Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
As entrevistas Aula Prática fazem parte do projeto Mentes Brilhantes, uma iniciativa do Observador sobre a primeira linha de investigação científica em Portugal, que resulta de uma parceria com a Fundação la Caixa e o BPI.
Olá, bem-vindos à Aula Prática, uma entrevista do Mentes Brilhantes, um projeto do Observador sobre investigação científica em Portugal. Nestas aulas práticas juntamos especialistas com idades diferentes, experiências diferentes e áreas de atuação bem diferentes. Eu sou o Paulo Farinha e tenho comigo duas pessoas com percursos bem diferentes: um imunologista e uma bióloga marinha. A bióloga marinha é a Rita Patrício, tem um doutoramento em Ecologia Marinha pela Universidade de Exeter, no Reino Unido. É atualmente investigadora do CE3C, o Center for Ecology, Evolution and Environmental Changes, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e desenvolve investigação em tartarugas marinhas e os seus habitats, principalmente na África Ocidental, e já falaremos um pouco sobre isto. E Luís Graça é médico, professor catedrático de Imunologia e subdiretor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Doutorado em Imunologia de Transplantes pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, também. Investigador principal do GIM, o Gulbenkian Institute for Molecular Medicine. Foi presidente da Sociedade Portuguesa de Imunologia e da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa e foi coordenador da Comissão Técnica de Vacinação contra a Covid-19. É um especialista em vacinação e tem um projeto particular sobre isso, sobre o qual já falámos várias vezes no Observador e sobre o qual iremos também conversar um pouco hoje. Olá, bem-vindos, muito obrigado pela vossa disponibilidade. Luís Graça, começo por si. Nestas conversas queremos juntar especialistas com currículos diferentes, mas com a investigação científica em comum, ou que fazem disso a sua profissão. O Luís tem muitos anos de experiência e já ajudou a formar muitos investigadores mais novos. O que é que se aprende com esta malta mais nova, ao fim destes anos todos? Ainda se continua a aprender muita coisa?
Sempre que temos o privilégio de ter alguém mais novo no nosso laboratório, é uma oportunidade de vermos com outros olhos aquilo que nós estamos a ver já durante muito tempo, sempre com os mesmos olhos. E é uma maneira de refrescar a nossa aproximação aos problemas científicos, ter a oportunidade de ter visões diferentes, de maneiras diferentes de abordar os mesmos problemas e, por outro lado, também o prazer de ver crescer alguém cientificamente e tornar-se um ótimo cientista mais tarde.
Rita Patrício. A Rita tem 45 anos, o Luís Graça tem 53, está uns anos abaixo do Luís, mas tem uma vasta experiência. Os seus jovens, orientando-os, ainda que a diferença de idades para eles seja um pouco menor que no caso do Luís, trazem também muita novidade e frescura para a investigação, neste caso, numa área bastante diferente.
Sem dúvida. Tal como o Luís está a dizer, trazem uma nova visão para os problemas, uma motivação incrível e vão surgir ideias que são novas, nas quais eu não tinha pensado, os meus colegas não tínhamos pensado, e que deixamos que possam avançar com essas suas ideias e aprendemos sempre.
No caso da Rita, quando é que surgiu na sua vida o interesse pelo estudo das tartarugas marinhas? Quer dizer, de tudo aquilo por que uma bióloga marinha pode enveredar, por que as tartarugas?
Foi um acaso. A minha paixão é conservação e biologia marinha. As tartarugas foram um acaso que poderia ter sido outra espécie, sendo que a minha paixão é megafauna marinha, portanto, animais grandes que estão no mar. E isto aconteceu quando eu estava na Austrália, a fazer um estágio após concluir a minha licenciatura em Biologia, em que conheci uma estudante alemã que me pôs em contacto com uma pessoa que tinha trabalhado com tartarugas e a partir daí a coisa encaminhou-se.
Entretanto, Austrália, Porto Rico, Reino Unido, Guiné-Bissau, atrás desses gigantes dos mares, já percorreu boa parte do globo. Agora está em Lisboa e há pouco conversávamos antes do início da entrevista, estará em Lisboa agora durante uns meses, mas este ano ainda vai à Guiné-Bissau?
