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Olá, sejam bem-vindos à aula prática do projeto Mentes Brilhantes, uma iniciativa do Observador sobre investigação científica de ponta. Nestas aulas práticas, falamos habitualmente com investigadores diferentes, que têm currículos diferentes, mas trabalham em projetos que, de alguma forma, se tocam. Hoje vamos falar sobre imunoterapia e nesta conversa que estamos a gravar em vídeo, que gravamos também em áudio e que será depois disponibilizado quer em podcast, quer na Rádio Observador, tenho comigo o investigador João Barata. É investigador do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes, licenciado em Biologia, com doutoramento em Biomedicina pela Universidade do Porto. E Bruno Silva Santos, investigador do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes, também licenciado em Bioquímica, com doutoramento em Imunologia pela University College do Reino Unido. Bem-vindos, muito obrigado. Bruno, começo por si. A primeira pergunta para quem nos segue e quem não está tão familiarizado com alguns termos e alguns conceitos de que falamos habitualmente: quando falamos em imunoterapia, falamos exatamente em quê?

Falamos do uso do sistema imunitário para fins terapêuticos. Para tratarmos alguma doença, e no nosso caso em comum, preocupamo-nos com câncer. O uso dos nossos glóbulos brancos, que estão em circulação e que as pessoas sabem perfeitamente que são usados, por exemplo, através de vacinas para combater infecções. No nosso caso, é mobilizar esse potencial de defesa dos glóbulos brancos. E ambos temos um particular interesse pelos linfócitos T, que são uma população dentro destes glóbulos brancos, e mobilizá-los então contra o combate de cancros. Cancros do sangue ou cancros ditos sólidos.

No caso concreto, ainda bem que me diz isso, que coloca a sua resposta nesse ponto, porque a imunoterapia é um caminho para alguns tipos de câncer, mas não para todos os tipos de câncer ainda. Porque é que rim, melanoma, câncer do pulmão são cancros sólidos para os quais já há evidência científica de que a imunoterapia funciona. E por que para outros tumores sólidos, a imunoterapia não é ainda um caminho?

É uma pergunta interessante e, na realidade, mesmo entre tumores sólidos ou hematológicos, o tipo de imunoterapia que se usa é bastante diferente. Para tumores hematológicos, a imunoterapia que está a funcionar é a dita terapia celular, usando células que retiramos do doente ou de doadores saudáveis, manipulamos no laboratório e injetamos essas células como a via terapêutica. Enquanto nos tumores sólidos usamos anticorpos monoclonais, moléculas, que vão dentro do corpo do doente ativar o sistema imunitário do próprio doente contra o câncer. E nesse caso, o que é essencial para que esta estratégia funcione, dos tumores sólidos, é que o câncer seja visível às células imunitárias. E a diferença entre estes vários tipos de câncer é sua visibilidade. O câncer do pulmão e o melanoma são tumores muito fáceis de ver, porque são induzidos por carcinogênios muito potentes, como a radiação ultravioleta ou o fumo do tabaco, ou os ingredientes do tabaco. E isso faz com que induzam muitas mutações nos nossos genes, que são as causas do câncer, e por isso tornam-se visíveis ao sistema imunitário, que detecta essas aberrações. Outros tumores são muitíssimo difíceis de ver por este modo. Por exemplo, o pâncreas.

E no caso dos cancros de sangue, aí já falamos de terapia celular, falamos de abordagens diferentes.

Exatamente, porque os cancros de sangue normalmente têm muito poucas mutações em comparação com os tumores sólidos, têm mutações em poucos genes, mas muito potentes, que induzem estes cancros do sangue e, portanto, para o sistema imunitário é difícil identificá-los dessa forma. Precisamos de mobilizá-los de uma forma distinta.

Bruno, há cerca de 25 anos, se eu fiz as contas bem quando preparava esta entrevista, quando fez o seu doutoramento em Imunologia, imunoterapia para combate ao câncer ainda era uma realidade distante.

Não era uma realidade, era quase um palavrão. Eu fiz realmente o doutoramento, onde eu fiz o trabalho foi no Cancer Research UK, que era o maior instituto de câncer do Reino Unido dedicado à investigação do câncer, e todos os colegas olhavam para nós, imunologistas, como aves raras, que tinham uma fé quase inexplicável no potencial do sistema imunitário em combater o câncer. Toda gente, nessa altura, estava focada nas chamadas terapias-alvo. Aliás, o diretor do nosso instituto recebeu o Prêmio Nobel pela identificação de mediadores do ciclo celular, que eram alvos potenciais para impedir a proliferação descontrolada destes tumores. E, por isso, achar que o sistema imunitário aqui ia fazer o trabalho era realmente quase blasfêmia. Foi muito trabalho, não meu diretamente, mas da comunidade, para tornar a imunoterapia, passados uns 15 anos, uma realidade clínica incontornável.

