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Olá, bem-vindos à Aula Prática. Vamos falar sobre ciência e investigação científica com três cientistas com experiências diferentes, currículos diferentes e centros de investigação diferentes, mas com um ponto em comum: o tema de investigação atual que estão agora a cabo. Todos eles investigam sobre lesões da espinal medula. Eu sou o Paulo Farinha e comigo tenho a Leonor Saúde, licenciada em Biologia com doutoramento em Biologia do Desenvolvimento, é investigadora do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes, em Lisboa. Diogo Trigo, licenciado em Bioquímica com doutoramento em Neurologia, é investigador da Universidade de Aveiro. E de Bruxelas, onde está atualmente em avaliação das bolsas Marie Curie, as bolsas de ciência da Comissão Europeia, junta-se a nós Mónica Sousa, licenciada em Bioquímica com doutoramento em Ciências Biomédicas, investigadora do I3S, o Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto. Olá, bem-vindos, muito obrigado pela vossa disponibilidade. Mónica, começo justamente por si. Este programa é para o público, não apenas para a comunidade científica, que é pequena no nosso país, ou relativamente pequena. Portanto, ainda que trabalhe em centros de investigação diferentes, o que começo por lhe perguntar é: já conhecia os seus colegas que estão aqui presentes comigo hoje?
Olá, Paulo, boa tarde. Sim, já conheço muito bem a Leonor e o Diogo. Conheço-os não só porque fazem um trabalho que é complementar ao meu, mas também porque, como estava a dizer, a comunidade científica é relativamente pequena e acabamos por nos conhecer mais ou menos bem todos uns aos outros.
Sobretudo quando o tema de investigação é comum, como acontece atualmente. Mónica, um dos trabalhos que está a desenvolver é, e corrija-me se eu não usar a entoação correta, chama-se ProRegen, sobre terapia genética para lesões da medula. Está certo?
Sim, está certíssimo.
E agora é a parte em que a Mónica me corrigirá se eu incorrer em algum erro. Estamos a falar de uma versão modificada da proteína profilina 1 para aumentar a regeneração de neurônios no sistema nervoso periférico e central, quando existe uma lesão do nervo ciático ou da espinal medula. Ou seja, regeneração de neurônios, certo?
Sim.
É esse o tema da sua investigação. E em que fase está atualmente esta investigação?
Olha, não tenho boas notícias para lhe dar. Está muito parada e eu vou explicar porquê. Aquilo que o meu laboratório faz, de facto, é tentar perceber como é que um axónio... Os neurônios têm um prolongamento que transmite toda a informação e esse prolongamento chama-se axónio. E aquilo que nós queremos saber é como é que ele cresce durante o desenvolvimento de um organismo e como é que ele pode voltar a crescer, ou seja, regenerar no sistema nervoso central adulto. Na ponta deste axónio há uma estrutura que é muito dinâmica, que é o cone de crescimento. E para ela ser muito dinâmica-
Cone de crescimento?
Exatamente. Basicamente, se o meu braço for um axónio, o cone de crescimento está a fazer com que o axónio seja capaz de crescer. Aquilo que nós estávamos a fazer neste projeto é perceber como é que podemos manter este dinamismo do cone de crescimento, que faz com que o axónio cresça, ou seja, com que o neurônio regenere. E há uma proteína que é capaz de conseguir isto, que é a tal profilina.
Profilina 1.
