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As entrevistas Aula Prática fazem parte do projeto Mentes Brilhantes, uma iniciativa do Observador sobre a primeira linha de investigação científica em Portugal, que resulta de uma parceria com a Fundação la Caixa e o BPI.
Bem-vindos a mais uma Aula Prática, um conjunto de entrevistas sobre ciência que faz parte da iniciativa Mentes Brilhantes, do Observador, dedicada à investigação que se faz em Portugal. Nestas aulas práticas, juntamos habitualmente dois cientistas, um mais experiente e outro a dar os primeiros passos. Tem sido assim na maior parte destas conversas e será assim hoje também. Queremos saber o que os une, as oportunidades que agarram, os projetos que estão a desenvolver, as conquistas de financiamento e muito mais. Eu sou o Paulo Farinha e temos em estúdio Inês Reis Claro. Tirou a licenciatura e o mestrado em Bioquímica na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. É aluna de doutoramento na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e está atualmente no Instituto de Investigação e Inovação em Saúde, o I3S, no Porto, graças a uma bolsa INPIT da Fundação la Caixa, as bolsas de doutoramento. Está a estudar atualmente as assinaturas do RNA mensageiro em tumores associados ao fumo do tabaco, especificamente o cancro do pulmão, da bexiga e da cabeça e do pescoço. Já falaremos um pouco sobre isso. Temos também Miguel Seabra, licenciado em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa. Fez o doutoramento em Bioquímica e Biologia Molecular na Universidade do Texas, nos Estados Unidos, e dirigiu a Unidade de Medicina Molecular e Celular no Imperial College, em Londres. Foi presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia entre 2012 e 2015, e já falaremos um pouco sobre isso também. É atualmente investigador principal e professor da Nova Medical School e líder da Iniciativa de Terapia Genética Ocular de Baixo Custo na Fundação Champalimaud. Está a estudar formas de desenvolver um tratamento preventivo para a degenerescência macular da idade. Tema, aliás, sobre o qual já tivemos a oportunidade de conversar na Rádio Observador. E além destes dois cientistas, temos também a jornalista Cláudia Pinto, de quem vou ser assistente de laboratório nesta conversa com os nossos convidados.
Olá, muito obrigada pelo convite. Convidaram-me uma vez e eu quis voltar. Inês Reis Claro, tem 26 anos. Ninguém da família é da área da ciência, mas a Inês sempre gostou de colocar questões. Foi por isso que optou por esta profissão. Era daquelas crianças que fazia muitas perguntas e a curiosidade é uma qualidade obrigatória para quem trabalha nesta área.
Muito obrigada pelo convite, pela oportunidade de estar aqui um bocadinho a falar sobre ciência. Sim, eu acho que o que sempre me levou a gostar desta área é as perguntas que vão surgindo, o porquê das coisas, a curiosidade por trás de ver alguma coisa acontecer e tentar perceber o que é que leva a que isso aconteça. E acho que foi um bocadinho sempre por aí que o meu percurso, tanto acadêmico como agora no doutoramento, tem vindo a crescer e esta curiosidade inerente eu acho que faz parte e é importante para quem trabalha em ciência, que é aquilo que nos faz sempre querer continuar e querer perceber o que é que está a acontecer.
E era daquelas crianças que perguntava muitas vezes por quê, que às tantas os pais já estavam cansados de ouvir perguntas?
Sim, e que dizia depois com uma certa idade, acho que comecei a ser daquelas um bocadinho mais chatas, do: "Isso não faz sentido. Isso não faz sentido".
Não se convencia facilmente.
"Tem que haver outra razão". Sim, acho que sim.
A Inês é no laboratório que se sente bem, disse-me numa conversa prévia a esta entrevista, mais precisamente na bancada, mas também há dias difíceis. Quais é que são esses dias?
Eu acho que temos sempre uma vontade de ver resultados e às vezes queremos ver determinados resultados que nem sempre acontecem. Queremos ver um efeito, uma causa, e nem sempre é possível. Temos que saber lidar com a frustração neste trabalho. Mas acho que faz parte e todos os cientistas são resilientes.
Falávamos nisso há pouco, não é? Que é preciso uma grande resiliência. Mas nós jornalistas também passamos pelo mesmo, portanto, não se sinta sozinha. E o que é que são dias bons, por outro lado?
