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Olá, bem-vindos à aula prática do projeto Mentes Brilhantes, uma iniciativa do Observador sobre investigação científica de ponta. Nestas aulas práticas, juntamos investigadores com currículos diferentes e experiências diferentes, mas que trabalham em torno do mesmo tema. Na aula prática de hoje falamos com dois especialistas em doença metabólica do fígado, mais conhecida como doença do fígado gordo. Eu sou o Paulo Farinha e nesta conversa, que estamos a gravar em áudio e também em vídeo, tenho comigo Cecília Rodrigues, é investigadora do iMed, o Instituto de Investigação do Medicamento da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, licenciada em Ciências Farmacêuticas, com um doutoramento tirado em Cincinnati, nos Estados Unidos, em Farmácia Bioquímica. E Rui Castro, também investigador do iMed, o Instituto de Investigação do Medicamento da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, licenciado em Biologia Microbiana e Genética pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e com doutoramento em Farmácia. Bem-vindos, muito obrigado pela vossa disponibilidade. Rui, começo por si. "Targeting the adipose tissue to treat fatty liver". Combater a obesidade para tratar a doença do fígado gordo. É disso que trata o seu projeto, não é verdade?
Exatamente. Antes de mais, começo por agradecer o convite, é um prazer estar cá. Exatamente, a doença do fígado gordo não é apenas uma doença do fígado, envolve vários outros órgãos e vários fatores de risco, entre os quais a obesidade. A obesidade é efetivamente um dos maiores fatores de risco para o desenvolvimento de fígado gordo e, portanto, foi por isso que nós resolvemos estudar em detalhe o que é que poderia estar a acontecer entre a comunicação entre o tecido adiposo e o fígado e que levasse à progressão da doença.
Eu tinha uma série de questões preparadas, a obesidade vinha mais à frente, mas ainda bem que a traz já para aqui e assim esclarecemos já isso. Mas antes disso, para quem nos está a ouvir e não é investigador, o que é exatamente a doença do fígado gordo?
Consiste essencialmente na acumulação de gordura dentro das células do fígado. E isto pode acontecer devido a vários fatores, como uma alimentação desequilibrada, rica em gorduras, pouca prática de exercício físico, que levam a esta acumulação de gorduras. Inicialmente, não têm um grande efeito patogênico, portanto, no órgão, mas efetivamente com a acumulação consistente e constante de gordura ao longo do tempo, desenvolvem-se processos inflamatórios no órgão, no fígado, que se não forem tratados de alguma maneira, continuarão a progredir para estádios mais graves, incluindo a formação de cicatrizes, que se designa de fibrose, que é uma fase já mais grave da doença, com poucas possibilidades de tratamento e inclusive pode progredir para cirrose e cancro do fígado.
Eu tinha aqui uma sequência, corrija-me se eu estiver errado.
Sim.
Inflamação, esteatohepatite, e corrija-me se eu disser, se não tiver dado a entoação correta, fibrose, cirrose e eventualmente no último estádio, cancro do fígado.
Exato.
É por aqui. Cecília, obrigado pela sua disponibilidade. A doença do fígado gordo é, sobretudo, prevalente nos países mais industrializados, no mundo dito mais ocidental, não é verdade?
É verdade, sim. Portanto, antes de mais nada, também um agradecimento pelo convite para estar aqui, é com muito gosto e com um gosto muito particular por estar num programa que se designa Aula Prática. Isso é muito bom. Como professora, como docente universitária, é com muito gosto que eu dou aulas e, em particular aqui, com uma audiência certamente diferente, é um gosto redobrado também.
É um gosto para nós tê-la aqui.
Muito bem. De facto, é verdade, e a razão para isso é porque os estilos de vida estão muito envolvidos na patogênese desta doença, portanto, subjacentes à existência desta doença. E os estilos de vida, nomeadamente relacionados com erros alimentares, portanto, uma dieta errada, essencialmente errada, e a falta de exercício físico, essencialmente isto.
Há números, podemos ter ideia da população mundial que é afetada por essa doença?
Em média, e esta é a doença mais comum do fígado, hoje em dia, doença crônica mais comum, e este número tem vindo a aumentar. A percentagem de indivíduos afetados por esta doença tem vindo a aumentar. E se há um ano atrás falávamos de 25%, em média, da população mundial, hoje já se fala em 30% da população mundial, com tendência também para aumentar.
Está a aumentar e a aumentar rapidamente.