Vou, sem dúvida. A minha base é Lisboa, mas faço muitas viagens no âmbito do trabalho e a Guiné-Bissau é onde sou coordenadora de uns projetos de investigação e faço questão de ir para trabalhar no campo e também para reunir com os parceiros. Portanto, irei com certeza este ano. Costumo viajar mais, mas agora os alunos de doutoramento têm feito essa parte que também é das mais-
A parte mais divertida.
Recompensadoras do trabalho. Sim.
E o Luís, como é que o Luís chegou à investigação? É licenciado em Medicina desde 1995. É especialista em Imunologia, mas a partir de certa altura decide dedicar-se em exclusivo ao trabalho de laboratório e à investigação. Como é que se dá este salto?
Tal como a Rita, estas coisas acontecem muitas vezes por acaso. E eu, depois de ter trabalhado dois anos full time na clínica a ver doentes, decidi passar algum tempo exclusivamente a fazer investigação científica, uma vez que uma grande vantagem da formação na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa é que já desde essa altura havia a oportunidade dos estudantes de Medicina terem alguma experiência com laboratórios de investigação científica. Eu gostava de ambas as coisas.
Que não é uma coisa comum nos cursos de Medicina.
Não é algo que é tão estruturado e tão aprofundado-
Como na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.
Em que há projetos de investigação com financiamento próprio, que os alunos Podem prosseguir durante algum tempo. É algo que permite ter uma boa experiência de investigação. E eu gostava de, depois ter feito uma experiência clínica durante dois anos, ter uma experiência de investigação também durante algum tempo. E o meu objetivo era, depois dessa investigação do doutoramento, que me permitiria fazer isso, voltar a compatibilizar as duas coisas. Só que no fim do meu doutoramento, eu tinha investido esforço a criar modelos experimentais, que era na altura em que eles iam dar resultados. Seria um desperdício, depois desse investimento, não colher os frutos desse investimento, e por isso fiquei mais algum tempo. No fim desse tempo, as coisas já estavam muito encaminhadas naquela direção. Já era muito atraente continuar a investigar o novo problema, o novo objetivo, e nunca voltei atrás para a clínica e continuei a seguir a investigação desde essa altura.
A metáfora é fácil de fazer, mas não evito. Os olhos brilham quando fala da ciência e da investigação e das novas descobertas que entretanto se vão fazendo. A forma de fazer ciência em Portugal mudou muito nestes últimos anos. O que hoje é mais fácil, por um lado, mas mais desafiante quando comparado com os anos em que começou?
Mudou muito. Está muito mais profissionalizada, no sentido de estar mais próximo daquilo que se faz em qualquer outra parte da Europa. Na altura em que eu fui fazer o meu doutoramento em Oxford, havia uma grande diferença entre a forma de fazer investigação aí e a forma de fazer investigação em laboratórios portugueses. Neste momento, o grau de equipamento, o grau de sofisticação das experiências que são desenvolvidas no laboratório do GUIM, por exemplo, onde eu trabalho, ou no laboratório em Oxford, ou em Paris ou em Londres, é muito próximo. Por isso, não há uma diferença tão grande como aquela que eu encontrei no fim dos anos 90.
E a quantidade de estudantes, de alunos de doutoramento que recebem de outros países é também um reflexo disso mesmo?
Sim, nessa altura, o contexto de investigação do nosso país era muito local. Neste momento, é muito internacional. Nós, no GUIM, temos estudantes de muitas nacionalidades diferentes. A língua de trabalho do meu grupo de investigação é o inglês, porque tenho vários estudantes ou pós-docs no meu laboratório que não falam português, e isso há 20 anos atrás não acontecia. Portugal passou a estar no mundo da investigação científica e passou a ser atraente para atrair alguns dos melhores estudantes e dos melhores pós-docs, tal como outros centros de investigação na Europa.
Rita, no seu caso, qual é a língua de trabalho nos seus grupos?