Exatamente. E basicamente aquilo que fizemos foi uma série de estudos in vitro, ou seja, em células, sem usar animais, e depois estudos em animais com lesão medular, em que de facto mostramos que ao entregarmos a proteína conseguíamos aumentar a capacidade do axónio regenerar. Ok, este estudo foi publicado, nós tínhamos a patente da profilina como uma possível terapia para promover o crescimento axonial, mas quando chegamos a esta fase, aquilo que precisamos é que alguém invista para conseguirmos passar a uma fase que é a pré-clínica, clínica, muito séria já. E não há empresas, a indústria farmacêutica não investe se não existirem patentes muito fortes. E aquilo que aconteceu com a nossa patente da profilina foi que ela caiu num dos mercados mais especiais, que é os Estados Unidos da América. Por quê? Porque quem teve a rever a patente viu que este trabalho tinha sido apresentado numa reunião da Sociedade Portuguesa de Neurociências ou mesmo num retreat interno do I3S. E portanto, como ele tinha sido apresentado por nós, pelo nosso grupo, mas antes da patente ter sido feita, e como havia registro disso online, a inovação da patente não foi considerada, ou seja, a patente caiu. A partir do momento em que uma patente cai no mercado, como o mercado americano, deixa de haver interesse por parte da indústria farmacêutica. Este trabalho com a profilina está no chamado vale da morte.
Já lá vamos voltar. Eu gostava que me explicasse, no caso concreto da Mónica e do Diogo Trigo, expressão como o vale da morte, que é aquele momento ou aquele local imaginário, que na verdade, no vosso caso é muito real, em que se faz a translação entre o laboratório e a aplicação prática, portanto, por parte de empresas e instituições que estejam disponíveis para investir naquilo que vocês tiveram, e antes de vocês, muitas pessoas a fazerem ciência fundamental, durante muito tempo. E aí é que entra essa longa e dolorosa travessia do vale da morte. Diogo, bem-vindo, obrigado pela sua disponibilidade.
Obrigado pelo convite.
O Diogo investiga e tenta também atravessar o vale da morte, à semelhança da Mónica Sousa. Trabalha em nanopartículas para regenerar neurónios, certo? E se bem percebi das conversas anteriores que já tivemos e da preparação que fiz para esta nossa conversa, o objetivo em si, para além dos medicamentos a aplicar na regeneração desses neurónios, é a forma de transporte desses medicamentos, através de um emplastro, de um adesivo. Para quem nos está a ouvir ou a ver, explique-nos sucintamente do que é que estamos exatamente a falar, que tem um nome, que é, e agora consulto as minhas notas, o NanoSpin.
Exatamente. Portanto, construindo aquilo que a Mónica estava a explicar, na altura da lesão queremos fazer regenerarem os tais axónios, os tais braços dos neurónios, que transmitem a informação. E estamos a falar da lesão medular, ou seja, da espinal medula, que está localizada naquela zona controlada, limitada pelas vértebras, pela dura, por uma série de camadas de tecido conjuntivo, de músculos, pele. Portanto, a administração farmacológica, ou seja, quando se desenvolvem os fármacos, as drogas, a terapia génica que vai ser aplicada, requer uma aplicação local controlada.
E estamos a falar, desculpe interrompê-lo, quando falamos em lesões da espinal medula, estamos naturalmente a falar daqueles grandes acidentes, normalmente resultantes ou de quedas em piscinas, ou de acidentes de automóvel, acidentes de mota, ou de comportamentos que por vezes provocam alguns arrepios na Leonor Saúde, que já tivemos a oportunidade também de conversar sobre isso, quando vê esse tipo de comportamentos que possa levar a essas lesões. Portanto, estamos a falar desse tipo de traumas muito fortes.
Traumas, particularmente traumas, que têm uma complexidade em si, enquanto que um corte ou um golpe até acabava por expor algum tecido, acabava por permitir, dentro do mal, algum acesso, um trauma, um impacto, causa uma inflamação local muito generalizada, causa um aumento enorme de compressão do tecido, que ainda leva a uma lesão secundária, após a tal lesão, e que pode complicar a administração de tratamentos. Portanto, o que nós estamos a falar e que temos tentado desenvolver é uma maneira de, considerando aquilo que os neurocirurgiões nos têm dito, que quando há esse tal inchaço, esse tal edema decorrente do trauma, muitas vezes faz-se uma cirurgia, nos casos mais graves, particularmente, para decompressão, para minimizar essa lesão secundária.
Tem que ser feita no período mais curto possível após o acidente.
Após a lesão.
Após a lesão.