Rapidamente, muito rapidamente. E isto porque é paralelo também a um acréscimo que se tem vindo a verificar em outras doenças, como, por exemplo, a diabetes e a obesidade, principalmente estas duas, que são os maiores fatores de risco.
Que são os maiores fatores de risco. Portanto, as pessoas que sofrem dessas doenças, e já vamos falar, e o Rui já nos introduziu esse tema, já vamos falar da obesidade e da diferença entre obesidade e excesso de peso, são dois fatores que podem potenciar fortemente a doença do fígado gordo. E toda a gente tem a mesma propensão a esta doença em particular? Tirando Comorbilidades como diabetes ou obesidade, as outras pessoas têm tendência para desenvolver a doença da mesma forma?
Existindo os erros alimentares, falta de exercício físico, de facto, qualquer indivíduo está sujeito a desenvolver a doença. No entanto, há também uma componente genética. Já foram identificados genes que facilitam, por assim dizer, o desenvolvimento da doença. É mais fácil desenvolver a doença se tivermos um determinado background genético. E há alguns genes que já estão identificados, sabe-se exatamente quais são, e certamente que essas pessoas desenvolverão a doença, em alguns casos mais cedo, ou noutros casos, uma forma mais progressiva da doença, uma progressão da doença mais rápida.
Mais rápida. Rui, voltando a si, falávamos há pouco da obesidade e agora neste tema introduzido pela Cecília Rodrigues, do fator genético. O que se sabe hoje em dia, e esta propensão genética que algumas pessoas possam ter a desenvolver a doença com outras características, é útil para si no seu projeto e no projeto que o Rui está a desenvolver?
É um aspeto importante, sem dúvida, porque nós propusemos também tentar perceber exatamente quais é que são as diferenças entre pessoas que são magras, mas desenvolvem a doença do fígado gordo, comparando com pessoas que são obesas e portanto têm esse fator de risco preponderante. Mas a verdade é que existem várias situações, incluindo pessoas que têm estas predisposições genéticas, que falava a Cecília, para desenvolverem mais facilmente a doença ou para progredirem mais rapidamente na doença. Mas também existem pessoas que, na ausência dos típicos fatores de risco metabólicos, como a obesidade ou a diabetes, ou a existência de níveis de colesterol elevados, mesmo assim desenvolvem também a doença. Portanto, pensa-se que tenha também um background genético, alguma dependência do background genético do indivíduo, e é sem dúvida uma faceta que nós também estamos a estudar no nosso projeto.
O Rui falava da comparação entre pessoas que são obesas e pessoas que são magras. A obesidade e a gordura corporal que se vê é aquilo que habitualmente o leigo, um não cientista, não investigador, associa a gordura, mas o problema principal do fígado gordo é justamente a gordura que não se vê, não é verdade? E que se acumula nesse órgão tão importante, nesse maestro, como é o fígado.
Exato. Como eu dizia, efetivamente, a maior parte dos doentes com fígado gordo têm outros fatores de risco associados, como a obesidade, e portanto, têm um índice de massa corporal superior a 25, 30. Mas efetivamente existe uma pequena porção de doentes que não são obesos, nem são tão pouco fortes, como se diria, e desenvolvem e têm fígado gordo. Portanto, um dos aspetos da nossa investigação pretendia efetivamente, neste tipo de doentes em particular, perceber que outros fatores de risco então estão presentes, sendo que a componente genética poderá ser um desses fatores.
Um dos objetivos do seu trabalho de investigação é obter novas formas de diagnóstico e tratamento do fígado gordo. Diagnosticar, combater e tratar. É esse o objetivo? Sendo que estamos a falar de um longo processo.
Esse é um grande objetivo, mas pelo menos pretendíamos tocar um pouquinho em cada uma dessas três áreas com o projeto. Porque um dos aspetos centrais do nosso projeto era tentar perceber, como eu disse inicialmente, como é que o tecido adiposo comunica com o fígado e, em particular no nosso caso, era através de vesículas extracelulares, vesículas que as células de vários tecidos, incluindo o tecido adiposo, libertam.
Exossomas?
São os tais exossomas ou vesículas extracelulares, e que contêm moléculas, alguns marcadores genéticos, que podem, quando em contacto com outras células, ter algum tipo de função, de ação dentro de células vizinhas ou mesmo até células em órgãos distantes. E portanto, o nosso objetivo foi, por um lado, tentar identificar se essas vesículas que eram libertadas do tecido adiposo eram diferentes nos diferentes estádios da doença, podendo dessa maneira funcionar como biomarcadores de diagnóstico ou de prognóstico, mas também verificar se, efetivamente, se alterando de alguma maneira o conteúdo dessas vesículas, poderíamos favorecer uma melhoria ou poderíamos estar perante uma potencial terapia para o fígado gordo.
