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As entrevistas Aula Prática fazem parte do projeto Mentes Brilhantes, uma iniciativa do Observador sobre a primeira linha de investigação científica em Portugal, que resulta de uma parceria com a Fundação la Caixa e o BPI.
Olá, esta é a Aula Prática, uma entrevista do projeto Mentes Brilhantes, uma iniciativa do Observador sobre investigação científica em Portugal. Nestas aulas práticas, juntamos especialistas com experiências diferentes, com idades diferentes e com percursos diferentes. E nestas conversas queremos conhecê-los um pouco melhor, perceber o que os une e falar um pouco sobre os projetos de investigação que têm atualmente e como é isto de fazer ciência em Portugal. Eu sou o Paulo Farinha e tenho comigo Sara Silva Pereira, investigadora do Católica Biomedical Research Center e professora na Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa. Licenciou-se em Ciências Biomédicas no King's College, em Londres, e tem um doutoramento em Parasitologia Veterinária em Liverpool. Já fez investigação no Quénia, no Brasil e em Espanha e está atualmente a estudar a doença do sono nos animais. Bem-vinda, Sara. E temos também Carlos Ribeiro, investigador principal da Fundação Champalimaud, onde foi um dos fundadores do Champalimaud Neuroscience Program em 2009. Nasceu na Suíça, onde viveu até aos 28 anos. Foi lá que fez o doutoramento em Biologia Molecular, em Basileia, e tem também um pós-doutoramento no Instituto de Patologia Molecular em Viena, na Áustria. Está a investigar a tomada de decisões da mosca da fruta e como os micróbios que vivem no nosso intestino afetam o comportamento dos seres humanos. Não sei se é exatamente assim, mas já vamos conversar um bocadinho sobre isso. E também como podem afetar o funcionamento do nosso cérebro, contribuindo para o autismo ou a depressão. E temos conosco também a jornalista Cláudia Pinto, que fará comigo esta conversa com os nossos convidados.
Olá, obrigada pelo convite. É um gosto estar aqui convosco. Carlos Ribeiro, começo por si. Tem contribuído para formar jovens cientistas que hoje dão cartas pelo mundo fora e tem ajudado também a trilhar esses novos caminhos da ciência. Como é que tem assistido a este percurso?
Antes de mais, muito obrigado pelo convite. É sempre um prazer estar aqui e falar sobre o nosso trabalho, o nosso percurso. Creio que a ciência é uma aventura. É um privilégio poder ter essa aventura e contribuir para o avanço do conhecimento da nossa espécie, também encontrar caminhos para resolver problemas. E creio que uma das coisas que dá mais satisfação é ver crescer novos talentos, novas gerações que vão depois encontrar o seu próprio caminho. É um dos grandes privilégios e também uma das vantagens a ter um pouco mais experiência de ver também já esse percurso.
O Carlos é filho de pai português, mãe espanhola, imigrados na Suíça. Recorri aqui às minhas cábulas. Foi o primeiro da família a ir para a universidade. Estudou na Áustria e na Suíça. A experiência que teve lá fora ajudou a ver a ciência de forma diferente e a trazer um novo olhar para Portugal?
Creio que nós sabemos na ciência que a experiência internacional e também a minha colega aqui tem um percurso muito internacional. Sabemos que ter uma visão abrangida de diferentes experiências, sobretudo experiências internacionais, é uma coisa que é muito enriquecimento e que é muito importante. E creio que sim, creio que ter crescido de uma família que não tem essa experiência. O que eu penso é que os imigrantes em geral, têm uma experiência muito parecida aos cientistas. Eles vão para o mundo para descobrir novos caminhos.
É um bocadinho de tentativo e erro.
Exatamente. Novas oportunidades. É ir à vida. E por isso creio que não há grandes diferenças entre o que os meus pais e os meus tios fizeram e a experiência que nós tivemos. Para mim, eles são os grandes heróis.