João Barata, no Instituto de Medicina Molecular, dirige o Laboratório de Sinalização em Cancro. E o câncer é um objeto de estudo seu há muito tempo. No entanto, a imunoterapia não é a sua área de especialização, só que perante as potencialidades todas que tem, e o que o Bruno Silva Santos acabou de descrever, e a forma como a coisa evoluiu nos últimos anos é paradigma disso. E, portanto, a imunoterapia abre caminhos até aqui não trilhados no combate a outros tipos de câncer e noutras abordagens. O que agora é possível, no caso concreto do câncer do pulmão, que é aquele sobre o qual o João Barata tem trabalhado, que caminhos novos se abrem agora e o que é possível fazer agora, usando o seu trabalho como exemplo, que não se podia fazer há 10 ou 15 anos?

Como o Bruno disse, a imunoterapia veio alterar o panorama terapêutico em diferentes tipos de câncer, e o câncer de pulmão é um exemplo paradigmático. É interessante que eu trabalho num laboratório de transdução de sinal, um palavrão, em câncer. Mas de fato, em câncer de pulmão, as duas estratégias terapêuticas que alteraram substancialmente a maneira de tratar, foram a imunoterapia e foram terapias dirigidas usando inibidores farmacológicos desta coisa esquisita que estava a falar das vias de transdução de sinal, mas que são extremamente importantes para que o câncer progrida. E, portanto, essas duas estratégias, que eu argumentaria, aliás, se calhar o futuro passa pela combinação das duas. O presente já passa, em grande medida, mas o futuro, certamente, por estratégias que combinem imunoterapia com terapêuticas dirigidas contra determinadas moléculas-alvo.

As terapias-alvo.

As terapias-alvo, precisamente, na própria célula tumoral. Essa combinação, se for feita de forma racional e inteligente, tem um potencial bastante grande, eu acredito. E portanto, eu acho que o que aconteceu nos últimos 10 anos foi essa introdução de novas terapias que aumentam o potencial de tratamento de diferentes tipos de câncer uma vez mais, mas muito em particular câncer do pulmão, pelas razões que o Bruno já explicou. Ou seja, só pra sumarizar o que disse. Por um lado, as terapias dirigidas, terapêuticas-alvo, são bastante interessantes para tratar cânceres que tenham determinadas mutações em genes que podem ser atacados com essas terapias, diretamente na célula tumoral. Por outro lado, a imunoterapia tem o potencial de exacerbar a resposta imune contra o tumor e, portanto, veio trazer essa lufada de ar novo no tratamento de uma doença bastante complicada.

E quando falamos em imunoterapia, as coisas têm avançado rapidamente, a ciência tem avançado rapidamente nos últimos anos, como descreveram. E poderemos, se calhar, em breve, entrar num paradigma diferente, que é o da imunoterapia universal, que tem sido o foco do seu trabalho e com este projeto em particular de que falaremos hoje, de que estamos a falar hoje. O que lhe pergunto é: o que é isto da imunoterapia universal? Falando agora um pouco com alguma linguagem que eventualmente será familiar para pacientes e cuidadores de pacientes com câncer. Quando se fala da imunoterapia, fala-se naturalmente da possibilidade de rejeição por parte das células, seja autotransplante, no caso de alguns tipos de tumor, ou um alotransplante. O que lhe pergunto é: o que é isto da imunoterapia universal? E se o maior desafio disto é justamente evitar assim que haja uma rejeição por parte das células que se tentam potenciar junto do doente?

Exato. Antes de mais, esclarecer que a palavra universal, porque é um pouco dúbia, não quer dizer, neste caso, que se aplica a todos os tipos de câncer, que seria o Holy Grail, mas sim que tem o potencial de ser usada para todos os doentes. Porque o problema do tipo de terapia que nós estamos a explorar neste projeto, que é uma terapia celular, é que aquela que está aprovada pra alguns tipos de câncer hematológico é invariavelmente uma terapia autóloga. Está dependente das células do doente responderem bem ao processo que é feito no laboratório.

Isto muitas vezes é o autotransplante.