São dias em que temos resultados e bons resultados, e sentimos que faz sentido e que o nosso trabalho está a ter resultados e frutos. Pelo menos para mim, eu acho que um dia em que tenho um resultado novo já é um bom dia. Às vezes, nem sempre é o resultado que eu espero e nem sempre é o resultado que eu quero, mas ainda assim, um resultado é um resultado e puxa por nós.
Miguel Seabra, ainda consegue de vez em quando fazer algum trabalho de bancada?
Não. Infelizmente, deixei de fazer bancada há bastante tempo e se perde o ritmo. Toda aquela envolvente de estar na bancada, as horas que são necessárias, as interrupções para fazer experiências, levam tanto tempo que é muito difícil. Nós não podemos decidir: "Olha, agora vamos duas horas para a bancada".
Essas duas horas são muito putas a fazer relatórios, a apresentar candidaturas.
Não, é mais porque em duas horas, se calhar, não se faz nada de útil. E, portanto, não havendo nada de útil que se possa fazer, o que podemos é acompanhar, de facto, e quando somos mais treinados em certas técnicas, aí temos um papel importante. Mas eu tenho a dizer que ao fim de 30 e poucos anos de carreira, que agora há muitas técnicas que me ultrapassam completamente e que são os meus colegas mais sêniores Que me ensinam a como se fazem determinadas coisas.
São 40 anos aqueles que vos separam de idade, de experiência, que separa o Miguel Seabra da Inês Reis Claro. Já falaremos um bocadinho com a Inês sobre o que se aprende com os mais velhos. E aprende-se muita coisa com os mais novos, Miguel Seabra?
Muito, claro. Eu acho que sempre aprendemos, mas à medida que nos tornamos mais seniors, eu acho que mais aprendemos com os mais novos. E o recrutamento para o laboratório é absolutamente chave, porque, neste momento, eu teria muita dificuldade em recomeçar do início. Apesar de em 2016, depois de sair da RCT, eu recomecei um laboratório com uma estudante. Era eu e uma estudante. Mas era mais simples, não tínhamos tantas linhas de investigação, só tínhamos uma, e durante esse período, as coisas foram um bocadinho difíceis. Mas à medida que recrutei gente mais senior.
Foi deixando aí a função.
São eles que me ensinam todos os dias.
Miguel Seabra, quando nos anos 80 do século passado abandonou a carreira de médico, se podemos colocar assim. Se calhar a palavra é forte, porque nunca se deixa exatamente essa carreira e será médico sempre. Mas quando deixou a clínica e passou a dedicar-se à investigação, essa decisão foi muito complicada, mais ou menos complicada, extraordinariamente complicada? Como é que se dá esse passo?
Desculpa. É uma pergunta que realmente vai à muche, porque foi, de facto, uma grande novidade na altura, sobretudo pra família.
Seu pai era oftalmologista.
O meu pai, por acaso, era oftalmologista. Eu só fui para a oftalmologia bastante mais tarde, até por caminhos um pouco aleatórios, mas havia toda uma expectativa de uma carreira clínica pra mim. Talvez o que me desmotivou, na altura, foi a medicina hospitalar que se fazia em Portugal. E fiquei desiludido. E também gostava muito de fazer perguntas mais profundas, porque o médico que não investiga, aplica, e depois ganha experiência, porque os doentes e tudo, tem muita coisa importante que ele faz, mas eu gostava de estar um passo atrás disso, um passo antes disso. Portanto, foi mesmo uma aventura. Estava recém-casado e fomos para Dallas, Texas, longe dos grandes centros urbanos, longe de tudo, mas foi uma experiência extraordinária.
Um dos seus projetos que está a desenvolver tem justamente a ver com a degenerescência macular da idade, portanto, a DMI. Curiosamente, chegou a um tema que é bastante querido na família, com pai oftalmologista. A degenerescência macular da idade está ligada ao avançar dos anos. Tem estudado, portanto, formas de reverter esse efeito do envelhecimento. Nós hoje em dia vivemos mais, e se calhar, daqui a 20 ou 30 anos, a esperança média de vida terá aumentado ainda mais. Mas não estamos exatamente a viver melhor. Acha que conseguiremos, daqui a umas décadas, garantir mais qualidade de vida à população acima dos 70, 80 anos?