É inglês também. Por exemplo, agora tenho uma estudante de mestrado que é da Itália, e então a língua adotada comum é o inglês. Mas apesar de que sim, também concordo que nós agora estamos a um nível equiparado com o nível europeu e há uma grande atração de estudantes internacionais, investigadores internacionais quererem vir para os nossos centros. Eu sinto que nas áreas que não são biomédicas, que ainda a infraestrutura não está a esse nível. E depois acho que estamos com um problema em Portugal mais recente, um problema econômico, que é a questão do custo de vida e do aumento das rendas, e nós temos sentido o impacto. Acho que é no sentido que estudantes que ganham bolsas de doutoramento, estudantes estrangeiros ou pós-docs, e que depois não vêm para Portugal porque não conseguem.
Porque a bolsa não lhes é suficiente para garantir.
Portanto, infelizmente, recentemente, temos sentido isto.
A Rita foi bolseira da Fundação "la Caixa", teve financiamento para um projeto de pós-doutoramento. Sem esse financiamento em concreto, aqueles passos não poderiam ter sido dados, enfim, ou teria que procurar outras fontes de financiamento. Sente diferença? Isto foi há quatro anos, cinco?
Cinco anos.
Há cinco anos. Nestes cinco anos, as coisas mudaram assim? Já podemos falar disso?
Para mim, mudaram de uma forma positiva. Eu não tenho razão de queixa. O projeto da "la Caixa" foi muito importante, de fato. Eu passei de uma bolsa de doutoramento, na altura, para um contrato como investigadora. E é um projeto muito bom, porque dá também financiamento não só para salário, mas para atuar na investigação. Portanto, pude contratar pessoas durante aquele período para trabalharem comigo e tem corrido bem. A produção científica foi boa e depois disso, ganhei o ano passado um concurso CEC, é o concurso para o estímulo científico. Portanto, apesar de estar ainda na precariedade, porque é um contrato a termo, mas estou melhor do que muitos colegas. Ainda tenho agora cinco anos de contrato pela frente e tenho a oportunidade para procurar mais financiamento.
Boa parte da investigação que se faz em Portugal faz-se justamente assim, de projeto em projeto, de financiamento em financiamento. A Rita passa boa parte do ano na Guiné-Bissau. Bem, este ano já me disse que passará um pouco menos, sobretudo no Arquipélago das Bijagós. Mas um investigador tem que passar muito tempo atrás de um computador a escrever, a redigir, a preparar projetos, a escrever candidaturas, a apresentar resultados, a concorrer. Como é que se gere essas emoções entre ter os pés na areia, a ver as tartarugas desovar e a registar dados, e depois trabalhá-los para concorrer e o tempo que tem que passar atrás de um monitor e de um teclado?
Sim, é um grande contraste, mas a parte, no meu caso, que sou bióloga de campo, tenho uma oportunidade de passar muito tempo no campo, não só na Guiné, mas na Mauritânia, no Senegal e noutros sítios da África Ocidental. Essa parte, claro, é incrível.
Que são os sítios onde as tartarugas marinhas, a espécie que acompanha, ocorrem.
Ocorre nesses países, exatamente, e onde temos projetos. E é fascinante ir ao campo pela parte da biologia, pela parte das comunidades, da cultura. Portanto, essa parte é fascinante. Mas também é muito boa a parte de estar no computador quando se trata da parte de produção científica. E laboratório, eu também faço um bocadinho de laboratório, e essa parte eu gosto muito, fascina-me muito. Escrever os resultados, portanto, isso é uma parte da investigação que é interessante, porque é estimulante. Nós temos que estar a ler, temos que estar a aprender coisas novas e depois estar a tentar explicar os nossos resultados para transmitir aos outros. Essa parte é ótima. A parte menos boa, quando entra a burocracia, gestão de projetos, essas partes mais administrativas que têm que ser feitas e que tomam muito tempo. Sim, cada vez mais.
Luís, quanto do tempo de um investigador é passado nestas partes burocráticas? Quando estão a concorrer a um projeto, eu às vezes preciso falar com investigadores e recebo e-mails de out of office a dizer: "Estou fechado, não posso responder, porque estou num processo de apresentação de candidaturas." Presumo eu, imagino-os no meio de recolher informações e recolher documentação. São muitas horas para redigir estas propostas e apresentar toda a documentação que é necessária?