E curiosamente, Portugal não estava no radar. Vem para Portugal em junho de 2009, portanto já está cá há alguns anos, mas não era um país onde vislumbrasse viver. Mas depois vem com o programa da Fundação Champalimaud e até então tem vivido cá.
Sim, para mim, como cientista, eu investo muito na sua carreira e também fazer ciência precisa de uma infraestrutura, de uma capacidade de financiamento, que é muito importante. E tenho que dizer que Portugal não é um dos tops países para fazer isso. Então, depois de ter feito o meu pós-doutoramento em Viena, no IMP, que é um dos melhores institutos do mundo, com financiamento mais ou menos ilimitado, que é dado sem ter que um agariar financiamentos exteriores. Quando um tem que decidir qual vai ser a próxima oportunidade e um tem também a possibilidade de escolher, não é que Portugal estava no top top. E para mim essa era a coisa mais importante. Mas havia essa oportunidade de abrir um novo instituto com gente que era fascinante, que tinha uma dinâmica e criar uma coisa única, que também um não tem a oportunidade de fazer, por exemplo, na Suíça, onde era a minha possibilidade. Havia essa possibilidade de fazer ciência de topo, mas também criar uma nova instituição. E isso foi uma aventura única e foi também uma aventura, um risco que nós tomamos, mas que foi uma das melhores experiências da minha vida.
Sara Silva Pereira, estou a vê-la a acenar enquanto o Carlos vai respondendo às questões. A Sara estudou fora de Portugal e teve a oportunidade de fazer trabalho de terreno no Quénia, no Brasil e em Espanha. Pegando um pouco nas palavras que o Carlos dizia, o que é que se traz dessas experiências? Como é que isto é de tal forma enriquecedor para o vosso trabalho?
Olá, bom dia, obrigada pelo convite. O que é que se traz? Traz-se tudo. Traz-se uma visão completamente diferente do mundo, uma curiosidade acrescida, traz-se mais flexibilidade, principalmente em trabalho de campo, que as coisas nunca correm como nós achamos que vão correr, mas também quando vamos para outro país, as coisas nunca são fáceis, nunca são lineares. Portanto, traz-nos uma flexibilidade, uma capacidade de adaptação, que se não sairmos do nosso local de conforto, acho mais difícil chegarmos lá.
E trabalhar em realidades tão distintas como o Quénia, onde o seu principal objeto de estudo, a doença do sono, é um forte problema, sobretudo pelo impacto que provoca na economia, nos animais que têm a doença do sono. Isto ajuda também a perspetivar as coisas de forma diferente, ou seja, problemas, se calhar, são aqueles que aquelas populações enfrentam, com aquelas realidades que enfrentam, quando depois comparadas com o que nós temos neste lado do mundo, isto ajuda a relativizar?
É uma pergunta difícil de responder por um motivo que é tudo relativo. Portanto, os nossos problemas estão na nossa conjectura e os problemas no Quénia, que se fossem aqui, seriam muito grandes para nós, para eles podem não ser. Porque faz parte da cultura, faz parte do ambiente em que eles estão inseridos. Portanto, não diria isso, mas acho que nos ajuda muito a crescer, ver outras realidades.
A Sara é professora da Universidade Católica. Quando fala com os seus alunos e nos tempos atualmente em que temos tantos estímulos e tanta facilidade da obtenção da informação. Há uns 10 anos, se calhar, não falaríamos da inteligência artificial e do ChatGPT e de uma série de ferramentas que hoje existem. Há 30 anos não falaríamos do Google e dos motores de busca. As coisas estão a acontecer muito depressa. Quando se ensina ciência, isso é também refletido nos jovens para quem fala. Sente que as coisas estão a ser também muito rápidas para eles e isso tem umas dificuldades acrescidas na aprendizagem deles ou são apenas desafios com que temos que lidar e com que os professores têm que lidar?