Eu penso que sim. A resposta é sim, sem dúvida nenhuma. O que tem sido curioso é que enquanto vemos muito mais gente a morrer na década dos 90 e até alguns que passam os 100, o limite máximo de vida não tem aumentado. Isso ainda é uma pergunta que está por responder na área do envelhecimento. Portanto, assumindo que é verdade e que há um máximo para a existência humana, claro que ela deve ser vivida da melhor forma possível. E eu acho que é isso que nós estamos a tentar com quem estuda estas doenças ligadas à idade, que são muito comuns. É tentar melhorar a qualidade de vida, mas também estender ou diminuir a progressão dessa doença, de forma que a pessoa tenha, efetivamente, uma melhor vida.
Anos com melhor qualidade.
Exato.
Inês, ouvimos o Miguel a dizer que aprende muito com os cientistas mais novos. A Inês tem o privilégio e a sorte, segundo nos disse, de ter duas orientadoras que a encaminham na sua investigação. Sente que a sua investigação e aquilo que estuda bebem muito do apoio que tem dos orientadores?
Sim, sem dúvida. Eu acho que é uma parte muito importante termos uma orientação e uma supervisão boas. Tenho muito a agradecer às minhas orientadoras, a doutora Alexandra Moreira e a doutora Isabel Pereira Castro, no i3S. E acho que ter boa orientação molda muito a forma como nós também aprendemos e sendo estudante de doutoramento, acho que a ajuda delas sempre foi muito importante em todos os passos que tenho vivido nesta altura mais académica. E acho que o já terem também passado por determinadas coisas que me estão a acontecer agora, não só a frustração, mas os resultados, as coisas inesperadas que nos vão acontecendo, acho que termos alguém que também está lá para nos dizer: "Isso é normal, isso acontece".
"Eu já estive aí." Há uma linguagem partilhada, não é?
Exatamente. E acho que é muito importante para sentirmos também que está tudo bem e que faz parte.
Muito bem, e o que é mais desafiante para uma cientista aos 26 anos?
Acho que é uma boa pergunta. Não sei se diria desafiante. Acho que todos os dias são uma aprendizagem, e todos os dias têm diferenças, mas isso também é um bocadinho o que me puxa para esta área. Todos os dias são diferentes, todos os dias algo novo pode ou não acontecer, e há muito o inesperado. E acho que isso, para mim, é um ponto positivo.
E sente que os cientistas mais velhos e os orientadores ouvem os mais novos, e é importante serem ouvidos?
Eu acho que sim. Acho que há sempre casos e casos, mas acho que, pelo menos eu sinto que as minhas ideias e as minhas opiniões têm lugar, são ouvidas e são tidas em consideração também. Sim, tenho essa sorte, pelo menos.
E aqueles dias difíceis depois são compensados pelos dias bons.
Sim, 100%.
É isso. Miguel, a carreira do Miguel divide-se sobretudo em três países: Portugal, Reino Unido e Estados Unidos da América. A experiência internacional é importante e já falámos que foi pioneiro nisso e que até, numa conversa prévia que tivemos nesta gravação, disse-nos que a família, na altura, não aceitou muito bem esta sua ambição de ir para fora, mas é algo que aconselha aos seus alunos?
Sim, eu acho que é muito importante ter essa experiência internacional. Ela tem muitos formatos, mas acho que é essencial expor-se durante o seu treino a várias áreas de investigação, não ficar sempre toda a vida só focado num certo campo, porque isso é limitativo e as perguntas depois vão mudando e uma pessoa assim está pouco adaptada para ir seguindo a carreira. É isso.
Também permite outro olhar, o estar lá fora noutros países, noutras realidades.
E contra mim falo, porque muitos dos meus melhores mestrandos, que é quando nós os pomos à prova, entram no laboratório e muitas vezes queremos aliciar para fazer um PhD, um doutoramento, e os melhores têm muitas opções e fazem muitíssimo bem. E sempre os apoiei e sempre com pena, mas eles mantêm alguma ligação ao laboratório e isso também é importante.
E o regresso acaba sendo mais tarde.
Sim, é como se tivéssemos construído uma rede mundial de pessoas que passaram pelo meu laboratório e até pelos meus colegas, e que têm aquela ligação inicial ao nosso centro de investigação.
Também imagino que seja um motivo de orgulho ver que eles estão a voar.
Completamente. E tenho agora, nesta idade, já tenho exemplos de quase tudo. Que os meus estudantes e pós-docs e até mestrandos que seguiram carreiras diferentes e têm sucesso diferente. Alguns ainda estão no estrangeiro. Por exemplo, há uma estudante minha que fez o PhD comigo e agora é CEO de uma startup na Suécia. Temos tudo.