E aquilo que a gente está a desenvolver é, considerando, como a Mónica já estava a dizer, construindo naquilo que já foi feito anteriormente, a investigação, no nosso caso, é uma série de recetores que promovem o crescimento e a regeneração dos tais braços axonais dos neurónios, que têm estado a ser aplicados em diferentes fases de doenças neurodegenerativas para promover regeneração. Conseguir agora otimizar o processo de entrega desses fármacos, dessas moléculas químicas, de forma a otimizar o processo de crescimento numa fase aguda após a lesão, ou seja, quando, idealmente, numa altura em que o cirurgião vai fazer esse processo de descompressão, essa cirurgia, ser ao mesmo tempo aplicado um emplastro, o equivalente a uma folha fininha de tecido monocamada, que tem incorporado em si nanopartículas carregadas de fármaco, de drogas.
Portanto, permitindo então, depois de garantir o acesso ao local da lesão, a aplicação imediatamente no local. À semelhança do que se passa com a Mónica Sousa, o Diogo Trigo é bolseiro da Fundação da Caixa. Quer a Mónica, quer o Diogo receberam um financiamento, no caso da Mónica, no valor de €77 mil, no caso do Diogo, no valor de €70 mil, ao abrigo de um concurso chamado Caixa Research Validate, que tenta justamente ajudar a ultrapassar esse vale da morte, que é passar a investigação científica do laboratório para o mercado. No caso da Leonor Saúde, trata-se de um projeto diferente, de uma bolsa diferente. Falamos de uma Caixa Research Investigação em Saúde, que é o nome atual que tem, sobretudo para desenvolvimento de ciência fundamental, não é verdade? Também em lesões da espinal medula, mas neste caso, trabalhando sobre células senescentes.
Verdade.
Sendo assim, e sendo esta a descrição, qual é a diferença, Leonor? Antes de mais, o que são células senescentes? É o que gostava de perguntar para quem nos está a ouvir. E qual é a diferença entre procurar financiamento para desenvolver ciência fundamental, trabalho que se faz durante muito tempo, durante muitos anos, em laboratórios, ou depois de haver uma série de fases e de passos que são dados, depois da translação disso para mercado, neste caso com financiamentos diferentes, como é o caso da Mónica Sousa e do Diogo Trigo?
Muito bem, então pegando aquilo que a Mónica disse, profilina. A profilina teve que aparecer de algum sítio. A Mónica não acordou de manhã e pensou: "Vou estudar a profilina". E o Diogo também não pensou usar o seu NanoSpin. Era NanoSpin que se chamava, Diogo? NanoSpin. Ele teve que pôr moléculas dentro do NanoSpin. As moléculas que o Diogo colocou no NanoSpin também não foi uma noite que ele sonhou com as moléculas. Portanto, tudo isso, toda essa informação que levou a Mónica a fazer o trabalho que está a fazer e o Diogo a fazer o trabalho que está a fazer, é aquilo que nós designamos investigação fundamental, ou seja, informou o investigador do que é que poderia resultar numa terapia, neste caso, para uma lesão da medula espinhal. E, portanto, no fundo, é esse trabalho que eu faço, ou seja, eu ainda estou longe de aplicar, em colaboração com o médico, ou cair até num vale da morte, que ainda não cheguei lá. Eu estou no passo antes, ou seja, tentar perceber a biologia da medula espinhal para tentar identificar potenciais moléculas que possam ser depois desenvolvidas, com base nestas moléculas, novas terapias. Porque a verdade é que eu adoraria que a profilina da Mónica funcionasse. Adoraria que o NanoSpin do Diogo funcionasse, mas a verdade é que nós também temos muita investigação no mundo inteiro que já descobriram várias moléculas. E a verdade é que nós ainda não temos um tratamento para a medula espinhal. Então o que isto nos está a dizer? Está-nos a dizer que resolver este problema das lesões é um problema complexo, que se calhar precisa ter da profilina, precisa ter o NanoSpin do Diogo e, se calhar, precisa de outras moléculas que nós ainda nem sequer descobrimos.
