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Sejam bem-vindos ao primeiro de cinco episódios do podcast "Mieloma Múltiplo: Conversas sobre o Invisível". Ao longo dos próximos cinco episódios, vamos detalhar este tipo de cancro numa iniciativa que conta com o apoio da GSK e a chancela científica institucional da APCL, Associação Portuguesa Contra a Leucemia. O mieloma múltiplo é um cancro do sangue pouco frequente, mas ainda assim, o segundo mais frequente, com uma taxa de incidência relativamente baixa, cerca de 500 a 700 novos casos por ano, não sendo fácil de diagnosticar, porque os seus sintomas se confundem com os de outras doenças. Não tem cura, mas tem tratamento, como iremos abordar nas conversas ao longo deste podcast. Está conosco a professora e hematologista Cristina João. Bem-vinda.
Obrigada.
Sabemos o que é o mieloma múltiplo, ou sabemos que ele tem origem na medula óssea. Concretamente, o que é um mieloma?
Como disse no início, é um cancro, ou seja, uma neoplasia. É uma doença em que um determinado tipo de células do nosso corpo, devido a alterações genéticas intrínsecas a essas células, deixam de se regular em termos de divisão celular e da própria função que têm. No caso do mieloma, esta neoplasia é uma neoplasia de um tipo de células que reside na medula óssea, no interior dos nossos ossos, que são os plasmócitos. Estes plasmócitos, habitualmente, ou sempre no nosso corpo, são os responsáveis pela produção dos nossos anticorpos, são células muito importantes na defesa do nosso organismo. Quando estão desregulados nesta doença, passam a produzir anticorpos alterados que não funcionam e passam a produzir muitas outras moléculas muito inflamatórias que alteram o funcionamento da medula óssea, que é o órgão que produz o nosso sangue. Por isso o impacto é muito grande. Ou seja, o mieloma é uma neoplasia de um tipo de células do sangue, que são estes, os plasmócitos.
E o que é que distingue o mieloma múltiplo das restantes doenças hematológicas?
Esta distinção, atualmente, pelas classificações, está muito baseada nas células que estão alteradas em cada tipo de doença. Ou seja, quando estamos a falar do mieloma, estamos a falar de uma alteração destas células, que são os plasmócitos. Quando estamos a falar de uma leucemia mieloide aguda, estamos a falar de alterações de outro tipo de células do sangue, que podem ser monócitos ou neutrófilos. Ou seja, o que distingue, basilarmente, é o tipo da célula que está alterada. Claro que depois, em termos de sintomas e de sinais que as doenças podem mostrar e desenvolver no próprio ou mesmo alterações analíticas, há muitas diferenças. Um mieloma, como disse, é uma doença rara. Os cancros hematológicos, eles todos, são considerados raros. A prevalência que disse é a prevalência do nosso país.
Os tais 500 a 700 novos casos por ano.
Identificados por nós num trabalho publicado por vários hematologistas portugueses. O fato das pessoas se manterem com esta doença sob variados tratamentos ou sem tratamentos, faz com que este número se vá acumulando e o número de doentes com mieloma múltiplo não é 500 a 700 apenas. E a população de pessoas que têm esta doença e que vive com esta doença é maior.
Estes são os casos novos por ano, que se somam aos outros todos que já existem. De que forma é que o mieloma múltiplo se manifesta? Ou seja, que sinais é que apresenta uma pessoa que tem esta doença?
Esta doença é uma doença, como dissemos no início, de células que estão na medula óssea e essas células ao aumentarem de número e ao serem disfuncionantes, implicam também na produção das outras células, nomeadamente as células dos glóbulos brancos e dos glóbulos vermelhos. Por isso, estas pessoas podem ter anemia e com isso sentirem-se fracas, cansadas. Podem ter dores ósseas, porque a medula óssea é como que uma residente, uma inquilina do osso, por isso, o facto de haver proliferação destas células na medula óssea pode, e acontece muito frequentemente, desencadear eventos ósseos, que podem ser fraturas, mas podem ser alterações do próprio osso que dão dor.
Às vezes até confundidas com dores renais, por exemplo.