É um autotransplante. E o problema é que o procedimento, que estamos a falar de pelo menos duas semanas em laboratório, requer que as células do doente estejam com um grau de fitness, de capacidade proliferativa e de serem transformadas pra depois serem usadas pra tratamento, que muitas vezes os doentes que chegam a essa fase já muito tratados com quimioterapia, terapêuticas-alvo, etc. Todas as vias que foram necessárias pra conter o tumor e manter o doente vivo até aquele ponto, podem impedir que o produto imunoterapêutico seja, de fato, viável. E então a grande solução pra isto é não estarmos dependentes das células do doente. É podermos usar bancos de células universais, isto é, perante o tipo de sangue que a pessoa tem, naturalmente vamos maximizar a possibilidade do sangue ser realmente aceite. Mas o truque aqui que está por detrás é usarmos células imunitárias, que são as que nós estamos a estudar, que elas próprias não rejeitem o corpo do doente. Porque o problema é que, neste momento, as células que são mais usadas nesta terapia celular são altamente sensíveis a diferenças entre as várias pessoas. São as células que rejeitam, por exemplo, um rim. Se eu der o meu rim ao Paulo, não sendo nós relacionados, seria uma grande coincidência o Paulo não destruir imediatamente o meu rim. E por isso, quando nós fazemos um transplante entre pessoas diferentes, allo, precisamos de ver a similaridade entre essas pessoas, que está codificada nuns genes muito importantes de histocompatibilidade. E, portanto, aqui o truque é usarmos células que não olham pras diferenças entre pessoas e que são, nesse sentido, mais possíveis de serem usadas universalmente.

E essas células são as famosas, famosas entre aspas, na comparação que eu fiz, se calhar, são as gama-delta, os linfócitos T gama-delta.

Exatamente.

Que têm essa particularidade de olhar apenas pro que é comum e não pro que é diferente.

Não pro que é diferente, exatamente. Porque as outras células, que se chamam alfa-beta, nomes gregos que só dificultam a compreensão destas terminologias, mas as tais alfa-beta são realmente muito específicas para A pessoa que as gerou. E quando são injetadas numa pessoa diferente, que tem estes genes de histocompatibilidade diferentes, que herdou da sua própria família, vão induzir a rejeição. E no caso das gama-delta, não, elas não se ligam de todo a estas moléculas que são diferentes, e portanto são completamente cegas às diferenças que há entre pessoas. E isso permite-nos usá-las de forma segura entre pessoas diferentes.

Eu tinha uma questão preparada para si, usando uma expressão que o próprio Bruno usou. Perguntaria se antes de uma terapia universal que dê pra todos os tipos de câncer, isto é o mais perto possível desse Holy Grail, desse Santo Graal, de haver a possibilidade de desenvolver uma imunoterapia recorrendo aos tais linfócitos T gama-delta, que permitiria haver um banco de células a que se poderia recorrer. Isso é o mais perto possível que poderíamos chegar?

Realmente são dois desafios muito grandes. Acho que o desafio de tornarmos universal, neste sentido de banco de células, mesmo assim podemos fazer uma personalização um bocadinho maior, porque podemos ter sangue de dadores saudáveis que representam, por exemplo, etnias diferentes. E, portanto, vamos mesmo assim focar-nos em grupos que são mais homogêneos. Mas aqui o truque realmente é termos um banco de células, células que foram produzidas maciçamente, portanto, temos um número suficiente pra tratar qualquer doente que surja. Temos um sítio onde ir buscar células pra tratar esse doente. Para um tipo de câncer em que já se mostrou que estas células funcionam. Isso acho que estamos mais perto de obter. Agora, um tipo de imunoterapia aplicável ao universo de todos os cancros, eu francamente não acredito, como imunologista, porque os tipos de câncer que temos são demasiado diferentes na origem do tecido de onde eles vêm, pra permitir que um tipo de célula consiga ser tão universal.

E este tipo de tumor no qual tem desenvolvido esta investigação, são tumores de sangue, e dentro dos tumores de sangue, a leucemia mielóide aguda, uma em particular. Por que o foco do seu trabalho incide, sobretudo, na LMA?

Porque, pra já, é uma doença muito agressiva, pra qual temos poucas alternativas, ou seja, a quimioterapia resulta inicialmente e controla o tumor, mas quando o doente tem uma recaída e há uma recidiva do tumor, aí não temos alternativa. E, portanto, o nosso objetivo foi dar uma alternativa quando a quimioterapia deixa de funcionar, que passe a funcionar nesta doença tão agressiva e que tira tantas vidas. E, portanto, aqui o nosso grande objetivo é tornarmos esta leucemia mielóide aguda visível às nossas células gama-delta, de forma que elas consigam reconhecê-las e erradicá-las de forma eficaz.

