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Finalmente, o carimbo no passaporte. Estamos na estação de Santa Apolónia, no centro de Lisboa. São as primeiras horas da manhã e acaba de chegar um comboio vindo de Paris. Um dos passageiros destaca-se. É alto, tem o cabelo escuro bem penteado e veste uma batina preta que não deixa dúvidas sobre o que faz. É um padre. O dia é 12 de maio de 1982. É quarta-feira e dentro de poucas horas o Papa João Paulo II aterra em Lisboa para a primeira visita a Portugal. O padre que acabou de sair do comboio é apenas um dos muitos que estão no país para a ocasião. Entrega o passaporte espanhol para receber o carimbo que comprova a entrada em Portugal. A quantidade de vistos no documento revela que já andou por todo o mundo. Está em viagem há 24 horas. Saiu de casa na manhã do dia anterior, muito cedo. Vive com outros padres numa espécie de pequeno convento nos arredores da capital francesa, mas não lhes disse que tinha uma viagem marcada. Deixou apenas um bilhete na mesa da cozinha a avisar que não ia estar em casa à hora do almoço. Depois, foi até ao centro de Paris e apanhou o comboio das 9:00, direto a Lisboa. Assim que chega, o padre embarca logo noutro comboio, rumo ao Santuário de Fátima, onde o Papa João Paulo II vai estar à noite pela primeira vez. Por volta das 11:00, já está no destino. Ainda faltam duas horas e meia para João Paulo II aterrar em Lisboa e muitas mais para chegar a Fátima. Até lá, o padre espanhol vai pôr em marcha o plano que está a preparar em segredo há vários meses. Esta noite vai matar o Papa. Juan Fernández Crohn é o segundo homem a planear assassinar João Paulo II no espaço de apenas um ano. Em 1981, o Papa foi alvo de um atentado a tiro na Praça de São Pedro, no Vaticano. Chegou a ficar em estado crítico, mas acabou por sobreviver. Um ano depois, este padre espanhol de 32 anos não quer falhar. Está a preparar o plano há meses, isolado no quarto. No domingo, celebrou uma missa na capela de São Francisco de Sales, a pouco mais de 130 km de Paris. No final, avisou os fiéis que ia estar fora durante algum tempo, mas claro que não explicou por quê. Em todo o mundo, João Paulo II é visto como uma celebridade que revolucionou a Igreja e criou uma nova forma de ser papa. Mas Crohn está obcecado com o comunismo e acredita que este papa é o anticristo, que está a permitir que uma infiltração de marxistas destrua a Igreja. Por isso, está disposto a matar. Na cabeça do padre espanhol, Portugal é o sítio perfeito para assassinar João Paulo II. É que Fátima está na origem de um misterioso segredo que foi guardado durante décadas num cofre e que une os dois homens. Quando chega ao santuário, traz apenas uma pequena pasta castanha. Lá dentro tem um livro, algum dinheiro e uma faca. Não precisa de mais nada. Não traz uma muda de roupa, nem sequer marcou hotel. Crohn não está só disposto a matar, também está disposto a morrer. "Matar o Papa" é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Pedro Laginha, com banda sonora original de Rodrigo Leão e participação especial de Adriano Luz na voz de Juan Fernández Crohn. Episódio um: o anticristo em Fátima.
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Abril de 1982. As Doce representam Portugal no Festival da Eurovisão, em Inglaterra, com o clássico "Bem Bom", e acabam em 13° lugar. O país vive num clima de tensão política, na ressaca da primeira greve geral cumprida em democracia, apenas dois meses antes. Inflação altíssima, perda de poder de compra, aumento do desemprego e uma economia a crescer muito pouco. Tudo isto vale uma forte contestação social ao governo de Francisco Pinto Balsemão, que é Primeiro-Ministro desde a morte de Sá Carneiro.
O governo que acaba de iniciar funções recebe assim o legado dos dois anos e dos dois governos que imediatamente o antecederam.
Apesar disso, os portugueses estão em euforia para receber o Papa João Paulo II, que vai estar em Fátima já no 13 de maio. Até agora, o país só tinha recebido uma visita papal.
Nossa Senhora de Fátima, sé digna derramar sobre Portugal católico as mais copiosas graças.