E que, se calhar, ou ainda não foram descobertas, ou estão a ser criadas e desenvolvidas noutros laboratórios do mundo inteiro.
Exatamente. É este o ponto da situação. Eu estou um bocadinho upstream, a jusante, no fundo, do tipo de trabalho que a Mónica e que o Diogo estão a fazer neste momento.
E pode até dar-se o caso das células senescentes, que a Leonor já nos vai explicar o que é, até poderem vir a ser aplicadas no futuro a outro tipo de utilizações, que não a regeneração da espinal medula.
Sim, porque as células senescentes são células que aparecem normalmente em situações de estresse. Entenda-se estresse como um estresse celular. Pode ser um trauma, uma disrupção dos vasos, uma inflamação, um problema no DNA. E então o que acontece é que estas células entram num estado senescente, elas deixam de se dividir e ficam quietas nos tecidos. Só que até há bem pouco tempo, nós achávamos que estas células ficavam quietas nos tecidos e eram disfuncionais, não tinham uma grande função. Mas agora estamos a perceber que, de facto, estas células são muito ativas, na verdade, porque elas produzem uma série de fatores que libertam para o ambiente e podem controlar muitas coisas à sua volta. Então, o que nós descobrimos, e é a base deste projeto La Caixa, é que, de facto, quando há uma lesão da medula espinhal, estas células aparecem no contexto da lesão. E mantêm-se no tecido durante todo o tempo, pelo menos que nós estudamos, as células não desaparecem, mantêm-se no tecido. E aquilo que nós estamos a tentar perceber é o que estas células estão a produzir para modular este microambiente celular, porque a Mónica falou dos axónios que crescem e o Diogo falou também dos neurônios que têm que se manter vivos. E, portanto, isso só é possível se o ambiente à volta destes axónios e à volta destes neurônios for um ambiente controlado. E, no fundo, aquilo que nós estamos a explorar é se, de facto, nós podemos estudar as células senescentes e tentar modulá-las para depois conseguir modular o ambiente, para ele ser mais favorável ao recrescimento dos axónios e à sobrevivência dos neurônios.
Para isso, socorre-se de uma ajuda preciosa e muito pequena de um animal em particular, que é o peixe-zebra, que tem uma característica única que é muito útil para o estudo que a Leonor está a desenvolver, não é verdade?
Sim, porque isto fez-nos pensar que, de facto, as células senescentes podem ter um papel negativo neste processo. Porque o que nós descobrimos foi que enquanto que nos mamíferos, como nós, as células senescentes se mantêm ao longo de todo o tempo depois de uma lesão, no caso do peixe-zebra, que é um organismo vertebrado que consegue recuperar após uma lesão, ou seja, deixa de nadar e passado duas semanas já voltou a nadar novamente, como se nada tivesse acontecido, o que é realmente fantástico. E aquilo que nós descobrimos é que, de facto, após uma lesão, porque há aqui um estresse, estas células aparecem, mas elas muito rapidamente desaparecem. E, portanto, isto fez-nos pensar que, de facto, estas células pudessem ter aqui um papel de modular negativamente o microambiente tecidual da medula espinhal nos mamíferos. É isso que estamos a explorar. Portanto, seria muito interessante tentar perceber o que as células senescentes do peixe-zebra produzem e como é que elas desaparecem, e o que as células do mamífero produzem e por que elas não desaparecem. No fundo, é um bocado isto que nós estamos a descobrir.
É por isso que o peixe-zebra é tão importante. Mónica, quando falamos em lesões da espinal medula, falamos de um acontecimento extraordinariamente traumático nas vítimas e nas suas famílias. Falamos de cerca de 10 mil novos casos por ano na Europa, de acordo com dados da Organização Mundial de Saúde, e falamos da vida das vítimas que fica totalmente alterada, com perda de mobilidade, dificuldades de controle do esfíncter, enfim, uma série de problemas que daí advêm. Naturalmente que os investigadores trabalham sempre para melhorar a vida das pessoas. No caso concreto de um problema como este, é frequente serem abordados, no seu caso, por pacientes, por familiares de pacientes a perguntar quando é que vão finalmente descobrir uma resolução para o problema que os deixou nesta condição e com esta limitação. É frequente serem abordados com questões como essa?