João Barata, as leucemias são também o seu objeto de estudo de há muitos anos a esta parte, sobretudo a forma como elas evoluem. De onde é que surgiu a ideia de juntar o que aprendeu ao longo de muitos anos de investigação em neoplasias hematológicas, em cancros de sangue e, mais concretamente, em leucemias, juntando ao câncer do pulmão, ao estudo de um câncer do pulmão, que é uma área de investigação nova para si ou sobre a qual não tem tantos anos quanto junto da leucemia. Portanto, tudo aquilo que aprendeu e que desenvolveu ao longo de todos estes anos junto da leucemia, é útil agora para o combate ao câncer do pulmão? Como é que isto se junta?

Deixe-me só acrescentar uma coisa antes de responder a essa pergunta ao que o Bruno disse, porque este tipo de imunoterapia em que se faz uso de uma célula do sistema imune e é transplantada pra um doente, o que o Bruno está a fazer, que é interessantíssimo e motivo de orgulho no próprio instituto e acho que pro país. Obviamente, aquilo que ele diz da dificuldade em ser uma terapia universal, começa logo num aspecto que tem a ver com precisamente o tipo de câncer que ele está a estudar. Não é por acaso que ele escolheu uma leucemia e não um tumor sólido pra começar com este tipo de estratégia, porque como ele também já referiu, a terapia celular adotiva funciona muitíssimo melhor, até ver. Há muita investigação na área a tentar arranjar maneiras de melhorar a eficácia desse tipo de estratégia em tumores sólidos, mas não funciona bem em tumores sólidos. E, portanto, logo isso cria um travão à implementação dessa ideia de uma terapia universal, no sentido que o Paulo estava a dar originalmente.

E mesmo dentro dos tumores de sangue, aquilo que comumente chamamos de leucemia-

É altissimamente heterogêneo.

São centenas de doenças.

Completamente.

Estamos a falar de muitas variações.

Precisamente. Aliás, o Bruno tem este projeto focado em leucemia mielóide aguda. A maior parte do que fazemos no laboratório é em leucemia linfoblástica aguda, que é uma doença também agressiva, felizmente mais tratável do que a leucemia mielóide aguda. Mas, na prática, é uma doença diferente e altamente heterogênea também.

E quer uma, quer outra, os prognósticos delas atualmente ou perante aquilo que chegou ao mercado e que houve desenvolvimento nos últimos 20, 30 anos, é bastante diferente.

Claro que sim.

Com aquilo tudo que tem surgido. E voltando à questão que lhe colocaram.

Voltando à sua questão. Precisamente porque estudamos leucemia linfoblástica aguda, que é um câncer do sangue de células linfoides, as células T e B, ainda não falamos muito sobre elas, o Bruno evitou os termos, mas eu agora tenho que introduzir, portanto, um subtipo de células do sangue. E essas células, durante o seu desenvolvimento Até ficarem células maduras, que são capazes de andar a patrulhar o nosso organismo, e a cumprir a sua função imunológica. Durante o seu desenvolvimento, elas são altamente dependentes de uma substância que é produzida em diferentes órgãos do nosso corpo, incluindo a medula óssea e o timo, que é a interleucina-7. Essa substância.

A IL-7.

A IL-7. A IL-7 é absolutamente essencial para o desenvolvimento de células do sistema imune, adaptativa, as células tais, os linfócitos T e B. Se não tivermos o receptor da IL-7 ou pessoas que tenham mutações do receptor da IL-7, que fazem com que ele não funcione, têm imunodeficiência altamente severa. E, portanto, tem este lado essencial para o desenvolvimento do sistema imune, mas nós e outros grupos mostramos no passado que tem um lado perverso, e a IL-7 pode potenciar o desenvolvimento de leucemia. A IL-7 e o seu recetor, o recetor da IL-7. Ou IL-7R. E, portanto, nós ao longo dos anos estudamos os mecanismos através dos quais este eixo IL-7 recetor estimula o desenvolvimento de leucemia. E, a certa altura, começamos a reparar que alguns tipos de tumores não hematológicos, ou seja, fora das leucemias, fora dos cancros do sangue, havia alguns cancros em que as células de cancro, de tumor sólido, expressam o recetor da IL-7 também. E isto surpreendeu-nos, porque dizem-nos os livros que o recetor da IL-7 é expresso em células do sistema hematopoiético, podem ser expressas, às vezes, em células endoteliais, mas na maior parte dos casos, em células do sistema hematopoiético. E, portanto, células de tumores sólidos, nomeadamente de origem epitelial, não era muito expectável que fosse assim. E, por uma série de razões, acabamos por focar o nosso estudo e o nosso interesse em cancro do pulmão, num subtipo, que é o mais comum. Por quê? Porque vimos duas ou três coisas. Uma é que elas expressam muito o recetor da IL-7, mais do que seria de esperar. E depois essa expressão parece estar associada potencialmente à resistência à imunoterapia, precisamente o tema da nossa conversa. E, portanto, é isso que andamos, no fundo, a explorar neste estudo.