Quinze anos antes, em 1967, Paulo VI, que foi o primeiro papa a viajar com frequência por todo o mundo, esteve em Fátima para comemorar o cinquentenário das aparições. Mas foi uma visita relâmpago. Esteve menos de 24 horas em Portugal e nem sequer foi a Lisboa, por causa da tensão entre o Vaticano e o regime de Salazar. Esta visita é diferente. João Paulo II vem quatro dias a Portugal. Há cerimónias marcadas para Lisboa, Vila Viçosa, Coimbra, Braga e Porto, mas o momento mais importante da viagem será mesmo a passagem por Fátima para as celebrações de 12 e 13 de maio. As autoridades esperam um milhão de peregrinos. Por todo o país, há obras em contrarrelógio. No Parque Eduardo VII, em Lisboa, está a ser construído um altar palco com 35 metros de altura para uma celebração do Papa com os jovens portugueses. Uma celebração que há de inspirar João Paulo II, anos mais tarde, a lançar a Jornada Mundial da Juventude. Em Fátima, uma das principais preocupações das autoridades é a chegada de centenas de milhares de pessoas ao santuário. É preciso montar uma megaoperação de segurança. Só a PSP envia 700 polícias de todo o país, incluindo do Corpo de Intervenção e agentes à civil. E a GNR coloca 500 militares em todas as estradas de acesso ao santuário. Quinze dias antes da chegada de João Paulo II, o Cardeal Patriarca de Lisboa, Dom António Ribeiro, convoca os jornalistas. É a primeira vez desde que foi nomeado há 11 anos, que dá uma conferência de imprensa. O ambiente é solene. O Cardeal Patriarca diz que o Papa vem a Portugal para reconhecer a tradição católica do país. Mas deixa um aviso: ao contrário do que muitos esperavam, João Paulo II não vai canonizar os pastorinhos de Fátima. O principal objetivo da visita, diz Dom António Ribeiro, é agradecer por estar vivo. Estamos a 13 de maio de 1981. Deveria ter sido uma quarta-feira como as outras. João Paulo II ia falar aos fiéis no Vaticano. Tinha escrito um discurso sobre a justiça social, a defesa dos mais pobres e marginalizados e a dignidade do trabalho, mas nunca o chegou a ler. Às 17h, o jipe que transporta o Papa entra na Praça de São Pedro, cheia pra audiência semanal. E como sempre, percorre lentamente o recinto para que cumprimente a multidão. João Paulo II está em pé na parte traseira do Fiat branco, apoiado nas barras laterais. Acena aos fiéis e cumprimenta crianças. A multidão está eufórica e grita pelo Papa. Dezessete minutos depois das 17h, ouvem-se quatro tiros. Ninguém percebe ao certo o que acabou de acontecer. O Papa cai, é agarrado pelo secretário. O jipe branco acelera atrás da guarda suíça, que vai abrindo caminho. O guarda-costas de João Paulo II corre para capturar o autor dos disparos, que já foi agarrado por um grupo de pessoas. O Papa é transportado imediatamente pra Clínica Gemelli, em Roma. E os primeiros boletins clínicos não trazem boas notícias. O estado de João Paulo II é crítico. Nesta altura, poucos se aperceberam ainda da dimensão simbólica do que acaba de acontecer. Mas em Portugal, alguns mais atentos reparam num detalhe que os deixa assombrados. É 13 de maio. Rui Correia de Oliveira é um deles. É membro dos Servitas, uma associação de fiéis que tem a missão de servir os peregrinos de Fátima. Tinha passado toda a manhã desse dia no santuário, onde trabalha como responsável pela organização do recinto durante as peregrinações mais importantes.
Não havia autoestradas, estava eu a caminho da Batalha, como era normal pra quem vinha pra Lisboa, e o telefone é ligado e vem a notícia do atentado. Ficamos todos estupefactos e muito curiosos de perceber o que é que tinha acontecido, mas obviamente, eu e os outros que vinham no carro comigo, dissemos: "Que raio de coincidência, no dia 13 de maio".
Na cama do hospital, João Paulo II há de ser alertado para isso logo no dia seguinte pelo secretário, o padre Stanislaw Dziwisz.
Quando acorda lá na Clínica Gemelli e o monsenhor Dziwisz lhe diz: "Santo Padre, olhe que ontem era 13 de maio. Isto passou-se mais ou menos à mesma hora das aparições de 13 de maio de 1917". E o Papa ficou muito impressionado com o assunto.