As coisas mudaram muito. Existe também mais concorrência, se calhar outro tipo de apoios. Os meios à disposição também são outros. É hoje mais difícil fazer ciência do que quando começou?
Eu penso que sim. Não era fácil e sempre foi muito difícil e, por exemplo, em Portugal era impossível. Eu estou a me referir, por exemplo, ao que são o Reino Unido hoje e há 30 anos ou os Estados Unidos hoje e há 30 anos. Tudo mudou tanto que, se calhar, nem tenho muita opinião, porque também a comunidade aumentou muito, a científica mundial, europeia e portuguesa. Isso traz, obviamente, problemas de financiamento, porque há cada vez mais boas candidaturas e o dinheiro não chega. A taxa de sucesso está a tornar-se ridiculamente baixa, de uma maneira que vai prejudicar muitos laboratórios que não estando a fazer as coisas da moda, são muito importantes para o progresso. E a gente nunca sabe de onde é que vem o próximo breakthrough. E essa é que é a realidade. E há uma certa tendência, quando se chega a taxas de sucesso muito baixas, de se financiar aquilo que está na moda, que é novo ou que há uma nova tecnologia, depois toda a gente quer fazer aquilo. Há sempre um certo exagero, mas somos nós, natureza humana.
E sempre foi assim ou isso nota-se mais agora?
Nota-se mais agora. Nota-se mais porque tem que se fazer mais seleções. Quando havia 20 a 30%, podíamos ter um leque muito maior de tipos de investigação do que quando as coisas se reduzem a níveis mais baixos. Por outro lado, tem havido muito mais dinheiro na parte privada, sobretudo nos Estados Unidos e no Reino Unido, em que há doações ou charities, como se diz em inglês, que são fundações que estão especificamente a angariar fundos para investigação. E em Inglaterra encontra de tudo. E nos Estados Unidos, desde a doença mais rara que afeta 10 doentes e já tem uma fundação e já está a tentar, até às grandes doenças do presente e que também atingem. E nesse aspecto, a Fundação la Caixa, aqui em Portugal, tem sido muito importante.
Nos últimos seis, sete anos, o incremento foi extraordinário, graças, em parte, ao financiamento, quer com as bolsas Caixa Impulse, que permitem dar passos para a criação de pequenas empresas ou já quando estamos a falar da aplicação na prática, quer com as Caixa Research de investigação em saúde, que foi o caso da sua, quer com as bolsas INP-IT, que é o caso do programa a que a Inês se candidatou e ao qual conseguiu ter acesso e graças ao qual vai ter em breve, falávamos do Reino Unido, a sua primeira experiência internacional. Vai estar em Oxford dois meses. Quando é que arranca?
No início de março.
Ok.
Estou muito entusiasmada. É, de facto, a minha primeira experiência internacional. Sempre tive esta vontade de o fazer. Agora, de facto, as condições reuniram-se de uma forma que me permite viajar e estar fora durante algum tempo. E acho que até é um bocadinho no seguimento do que estávamos a falar.
Precisamente.
Esta criação de uma rede também, que para nós é tão vantajosa e em ciência eu acho que é tão importante termos esta rede que nos apoia e não só que tem esta massa crítica. Estarmos expostos a diferentes ideias e acho que é muito vantajoso.
Até porque o processo de seleção, no caso da Inês e da esmagadora maioria dos estudantes de doutoramento que conseguiram uma INP-IT, é uma INP-IT Returning, no seu caso, para retenção de talento no país.
Em Portugal e Espanha.
Em Portugal e Espanha. Estamos a falar de cerca de 600 candidaturas para um número de 30 selecionados.
Sim.
Idealmente, quando é possível, um doutoramento conclui-se em quatro anos, aproximadamente. O fim desse prazo será 2028, portanto foi 2024.
2024, exatamente.
Já pensa nisso, apesar de 2028 ainda parecer longe ou está já ao virar da esquina? Para um cientista está sempre ao virar da esquina.
Sim, acho que sim. Acho que ainda assim, quando comecei os quatro anos ainda parece um período aceitável. A verdade é que o tempo passa a correr e entre experiências, entre resultados, nós vemos o tempo a passar. E se houve uma razão também que me levou a querer fazer um doutoramento, foi perceber que o tempo passa a correr em ciência. E cada coisa que nós descobrimos é mais uma pergunta. Eu fiquei a sentir que me faltava mais. Foi por isso que eu quis continuar. Ainda assim, mudei um bocadinho o tema quando entrei no doutoramento.