A nível de licenciatura, eu não dou assim muitas aulas, portanto a minha experiência é limitada, mas tenho vários alunos de pós-graduação, mestrados e doutoramentos, e aí o que nós vemos, ou que pelo menos eu vejo, é que as gerações mais novas querem as coisas muito mais rápido e estão habituados a ter a informação mais rápido. Mesmo eu não fui assim tanto a uma biblioteca como se calhar o Carlos foi. Tinha já internet e essas coisas muito mais acessíveis do que há uns anos. Agora, para além disso, ainda temos o ChatGPT e afins que nos respondem às perguntas, muitas vezes mal e muitas vezes de forma incompleta. Portanto, aqui a luta é tentar ensinar onde obter informação credível e como analisar criticamente a informação que recebemos, porque mesmo indo buscá-la a um site credível ou a um artigo aparentemente credível, também é preciso haver da parte do investigador, capacidade de perceber se o que lá está faz sentido, foi bem feito, se está correto.
Nós jornalistas temos alguma formação nesse sentido de procurar fontes credíveis, de ver se o facto de uma coisa que nos aparece na internet, nas redes sociais, se é verdade, se não é, se aquilo é mesmo assim. No caso da ciência, é isso, mas num patamar um pouco diferente. Nós, aqui há tempos, tivemos também nestas conversas aula prática, uma investigadora do GIM, do Gulbenkian Institute for Molecular Medicine, a investigadora Luísa Figueiredo, também parasitologista, que falava justamente sobre o fato destas novas gerações de cientistas terem uma dificuldade acrescida em lidar com a frustração. Querem as coisas muito mais depressa e precisam das coisas de forma um pouco mais instantânea. Isto quando se ensina ciência, é preciso às vezes dizer-lhes: "Calma, temos que fazer isto com mais calma ou temos que experimentar mais vezes, ou temos que usar outros recursos." Como é que se coloca aí, às vezes, o travão para travar este imediatismo que eles querem?
Eu acho que todos os cientistas são, devido à sua natureza curiosa, já impacientes por si. Portanto, é tentar aqui encontrar o equilíbrio entre não vamos estar acomodados e deixar de ser curiosos e impacientes e querer mais, ser ambiciosos, e não querer as coisas para ontem, porque para ontem ficam mal feitas. Na minha perspetiva e na perspetiva de quem está a liderar o grupo de investigação, o que eu tento fazer é demonstrar o que é preciso para ter dados em condições, os controles que são necessários, as várias experiências, os vários passos, e tentar, para mim ajuda-me e acho que para os meus alunos tem ajudado, fazer planos. Ok, o plano A é este. Se a experiência der outra coisa, o plano B é aquele, para tentarem ter alguma previsibilidade, porque eu também já estive lá e continuo a sentir o mesmo, que às vezes é: "O que nós estamos aqui a fazer? Se isto não corre bem, o que nós fazemos?" Mas se nós tivermos várias opções, quando as coisas acontecem, sabemos, não nos sentimos perdidos. E acho que também é importante para as gerações mais novas terem apoio para não se sentirem perdidos.
Carlos Ribeiro está a concordar. Não sei se quer dar uma achega, se quer comentar o que a Sara disse.
Descreveu muito bem a situação. Nós também não temos que ter esse fetiche de sempre dizer: "Bem, as novas gerações". Porque nós já estivemos aí também.
Também sentiu isso no seu percurso.
Também já sentimos isso. Para mim, uma coisa que é muito interessante é: eu vi uma vez um vídeo de um professor de bioquímica em Stanford, que dava a primeira aula para estudantes. E mostrou um livro de bioquímica e diz: "Bem, neste livro está tudo o que nós vamos aprender aqui na minha aula. Agora, qual é o problema? É que 50% do que eu vou dizer, em 10 anos já não vai ser correto e 50% vai ser correto. Agora, qual é o problema? Eu não sei quais são os 50% do que é correto e que não é correto". E esse é o desafio, é saber o que está correto e construir nessas coisas, e desafiar as coisas que não são corretas ou que nós podemos fazer melhor. Isso é o que nós vamos fazer. Na ciência sempre existiu essa tensão entre ser conservadores e construir no que os cientistas que já vieram antes já construíram, e também ser inovador e reconstruir as coisas que nós podemos fazer melhor. Quer dizer que esse desafio é uma coisa que é inerente na ciência e que também já vem agora com a inteligência artificial. Creio que as novas gerações, como a Sara estava a dizer, nós precisamos desse hunger, desse desafio. Nós queremos avançar. Os nossos pacientes não podem esperar. Eu quero ter a solução de como o cérebro funciona enquanto eu ainda estou vivo. A mim não me importa, não é o que vem depois. Mas, ao mesmo tempo, também temos a responsabilidade, e é muito importante, de ser corretos.
