Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Bem-vindos ao quinto e último episódio do podcast "Mieloma Múltiplo: Conversas Sobre o Invisível", uma iniciativa que conta com o apoio da GSK e a chancela científica e institucional da APCL, Associação Portuguesa Contra a Leucemia. Ao longo das últimas semanas, procuramos explicar o que é esta doença, como se vive com ela e que tratamentos existem nesta altura. Neste episódio, olhamos para o futuro. Que novos tratamentos estão a surgir e que podem mudar a vida de quem tem mieloma múltiplo? É nosso convidado, o médico hematologista Fernando Leal da Costa. Bem-vindo.
Muito agradável estar aqui.
Agradeço. Doutor Fernando Leal da Costa, o que foi alcançado do ponto de vista científico nos últimos anos, no que diz respeito ao tratamento do mieloma múltiplo?
O paradigma de tratamento mudou completamente. É uma palavra muito corrente, o paradigma. Neste caso, o paradigma aplica-se bem. É mesmo o exemplo da forma como esta doença está tratada. O que tem acontecido nesta doença e em outras doenças, em outros cancros do sangue, é que nós evoluímos de um tratamento que era iminentemente baseado em medicamentos cujo único objetivo era eliminar, por efeito químico direto, os chamados citotóxicos, as células cancerosas. E hoje, o que temos, e o que está a ganhar cada vez mais terreno também nesta área, são mecanismos em que nós usamos componentes imunológicos, nomeadamente anticorpos, que de alguma forma são desenhados para irem diretamente atrás da célula doente, neste caso, da célula do mieloma, do plasmócito maligno, e depois, de uma forma muito mais específica e, portanto, com muito menos toxicidade para outros órgãos, contribuir para eliminar essa célula e chegar a uma situação que nós hoje em dia já achamos que poderá vir a ser mesmo de cura.
É uma área que se pode dizer muito privilegiada do ponto de vista da investigação, no sentido em que vão surgindo novas terapêuticas e que têm alterado o tal paradigma da gestão da doença.
Absolutamente. Repare que, apesar do mieloma múltiplo ser uma doença relativamente rara, nós devemos ter em Portugal cerca, não sabemos exatamente quantos, mas eu diria 800 novos casos de mieloma múltiplo por ano. Talvez desses, 400 ou 500 necessitem tratamento, porque nem todos os mielomas necessitam tratamento, como é sabido. Mas apesar de ser uma doença relativamente rara e mais frequente em pessoas idosas, a verdade dos factos é que é uma doença que beneficiou muitíssimo da investigação nos últimos 10, 20 anos, mas de forma muito acelerada nos últimos 10 anos. E é curioso porque outros cancros, eventualmente não tão frequentes, não tiveram essa benesse de verem surgir tantos novos fármacos tão rapidamente e todos eles com grande eficácia. É uma situação curiosa que não consigo explicar, mas ainda bem para aqueles que se interessam por mieloma e para aqueles que têm a infelicidade de sofrer de mieloma, ainda bem que é assim.
Estas novas inovações terapêuticas têm alterado a perspectiva de esperança de vida para o mieloma múltiplo, permitindo prolongar consideravelmente a taxa de sobrevida dos doentes.
Absolutamente. E, já agora, sublinho uma coisa que disse, que pode parecer, mas não é um pleonasmo. Disse novas inovações, porque, de facto, aquilo que nós estamos a falar não são apenas de medicamentos novos, são medicamentos inovadores porque acrescentam valor. E o valor que é acrescentado não só se traduz numa melhoria da qualidade de vida destes doentes, mas em primeiro lugar, e acima de tudo, por um aumento da sobrevivência destes doentes. Quando eu comecei a tratar doentes com mieloma, há 40 anos, enfim, o tempo passa, nós só dispúnhamos basicamente de dois ou três medicamentos e a sobrevivência desses doentes, em particular com doença avançada, era muito limitada. Estamos a falar de um ano e meio, dois anos. Hoje em dia, é expectável que nós tenhamos doentes com mieloma múltiplo a viverem mais de 20 anos. E infelizmente, há pessoas que, não sendo possível conferir a imortalidade, vêm a morrer com mieloma e não de mieloma, apenas porque, como eu disse, é uma doença que aparece mais frequentemente em pessoas mais idosas. E, portanto, nós prolongamos tanto a vida que elas, eventualmente, podem vir a falecer das outras maleitas que os humanos inexoravelmente acabam por ter. O que, enfim, do ponto de vista do nosso tratamento, é positivo.
Como é que se pode garantir que os doentes vivem não só mais, mas também vivam melhor?
Porque ao mesmo tempo que nós fomos capazes de ser brindados com medicamentos muito eficazes para tratar especificamente a doença, a verdade dos factos é que isto foi acompanhado de desenvolvimentos também noutras áreas do tratamento. Temos melhores medicamentos para tirar a dor, temos medicamentos que são eficazes para combater a destruição óssea, temos medicamentos que são muito mais eficazes e fáceis de tomar para tratar infecções, que são muito frequentes no mieloma múltiplo. E, portanto, por um lado, temos medicamentos que tratam especificamente o mieloma e, ao tratar o mieloma, diminuem as infecções, as fraturas, as dores ósseas, etc. Mas, ao mesmo tempo, nós temos sido brindados com medicamentos muito mais eficazes e muito menos tóxicos para tratar todas as complicações que estão associadas ao mieloma. E, portanto, como é normal em medicina, não se avança só num sentido, avança-se num conjunto de várias áreas e, felizmente, em todas elas têm havido avanços muito significativos.