Se tudo correr bem, a investigação que estão a fazer poderá abrir dezenas de portas e outras linhas de investigação no futuro que se possa vir a desenvolver, porque, no fundo, estamos a falar de ciência fundamental, que é aquilo que o João Barata está a desenvolver. Se tudo correr bem e o projeto com o qual concorreu junto da Fundação La Caixa e para o qual obteve um financiamento de 1 milhão de euros para um período de três anos, creio eu. Se tudo correr bem, quando chegar ao final desse período de três anos, o que se espera obter e que porta é que fica aberta para outros passos a dar a seguir?

Se tudo corresse bem, e digo-lhe já com toda a honestidade, como acontece muitas vezes em ciência, há muita coisa que está a correr fora daquilo que nós estávamos à espera.

O que dará origem a outras portas.

Vamos ver o que eu vou dizer daqui a um ano e tal. Mas se tudo corresse bem, ou se tudo correr bem, no final, o que nós esperamos é: pretendemos não só ter, como o Paulo muito bem disse, um conhecimento da biologia fundamental deste tipo de cancros, no que toca ao conhecimento deste eixo da IL-7 com o recetor da IL-7 e da importância que tem na interação que as células tumorais têm com o sistema imune. Mas temos uma componente do projeto, isto é um projeto de parceria com dois outros grupos que estão radicados em Espanha, em Madrid, e o projeto tem uma componente já de alguma translação, de alguma tentativa de aplicação prática, porque nós no laboratório, que é um laboratório de investigação fundamental, essencialmente, mas tem preocupações de aplicação do conhecimento na realidade, nós gerámos há uns anos anticorpos contra o recetor da IL-7. Ou seja, no fundo, é outro tipo de imunoterapia, de que não falámos até agora, que é o uso daquilo que são chamados biológicos, agentes biológicos, para atacar o tumor diretamente. E, portanto, desenvolvemos anticorpos contra o recetor da IL-7, que agora estamos a tentar sofisticar, se é que esta palavra existe, mas a fazer aqui alguma engenharia para que eles reconheçam melhor o recetor da IL-7 num contexto de cancro do pulmão.

Bruno, eu também já tinha tido a oportunidade de conversar com o João Barata. No caso do Bruno, conversamos há cerca de dois anos e eu recordo-me de ter dito na altura, e nos apontamentos consultei pra preparar esta nossa conversa, que se tudo corresse bem, em três anos poderiam pedir autorização para dar início a ensaios clínicos em humanos. Como é que as coisas estão? Entretanto, não passaram ainda três anos, passaram só dois. Dois anos depois dessa nossa última conversa, como é que as coisas estão?

Estão a correr bem, felizmente, porque, na verdade, este projeto tenta fazer uma versão 2.0 das células que nós estudamos há mais de 10 anos. E a boa notícia é que as células versão 1.0 já estão em ensaios clínicos e, portanto, vamos ter resultados, que são expectáveis a meados do próximo ano, sobre a segurança e até alguma atividade terapêutica. Digo mais segurança do que atividade terapêutica, porque como em todos os ensaios clínicos, tem que se começar pela primeira fase de ensaios, em que a segurança é primordial. E estamos a fazer a chamada escalada de dose, isto é, começamos com doses que o que temos de garantir é que são seguras, que os doentes não sofrem com a terapia, para podermos eventualmente chegar a uma dose que é forte o suficiente, temos células suficientes para tratar o tumor, sem que isso então tenha efeitos secundários graves. Portanto, é este ensaio de fase um que está em curso com a versão 1.0 e a versão 2.0 já está em desenvolvimento a um ritmo que, graças a este projeto e à investigação paralela que está a ser feita com a farmacêutica, que está a explorar estas nossas células ao nível farmacêutico e futuramente, eventualmente comercial, para que um ensaio já com a versão 2.0 possa ser iniciado pouco tempo depois de estar garantido que a versão 1.0 é segura. Portanto, estamos a caminhar para aí.