São muitas horas, mas isso não é uma parte desagradável, porque essa é a parte em que nós materializamos uma ideia. Se nós estamos entusiasmados que vamos conseguir chegar a um determinado resultado, tentar desenhar a melhor estratégia, o melhor plano para conseguir chegar a esse resultado e pô-lo no papel e explicá-lo de uma maneira convincente, de maneira a que consigamos transmitir esta ideia a outras pessoas que vão avaliar este projeto, isto é interessantíssimo. Por isso, não dou esse tempo como mal utilizado. Escrever um projeto de investigação, detalhar a estratégia, é uma forma excepcional de planear aquilo que se vai fazer. A parte burocrática, depois de gerir muitos aspetos de logística, de burocracia, é menos interessante e seria ótimo poder delegar isso para outras pessoas fazê-lo.
E não é possível, tem que ser o líder do grupo, nos vossos casos, que são ambos?
Há certas coisas que podem ser delegadas. Não é tão mau quanto isso. Mas em todas as profissões, imagino eu, há certos aspetos que são aspetos fascinantes, que nos fazem levantar todas as manhãs e outros aspetos que têm que ser feitos.
"Que chatice, tenho que fazer isto." É verdade. Hoje é mais fácil concorrer a financiamento para projetos de investigação do que era quando o Luís começou, há uns anos.
A taxa de sucesso é muito menor. Ou seja, uma pessoa que está a começar agora com o seu próprio grupo de investigação, tem que estar preparada para uma frustração simultânea. Eu tenho tido a sorte de ter tido projetos aprovados, mas mesmo assim, se calhar, tenho tantos projetos recusados como projetos aprovados, o que é típico na investigação científica. É algo que tem alguma frustração. E essa frustração tem vindo a aumentar porque a frequência de aprovação, a percentagem de projetos que são aprovados em cada concurso, quer em Portugal, quer na Europa, quer no mundo inteiro, tem vindo a reduzir-se.
Por quê?
Eu julgo que tem a ver com o facto de dois fenómenos. Primeiro, o número de investigadores tem aumentado no mundo. Em Portugal, houve um grande esforço de aumentar o número de doutorados, o número de investigadores a fazer investigação e o aumento do financiamento não tem acompanhado o aumento do número de investigadores. Logo, aquilo que os investigadores pedem, uma vez que o número de investigadores aumenta, não aumentando ao mesmo ritmo o valor da verba disponível, isto cria uma disparidade. Por outro lado, o custo da investigação também tem vindo a aumentar significativamente. Estamos a fazer progressivamente experiências.
Pelo equipamento a que recorrem, pelos reagentes.
Exatamente. Reagentes, a tecnologia, o avanço de tudo isso tem feito com que as experiências sejam mais caras. O custo da investigação tem aumentado e isso também se reflete nas necessidades e na dificuldade de acompanhar estas necessidades de investigação.
Uma colega sua do GUIM, com quem eu conversei há dias neste mesmo contexto, nas entrevistas Ala Prática, a Luísa Figueiredo, especialista em parasitologia, falava-me de uma urgência que os investigadores mais novos sentem, por vezes, em terem resultados imediatos. Que nota um pouco de diferença nas gerações mais novas, talvez um bocadinho menos de paciência ou fruto dos tempos em que vivem, em que tudo está muito mais fácil e em termos de obtenção de resposta rápida, graças à inteligência artificial e por aí fora. Sente também isso com os seus alunos?
Paulo, acho que essa pergunta é fantástica, porque eu senti isso. Vindo da medicina, onde eu sentia um resultado imediato da minha ação, quando eu estava nas urgências e falava com um doente ou tratava com um doente, havia um resultado imediato da minha ação Na investigação, isto é muito diferido no tempo, ou seja, demoramos às vezes muito tempo até vermos os resultados da nossa ação. E por isso esta gratificação imediata não acontece na investigação.
Não existe.
Isso eu senti totalmente quando eu passei da clínica pra investigação. Por isso não me surpreende que seja algo que seja também frustrante e que requeira uma certa aprendizagem.