Portanto, considera que a investigação científica e as novas terapêuticas consideram também esta dimensão da qualidade de vida
Absolutamente. Repare, o medicamento é inovador quando ele introduz valor. E a introdução de valor, muitas vezes, tal como é medido pelas próprias empresas, tem a ver com a capacidade de gerar melhor qualidade de vida. Desse ponto de vista, é obrigatório dizer que, no campo do mieloma múltiplo, as pessoas, hoje em dia, vivem melhor e mais tempo.
Pode dizer-se que, atualmente, é possível que a doença entre em remissão por longos períodos?
Claramente. Sobre essa matéria, não temos qualquer dúvida. Nós somos capazes de induzir remissões, ou seja, situações em que a doença está aparentemente ausente durante muito tempo. E é possível, hoje em dia, começarmos objetivamente a pensar na possibilidade de, provavelmente, mais cedo do que nós pensaríamos aqui há 10 anos, ter mesmo circunstâncias em que possamos falar de cura do mieloma múltiplo.
Acredita na cura, então?
Acredito na cura. Nós já temos aquilo a que chamamos de cura funcional. É um termo técnico que, no fundo, apenas quer dizer que a pessoa, na realidade, ainda que possa ter a doença escondida, a verdade dos fatos é como se não a tivesse e, porventura, virá a ser possível eliminar completamente essa doença e termos mesmo situações de cura objetiva, ou seja, a doença desaparecer, o que já acontece em alguns cancros. Portanto, é possível e imaginável que daqui por alguns anos, eu não diria muitos, não me atrevo a fazer prognósticos, porque as coisas têm sido tão rápidas que eu arrisco ser surpreendido positivamente pelo meu prognóstico. Mas acho que hoje em dia nós podemos otimisticamente começar a falar e encarar a possibilidade de curar estes doentes.
Dr. Leal da Costa, que mensagem sobre o futuro da doença pode transmitir a uma pessoa com mieloma múltiplo?
Acima de tudo, uma mensagem de grande esperança. Aquilo que nos parece cada vez mais claro é que, sendo possível, o que também está a acontecer em Portugal, identificar os doentes com mieloma múltiplo mais precocemente, a verdade dos fatos é que nós temos, hoje em dia, em Portugal também, soluções terapêuticas que permitem que os doentes com mieloma múltiplo, independentemente da idade, isto é tão verdadeiro para os mais idosos como para os mais novos, possam viver, como eu disse, muito mais anos com uma muito melhor qualidade de vida. E, acima de tudo, cada ano que nós ganhamos de sobrevivência para estes doentes é um ano durante o qual podem aparecer coisas novas e, com isso, estarmos a dar passos no sentido de ir contribuindo sucessivamente para a melhoria da qualidade de vida e da duração de vida destes doentes.
E os profissionais de saúde, como é que eles se posicionam neste contexto de permanente evolução?
Com grande otimismo e grande satisfação, acima de tudo. O mieloma múltiplo, como imagina, quando eu comecei a me interessar por ele, era um grupo de curiosos que, de forma mais ou menos apaixonada, estavam interessados numa doença para a qual existiam verdadeiramente três medicamentos. Hoje em dia, estamos a falar de uma doença para a qual existem dezenas de medicamentos, alguns, como eu disse, muitíssimo eficazes e, portanto, é uma área que começou a capturar o interesse dos profissionais, dos hematologistas em geral, e também, já agora, dos outros médicos, que começaram a estar muito mais interessados, nomeadamente ao nível da medicina geral e familiar, em identificar estes doentes, diagnosticá-los e referenciá-los para quem os deve tratar.
Já disse que acredita na possibilidade de existir uma cura. Onde é que estaremos daqui a uma década no mieloma múltiplo?
Eu penso que dentro de uma década nós devemos estar a utilizar em primeira linha, logo de início, um conjunto de medicamentos iminentemente imunológicos que possam, de alguma forma, alterar o comportamento da célula de forma a impedir que ela se replique. E, quem sabe, poderá, tal como acontece já noutros cancros do sangue, encontrarmos os mecanismos genéticos primários da doença, encontrar aquilo a que nós em inglês chamamos os drivers, digamos, aqueles que são os condutores da doença, e aí, sim, já com terapêuticas gênicas muito avançadas, conseguir desligar o mecanismo que transforma a célula normal numa célula maligna. Já o fazemos num conjunto largo de doenças e, porventura, por que não, também seremos um dia capazes, e é esse o trabalho que está a ser feito, de identificar qual é o primeiro promotor da doença e conseguir precocemente desligá-lo para impedir que essa doença se desenvolva.
Dr. Leal da Costa, muito obrigado.
Foi um gosto, muito obrigado.
E assim terminamos este último episódio de uma série de cinco dedicados ao mieloma múltiplo. Pode escutar os anteriores episódios e partilhar com os seus amigos e familiares no site do Observador ou nas plataformas de podcast habituais. Até uma próxima oportunidade. "Conversas Sobre o Invisível" é um podcast Observador Lab, produzido em parceria com a Associação Portuguesa Contra a Leucemia, APCL, e com o apoio da GSK. Para mais informações, consulte o seu médico.