É muito frequente, sobretudo nos dias que se seguem a algum tipo de publicitação ou de publicações que fazemos ou de bolsas que ganhamos. Portanto, aquilo que muitas vezes sai na comunicação social é uma versão muito otimista daquilo que vamos conseguir num tempo recorde. Por isso, sim, é um acontecimento muito frequente.
O que se diz a alguém que lhe envia um e-mail, que lhe descreve a situação e o investigador que sabe que poderemos estar a muitos anos de descobertas ou de travessias, de vale da morte. O que é que se responde a alguém nessas-- E sei que a Leonor Saúde costuma também receber comunicações deste gênero.
Sim. A mensagem é uma mensagem otimista, porque nós sabemos mais do que alguma vez soubemos. E somos uma comunidade cada vez maior a investigar um assunto muito específico, portanto, a mensagem não pode deixar de ser otimista, mas tenho que ressalvar que a ciência é lenta. E muitas vezes não vamos conseguir nada, quase seguramente, para a pessoa com quem estamos a falar. Ou para o familiar da pessoa com lesão medular com quem estamos a falar. Tento sempre dirigir estas pessoas aos centros de excelência de reabilitação que existem em Portugal. Isso é um dos factos. Também as tento dirigir àquele que considero que é um dos laboratórios pioneiros neste campo, que é um laboratório na Suíça que faz implantes elétricos na medula espinhal de pessoas com lesão medular. E, por outro lado, aquilo que lhes transmito é que a doença, qualquer que ela seja, e uma lesão medular, é trágica. Mas a tragédia não define muitas destas pessoas. Muitas das pessoas que eu conheço com lesão medular, apesar da tragédia, não são definidas por elas, e de fato são algumas delas exemplos de superação, de trabalho em prol da comunidade, que sabem que não é em prol delas próprias, portanto, é em prol da comunidade. E de fato, às vezes, estas tragédias levam-nos a mostrar a nossa melhor face. E é esta a mensagem que eu tento transmitir aos doentes e às famílias de doentes, porque muitas vezes me falam das pessoas no passado, dizem assim: "O meu filho fazia isto, o meu filho era assim, o meu filho era tão bom rapaz". E continua a ser. Portanto, a mensagem tem que ser que aquela pessoa continua a ser.
Claro. Leonor, esta experiência que chega da parte de familiares ou das próprias vítimas de acontecimentos destes acidentes, é útil também para o investigador que está a trabalhar na bancada do laboratório ou, e é um ponto que também já falaremos, atrás de um computador, à procura de financiamento para a vossa investigação, que é também uma parte importante do vosso trabalho. É importante receber este feedback, estas indicações das limitações que as pessoas têm, daquilo que antes não conseguiam fazer e que agora já conseguem fazer. É informação útil para vocês quando estão também a desenvolver o vosso trabalho?
Como o meu trabalho é muito centrado na investigação de laboratório, eu não posso atuar muito nos doentes. Eu não sou neurocirurgiã, portanto não tenho muito essa perspecção. Gosto de falar com pessoas que têm lesões vertebromedulares, porque eu gosto de saber a biologia. Para mim, o que me motiva é saber a biologia e perceber como é que as coisas funcionam. Mas obviamente, se eu falo com uma família que passou por este problema, no fundo, eu reforço a importância do meu trabalho, nesse sentido, sentir que estou a contribuir para o conhecimento e que com esse conhecimento, daqui a uns anos, posso estar a ajudar alguém a melhorar a sua qualidade de vida. Portanto, de certa maneira, sim. Agora, informar o meu trabalho diretamente, não. Acho que não informa diretamente, porque são realidades completamente diferentes, a investigação e a aplicação.