E é precisar dar tempo às hipóteses e ao processo.
Absolutamente. E sobretudo na ciência, na vertente que é mais desafiante, que é verdadeiramente perguntando perguntas que nós nem sabemos como vamos abordar, precisa muito tempo. E precisa muito tempo por quê? Porque nós muitas vezes vamos numa direção e não funciona. Ok, voltamos para trás e encontramos uma nova coisa. E isso precisa tempo. E é um dos grandes desafios também quando se trata do financiamento, de fazer doutorados em três anos e tudo isso. Nós precisamos de uma flexibilidade, mas também, como a Sara diz, precisamos um pouco de previsibilidade. Também temos uma vida que tem que avançar. Quer dizer, sempre há essa tensão.
Uma questão de equilíbrio entre os dois lados. O que é diferente hoje na forma de fazer ciência do que quando começou a sua carreira?
Para mim é difícil também dizer se a minha perspectiva mudou porque a ciência mudou ou porque eu mudei. Como a Sara estava a dizer, havia diferenças muito práticas. Sou daquela geração.
Fui muitas vezes à biblioteca, portanto.
Fui muitas vezes à biblioteca, mas não muito. Eu sou daquele tail end. As minhas primeiras apresentações quando era estudante de mestrado foram ainda com slides, com diapositivos. Mas depois já mudou muito depressa e chegou o PowerPoint em tudo isso. Ou também quando enviámos o meu primeiro artigo, enviava por correio. Mas depois o e-mail veio muito depressa no meu PhD. A coisa que é interessante com a ciência é que avança sempre. É um sistema dinâmico. Trabalhamos com gente nova, com novas tecnologias. É um reinventar, aprender cada dia. Por exemplo, agora nós utilizamos muito a inteligência artificial, temos o conectoma, sabemos como cada neurônio está conectado com os outros neurônios no cérebro da mosca. Nós agora temos a possibilidade de avançar construindo nossos experimentos. Uma coisa que ainda a geração antes dos meus doutorados precisavam três anos, agora se pode fazer em um mês. Mas isso não quer dizer que as coisas são mais fáceis. Quer dizer que nós vamos fazer mais, mais arriscados.
Isso não coloca uma pressão extra e não provoca uma ansiedade extra no trabalho dos investigadores?
A pressão e a ansiedade sempre existiu. Porque nós estamos, por definição, se um faz ciência de verdade, sempre está no desconhecido. Essa tensão entre como nós somos formados no estudo, que é nós temos que aprender e depois temos uma prova onde nós temos que pretender que sabemos tudo. Que há uma resposta para todas as perguntas. E quando vamos ao laboratório, nós temos que escolher uma pergunta onde não há resposta. Essa ansiedade sempre existia. A ansiedade que eu tinha como doutorando, quando eu fazia meu doutoramento, era: como é que vamos fazer isso? Não tenho ideia, como é que vamos fazer? Eu fui um dos primeiros a fazer imagens em 3D de um embrião, como se formava o sistema respiratório. Como é que vamos fazer isso? Não existia o microscópio, não existia software. Tivemos que criar o software. Hoje em dia isso já não é problema, vais à internet. Mas agora há novos desafios.
Mas há outras dificuldades e outros desafios que eles têm que superar.
Os desafios e a ansiedade sempre existiram. O que agora existe é com a interação que existe nas redes sociais. Existe muito mais possibilidade de discutir isso, e isso às vezes amplifica essas ansiedades.