Porque as dores da coluna, os rins são órgãos que estão junto à nossa coluna vertebral. E os ossos da coluna, as vértebras, são ossos muito acometidos por lesões relacionadas com o mieloma, porque são ossos que têm um conteúdo em medula óssea grande. O mesmo acontecendo com os ossos da bacia ou mesmo com os ossos longos, os nossos fêmures ou os úmeros, são ossos que têm muita medula óssea, por isso, se a pessoa tiver um problema da medula óssea, esses ossos são aqueles que mais sofrem. Para além do cansaço e da fadiga, que estão relacionados com eventualmente anemia, e destes eventos ósseos, ou mesmo dores ósseas relacionadas com este inquiline, que é a medula óssea, alterando o funcionamento do osso, podem existir alterações renais. As alterações renais só dão sintomas quando Não muito frequentemente, mas analiticamente é muito fácil avaliar isso. E para além disso tudo, como eu disse ao princípio, estas células são responsáveis pela produção dos nossos anticorpos, por isso quando elas estão alteradas, em grande número, há uma alteração da imunidade daquela pessoa e as pessoas também ficam mais suscetíveis a infeções e ficam com uma imunidade muito mais frágil. Por isso, os sintomas não são completamente bem definidos, mas andam à volta disto que eu disse. Pessoas cansadas, com mais infeções, com dores ósseas, com doença renal associada.
Que partes do nosso corpo é que são afetadas? Só os ossos ou mais do que os ossos?
Se houver afetação renal, podemos ter uma insuficiência renal, uma doença renal associada na mesma pessoa que pode ter uma anemia, que pode ter dores ósseas e infeções. E as infeções podem ser de qualquer órgão. Podem ser relacionadas com o trato respiratório, que são infeções muito frequentes, quer respiratórias altas, quer respiratórias baixas, como pneumonias, podem ser infeções de outros órgãos, podem ser da pele, do sistema urinário, ou seja, não existe um órgão que seja mais infetável, do ponto de vista geral, do que outros, dentro das pessoas.
Há fatores de risco? Há pessoas com maior probabilidade de ser diagnosticada com mieloma múltiplo?
O mieloma não é uma doença hereditária, ou seja, não conhecemos alterações genéticas que passem de pais para filhos, mas sabemos que famílias em que existem doenças hematológicas, oncológicas, neoplásicas, de grupos de células relacionadas com estes plasmócitos, têm um risco ligeiramente aumentado de poder, na família, ter esta doença. Mas não é uma doença hereditária. E fatores de risco de ter o mieloma ativo, que é esta doença que nós estamos a falar: doentes que tenham doenças de proteínas chamados gamapatias monoclonais de significado indeterminado, têm um risco aumentado de progressão para mieloma. Esse risco já está quantificado mundialmente e é à volta dos 0,8% ao ano. Ou seja, se tivermos essa situação diagnosticada numa pessoa mais nova, com 40 anos ou 30, claro que ao longo da vida dessa pessoa, este risco vai sendo cumulativo.
Há forma de evitar o mieloma múltiplo, doutora Cristina João?
Que se saiba, não. Existe, eventualmente, forma de tratar precocemente o mieloma ativo e eventualmente tratar situações de mieloma múltiplo indolente, em que o risco já é muito elevado e em últimos estudos, estudos muito recentes que já têm tradução pra prática clínica, podemos considerar que uma fração de doentes poderá ser curada. Por isso, aquilo que dissemos ao início, é realmente uma doença crônica. A grande maioria das pessoas terá que fazer tratamentos repetidamente ao longo da sua vida, mas que controla a doença. Eventualmente, atualmente, num pequeno grupo de pessoas, acho que poderemos ter uma situação de cura e a comunidade internacional e os especialistas internacionais, grupos que eu pertenço, têm discutido o conceito de cura funcional, que eventualmente existe nesta doença, o que é uma coisa muito boa de se falar com as armas terapêuticas que atualmente dispomos.
Portanto, há um fiozinho de luz lá ao fundo do túnel.
Mais do que um fio. Sim.
Muito bem. E quanto aos tratamentos, o que há disponível e como é que tem evoluído a ciência na descoberta e disponibilização de inovação terapêutica?