Sendo que é um longo processo, e Diogo, aproveitar para colocar esta questão. Quando falávamos de ciência fundamental, como a que é desenvolvida pela Leonor Saúde, falamos da travessia do vale da morte e ainda assim estamos a falar de processos muito longos, muito antes até de chegar a questões como ensaios clínicos, que é um termo com que as pessoas estão familiarizadas e sabem que já implica a aplicação em fases posteriores em pacientes humanos e não apenas em modelos de ratinhos. Se tudo corresse bem, e eu vou evitar a pergunta de quando é que poderá haver novidades, porque sei que é sempre difícil, mas Se tudo corresse bem, uma tecnologia como a NanoSpin poderia permitir, no futuro, que a extensão das lesões fosse menor e que alguém que poderia ter a sua capacidade motora fragilizada pudesse andar um pouco, ou alguém que pudesse ter uma esperança média de vida inferior face àquela lesão, essa esperança média de vida aumentasse. Ou seja, estamos a falar de pequenos passos que depois poderão, um dia mais tarde, isso então ainda mais tempo, contribuir para outras coisas maiores.
Ter um grande impacto, definitivamente. Fazendo uma ressalva, e fazendo minhas também as palavras das colegas, eu por vezes também sou contactado por alguns pacientes, mas é muito importante ressalvar que, particularmente na área da tecnologia, a solução que eu e o meu grupo estamos a tentar desenvolver e trabalhar, é baseada numa fase aguda da lesão. Ou seja, tendo em conta que ainda estamos bastante longe de chegar a uma fase de translação para aplicação humana, para aplicação clínica, não estamos a desenvolver uma solução que seja aplicável para quem já tem atualmente uma lesão. Será para ser aplicado numa fase aguda após esse trauma.
Sendo que nem todas as lesões têm justamente critérios para essa intervenção e para essa aplicação.
Sim, à partida, provavelmente não, mas os casos mais graves, de acordo com aquilo que a gente está a tentar mais ou menos orientar também, a vantagem que temos desta colaboração e esta conversa com os clínicos é precisamente termos o trabalho básico de investigação fundamental sólido por trás. Agora estamos a tentar que o desenvolvimento tecnológico seja feito o mais direcionado, o mais rapidamente possível. Ou seja, aquilo que a gente conseguir, dentro do nosso trabalho, acelerar o processo, melhor. Portanto, sim, tendo em conta os números que nós sabemos, a quantidade de pacientes e a qualidade de vida e o impacto que tem, quer na sociedade, quer em termos de perda de valor e de trabalho e de qualidade de vida, quer o impacto que os próprios pacientes têm, os seus cuidadores, a família, etc., todo esse impacto que vamos ter vai ser bastante significativo. E apesar de ser uma área de trabalho, uma doença ou uma patologia que já está descrita há milhares de anos, temos ilustrações egípcias há 3000 anos que falavam sobre lesão medular, mas os dogmas começaram a mudar nas últimas décadas. Começamos a perceber que, de facto, estamos a conseguir fazer mais do que mezinhas e rezar para conseguir promover essa regeneração.
E como a Mónica nos dizia, estamos mais longe do que alguma vez estivemos e do que alguma vez conseguimos saber neste tema em particular. Não esquecendo nunca que temos um programa com estas características virado para o público em comum. Há uma questão que gostaria de lhe colocar, que para um investigador poderá ser uma questão básica, mas para quem nos segue. O Diogo passou pelo University College e pelo King College em Londres. A Leonor passou pelo National Institute for Medical Research em Londres. A Mónica esteve na Universidade Columbia, em Nova York. Esta experiência internacional e este beber de influência de outros peritos, outros especialistas, outros centros de investigação, é um ponto muitíssimo importante para o vosso trabalho e é difícil continuá-lo e fazê-lo tão bem como vocês fazem, se não houver essa experiência internacional? Leonor.