Para quem é crente, não há coincidências. Para o Papa, muito menos. Quando percebe que escapou de uma morte praticamente certa no dia 13 de maio, João Paulo II não hesita em atribuir a salvação à Virgem de Fátima. Para o historiador Marco Daniel Duarte, diretor do Museu do Santuário de Fátima, o atentado frustrado na Praça de São Pedro é o marco a partir do qual a vida de João Paulo II fica para sempre ligada à história e ao mistério de Fátima.
A bala andou pelos interstícios do Papa, em trajetos que os médicos não conseguem muito bem explicar, e que o Papa, de uma forma espiritual, explica a partir de uma expressão muito interessante: que há uma mão materna que conduz a trajetória da bala dentro do seu corpo. Portanto, ele assume-se como um protegido pela Virgem de Fátima. Obviamente, isto abala o mundo católico e abala o próprio Papa. E a partir desse momento, o Papa Wojtyła nunca mais deixa de olhar pra Fátima.
São precisas duas semanas para João Paulo II ficar livre de perigo. O Papa continua sem poder regressar à atividade normal, mas ainda internado, grava uma mensagem na Rádio Vaticano, que há de ser transmitida na Praça de São Pedro. Diz que perdoou sinceramente o homem que o tentou matar e que, entretanto, tinha sido identificado como Mehmet Ali Ağca, um turco com ligações a um grupo radical nacionalista.
"He is described as a right-wing Turkish nationalist. He is under a death sentence in Turkey for the assassination of a newspaper editor".
Convencido de que foi a Virgem de Fátima que o salvou, João Paulo II toma uma decisão. Em breve, quer ir ao santuário agradecer aquela intervenção divina. Exatamente um ano depois do atentado, em maio de 1982, o Papa está finalmente a apanhar um avião rumo a Portugal para cumprir esse desejo. Leva um terço com uma medalha com as duas datas: Roma 1981, Fátima 1982. Quer colocá-lo nas mãos da imagem da Virgem Maria no santuário. O que não sabe é que à espera dele vai estar outro homem que também o quer matar.
"Annuntio vobis gaudium magnum. Habemus Papam".
Há mais de um século que um homem tão novo não era eleito Papa.
"Sante Romane Ecclesie, cardinalem Wojtyła".
Karol Wojtyła tinha apenas 58 anos quando foi escolhido pra chefiar a Igreja Católica. O fumo branco saiu pela chaminé da Capela Sistina na tarde de 16 de outubro de 1978. A escolha do cardeal polaco surpreendeu os fiéis. Além da idade, era o primeiro não italiano em quase 500 anos e o primeiro papa da história a vir de um país da Europa de Leste, dominada pelo comunismo e por Moscovo. Como arcebispo de Cracóvia há mais de uma década, Wojtyła era um dos bispos mais influentes do bloco soviético. Escolheu o nome João Paulo II e em menos de nada transformou-se numa estrela mundial.
"Listen to his voice. Do not be afraid. Open your hearts to Christ".
A figura carismática, a capacidade para falar em público, o destaque que dava aos jovens e as viagens que fez a quase 130 países ajudaram a torná-lo uma celebridade. É isso que explica o padre Peter Stillwell, responsável pelo diálogo inter-religioso no Patriarcado de Lisboa, que tinha estado a fazer um doutoramento em Roma no ano da eleição.
O Papa João Paulo II projetava a sua voz, tinha jeito de ator, era capaz de controlar uma multidão imensa de gente.
"Ter vida eterna? Ter vida eterna?"
Mas havia outra razão para João Paulo II ser um Papa diferente.
"France is incorporated into the right, and all Europe is a plain. World War II is a reality. Nazi regulars move up".
Quando a Alemanha nazista invadiu a Polônia e deu início à Segunda Guerra Mundial, Wojtyła tinha 19 anos e estudava filosofia em Cracóvia. Chegou a ser operário em minas de pedra e numa fábrica de produtos químicos. Começou a estudar num seminário clandestino em 1942, durante a guerra, e foi ordenado padre quatro anos depois, já na Polônia comunista. Toda a vida adulta de Karol Wojtyła foi passada na Guerra Fria e essa experiência foi determinante.