A vantagem de encontrar biomarcadores, ou uma das, é a possibilidade de permitir diagnosticar a doença do fígado gordo numa fase mais precoce e facilitar assim o diagnóstico, porque são procedimentos invasivos para um diagnóstico mais eficaz, não é verdade?
Exatamente. Um dos problemas atuais é que um dos métodos mais eficazes para diagnóstico das fases mais avançadas da doença é a biópsia hepática, que é um procedimento altamente invasivo e que tem os seus riscos. O nosso propósito ao analisarmos estas vesículas extracelulares que são libertadas na corrente sanguínea, era efetivamente ver se era possível, com uma análise de sangue, conseguirmos identificar moléculas que nos indicassem, efetivamente, se uma pessoa Teria já ou não fígado gordo, estaria numa fase menos avançada, mais avançada, seria preciso atuar mais rapidamente ou não. Portanto, vários tipos de biomarcadores, de diagnóstico, de progressão.
Ou seja, não tanto pro diagnóstico da doença, mas para avaliar o estado em que a doença está naquele momento, o que pode ter influência no tipo de tratamento a adotar e na velocidade com que tem que ser adotado.
Sim, se bem que, na verdade, não existe ainda qualquer tipo de tratamento, mas iria indicar-nos exatamente a melhor estratégia a adotar para cada tipo de doente.
Cecília, como é que as células do fígado morrem? E isto leva um ponto de interrogação no final. Esta foi a primeira pergunta que lhe suscitou curiosidade quando começou há mais de 20 anos a investigar o fígado?
Sim, essa é uma das perguntas a que procuramos responder no laboratório, efetivamente. Portanto, como morrem as células? Hoje sabemos que há formas muito diversas de morte celular, e o que também nos parece é que, de fato, o mecanismo da doença, em alguma altura, passa por uma desregulação dessa morte celular, ou seja, um excesso de morte celular no fígado, que pode ser responsável pelo desenvolvimento da doença ou de formas mais graves da doença. E, portanto, segundo os estudos do nosso grupo e também de outros, parece que um tipo de morte celular em particular, associado também a uma resposta inflamatória muito exacerbada, que acontece em doentes com fígado gordo não alcóolico, pode ser responsável pelo desenvolvimento da doença. E, portanto, daí que tenhamos centrado muito do nosso trabalho no estudo da morte celular, dos mecanismos que dão origem a essa mesma morte celular, o conhecimento de potenciais alvos terapêuticos nesses mecanismos, no sentido de desenvolver novas estratégias terapêuticas para combater a doença.
Se tivéssemos que resumir o foco da sua investigação, e isto é extraordinariamente difícil, eu tenho noção, a um ponto-chave, esta investigação que a Cecília está a conduzir e pra qual obteve um financiamento de um milhão de euros da Fundação La Caixa, não é verdade? Será este encontrar novos alvos terapêuticos pra doença que permitam o desenvolvimento de novas moléculas e, portanto, novos medicamentos para combater a doença do fígado gordo?
Sim.
Seria esse?
Esse é o objetivo, porque efetivamente, sendo uma doença tão prevalente, como já referimos, e com fatores de risco que também são eles próprios muito prevalentes, é importante diagnosticar precocemente, como já foi referido, e identificar também o mais rapidamente possível uma estratégia terapêutica que possa combater a doença ou pelo menos atrasar a progressão da doença. Efetivamente, hoje em dia, ainda não existe nenhuma estratégia terapêutica, apesar de haver vários ensaios clínicos em curso com o potencial de desenvolver novas estratégias terapêuticas. E assim, de fato, o nosso objetivo com este projeto é encontrar potenciais alvos terapêuticos. Um alvo terapêutico é uma proteína ou qualquer outra macromolécula na célula, onde essa macromolécula possa ser de tal modo relevante para a doença que atuando sobre esse alvo terapêutico, pode eventualmente impedir-se o desenvolvimento da doença ou a progressão da doença.