Eu acho que uma experiência internacional é sempre excelente para tentar perceber como é que os outros fazem, especialmente sítios onde nós estivemos, que são sítios de topo. Portanto, saber como é que os outros fazem bem, é bom, para depois tentarmos replicar aqui em Portugal as mesmas ideias e a mesma maneira de trabalhar. E depois, porque a ciência é feita em rede, a ciência é internacional, eu acho que o facto de termos estado lá fora nos cria uma maior rede de contactos. Hoje em dia, obviamente que é muito fácil, porque há muita internet, há muitos congressos e toda a gente viaja imenso, mas ainda assim, aquelas pessoas que eu conheci durante o tempo em que estive neste instituto, que agora já não existe e que agora foi incorporado no grande instituto de Londres, que é o Crick, são contactos para a vida. E, portanto, isso é muito importante, porque ajudam nas colaborações, ajudam nestas redes de contacto e de circulação de informação, que hoje em dia, volto a dizer, é muito facilitada, mas eu acho que como tive estes contactos muito cedo na minha vida como cientista, acho que me ajudaram e me ajudam até hoje, porque são sempre pessoas a quem eu posso sempre recorrer facilmente e que me conhecem. Eu acho que isso também é muito importante.
Mónica, pegando nas palavras da Leonor, esta rede de contactos é muito importante para troca de informação, para o trabalho que estão a desenvolver e também para um ponto em particular, coloco-lhe essa questão, que faz parte do vosso trabalho no dia a dia e que se calhar a maioria das pessoas não saberá, que é o trabalho de um cientista como o que vocês desenvolvem, não é sempre no laboratório ou na bancada, a espreitar pelo microscópio. Boa parte do trabalho que um cientista faz é passado a um computador a procurar meios de financiamento dos projetos de investigação que estão a desenvolver. Quando falamos de líderes de grupo, como é o vosso caso, quanto do seu tempo tem que ser investido à procura de candidaturas, a apresentar candidaturas e a juntar documentação para fazer candidaturas, porque só assim é que a ciência avança e só assim é que as coisas se conseguem fazer, quando há quem esteja disponível para apoiar. Quanto do tempo de um cientista é que é utilizado a procurar financiamento para a sua investigação?
Paulo, tempo demais. Em Portugal, infelizmente, tempo demais. Eu não sei quantificar. Alguma coisa entre um terço do meu tempo, depende da altura do ano. E por que este aspecto é muito relevante ser discutido e o público estar informado sobre ele? A ciência é cara. Nós, para fazermos ciência, precisamos de financiamento, os reagentes são caros. Os nossos salários também, não vou dizer que são caros, mas somos trabalhadores muito especializados. E aquilo que acontece em Portugal, infelizmente, é que não há uma política de financiamento de ciência que seja capaz de sustentar o sistema. Como o sistema não se consegue sustentar com uma política em que o financiamento ocorra num determinado mês do ano. Em Portugal a gente sabia que tinha que concorrer e que havia financiamento num valor que nos permitiria trabalhar durante um, dois, três anos, isso não acontece. Em Portugal, aquilo que nós fazemos é correr atrás de financiamento europeu, muito competitivo. No caso do estudo das lesões medulares, temos alguma sorte que existem vários tipos de instituições que financiam a investigação nesta área, mas estamos sempre a correr atrás de financiamento. E quando gastamos 40% do nosso tempo a fazer isto, é tempo que não estamos a ler, tempo que não estamos a pensar. Tempo, muitas vezes, que se perde. E quando temos um sistema como em Portugal, em que a taxa de aprovação pode ser inferior aos 10%, isto quer dizer que os projetos que são aprovados são pouquíssimos, que há imensos projetos fantásticos que ficam de fora e que fizemos parar os cientistas portugueses durante um mês, em que todos os doutorados estão a escrever projetos, quando menos do que 10% daqueles projetos vão ser aprovados. É muito doloroso ser cientista em Portugal neste aspecto específico, e quando falamos com os nossos colegas europeus, vemos que temos que ser competitivos em situações que são muito díspares.
