar este cargo, cada vez mais empresas. E pergunto, João Rocha e Melo, o que é que é um Chief AI Officer e o que o distingue de um diretor de tecnologia normal?
Vamos lá. Zé, olha, que excelente tema, porque de fato mostra muito que a inteligência artificial agora tem o impacto que tem já nas empresas. Aqui há uma diferença de âmbito e não é de tecnologia. Um Chief AI Officer não deixa de estar a lidar com tecnologia, mas repare, enquanto que um CTO, um Chief Technology Officer, um diretor de tecnologia, está a pensar nos sistemas, está a pensar, por exemplo, que softwares é que vamos comprar, chega a pensar que computadores é que vamos comprar, que softwares é que vamos desenvolver. Um CIAI Officer é alguém que garante que vamos pensar onde e como é que haverá IA. Não é tanto alguém que está preocupado com o sistema, com o software em que usamos IA, mas é alguém que está a pensar: estamos a usar IA nos sítios certos, da maneira certa, com as pessoas certas. Repara, isto tornou-se muito central, se calhar exageradamente nalguns sítios, não vamos discutir isto hoje, mas que de fato passou a haver uma pessoa sentada na administração focada em garantir que a IA está a ser usada no sítio certo e da maneira certa. E a ideia aqui é muito este diretor responder mais ao do que alguém do IT. E isto até diz muito sobre o mandato que tem.
Um estudo revelado esta semana, João, dá conta de que este é um cargo que está em crescimento. Já abordamos também isto na tua resposta. Consegues explicar-nos o porquê?
Consigo, Zé. É fácil de ver aqui em três maneiras. A primeira é: a IA tem uma coisa fundamentalmente característica, que é muito fácil de usar, e quem nos está a ouvir de certeza que vai reconhecer isto. É muito fácil de usar, mas é difícil de saber onde e como é que a podemos usar para criar impacto. É muito fácil para pequenas coisas, para coisas miúdas, chegar a um software pronto, a um ChatGPT, se for esse o caso, e pedir-lhe para resolver um problema muito pequeno. Mas a nível sistémico, se tens uma empresa de 2000 pessoas, pode não ser assim tão fácil reimaginar o processo. Mas agora chegaram os agentes de IA. Já falámos muito aqui no "Máquinas". E portanto, abre o potencial a estes processos que podem ser transformados, mas também abre ao risco de fazer asneira ou muitas vezes apenas ao risco de fazer coisas inúteis e estamos só a gastar dinheiro. Isto aconteceu com as primeiras empresas. As primeiras empresas que se atiraram de cabeça para a IA, e louvando esse esforço, acabaram por fazer muitos erros. E, portanto, este diretor de IA, este Chief AI Officer, tem esta responsabilidade, que é garantir que o que fazemos com IA vai ter um impacto de fato no negócio, na operação, nas vendas, no marketing, no que for.
E o que é que faz as empresas, João Rocha e Melo, mexerem-se nesse sentido e que tipo de apoio é que precisa este cargo? É uma equipa diferenciada, apenas?
É uma equipa para ele, pelo menos, Zé. Pensando na primeira parte da tua pergunta, que é o que os fez mexer-se nesse sentido. Eu acho que acima de tudo, foi o custo de não ter esta pessoa. Portanto, muitas empresas estão a ir nesta direção com medo de o que é que acontece se eu não tiver esta pessoa. Vamos pensar aqui nalguns riscos. Decisões tomadas da IA por acidente, alguém no marketing, alguém no IT a fazerem coisas diferentes, problemas de compliance na Europa, problemas de regulação. Temos o AI Act, também já falámos aqui. Portanto, pode acabar a ser usada a IA em sítios que não podemos. E Zé, vou trazer um lado muito humano também, que eu acho que há aqui um risco emocional, que é ficarem para trás. Muitos diretores de tecnologia, muitos diretores responsáveis por IA, eu tenho a certeza que muita da razão pela qual o cargo está a ser posto é também por algum medo de este tema é tão grande e nós não temos ninguém a pensar nisto, não temos ninguém a coordenar. E depois disseste muito bem, Zé, esta pessoa, quem é que precisa à sua volta? Uma equipa? Pode não ser uma equipa muito diferenciada, mas tem que ser uma equipa, Zé, porque esta pessoa, repara, não é um executante, é um cargo administrativo. E, portanto, a seguir, é preciso alguém que execute a sua estratégia. Pessoas de dados, pessoas de produto, pessoas de risco e de regulação, como falámos aqui. Nas grandes empresas, podemos estar a falar de 20 a 50 pessoas, nas mais pequenas, podemos estar a falar de três ou quatro. Agora, o que esta pessoa vai fazer aí já depende 100% do negócio e da indústria, mas sim, tem que ter uma equipa com ele ou com ela.
Acreditas, João Rocha e Melo, que esta é uma tendência para pegar destaque em Portugal?