Os investigadores científicos são habitualmente muito cautelosos quando se fala de prazos e perante as perguntas dos doentes, na maior parte dos casos, quando é que haverá uma cura para este meu problema. E, portanto, eu não vos vou colocar esta questão, quando é que teremos. Até porque estamos, sobretudo, a falar de ciência fundamental, não é verdade? Estamos a falar de uma semente que é lançada à terra agora, mas que se calhar só poderá vir a ter fruto ou aplicação prática pra aquilo que está a ser pensado atualmente, dentro de muitos anos ou mesmo décadas. É verdade o que eu estou...?
É verdade. De fato, é de certo modo um lugar-comum dizer que a ciência precisa de tempo, por um lado, e precisa de financiamento, por outro. Mas é mesmo verdade que assim seja. E, portanto, eu também gosto de o referir desse modo. E efetivamente demora tempo. E demora tempo porque uma vez identificado um alvo terapêutico, que já explicamos um bocadinho o que é que isso significa, depois é preciso encontrar moléculas que atuem sobre esse alvo terapêutico. E uma vez encontrada a molécula e desenhada a molécula ideal pra atuar nesse alvo terapêutico, é preciso uma série de estudos, que começam por ser estudos in vitro, ou seja, em células, depois estudos em modelos animais da doença e só depois estudos em humanos, em doentes.
Aos ensaios clínicos.
Aos ensaios clínicos. E mesmo os ensaios clínicos têm muitas fases. Portanto, são de fato processos que tendencialmente são muito longos e que demoram, por vezes, décadas até atingir ou encontrar uma estratégia terapêutica adequada. Devemos dizer que esta, como é uma área, um problema, uma doença muito comum, há de fato também um enorme interesse da indústria farmacêutica e da investigação de um modo geral, em desenvolver uma estratégia terapêutica. E, portanto, há de fato muitos ensaios clínicos a decorrer, com muitas estratégias terapêuticas, também elas muito diversas, e eventualmente estamos próximos de encontrar, provavelmente, uma molécula que possa ser uma primeira abordagem terapêutica para estas doenças. Isso não quer dizer, no entanto, que não haja lugar ao desenvolvimento de outras estratégias e de novas moléculas. Nomeadamente, porque numa doença tão complexa como esta, com mecanismos tão diversos e ainda tão pouco conhecidos, é possível que amanhã surja um outro alvo terapêutico e uma nova molécula para esse mesmo alvo.
E neste momento, enquanto conversamos, podem estar a decorrer outras aulas práticas noutros órgãos de comunicação social, com outros investigadores que estão a desenvolver também.
Absolutamente, seria muito emocinal que assim fosse.
O objetivo destas aulas práticas é também juntar investigadores com currículos diferentes e com experiências diferentes. Neste caso, mais ou menos, porque tenho perante mim dois investigadores com currículos até parecidos e com uma partilha de experiência muito comum. Não é verdade? O Rui Castro e a Cecília Rodrigues trabalharam juntos durante muitos anos e, entretanto, com a evolução do trabalho desenvolvido, o Rui Castro autonomizou-se, se posso colocar as coisas desta forma, tendo atualmente o seu próprio grupo de investigação, depois de muitos anos a trabalhar com Cecília Rodrigues. Estou a dizer bem?
Sim.
É verdade.
Só com uma correção, talvez. É que, na verdade, continuamos a trabalhar juntos. O Rui, de facto, tem independência científica, é assim que nós designamos, tem o seu próprio laboratório, o seu grupo de investigação e o seu financiamento, mas continuamos a colaborar, porque a ciência é isto mesmo, a ausência de colaboração faz parar a ciência, não é? E o progresso exige esse tipo de colaboração. E ainda por cima, num ambiente tão pequeno como o nosso, ainda por cima no mesmo instituto de investigação, não faria sentido que estando a olhar para problemas semelhantes, não colaborássemos. E portanto, de facto, usamos abordagens que tendencialmente têm divergido no sentido de que temos agora outras abordagens diferentes entre os nossos grupos, complementares, e que por isso mesmo, a colaboração continua a decorrer e temos modelos a decorrer em conjunto, comuns, e objetivos também em certa medida comuns.
Desculpe interrompê-lo, mas uma questão muito prática em relação: para quem nos está a ver, jovens estudantes de biomédicas, de ciências, o que quer que seja, que nos estão a ver, é comum, é normal e é natural de saltar que num grupo de investigação, alguém que está a fazer o seu mestrado, o seu doutoramento, o seu pós-doutoramento, depois continuar a trabalhar naquela área em que se gerou o interesse, mas deixando de trabalhar sob a direção daquele líder de grupo. Isso é muito comum em investigação científica, não é verdade?