"To znaczy klucz do rozumienia tej wielkiej i podstawowej rzeczywistości, jaką jest człowiek".
Como padre, bispo, cardeal e Papa, João Paulo II nunca deixou de tentar dar voz à Igreja do Silêncio, os católicos que viviam no mundo soviético, comunista e ateu.
O pai foi morto durante a Segunda Guerra Mundial. Depois, conheceu, por assim dizer, o regime comunista ser implantado a seguir à Segunda Guerra Mundial na Polônia. Subiu rapidamente para bispo. No início do Concílio Vaticano II, ele é um dos mais novos bispos no Concílio. Tem um papel importante e traz esta visão de uma igreja que está atrás da chamada Cortina de Ferro. Era considerada uma Igreja do Silêncio, mas ele dá a voz a essa Igreja do Silêncio.
"Cortina de Ferro" era a expressão usada para a fronteira que separava a Europa Ocidental do mundo soviético. Ao dar voz à Igreja que estava para lá dessa cortina, João Paulo II transformou-se num dos principais inimigos dos regimes comunistas. O jornalista João Francisco Gomes confessou com o padre Peter Sillwal.
Os regimes do mundo Leste olhavam-no com algum receio. Aliás, depois a acusação é de que o atentado em Roma teria sido estimulado, querido por alguém de um dos regimes do mundo de Leste.
A teoria que foi o KGB.
Exatamente, mas nunca se provou nada, mas que o senhor Agca terá sido lançado por alguém. Não foi só por sua autocriação. Portanto, isso do ponto de vista dos regimes de Leste, havia a noção de que o Papa podia ser perigoso porque podia mobilizar.
Nunca foi possível ter a certeza das motivações do atentado de 1981. O autor do ataque, Mehmet Ali Agca, era um criminoso conhecido na Turquia. Pertencia ao grupo nacionalista Lobos Cinzentos e já tinha estado preso pelo homicídio de um jornalista, mas conseguiu fugir da cadeia. Em 1979, quando João Paulo II visitou a Turquia, Ali Agca fez a primeira ameaça de morte ao Papa. Chamou-lhe de líder das Cruzadas e prometeu vingança por um ataque a uma mesquita em Meca, que dizia ter sido feito por americanos ou israelitas. Depois do atentado na Praça de São Pedro, Ali Agca multiplicou-se em versões sobre o que aconteceu. Primeiro garantiu que tinha agido a mando do KGB. "Moscovo estava furioso com a eleição de um papa de um país socialista. Era preciso matar o inimigo". Mais tarde, rejeitou a teoria soviética e deu uma nova explicação. Afinal, tinha sido uma conspiração interna. Padres e cardeais dentro do Vaticano é que tinham decidido que era preciso matar o Papa. Mas esta justificação também não seria definitiva. Trinta anos depois do atentado, o turco avançou uma terceira tese. Disse que tinha sido o Aiatola Khomeini, líder da Revolução Iraniana de 1979, a ordenar o homicídio do Papa em nome de Alá. Nunca foi possível provar nenhuma destas versões. Mas há uma certeza: João Paulo II podia ser aclamado em todo o mundo, mas também tinha muitos inimigos.
A partir de maio de 81, nós começamos com as expectativas: "E o que é que vai acontecer? Será que o Papa vem a Fátima? Será que não vem?" Isto não era conversa só de servitas de Fátima, era conversa dos católicos e da população portuguesa. A certa altura, começa nos corredores e nos menteeiros a dizer: "Parece que o Papa vem a Fátima". E nós começamos a sentir algum burburinho sobre essa matéria. Quando Fátima é informada que o Papa viria, aí, sim, começa um trabalho intenso.
É só no final de fevereiro de 1982, com menos de três meses de antecedência, que a visita de João Paulo II a Portugal é oficialmente confirmada. Acontece durante uma visita do primeiro-ministro Francisco Pinto Balsemão ao Vaticano, numa altura em que o Parlamento português debate a despenalização do aborto e o PSD está a ser criticado por estar contra, ao lado da Igreja. Rui Correia de Oliveira é um dos responsáveis por preparar a passagem de João Paulo II por Fátima.