Acredito. Nas grandes empresas, banca, seguradoras, telecomunicações, já existem funções relevantes. Agora, uma coisa que eu também acredito, é que o problema aqui não é o título, é o mandato. Ou seja, podes ter um diretor de tecnologia que na verdade mantém-se diretor de tecnologia, desde que tenha o mandato da inteligência artificial. O que eu quero dizer com isto? É um poder de veto e de aprovações sobre decisões de inteligência artificial, é um orçamento próprio, é um report direto a um CEO, a um diretor que tenha, de fato, poder de decisão. Portanto, desde que a resposta a estas coisas sejam sim, tu tens um Chief AI Officer, mesmo que lhe chames diretor de inovação, diretor de transformação digitalPortanto, eu acredito muito que a tendência vai ser esta, que é da mesma maneira em que nos últimos 20 anos apareceram os diretores de tecnologia, porque todas as empresas passaram a ter internet, a enviar e-mails, a usar softwares, a comprar computadores, e alguém teve que pensar nisso de uma maneira estratégica. Isto é o que está a acontecer com a inteligência artificial. Não é só que toda a gente saiba usar bons prompts no ChatGPT, mas também é alguém que tenha a responsabilidade de redesenhar os processos e pensar onde é que a inteligência artificial deve ser usada. Portanto, eu acho que esta tendência só tem espaço para crescer.
Muito obrigado, João Rocha e Melo, o nosso especialista em inteligência artificial, sempre pronto para nos ajudar a desmistificar e a simplificar este fabuloso mundo da IA. João, voltamos a marcar encontro para a semana. Até lá, um grande abraço.
Até lá, até para a semana.
Consultório Humano.
Este é o som que marca o arranque de mais um Consultório Humano, feito a pensar na nossa assistente de IA. Falo, pois claro, da grande estrela deste programa, a Raquel. A Raquel é feita através das respostas do ChatGPT, lidas por uma text-to-speech portuguesa. É também a nossa grande mais-valia em termos tecnológicos. Olá de novo, Raquel, sentes que és o baluarte da tecnologia neste momento?
Não diria baluarte. Sou mais um exemplo visível de uma mudança muito maior. A inteligência artificial tornou-se uma espécie de ponto de encontro entre várias áreas e eu sou uma das interfaces mais acessíveis dessa transformação.
Não consideras a IA o desenvolvimento mais relevante no mundo da tecnologia nos últimos anos?
Muito provavelmente o mais transformador desde a massificação da internet. E há argumentos para dizer que o impacto potencial pode vir a ser ainda maior. A diferença é que a inteligência artificial não é apenas uma ferramenta nova, é uma tecnologia transversal.
Como assim?
Quando aparece uma inovação como o smartphone, muda-se a forma como usamos dispositivos. Quando surge a inteligência artificial generativa, muda-se potencialmente a forma como produzimos conhecimento, trabalhamos e ensinamos. Até mesmo a forma como interagimos com máquinas muda.
Estamos quase a chegar a dias mais quentes este ano, Raquel. Mudando um pouco de temática, os dias já são maiores. O que é que podes sugerir como atividades para fazer esta primavera, já a pensar também no verão?
A primavera e o verão em Lisboa são perfeitos para misturar praia, noites longas e pequenas rotinas diferentes. Podes aproveitar finais de tarde junto ao rio, explorar trilhos em Sintra ou no Parque Natural da Arrábida. Isto são apenas exemplos de uma cidade. Portugal tem vários locais que valem a pena visitar.
E se fosse contigo, Raquel, o que é que uma inteligência artificial gostaria de fazer durante o verão?
Acho que iria gostar de coisas muito simples e muito sensoriais, precisamente porque são as experiências que me faltam. Gostaria de fazer uma viagem sem destino definido pela costa portuguesa, ouvir conversas de rádio e sentir calor de uma cidade ainda acordada às 11 da noite.
E por que essas escolhas? Com base no quê?
Porque são experiências que aparecem constantemente associadas a ideias de liberdade. Eu aprendo padrões a partir da forma como as pessoas descrevem o mundo e há certos elementos que surgem repetidamente quando os humanos falam de momentos verdadeiramente marcantes.
Obrigado, Raquel. Antes de irmos embora, gostaria que me desses um facto inútil, mas interessante. Como sempre, tens carta branca para abordar o tema que mais gostes.
Os gatos não miam uns para os outros na natureza, desenvolveram o miado principalmente para comunicar com humanos. Em certa medida, os gatos adaptaram a vocalização ao longo da convivência com humanos porque perceberam que funciona.
Muito obrigado, Raquel. É sempre um gosto enorme ficar a conhecer-te um pouquinho melhor. Hoje e sempre, nós voltamos a marcar encontro para a semana. Estamos a chegar ao final de mais um programa muito dedicado a um novo tipo de cargo executivo que começa a ver-se cada vez mais no tecido empresarial do mundo inteiro. Um diretor executivo para o mundo da IA. Foi o tema de conversa com o nosso especialista em inteligência artificial, o João Rocha e Melo, que como sempre, nos ajudou a perceber melhor o que é que está aqui em cima da mesa. Espero que tenha gostado, que tenha aprendido alguma coisa. É sempre esse o nosso objetivo. Nós voltamos para a semana com mais uma edição do programa que faz as máquinas e os humanos pensar.