Rita, falava há pouco dos jovens investigadores que tem que orientar. Onde é que é mais difícil orientá-los? Na praia, a ver tartarugas desovar ou nas salas de aula, ou na bancada do laboratório?
Acho que difícil não é o termo, não se trata de dificuldade. Claro que há pessoas que podem ter uma vocação maior para o trabalho de campo. Nós trabalhamos numas condições que para alguns são vistas como condições maravilhosas, incríveis, que é o meu caso, mas para outros são vistas como condições muito rigorosas, porque é muito básico. Frequentemente a nossa condição de campo é: estamos a acampar e não há nada. Mas em geral, temos alunos que se dão muito bem com essa realidade, de voltar assim ao básico. Portanto, difícil não é bem o termo, mas o campo pode ser desafiador nalguns casos e depois é todo o desafio dos alunos desenvolverem talvez a questão, a hipótese dos seus estudos. Essa fase assim mais inicial pode ser talvez a mais difícil. Depois a partir daí, sim, ficam encaminhados.
A Rita passou por várias universidades do globo. Vê também grandes diferenças, ou as diferenças que via há uns anos na investigação que se fazia noutros países, em comparação com o que se fazia cá, está mais debatida atualmente?
A minha primeira experiência em investigação, depois de um estágio muito breve na Austrália, foi quando fui fazer o mestrado na Universidade de Porto Rico. E de fato, uma diferença que eu notei na altura é que o sistema que eles utilizam, que é o sistema americano, é que os estudantes de mestrado e os de doutoramento trabalhavam juntos, não havia diferença. Era expectável que quer os mestrandos, quer os doutorandos produzissem mesmo para o conhecimento científico. A única diferença é que um mestrando fazia uma tese mais curta e, portanto, produzia menos artigos, e o doutorando algo mais elaborado. Cá há uma diferença de níveis. Um estudante de mestrado é raro às vezes ter o que nós chamamos de produção científica. Muitas vezes é ali uma etapazinha pós-licenciatura, enquanto lá não, havia mais igualdade. E na Universidade de Exeter, eu diria que já quando depois fui pra Exeter fazer o doutoramento em relação ao que nós fazemos cá, acho que, tal como o Luís referiu há pouco, eu não noto diferença. Acho que estamos ao mesmo nível. A nível de investigação, de qualidade de investigação, de pessoas, acho que estamos ao mesmo nível. As falhas que podemos apontar têm a ver, de fato, com que ainda falta esse aumento no financiamento. Ainda estamos abaixo. E de fato, como há mais investigadores, tem havido uma evolução, nesse caso, muito positiva na formação de doutorandos em Portugal. Também há mais competitividade.
Para distribuir por mais pessoas.
Exato, há muito mais competitividade. E em relação aqui à pergunta de agora os investigadores mais novos, e eu se calhar já sofro disso também, quererem os resultados mais rápidos. Isto também tem um bocadinho a ver com a competição e como nós somos avaliados, porque a produção de artigos continua a ser o marco mais importante para avaliar a carreira de um investigador e para os alunos é essencial pra eles poderem se candidatar às bolsas de doutoramento, pra depois às bolsas pós-doc, etc. E então há muito menos tempo pra fazer tudo isso.
E essa produção científica é essencial, porque depois é revista pelos pares e garantir que há publicação, ou que não há. Esse momento é um momento de muita pressão sobre eles? Sobre vocês, na verdade, porque os orientam também.
Sim, na verdade é. E, por exemplo, pra mim também é neste momento. Porque eu ainda estou com contrato a termo, portanto, eu sou avaliada pelos meus artigos e conforme a minha produção científica, eu conseguirei projetos futuros, eu conseguirei um contrato futuro, até eventualmente ter um contrato permanente. Portanto, sim, existe essa pressão. É o que nós gostamos de fazer, de fato, sem dúvida. Mas sim.