E não há também aquele risco de fazer tudo muito mais depressa e se calhar não com tanta qualidade?
Esse risco sempre existiu.
E é aí que entra o papel do orientador, como a Sara dizia, para colocar o travão quando é necessário ou para planificar ou planear. Temos o plano A, temos o plano B, temos o plano C para as várias alternativas.
Sim, mas o orientador também está sob pressão elevada, se calhar até mais, porque tem pressão da instituição, porque tem pressão para obter financiamento, de publicar num determinado nível. Portanto, eu não diria que a pressão nos alunos é mais baixa que dos orientadores, é só porque nós já estamos um bocado desensibilizados e já aprendemos, ou estamos a aprender, eu ainda não estou lá, a lidar com essa pressão contínua.
Sara, em 2023, foi uma das selecionadas do programa de bolsas pós-doutoramento Junior Leader da Fundação "la Caixa". O Carlos há pouco falava de trabalhar em condições quase de financiamento ilimitado e não ter que concorrer permanentemente para novas formas de financiamento, que é uma realidade muito comum em Portugal. Como é que se vive essa pressão do financiamento? É um teste à resiliência de quem trabalha em ciência em Portugal.
É, sem dúvida. Essa é uma resposta muito curta. Sim, até porque mesmo quando conseguimos financiamento bom, como foi o caso da bolsa da Caixa, que me permitiu estabelecer o laboratório, já terminou. Portanto, agora já voltei à estaca zero. Com um currículo melhor, mas estou na mesma posição de agora vou ter que angariar outra vez financiamento para os próximos três a cinco anos. Temos aqui várias questões. As taxas de financiamento são baixas e tendem a reduzir, não a subir. Os projetos são curtos, portanto, não é que eu tenha que fazer um esforço durante um ano e depois consiga um projeto que me vai segurar durante 10. Não é isso. A maioria dos projetos são de três anos, alguns, muito poucos, de cinco.
E quando esses três ou cinco, no caso de uns, mas ainda menos, quando estão a aproximar do fim, cresce essa pressão para procurar novo financiamento?
Exatamente. Por exemplo, eu estou à espera há nove meses do resultado de uma proposta que escrevi. Diria que, em média, demora, desde que submetemos um projeto, nove meses a um ano a termos resposta. Mais depois de toda a fase de assinar o contrato. Portanto, quando o projeto está a meio, nós já estamos a pensar o que é que vamos concorrer a seguir.
Quanto do tempo de um cientista é passado a concorrer, a responder a questionários, a preencher candidaturas?
Preencher questionários muito pouco, na minha experiência, porque a maioria das candidaturas são extensas, portanto, é mais texto corrido do que questionários. Mas a escrever, neste momento da minha carreira, diria que 70% do meu tempo. Sim, 50% a 70% e o resto a orientar alunos e quando eu consigo, ainda vou ao laboratório, mas está a ser cada vez mais complicado.
Já faz cada vez menos trabalho de bancada.
Sim, vou fazendo análise, mas trabalho de bancada é preciso, por exemplo, no verão, os alunos vão de férias e eu vou pro laboratório. Tem sido um bocado assim.
E sente saudade de fazer esse trabalho de bancada?
Quando as coisas funcionam.
Carlos, recebeu o financiamento do concurso Health Research da Fundação "la Caixa", a mesma instituição. Um concurso que hoje se chama Caixa Research de Investigação e Saúde. Isto foi em 2018. Eu faço-lhe a mesma pergunta. E o Carlos conhece uma realidade diferente. Mesmo num sítio como a Fundação Champalimaud, e tendo o Carlos vindo e vestido a camisola e portanto toda essa pica e esse gozo que dá criar um projeto desde o início. Mas a pressão também, dizia há pouco o Carlos, a pressão também existe pra procurar novas formas de financiamento.
A pressão é enorme. E é uma pressão muito real. E uma coisa que um se dá conta quando começa a ter um time, é que depois não é só o nosso trabalho. São famílias, são gente que trabalha conosco, no nosso time.