Os ensaios de nível um, ou de fase um, são aqueles justamente que testam a segurança das novas moléculas, do que está em investigação. Portanto, admitindo que tudo correria bem, e os ensaios clínicos em humanos davam o seu passo no próximo ano, há centros de investigação, há hospitais em Portugal, onde alguns desses ensaios clínicos poderão ser conduzidos? Ou ainda é cedo para dizer isso?

Pois, neste momento, a investigação clínica que está a ser explorada está muito focada nos Estados Unidos, porque as fases que estão a ser envolvidas são fases que envolvem ainda poucos centros clínicos. Quando chega, nomeadamente, a uma fase três, quer-se que seja o mais multicêntrico possível. E aí eu, claro, mantendo esta minha relação com esta farmacêutica, tanto quanto possível, vou argumentar que Portugal, e não Portugal sozinho, Portugal e Espanha, sobretudo porque Espanha é muito forte em ensaios clínicos, incluindo neste tipo de tumores que estamos a falar, tornar tanto quanto possível atrativos para serem incluídos nesses ensaios de fases mais avançadas, nomeadamente três. Se aí chegarmos, esperemos.

Esperemos que sim. Bruno Silva Santos, João Barata, a investigação que estão a desenvolver e para a qual submeteram candidaturas junto da Fundação la Caixa, ambos obtiveram financiamento de um milhão de euros. Boa parte do trabalho de um investigador ou de um líder de grupo, se calhar com pena vossa, já não é trabalho de bancada, que isso é a parte mais divertida. Boa parte deste trabalho é passado atrás de um computador a procurar financiamento, e nesta altura teremos, eventualmente, muitos investigadores a acenar com a cabeça também, que nos estejam a ver e a ouvir. E esta questão é mais para jovens estudantes que pensam em fazer investigação no futuro. Em quanto tempo se prepara uma candidatura com estas características? E vocês têm uma série de outros projetos a correr, portanto, não podem parar tudo e dedicarem-se só, mas admitindo que era possível estarem apenas focados e que tinham uma série de documentação preparada, porque depois têm que a recolher de vários sítios, quanto tempo demorar a preparar uma candidatura destas?

Eu acho que isso vai depender muito do grupo de pessoas que estão envolvidas. É preciso ter em conta que as candidaturas podem ser como as nossas, em parceria, ou podem ser individuais. Consórcios. E, portanto, isso altera as coisas, como é óbvio.

Em consórcio demora muito mais tempo, muito mais gente.

Em consórcio, naturalmente, leva mais tempo e tem que se articular as coisas muito melhor e, portanto, é preciso mais tempo. Eu preferia, por tesouro, não dizer.

Eu posso responder só com base no que está a acontecer neste momento. Ou seja, a próxima call para candidaturas a projetos la Caixa fecha a 16 de novembro e eu comecei a escrever há dois dias. Portanto, é bom quem em um mês esteja pronto. Mas isso sou eu com 17 anos de experiência a escrever projetos. Portanto, para os jovens que eventualmente vão trilhar este caminho, posso dizer que um projeto que hoje em dia demora cerca de um mês a escrever, quando comecei, demoraria pelo menos o dobro. Mas, lá está, a grande questão é a que o Paulo referiu, qual é o grau de exclusividade que nós conseguimos dar a esta escrita no nosso dia a dia. Porque neste mesmo momento que eu tenho um mês para escrever o projeto la Caixa, estou a ensinar os meus alunos de medicina na faculdade, gerir a equipa e tudo mais. Mas sim, mas um mês é o mínimo, eu diria o mínimo dos mínimos.

Eu acho que é o aconselhável.

Exato.

Bruno Silva Santos, João Barata, eu quero agradecer a vossa disponibilidade e a vossa generosidade por terem partilhado com os nossos ouvintes e quem nos está a ver e a seguir em vídeo, um pouco dos desafios da imunoterapia e, neste caso concreto, da forma como pode ser aplicada aos trabalhos que estão a desenvolver, neste caso, na luta contra o cancro. Esta foi mais uma aula prática da iniciativa Mentes Brilhantes, do Observador, sobre investigação científica de ponta. Até à próxima.