Mas com umas condições ainda um pouco diferentes. Luís Graça, coordenou a Comissão Técnica de Vacinação contra a Covid-19 e tem um projeto, que foi financiado pela Fundação La Caixa, ao abrigo do concurso Health Research, para aumentar a eficácia vacinal em pessoas mais velhas. Estamos em época de crise, estamos a gravar esta nossa conversa no início de janeiro. Os alertas dos médicos vão no sentido de mantermos os idosos longe dos hospitais, a não ser em caso de extrema necessidade. As notícias recentes dizem-nos que o socorro está com graves problemas. Se tudo correr bem com o seu projeto, daqui a 10 anos, e como dizia há um ano no Observador, no projeto que temos com esse mesmo nome, "Se tudo correr bem, daqui a 10 anos", as vacinas do futuro vão ser mais eficazes, vamos vencer melhor picos de gripe como esta que estamos a viver?
Neste momento, estou ainda mais confiante do que há um ano. Não tenho qualquer dúvida que a evolução tecnológica das vacinas está a fazer com que as vacinas estejam a ficar cada vez mais eficientes para melhorar ainda a eficácia nas pessoas Que ainda podem beneficiar dessa eficácia. E eu quero ser muito claro nisto, porque vivemos num tempo em que existe um grande ruído e muita desinformação em relação às vacinas. As vacinas são muito eficazes para toda a população, salvam muitas vidas anualmente e salvam os hospitais de uma avalanche de pessoas que, estando vacinadas, não necessitam de recorrer aos hospitais de uma maneira tão frequente. Contudo, essas pessoas idosas que muito beneficiam das vacinas atuais, poderiam beneficiar ainda mais se as vacinas tivessem uma efetividade ainda maior. Neste momento, já foram introduzidas no nosso país vacinas mais eficazes para idosos do que aquelas que estavam disponíveis na altura em que eu submeti este projeto ao La Caixa. E isto demonstra que existe uma evolução e uma trajetória nessa direção. E aquilo que está em desenvolvimento neste momento, deixa-nos otimistas em relação ao futuro.
O Luís estuda o sistema imunitário há 30 anos. Por que o tema das vacinas continua a suscitar ainda tanta desinformação? Bem, se calhar nos últimos anos, as redes sociais, para o bem e para o mal, ajudam numas coisas e desajudam muito noutras. Mas tanta desinformação, tantas hesitações, tantos receios, quando existem evidências científicas dos resultados das vacinas, na redução da mortalidade, em várias doenças e na melhoria da qualidade de vida. Por que isto continua a ser um tema?
Honestamente, não consigo compreender. É algo que tem acompanhado a vacinação desde o início. Sempre houve um grande obstáculo à vacinação, porque é uma intervenção em pessoas saudáveis. E a minha única justificação é que o facto de ser uma intervenção em pessoas saudáveis para prevenir algo no futuro que pode ou não vir a acontecer, suscita a ideia de uma menor necessidade do que tratar uma doença que está ativa naquele momento. Em que, naturalmente, se uma pessoa está em sofrimento e que toma um medicamento para reduzir esse sofrimento, é muito claro qual é o benefício dessa intervenção. Enquanto que na vacina, como é uma pessoa saudável que está a ser prevenida para o futuro, essa clareza em relação ao benefício não está à frente dos olhos de cada um de nós. Isso poderá ser uma justificação. Outra possível justificação é que muitas doenças que são preveníveis pela vacinação, têm sido, devido ao sucesso das campanhas de vacinação, muito reduzidas e agora são uma memória distante e para a qual não existe uma clareza do benefício de proteger contra a poliomielite ou uma doença, que é algo que só conhecemos dos livros de História.
Isso pode contribuir para esta avalanche de desinformação que hoje em dia ocorre. Rita, em 2020, em entrevista ao Observador, Rita disse que esperava que daí a três anos, que entretanto já passaram, no final do projeto para a Fundação La Caixa, conseguisse, e agora cito: "Reunir o maior conhecimento sobre a distribuição espacial das tartarugas no Atlântico e assim perceber melhor a que ameaças as tartarugas estão sujeitas". O que se sabe hoje de mais em comparação com o que sabia no início daquele projeto?
Muita coisa. Por acaso, tivemos descobertas incríveis. Realmente, quando começámos o projeto, tínhamos já um conhecimento base importante sobre as tartarugas verdes na Guiné-Bissau, onde é uma das populações maiores do mundo, portanto, de grande importância para a Guiné, para África, mas a nível mundial também. E queríamos perceber a distribuição espacial. E o La Caixa permitiu-nos usar a técnica de transmissores por satélite, portanto, colocámos uns transmissores nas carapaças das tartarugas.