Eu estava aqui a ver a Leonor Saúde e o Diogo Trigo a acenar com a cabeça enquanto iam ouvindo a Mónica, naturalmente, se reverem nestas palavras. Diogo, há um outro ponto também, que se calhar muitas pessoas não sabem, mas que gostava de abordar consigo, e estamos a aproximar-nos do nosso final, mas não gostava de deixar de lhe perguntar. É que quando se fala da aplicação de uma ideia e tentar depois colocar essa ideia em prática e a partir daí desenvolver investigação nesse sentido, por vezes podemos estar a falar, e foi o caso do NanoSpin, tanto quanto sei, de uma ideia que até já pode ser muito antiga e se calhar até já estava na gaveta ou esteve na gaveta durante uma série de tempo, mas depois, por alguma razão, ou porque há uma descoberta noutro canto do mundo e isso se junta ao que já foi feito, ou porque, entretanto, há uma outra oportunidade para recuperar, vais buscar aquela ideia antiga. Foi um pouco o que aconteceu consigo e com o NanoSpin, não é verdade?
Foi. De facto, até começou como um projeto acadêmico, puramente um exercício intelectual, em que tínhamos de trabalhar para diferentes módulos, neste caso, um módulo de regeneração de materiais, e eu calhou, nessa altura, estar a trabalhar sozinho. Fiz uma apresentação, tive uma nota, ficou muito bem, e guardei a apresentação na gaveta. Passou um tempo, eu estava a trabalhar noutro laboratório em Londres e estávamos a trabalhar em regeneração, a estudar uns receptores e uns agonistas que ativavam esses receptores. E quando chegou a altura de concorrer a financiamento, de concorrer a projetos, como a Mónica acabou de descrever, eu propus então: "OK, eu vou procurar financiamento para a minha investigação, qual é uma linha que faz sentido?" A gente já caracterizou estes receptores, caracterizou este tipo de tratamento que faz a regeneração. E se nós agora conseguirmos arranjar maneira de desenvolver uma entrega de fármacos? Mas eu tinha trabalhado sobre isso há uns anos. Então deixa ver, será que eu consigo adaptar aquela ideia e desenvolver um projeto com cabeça, tronco e membros para transformar isto na prática? Que nunca foi essa a ideia quando estive a fazer.
Há ideias, e essa era a mensagem ou a ideia que gostava de passar, que ainda que sejam antigas, ainda que possam ter sido desenvolvidas para um determinado propósito, que depois mais tarde podem ser reescritas, readaptadas.
Muito reescritas e readaptadas, mas era uma ideia de aplicabilidade nula na altura e que funcionou apenas como rastilho para: "OK, e se a gente fizer semelhante a isto, mas para uma coisa atualizada, para um problema que nem sequer era o original?"
E usando uma muleta, que se calhar é um pouco básica, estou junto de cientistas, mas não deixando de a usar, é um clássico do nada se perde, tudo se transforma?
Sim, um pouco isso. Não diria tanto, porque de facto há trabalho desperdiçado, há trabalho repetitivo que é feito. Estas tais candidaturas, se fazer a mesma candidatura 30 vezes sem financiamento, foi desperdiçado. A certa altura, aquele projeto não tem como ser melhor, se fica a bater no limite da taxa de aprovação, dentro da margem de erro, a certa altura já é só trabalhar por aquecer à espera de ganhar o sorteio.
Diogo Trigo, muito obrigado pela sua disponibilidade e muitas felicidades para o projeto do NanoSpin. Leonor Saúde, muito obrigado pela sua disponibilidade também e muitas felicidades para a continuação do projeto com células senescentes. Mónica Sousa, obrigado por se juntar a nós à distância. Espero que seja possível que o trabalho, o ProRegen, possa ultrapassar o vale da morte e que possa encontrar o financiamento pretendido e que esse projeto, ou outro projeto adaptado, possa seguir o seu caminho com vista à melhoria da qualidade de vida de milhões de pessoas no mundo inteiro, seja dentro do tempo que for. Quero agradecer a vossa disponibilidade. Muito obrigado pelo tempo que nos dispensaram. Esta foi a primeira aula prática, hoje sobre lesões da espinal medula e respetiva regeneração. Obrigado.