Já tínhamos tido Paulo VI, mas o mundo era completamente diferente. Ainda por cima um papa que tinha tido um atentado. Portanto, punham-se questões, as clássicas, as questões logísticas, as questões de saúde, a cobertura de saúde, punham-se as questões de abastecimento d'água para multidões, punham-se as questões da segurança.
O santuário é um enorme recinto aberto com capacidade para meio milhão de pessoas. Não há barreiras físicas que impeçam a deslocação dos fiéis. E com o Papa, será ainda mais difícil controlar a multidão. Como se não bastasse, mesmo depois do atentado que sofreu na Praça de São Pedro, João Paulo II não tem por hábito andar num carro fechado. Vai percorrer os corredores de Fátima num jipe aberto para contactar diretamente com as pessoas. E claro que tudo isto pode facilitar a vida a quem queira fazer um atentado contra o Papa.
Obviamente, pensando no clássico atentado, que é um tiro. O controle das pessoas, não havia barreiras como há em São Pedro. Portanto, tudo aquilo era muito atrativo pra que acontecesse um atentado. Mas mesmo sem atentado, a própria segurança em si, a contenção das multidões, é muito difícil em Fátima. Havia umas cordas, que era uma coisa mais ou menos ridícula, que só funciona para, por exemplo, em Lourdes funciona muito bem. Põe-se uma corda no chão e os peregrinos não passam a corda. Em Fátima, a gente põe a corda no chão e os peregrinos passam por cima da corda. Portanto, à portuguesa, nós somos assim.
Para preparar o esquema de segurança para a passagem de João Paulo II por Fátima, os responsáveis do santuário e os serviços de segurança reúnem-se várias vezes no Ministério da Administração Interna, em Lisboa. E o atentado do ano anterior é a maior fonte de preocupação.
O Santo Padre tinha um esquema de saúde montado de emergência completamente autónomo em relação ao resto do esquema de saúde que estava montado. Portanto, havia circuitos próprios. Nós sabíamos por onde é que tínhamos que transportar o Papa no caso de haver um atentado ou ele adoecer subitamente, que eram diferentes dos outros, eram confidenciais, só um conjunto restrito de pessoas sabia. Havia uma equipe médica específica para o efeito, havia uma ambulância específica para o Santo Padre. O helicóptero de emergência estava sempre a postos. Não se confundia com os helicópteros que prestavam serviço aos restantes peregrinos.
Nestas reuniões de preparação, os serviços de segurança deixam um aviso à Igreja: não basta estar atento às ameaças de fora, também é preciso olhar para dentro.
Nas conversas que tínhamos com os responsáveis de segurança, eram os sítios por onde passava o Papa, quem é que faz o acompanhamento. Nós dizíamos com arcadio: "Não, mas estão lá os padres". E víamos um sorriso na cara dos responsáveis a dizer: "Se todos forem padres, não há nenhum problema. Agora, se algum deles não for padre, mas for algum disfarçado padre, as coisas podem se complicar".
Mas quando João Paulo II chega à Fátima, quem está à espera do melhor momento para o matar é mesmo um padre, o padre Juan Fernández Crohn.
"In nomine Domini nostri Jesu Christi. Ita in pace".
8 de dezembro de 1965. A Praça de São Pedro está cheia. É o último dia do Concílio Vaticano II. Estão aprovados e assinados os muitos documentos que resultaram de uma reunião que durou três anos e que juntou em Roma todos os bispos do mundo. No total, foram quase 3000. O Papa Paulo VI encerra o concílio com a consciência de que está a começar a história de uma nova igreja católica. O impacto mais visível é a mudança na própria missa, que deixa de ser celebrada em latim com o padre de costas para os fiéis e passa a poder ser feita nas línguas de cada país.
"Lecture des Actes des Apôtres. En ces jours-là, les apôtres restaient à Jérusalem, ayant appris que la Samarie avait fait bon accueil à la parole de Dieu, et envoyèrent en mission Pierre et Jean".
Mas a reforma foi mais profunda. Tão profunda que houve um bispo que decidiu que era preciso resistir.
"Somos persuadidos de que o bom Deus está conosco e que um dia a verdade se fará, talvez em breve".