Acaba sempre por parecer pouco tempo.
Miguel, é inevitável perguntar-lhe. Temos connosco em estúdio um ex-presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia. Não posso deixar de lhe perguntar: já teve a oportunidade de dizer no passado ao Observador que não tem saudades desse tempo, que quase arruinou a sua carreira científica. Como é que um ex-presidente da FCT vê a extinção da fundação e a sua fusão com a Agência Nacional de Inovação para criar a nova Agência para a Investigação e Inovação, a A2I?
Penso que neste momento é demasiado cedo para vermos como é que vai funcionar, que vantagens é que vai trazer. Nisso penso que toda a comunidade está um pouco à espera daquilo que sejam efetivamente práticas diferentes daquelas que já existem, que a fusão não seja só a união separadamente, mas sob um mesmo teto de duas entidades separadas.
Acha que facilitará mesmo os procedimentos e o acesso a financiamento, como era um dos apanágios do governo?
A minha grande preocupação é que quando fui presidente da FCT, tive sempre a preocupação de fazermos aquilo que se chama um benchmarking. Um benchmarking é estudar como é que as agências de financiamento, neste caso, funcionam nos vários países. E decidirmos por um modelo que nos parece o mais adequado em termos daquilo que produz e em termos daquilo que é possível fazer em Portugal. Infelizmente, eu não consigo, e estou um pouco desatualizado, portanto isto pode não corresponder inteiramente à verdade, mas que eu saiba, não há modelos internacionais que juntam estas duas agências de investigação e de inovação. Elas são sempre separadas, às vezes há múltiplas de cada uma, mas esta junção é uma experiência portuguesa e que eu penso que por não ter um modelo, vai ser mais difícil de pôr no campo.
Uma das coisas que tem sido dita e que é também uma grande ambição de quem faz ciência em Portugal é que assim, pelo menos isso foi veiculado, que isso poderá a médio prazo conseguir garantir melhores remunerações, melhores vencimentos para os cientistas em Portugal. Isso é um horizonte longínquo ou é uma miragem, ou pode-se falar verdadeiramente disso e dessa ambição?
Eu penso que o principal objetivo não é esse, e que secundariamente isso possa acontecer. O primeiro objetivo é tentar canalizar fundos estruturais e fundos nacionais numa perspetiva que possa multiplicar alguns fundos. E eu acho que é uma ideia interessante, sem dúvida, e se der resultado, penso que é uma mais-valia para o nosso país. Mais uma vez, temos que esperar um bocadinho e ver, porque vai ser difícil, não vai ser fácil de fazer essa...
Muito bem.
Inês, está a estudar diferentes níveis de expressão das isoformas, é assim que se diz? Nas células tumorais, em comparação às normais, no cancro da bexiga, do pulmão e do cancro da cabeça e do pescoço, que são tumores muito associados ao tabaco. O que pretende descobrir e por que escolheu esta área de investigação?
O porquê de eu ter escolhido esta área vem um bocadinho no seguimento da minha tese de mestrado. Comecei a trabalhar com o mRNA, no caso até com as vacinas, com a tecnologia das vacinas do Covid. E todo o mundo do mRNA e este potencial do mRNA noutras áreas, para além da terapêutica, que na altura ganhou grande destaque, mas neste caso então um bocadinho mais aplicado na oncobiologia, sempre me fascinou e achei que era uma área muito interessante e que podia ter resultados novos e inovadores. A base do projeto então é tentar perceber se células tumorais e células normais apresentam níveis diferentes de determinadas isoformas de mRNA. E o trabalho tem prosseguido dessa forma e de facto temos tido resultados interessantes.
E o que são isoformas do mRNA para quem está a ouvir ou a ver conforme o formato e não faz ideia do que estamos a falar.
De uma forma geral, nós sabemos que o DNA é transcrito para RNA e depois há a produção de proteínas. O RNA pode ter diversas isoformas, portanto, a partir do mesmo DNA, não falando em mutações, podemos ter isoformas diferentes de mRNA. No meu caso, especificamente, eu trabalho com uma coisa que pouco se fala normalmente, que é a polianilação ou a polianilação alternativa, neste caso E nós estudamos diferentes isoformas de mRNA que vêm do mesmo gene e são estas que nós estamos a tentar identificar como alteradas nos tumores.