É verdade. E aliás, até é recomendável, efetivamente, que alguém que esteja em formação, a realizar mestrado, doutoramento, pós-doutoramento, tenha várias experiências em diferentes laboratórios, conheça realidades distintas, diferentes abordagens para o mesmo problema, e eu acho que isso é muito saudável. Mas depois também há casos como o meu, em que efetivamente fiz doutoramento com a Cecília e acabei depois por fazer um pós-doutoramento, e depois acabar também por continuar no grupo já como investigador principal. E acho que é um caso, se calar, mais atípico, não acontece muito, mas que no nosso caso funcionou muito bem. Até esta última fase, em que efetivamente eu dei este salto para criar o mesmo grupo, mas dentro do mesmo instituto, seguindo linhas diferentes e com alguns objetivos diferentes. Mas a verdade é que pela proximidade, e como a Cecília referiu, nós continuamos a colaborar, temos estudantes em comum, partilhamos equipamentos e acho que otimizamos da melhor maneira as nossas capacidades.
Recursos e capacidades.
Os nossos recursos, exato. E portanto, acho que é um exemplo de sucesso.
Essa interdisciplinaridade é muito interessante, e é muito interessante quando se fala em ciência, e no caso do seu projeto em particular, resulta de um consórcio, não é verdade? Rui, não sei se esta é a palavra correta, mas há um trabalho estreito no seu trabalho de investigação com o Centro Hospitalar Lisboa Norte, eu tenho que consultar a minha cábula para não dizer nada errado, a Escola Politécnica Federal de Lausanne, na Suíça, e o Biodonostia Health Research Institute e o Centro de Investigación Cooperativa en Biociências, ambos no País Basco.
Exato.
Porque é que cada um destes centros de investigação traz realidades diferentes, traz dados diferentes que acrescentam ao projeto?
Exatamente, é um bocado por aí. A investigação nunca fazemos sozinhos, fazemos sempre em colaboração e com equipas multidisciplinares, cada vez mais importante, e que aportam muito aos nossos objetivos e aos nossos propósitos. E neste caso, efetivamente, nós tentamos reunir uma equipa que pudesse dar resposta aos diferentes objetivos que nós tínhamos. Temos a professora Helena Cortez Pinto, aqui do Hospital de Santa Maria, e o Jesús Banal, do Biodonostia, que têm acesso a bases de dados clínicas e amostras clínicas que são extremamente importantes para nós validarmos os resultados que obtemos em modelos animais, em modelos em células. E temos outros parceiros, por exemplo, os nossos parceiros na Suíça identificaram um recetor metabólico extremamente importante no tecido adiposo, que foi um grande foco da pesquisa do nosso projeto. E nós tentamos reunir pessoas que efetivamente consigam trabalhar nas diferentes áreas, porque nós não somos especialistas em todas as áreas. E desta maneira, ter uma abordagem mais holística e que consigamos ter respostas mais completas pra um determinado problema.
Cecília, boa parte destes contatos que são feitos, desta troca de informação que surge, falarmos do caso do projeto do Rui Castro, de País Basco, Suíça. Todo este nível de conhecimento que se vai adquirindo sobre o que está a ser feito noutros laboratórios, noutros mundos, é muitíssimo importante pra vossa investigação e vem também da vossa formação e da experiência, dos contatos que desenvolvem no exterior. E o mesmo acontece também com investigadores estrangeiros Que vêm trabalhar para Portugal e que desenvolvem trabalho em Portugal. Na Faculdade de Farmácia, encontra frequentemente e orienta frequentemente alunos de outros países. Qual é a receptividade que encontra deles? Falar com investigadores portugueses que vão beber dos ensinamentos lá fora, eu costumo fazer com frequência. E o contrário, como é que eles olham para a ciência que se faz em Portugal e que está a ser feita cá?
Eu julgo que com bons olhos e a prova disso é que de facto recebemos muitos alunos estrangeiros na Faculdade de Farmácia e no Instituto de Investigação do Medicamento, em particular. De facto, quer alunos de mestrado, quer alunos de doutoramento e até investigadores em pós-doutoramento, fazem efetivamente períodos curtos, como uma rotação pelo nosso laboratório, quando acham que, de facto, no nosso laboratório podem fazer uma parte importante do seu trabalho, ou porque temos algum equipamento em particular, ou porque temos alguma abordagem experimental que lhes interessa e que pode ser útil ao seu próprio trabalho, passam de facto por cá. Portanto, é muito comum, e não só, obviamente, na Faculdade de Farmácia, mas noutras instituições de investigação a nível nacional, cada vez é mais habitual termos este tipo de interação com investigadores estrangeiros. E muito soltar, de facto, muito soltar, porque é muito enriquecedor para todos.