Claro, isso é muito importante. Pois, jamais essa verdade.
Exatamente.
Pessoas que mudaram de vida, que mudaram de país.
Exatamente. Então temos a pressão de os projetos não funcionarem, porque nunca sabemos. É sempre o mesmo. As publicações. Também a pergunta de o que é que faz o quality control. Não somos só nós, porque nós quando enviamos para publicar, que é a coisa mais importante que nós fazemos como cientistas, depois é visto pelos pares. E eu agora, hoje de manhã, recebi dois reviews para Cell, que é um dos mais importantes jornais. E é brutal o que vem aí como comentários, que são anônimos, dos nossos colegas. É brutal. Um lê isso, depois tem que fazer: "Vou fazer um pouco de ioga. Não faço ioga, mas eu vou correr". Hoje de manhã fui correr, depois me sento outra vez e depois falo com os meus colegas, porque é um projeto com colegas dos Estados Unidos e da Inglaterra. É como ter uma companhia e ter um produto e depois dar aos seus concorrentes, e os concorrentes dizem: "Ok, podes avançar em vender isso ou não". É brutal. E depois temos a pressão de financiamento. Eu tenho, no meu quadro, um timeline com todo o financiamento e quando acaba. E eu tenho a cada momento esse TikTok.
Funciona em termos de alerta para não perder tempo, para preparar a próxima candidatura.
E na fundação, nós temos contrato a termo. Quer dizer, eu sou avaliado todos os quatro anos. Este ano vou outra vez ser avaliado.
Pelo número de publicações que fez, pelo sucesso dos seus trabalhos.
Temos um sistema que é muito interessante e que funciona muito bem, mas também é muito brutal. A cada quatro, cinco anos, nós somos avaliados por um comitê internacional, de gente muito famosa, muito importante. E nós submetemos um dossiê do que nós fizemos nos últimos cinco anos, o que nós pensamos fazer nos próximos cinco a 10 anos, o que publicamos, também o financiamento que tivemos. E depois passamos dois dias, que eles vêm pra cá, falando com eles, dando discussões. E depois, ao final, temos uma avaliação do que nós fizemos, se nós vamos poder ficar na fundação durante os próximos seis anos e também se as ideias são boas ou não. E não é sempre positivo.
Desde que o Carlos chegou e mudou de vida e veio pra Portugal, quantas vezes já passou por esse processo?
Três vezes.
E quando é que será o próximo?
É este ano.
Ok. Então, daqui a uns meses temos aqui pretexto para uma nova.
Sim, já está planejado. O meu team sabe Em novembro de 2026, vamos ter que ir outra vez. E também é um processo que não é só negativo. Nós também não temos que ver isso como negativo. É também um processo muito positivo.
Mas até lá não vai fazer ioga, mas vai dar uma série de corridas entretanto.
Todas as manhãs.
Carlos, estamos a aproximar-nos do final da nossa conversa, mas gostava de saber: como é que está o seu projeto para o qual se candidatou a uma bolsa Caixa Research em 2018? Nós falámos consigo há cinco anos, publicámos um artigo no Observador. O que sabemos hoje a mais sobre as bactérias que temos nos intestinos e como é que isso influencia o que comemos e o que queremos comer?