Muito bem. E no seu estudo foi possível também recolher amostras e trabalhar com um clínico do IPO do Porto. Como é que resultou esta parceria e de que forma é uma mais-valia para a investigação?
Sim, eu acho que sim. O projeto também começa com esta necessidade por parte dos clínicos em novos biomarcadores, novos alvos terapêuticos, porque sabemos que principalmente na área do cancro, a procura pela cura ou por novos medicamentos, novos tratamentos, é sempre uma parte importante. E a interação com esta equipa de clínicos também foi um fator que me levou a achar que este projeto pode vir a ter um bom impacto, porque de facto, o cancro afeta muita gente e principalmente cancros associados ao fumo do tabaco, que é um fator de risco muito grande. E acho que o termos uma equipa abrangente, mais uma vez também voltando um bocadinho a este tema do networking, acho que é sempre um ponto benéfico na ciência no geral.
Miguel, está a estudar as formas de desenvolver um tratamento preventivo para a degenerescência macular da idade. É um nome também difícil. Vocês têm nomes muito complicados para os repórteres pronunciarem. E acha que prevenir pode ser então a solução para a cegueira nos idosos?
Sim. Não estamos a falar de prevenir no sentido comum da palavra. Estamos a tentar manter as células que vão morrer, mais saudáveis e vivas durante mais tempo, a funcionar. Portanto, estamos a trabalhar em compreender quais são os mecanismos que levam as células a morrer. E nestas doenças relacionadas com o idade, são sempre múltiplos mecanismos que levam a essa situação, para intervir farmacologicamente ou geneticamente nessas situações, exatamente para corrigir ou contrabalançar. Por exemplo, o estresse oxidativo é muito importante e nós temos estudado agora maneiras de aumentar a capacidade antioxidante da célula. E com isso esperamos que, porque essa oxidação, esses radicais oxidativos vão estragar componentes da célula, até o DNA pode ser alterado por esses agentes oxidativos. Portanto, esse é um dos aspetos, não é o único. Nós gostamos de trabalhar muito com lisossomas. Lá está outro termo.
O que são lisossomas?
Lisossomas são os organelos dentro da célula que digerem aquilo que as células trazem do exterior, mas também da reciclagem interna das células. E esses mecanismos, chamados no geral proteostase, são muito importantes nestas doenças. Por exemplo, em Alzheimer, formam-se, na doença de Alzheimer, formam-se agregados proteicos que não deviam estar lá, deviam ter sido eliminados pelas células. E na retina é um pouco a mesma coisa, ligeiramente diferente, mas um pouco os mesmos princípios.
Miguel, se pudesse escolher apenas um avanço científico na próxima década, se tivesse que apostar as suas fichas num grande avanço científico da próxima década, qual acha que seria ou que será?
É uma boa pergunta. Eu aposto as minhas fichas na edição genética. Portanto, a edição genética agora é uma forma que temos de ir ao DNA e corrigir o defeito. É nisso que estamos a trabalhar também na Champalimaud.
Na Fundação Champalimaud.
Portanto, são umas fichas que uma delas é nossa , as outras, que através destes mecanismos que foram utilizados nas vacinas Covid, fazer com que possamos, nas doenças genéticas, por exemplo, ir corrigir defeitos muito específicos e tornar as células normais. E eu acho que isso seria fantástico. E já há estudos clínicos que comprovam, meia dúzia deles, mas absolutamente de ficarmos de boca aberta, em que isso foi bem sucedido.
Muito bem, ouviram aqui primeiro. As fichas de Miguel Seabra estão apostadas na edição genética. Dentro de uns anos veremos se é assim, de facto ou não, e se é uma das áreas da moda em que poderá haver mais financiamento nos próximos anos. Miguel Seabra e Inês Reis Claro, obrigado pela vossa disponibilidade. Foi um gosto ter-vos conosco. Cláudia Pinto, obrigado a ti também. Obrigada também. Foi mais um episódio da Aula Prática, uma série de entrevistas do projeto Mentes Brilhantes do Observador. Está disponível no site, nas plataformas de podcast e na Rádio Observador. Até à próxima conversa.
As entrevistas Aula Prática fazem parte do projeto Mentes Brilhantes, uma iniciativa do Observador sobre a primeira linha de investigação científica em Portugal, que resulta de uma parceria com a Fundação la Caixa e o BPI.