No Observador e o projeto Mentes Brilhantes temos também várias vezes dado eco e ampliado o trabalho de alguns desses investigadores que estão cá a desenvolver trabalho. Estamos a aproximar-nos do fim. Eu estava a olhar para o relógio para ver o nosso tempo. Não queria deixar, no entanto, de lhe colocar uma questão que nos chegou de um leitor, que quando anunciámos que íamos ter esta aula prática sobre fígado gordo, colocava uma questão muito específica: resistência à insulina. Sabemos que a obesidade e a diabetes são fatores de risco para o desenvolvimento da doença do fígado gordo. A resistência à insulina é uma causa e uma consequência também da doença? Podemos colocar assim?
Exatamente. Tanto causa como consequência. Portanto, se calhar é um pouco difícil dizer o que é que surge primeiro, porque elas são mutuamente dependentes. Mas é verdade que a existência de resistência à insulina provoca a afetação do próprio fígado e, portanto, tem ou dá origem ao desenvolvimento de fígado gordo não alcoólico e o contrário também é verdade. A acumulação de lípidos, de gorduras no fígado e também uma certa desregulação do metabolismo dos hidratos de carbono, dá origem também à resistência à insulina. Portanto, ambos são verdade e julgo que não é possível dizermos o que é que surge primeiro. E o melhor é realmente acreditarmos que existe aqui uma relação entre os dois, que é muito importante, efetivamente.
Rui, este mesmo leitor coloca uma questão e fechamos esta nossa conversa, tal como começamos, falando neste caso em estilos de vida. E a questão é: os consumos desregulados, e a Cecília usou agora a expressão, os consumos desregulados de alimentos processados contribuem também para este problema, neste caso, cereais, açúcar e gorduras hidrogenadas? É uma questão que este leitor nos coloca. E aqui quando falo em cereais, por exemplo, que se fale de cereais refinados ou altamente processados. Contribui também para o fígado gordo?
Absolutamente, sim. Portanto, de facto pensa-se que um dos principais fatores que contribuem para o desenvolvimento de obesidade e consequentemente fígado gordo, sejam estas novas dietas em que cada vez mais entram alimentos processados e refinados nessas dietas. Inclusive, por exemplo, em Portugal e Espanha, em que tínhamos taxas de obesidade e de fígado gordo relativamente baixas há alguns anos atrás, por causa da nossa dieta mediterrânica.
Famosa dieta mediterrânica.
Mas que mais recentemente estamos muito a virar-nos para o fast food, para as comidas rápidas e fáceis, que não são aquelas que são nutricionalmente mais equilibradas. E, portanto, efetivamente, como o leitor diz, e bem, este consumo de gorduras saturadas, de alimentos processados, são efetivamente grandes contribuintes de obesidade e consequentemente fígado gordo.
Posso acrescentar aqui uma coisa importante, que é: neste momento, a forma mais eficaz de evitar a progressão desta doença ainda é a mudança dos estilos de vida. E se conseguirmos uma diminuição do peso de cerca de 10%, uma diminuição continuada, impede-se a progressão da doença. Portanto, efetivamente, uma alimentação muito cuidada, sem utilizar alimentos processados, é muito eficaz a evitar a progressão da doença. Portanto, pensar que isto, de facto, até é fácil. Na verdade, não é, porque modificar os comportamentos e os estilos de vida acaba por ser sempre muito complicado.
Aí mexe com os comportamentos das pessoas.
Mas uma perda de peso continuada de apenas 10% é suficiente para evitar, em muitos casos.
E exercício físico.
E exercício físico.
E boas noites de descanso, naturalmente. Eu creio que é uma excelente toada para concluirmos a nossa conversa. Rui Castro, Cecília Rodrigues, quero agradecer a vossa disponibilidade e a vossa generosidade em terem partilhado comigo e com quem nos está a ver e a ouvir, esta aula prática em torno da doença do fígado gordo. Esta foi mais uma aula prática do projeto Mentes Brilhantes. Obrigado por terem estado desse lado. Até à próxima.