Ok. Nós queremos saber como é que a tomada de decisão é influenciada pelos nutrientes. E nós sabemos todos que quando temos fome ou não temos fome, temos uma abordagem completamente diferente à quantidade de comida, mas também em interações sociais. Às vezes somos um pouco impacientes quando se tem muita fome. Como é que isso funciona? Quer dizer, o cérebro tem acesso aos nutrientes, ao estômago, ao estado de nutrientes para funcionar. Então nós queremos saber como é que é essa interação entre o cérebro e o resto do corpo. E quando nós estamos a fazer essa investigação sobre os nutrientes, descobrimos, por acaso, que um dos fatores mais importantes é os micróbios que estão no estômago da mosca da fruta. Com muitas técnicas diferentes, nós descobrimos que existem duas espécies de bactérias que influenciam, na mosca da fruta, o que o animal vai escolher comer, como é que o cérebro funciona. E tentando responder essas questões que nós pusemos na Caixa, inventámos um novo método para ver como é que o cérebro funciona. Nós descobrimos ou inventámos um novo método para fazer microscopia, vendo como é que todos os neurônios no cérebro da mosca da fruta se ativam quando o animal está a comer diferente fruta e diferentes comidas e dependendo dos micróbios. Depois também descobrimos substâncias que são feitas pelos micróbios e que influenciam essas tomadas de decisões, mas ainda não sabemos como é que essas substâncias mudam o cérebro. Fizemos muitos avanços, publicámos muito, mas isso é uma frustração que eu tenho, porque já é o segundo projeto que tenho na Caixa onde agora estamos propondo isso com novas tecnologias que ainda não existiam antes, mas ainda não descobrimos como isso funciona. Mas este ano vai ser diferente. Este ano nós vamos descobrir.
Temos ainda mais um pretexto para voltarmos a marcar uma conversa consigo.
Sara, nós falámos com a Sara há menos tempo, publicámos um artigo no Observador em 2024. O projeto é sobre a doença do sono nos animais, que não está controlada como está nos seres humanos. Qual é que é o impacto económico desta realidade e o que é que descobriu, entretanto, desde a última vez que falámos consigo?
O impacto económico continua extremamente elevado, não só em África como na América Latina e também em algumas partes da Ásia. Portanto, estamos a falar na ordem dos cinco mil milhões de dólares anuais de perdas relacionadas com esta doença. Portanto, o impacto continua bastante elevado. O que é que nós descobrimos? O projeto acabou agora em dezembro, mas estamos a continuá-lo e estou a escrever projetos para tentar angariar financiamento para levar para frente, porque descobrimos uma coisa muito interessante, que é: nós estamos à procura de perceber como é que o parasita se agarra aos vasos sanguíneos, porque é um determinante da doença severa. Quanto mais o parasita se agarra aos vasos sanguíneos, quando está no seu hospedeiro, neste caso no animal, mais grave é a doença. E nós achamos que se bloquearmos esta interação, portanto, não permitirmos que o parasita se agarre ao vaso sanguíneo, conseguimos bloquear e impedir a doença de se estabelecer. E o que nós conseguimos descobrir no projeto da Caixa foram duas coisas principais. Primeiro, que o mecanismo de adesão destes parasitas é conservado, portanto, parece ser muito semelhante nas duas espécies de tripanossomas que aderem aos vasos sanguíneos. E a segunda coisa é que há um açúcar, produzido pelo parasita, que está envolvido nesta interação com o vaso sanguíneo.
Como é que a Sara se imagina daqui a 10 anos? É uma pergunta, eu sei que é traiçoeira, já que vocês vivem muito na incógnita também, mas como é que se imagina daqui a 10 anos?
Eu espero continuar a liderar o laboratório, que os meus alunos estejam contentes, que tenha mais alunos e que eles já estejam na segunda ronda de estudantes doutorados a sair do laboratório, que isso também é muito importante para mim. Em termos de ciência e descobertas científicas, espero estarmos a conseguir desenvolver um agente que bloqueie o açúcar do parasita de forma a conseguir impedir a doença e espero regressar ao Quénia para testar estes compostos, caso os consiga desenvolver.
Obrigado, Sara Silva Pereira. Obrigado, Carlos Ribeiro, pelo vosso tempo, pela vossa disponibilidade. E hoje tivemos um reforço na equipa. Obrigado, Cláudia Pinto. Eu fiz a abertura, queres fazer o fecho?
Faço eu o fecho. Foi então mais um episódio do "Aula Prática", uma série de entrevistas do projeto Mentes Brilhantes do Observador. Até à próxima.
As entrevistas "Aula Prática" fazem parte do projeto Mentes Brilhantes, uma iniciativa do Observador sobre a primeira linha de investigação científica em Portugal, que resulta de uma parceria com a Fundação la Caixa e o BPI.