Se não me engano, na altura seguiu a Oquinta, certo?
Oquinta foi uma das tartarugas. Oquinta quer dizer rainha na língua bijagó. E é uma tecnologia cara, mas tivemos a possibilidade de fazer esse seguimento que nos permite conhecer as migrações das tartarugas quase em tempo real. E vimos que, de facto, conseguimos identificar áreas prioritárias para conservação na Mauritânia, no Senegal, no próprio arquipélago dos Bijagós. Depois descobrimos que algumas das tartarugas que estão a desovar uma altura um pouco mais tarde migram para o Gana, não fazíamos ideia. E mais nos últimos anos descobrimos que inclusive fazem migrações transatlânticas e algumas vão se alimentar ao Brasil, uma proporção menor. E isto até a nível de todo o conhecimento que temos desta espécie é interessante e inovador, porque não se pensava que as tartarugas verdes fizessem migrações de reprodução tão longas, porque isto é um custo energético imenso. E claro que não é o mais comum, mas ocorre. Isso também nos veio aclarar resultados genéticos que nós tínhamos de conectividade e dos quais desconfiávamos e depois foram apoiados com a transmissão por satélite. E agora também alargou a nossa rede de trabalho e vai nos permitir melhorar o nosso conhecimento, de facto, das ameaças em cada um desses locais, porque com espécies migradoras e que usam habitats tão dispersos, nós não conseguimos fazer uma conservação eficaz se nos focarmos num só habitat. Daí a importância de conhecer a distribuição.
Estamos a aproximar-nos do final da nossa conversa. Rita, última questão: onde é que se vê daqui a 10 anos? A continuar a trabalhar com tartarugas marinhas?
Sim, por que não? Eu gosto muito do que faço, portanto vejo-me a continuar a trabalhar com tartarugas marinhas.
E com contrato de efetividade.
Eu espero que sim. Isso é importante porque o facto de não estarmos sempre a trabalhar para conseguir um contrato, permite-nos ter mais tempo para aquela parte de nos dedicarmos mais às propostas, para os financiamentos, para os projetos, para responder às questões e não estarmos tão preocupados nos projetos para pagar o nosso salário. Portanto, sim, a trabalhar com tartarugas, conservação marinha, também poderei acrescentar outras espécies, até interações de tartarugas com outras espécies.
Desde que sejam grandes.
Desde que sejam grandes. Por exemplo, no Senegal, uma coisa que ando a tentar correr atrás é de uma interação entre orcas e tartarugas verdes. Portanto, há coisas giras para explorar, sim.
Luís Graça, última questão. Não lhe vou perguntar o que é que se vê a fazer nos próximos 10 anos, porque a imunologia tem sido a sua área de ação e, portanto, presumo que continue. A questão é outra. Se tivesse que dar um conselho a um jovem estudante que quer ser cientista, que terminou agora a sua licenciatura, o que é que o Luís Graça lhe diria?
Aquilo que é mais importante é ter uma mente aberta e não estar muito focado nem numa área científica, nem num determinado método científico, perseguir as hipóteses e as oportunidades à medida que elas forem surgindo. Porque o pior que existe é uma pessoa estar demasiado presa a uma determinada área ou a um determinado tópico e deixar passar ao lado oportunidades que poderiam ser muito mais interessantes se tiver esta mente aberta.
Nomeadamente médicos que depois acabam sendo investigadores, por exemplo.
Bom exemplo.
Luís Graça, Rita Patrício, muito obrigado pela vossa disponibilidade.
Obrigada.
Foi uma conversa ótima. Foi mais uma aula prática do projeto Mentes Brilhantes sobre a investigação científica que se faz em Portugal. Até à próxima.
As entrevistas Aula Prática fazem parte do projeto Mentes Brilhantes, uma iniciativa do Observador sobre a primeira linha de investigação científica em Portugal, que resulta de uma parceria com a Fundação La Caixa e o BPI.