Tem evoluído muitíssimo nesta área. Acho que, quer os doentes, quer os médicos que tratam esta doença, têm sido afortunados com a inovação e, eventualmente, com a translação da inovação pra prática clínica. Eu também sou investigadora e os resultados da investigação, muitas vezes demoram muito tempo a traduzirem verdadeiros avanços da medicina com impacto nas sobrevivências das pessoas e na qualidade de vida. Na área do mieloma, isso tem sido muito evidente, quer em doentes que vão começar a sua marcha terapêutica, ou seja, em primeira linha de tratamento, quer em doentes que já foram tratados anteriormente e que atualmente têm acesso a terapêuticas inovadoras. E as terapêuticas inovadoras são dirigidas a estas células que falamos inicialmente, os tais plasmócitos doentes, aberrantes, alterados, mas também são dirigidas ao ambiente onde eles existem, à medula óssea, à imunidade do paciente, de forma a conjuntamente conseguirmos eliminar estas células e melhorar a imunidade da pessoa. Permitindo que haja sobrevivências muito mais alargadas do que existiam há uma década. É avassalador a diferença e o avanço que atualmente existe.
Muito bem, o que se tem conseguido e que caminhos estão a ser trilhados?
Conseguimos perceber muito melhor as alterações nestas células e conseguimos combinar diferentes medicamentos que têm mecanismos de ação complementares. Ou seja, alguns levam à eliminação direta das células malignas, outros levam à estimulação de células imunes que existem à volta das células malignas, como que a acordá-las para elas realmente defenderem o organismo. Existem imunoterapias que têm sido cada vez mais eficientes e menos tóxicas e que se combinam com estes fármacos. Ou seja, atualmente a proposta terapêutica é uma combinação de tratamentos que permitem a sobrevivência das pessoas com ainda alguma toxicidade, mas cada vez menos. Dentro das imunoterapias, a utilização de anticorpos monoclonais e anticorpos monoclonais que estão conjugados com drogas contra estas células é muito inovador. E, para além disso, temos também a possibilidade de alterar linfócitos T, são as chamadas CAR-T cells, com recetores diretamente contra alvos à superfície destas células aberrantes. Essa é uma terapêutica que já está disponível para esta doença, para o mieloma múltiplo em Portugal, não ainda em linhas muito precoces, mas em linhas mais avançadas da doença, mas cujos resultados dos estudos vieram mudar completamente o paradigma do tratamento do mieloma.
Altera até a perspectiva de esperança de vida para os doentes?
Sim. Temos vários tratamentos que aumentam a sobrevivência global das populações de doentes com esta doença. Ou seja, para além dos avanços em termos do que nós chamamos sobrevivência sem progressão, temos avanços de sobrevivência global da população, e isso é uma esperança e um conforto muito grande.
Muito bem. Por que se diz que o mieloma múltiplo é uma doença invisível?
Porque como ele é uma doença da medula óssea, até dar sinais, que são estes sintomas que nós falamos, a doença já está em desenvolvimento no corpo daquele paciente. Ou seja, poderá ser visível através de análises clínicas, mas essas análises têm que ser feitas muitas vezes às cegas, sem o doente ou sem a pessoa ter sintomas. E devem ser feitas a partir de uma determinada idade pelos médicos de família, pelos médicos gerais, nas tais análises de rotina que as pessoas devem fazer a partir de uma determinada idade, anualmente, nos seus médicos. E não esperar pelos sintomas. Ou seja, não esperar verdadeiramente que haja um evento ósseo ou a tal fadiga que representa já uma anemia instalada ou uma insuficiência renal. Por isso, a vigilância analítica é muito importante para que estas doenças silenciosas sejam de alguma forma visualizadas antes de serem muito grandes.
Muito bem, professora Cristina João, muito obrigado.
Obrigada, foi um gosto.
No próximo episódio deste podcast, em parceria com a GSK e com o apoio científico e institucional da Associação Portuguesa Contra a Leucemia, vamos centrar atenções na vertente psicológica do mieloma múltiplo. Até lá. "Conversas sobre o Invisível" é um podcast Observador Lab, produzido em parceria com a Associação Portuguesa Contra a Leucemia, APCL, e com o apoio da GSK. Para mais informações, consulte o seu médico.