O líder da resistência conservadora chama-se Marcel Lefebvre, e um dos discípulos mais fervorosos que o vão seguir é Juan Fernández Crohn. Lefebvre é um arcebispo francês missionário que passou grande parte da vida religiosa em África e que no início da década de 60 foi escolhido para Superior-geral da Congregação do Espírito Santo. Participa no Concílio Vaticano II, mas faz parte da minoria que vê naquelas reformas a ameaça do modernismo. E um dos grandes perigos é o de reduzir a autoridade do Papa e com isso condenar a Igreja à irrelevância. Como lembra o padre Peter Stillwell, há um documento do concílio que choca especialmente com as ideias de Lefebvre, aquele em que a Igreja defende que os Estados permitam liberdade religiosa aos cidadãos.
O Lefebvre foi um dos que votou contra isso. Ele tinha sido missionário, tinha tido um papel importante nos padres espiritanos na missão em África. Toda a estrutura mental dele era que aqueles que não eram batizados iriam para o inferno e, portanto-
Era preciso batizá-los
...era preciso batizá-los à força. E, portanto, isto agora dizer que vale tudo, era ir contra a doutrina da Igreja. Fora da Igreja não havia salvação, era preciso dizer isso alto e bom som.
Para Lefebvre, esta era a conclusão mais inaceitável do concílio. O arcebispo francês achava que só havia uma verdade, a da Igreja, e ela devia ser imposta pelo Estado. Mas para o cardeal Wojtyla, aquela era a conclusão mais importante do concílio, porque o futuro papa João Paulo II vem da Polónia, onde a Igreja é perseguida por um regime comunista e ateu. Ali só poderia haver católicos se houvesse a liberdade religiosa que a Igreja agora passava a defender. São posições irreconciliáveis. Marcel Lefebvre não aceita as transformações na Igreja e tem de fazer alguma coisa para as combater. Em 1970, funda um seminário tradicionalista na Suíça para formar jovens padres, ignorando as reformas da Igreja. Tudo ali é feito à maneira antiga, incluindo as missas em latim. São os primeiros passos da fraternidade sacerdotal de São Pio X, que se há de tornar a mais poderosa organização de oposição à Igreja moderna. A partir daí, começa a ruptura com o Vaticano. O Papa Paulo VI proíbe Lefebvre de ordenar novos padres. Lefebvre não aceita e acaba suspenso pelo Vaticano.
"Au nom du Père, et du Fils, et du Saint-Esprit. Ainsi soit-il".
Dentro da fraternidade de São Pio X, tudo é solene, grandioso e místico Apesar de estar suspenso há dois anos pelo Vaticano, o arcebispo Marcel Lefebvre continua a ordenar novos padres com frequência.
Particularmente hoje de nos fazer a graça de poder ordenar 18 padres e 22 diáconos.
29 de junho de 1978. Nos terrenos à volta do seminário tradicionalista na Suíça, está instalada uma grande tenda. É dia de festa para a fraternidade. Lefebvre prepara-se para ordenar 18 padres e 22 diáconos numa cerimônia em latim, realizada ao ar livre num dia de sol. Estão aqui milhares de pessoas. Familiares dos novos padres e muitos fiéis ultraconservadores. Na longa procissão de entrada, destacam-se os candidatos ao sacerdócio. Usam vestes litúrgicas antigas, muito ornamentadas. Um jornalista espanhol presente na cerimônia há de descrevê-la, anos mais tarde, como uma espécie de farsa vivida com aparente devoção e com toques de fanatismo. Na homilia que dirige aos novos padres, Lefebvre avisa-os de que vão ser mandados como cordeiros para o meio de lobos.
Não só fora da Igreja há lobos, mas também há mercenários dentro da Igreja. Somos obrigados a constatar.
E os lobos e os mercenários não estão só fora da Igreja, estão dentro dela. Entre estes novos padres está Juan Fernández Crohn. Tem 28 anos e passou os últimos quatro a estudar teologia no seminário de Lefebvre. Depois de sair da faculdade em Madri, bateu a várias portas. Cresceu na Espanha de Franco e sempre foi conservador.
Um Estado totalitário harmonizará na Espanha o funcionamento de todas as capacidades e energias do país.
Mas nos últimos anos, tinha se tornado um obcecado militante anticomunista. Além disso, era profundamente católico e estava desiludido com o Concílio Vaticano II. Foi em Lefebvre que encontrou refúgio. Decidiu tornar-se padre, mas não um padre qualquer. Queria ser um padre ao serviço do combate contra o modernismo e contra o comunismo. Naquele mesmo ano, apenas quatro meses depois de ser ordenado padre, Crohn vê João Paulo II ser eleito papa.
Chamaram um novo bispo para Roma. Chamaram-no de um país distante.
Não conhece Karol Wojtyła. Lembra-se apenas de estar à mesa com Lefebvre e de ouvir um comentário depreciativo do arcebispo: "Wojtyła é um padre da paz", ou seja, um padre do regime comunista. Nesta altura, a fraternidade de São Pio X ainda não rompeu totalmente com o papa. Aliás, continua a dizer-se fiel a Roma, apesar de não cumprir nenhuma das sanções que lhe foram impostas. Lefebvre diz que as punições não são válidas e que, em consciência, continuará a celebrar com o rito antigo e a rezar pelo papa. Mas pouco a pouco, o padre Crohn vai mais longe e começa a radicalizar-se contra João Paulo II. Acredita que o Concílio Vaticano II é, na verdade, uma legitimação do comunismo. Diz que João Paulo II é um agente marxista no Ocidente. Para ele, uma das principais provas disso é a encíclica sobre o trabalho e os direitos dos trabalhadores, que o papa começou a escrever ainda antes do atentado na Praça de São Pedro, em 1981. Naquele texto, João Paulo II critica o comunismo, mas também alerta para os perigos do capitalismo. O padre Crohn tem 32 anos e vive em Paris quando lê a encíclica. Nesta altura, já detesta o papa, mas aquele texto ultrapassa todos os limites. Algum tempo depois, quando explicar as razões que o levaram a decidir atacar João Paulo II, Crohn há de descrever a encíclica como sendo de clara inspiração marxista. Diz que o papa não tem escrúpulos. Mais, acredita que João Paulo II vai contra a doutrina da Igreja e decide que não vai ficar a assistir a isso.
A minha obsessão era o marxismo, não tanto a aproximação aos protestantes ou o ecumenismo, mas a aproximação católica ao marxista era a minha obsessão.
A minha obsessão era o marxismo. Hoje, já com 74 anos, Crohn lembra tudo o que lhe passou pela cabeça na altura. Mas além do marxismo, havia um segredo. Nos anos 80, o mistério mais bem guardado nos cofres do arquivo secreto do Vaticano era uma mensagem escrita em português. O envelope continha quatro páginas escritas à mão em 1944. Era o segredo de Fátima. Segundo as indicações da irmã Lúcia, um dos três pastorinhos, a mensagem já deveria ter sido tornada pública, mas sucessivos papas continuam a adiar a revelação Para o padre Crohn, esta é mais uma prova de uma conspiração que envolve João Paulo II. O Vaticano está a esconder o manuscrito porque, na verdade, o segredo de Fátima é uma condenação, por parte da Virgem Maria, das reformas introduzidas na Igreja. Daí até acreditar que João Paulo II é um antipapa e uma encarnação moderna do Anticristo, não há de tardar muito. E se João Paulo II é o Anticristo, é preciso derrotá-lo. Estamos nos primeiros dias de outubro de 1981. João Paulo II já voltou à atividade normal depois de recuperar do atentado de há cinco meses. O padre Crohn está em casa a ver televisão. Há uma notícia de última hora e é por causa dessa notícia que toma uma decisão que lhe há de mudar a vida: vai matar o Papa. Mas essa é uma história para o próximo episódio. No próximo episódio. Encontra a arma perfeita numa feira de antiguidades. É uma baioneta antiga do princípio do século. Dirá mais tarde que a intenção era espetá-la no coração do Papa, mas Crohn não sabe como fazê-lo e precisa de praticar. Em segredo, fechado no quarto, treina várias vezes em frente ao espelho para descobrir a melhor forma de esfaquear João Paulo II. "Matar o Papa" é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Pedro Laginha, com banda sonora original de Rodrigo Leão e participação especial de Adriano Luz na voz de Juan Fernández Crohn. O guião e as entrevistas são de João Francisco Gomes. A sonoplastia é de Bernardo Almeida. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de Tânia Pereirinha e João Santos Duarte. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons do arquivo da RTP e outros retirados do YouTube. Ouvimos ainda um xerto da música "Bem Bom" das Doze. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.
Os podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.
