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E já cá estamos para mais uma missão olímpica com o Bruno Roseiro. Bruno, konnichiwa, como vais?

Olá, boa noite.

Bem-vindo. Vi que não chegaste a presenciar a entrega da medalha à Patrícia Mamona, a medalha de prata para a atleta portuguesa. Continua em destaque também nas notícias, é o momento mais alto da participação portuguesa até agora nestas Olimpíadas. Ainda assim, conseguiste acompanhar algumas imagens, algum momento, apesar de não presencialmente?

Sim, consegui ver algumas imagens. Isto são coisas que acontecem. Se eu agora te disser onde eu estou, tu vais dizer: "Isto se calhar não é muito normal", mas estou a meia dúzia de passos daquele local onde os atletas entram quando são apresentados oficialmente antes da final. Eu estou basicamente a meia dúzia de passos do sítio de onde a Patrícia saiu para ir fazer o seu concurso de triplo salto. Mas depois tens um problema que é, no meu caso, eu tenho tudo organizado por dias, tinha feito a minha agenda, era a estreia da canoagem com a Teresa Portela, a Joana Vasconcelos e o Fernando Pimenta e eu de manhã estaria sempre na canoagem. Não liguei uma coisa com a outra, ou seja, não é que eu achasse que o Oriole e a Patrícia não iriam ganhar medalhas, aquilo que aconteceu foi que eu esqueci-me que as medalhas muitas vezes são entregues no dia anterior. E depois basta tu não marcares um local onde se realiza uma prova qualquer, neste caso o atletismo, que se eu viesse cá de manhã era para ver a Marta Pen e a Lauren Basolo, e apenas e só a medalha da Patrícia, que era aquilo que me interessava. Mas basta tu não marcares e automaticamente, por mais cambalhotas que tu tentes dar, se tu tens o e-mail para entrar, entras, ou o e-mail ou o bilhete, ou seja o que for, se não tens, não entras.

Bruno, é mais ou menos igual ir a um restaurante em Lisboa nesta altura do campeonato.

Sim, estamos mais ou menos por aí.

Ou tens o papel ou não entras.

Exatamente. Eu ontem estava a falar com o Diogo sobre isso, também à noite. Eu hoje não fui ao halterofilismo à noite, porque era a prova da Lauren Hubbell, da Nova Zelândia, que foi o primeiro transgénero a participar nos Jogos Olímpicos. Nem sequer valeu a pena lá ir fazer o choradinho, porque automaticamente quando eu tentei marcar, a própria organização disse-me que o meu pedido tinha sido recusado. E não é uma coisa muito normal. Até agora, a única coisa que me recusaram foi um dia de ténis de mesa, que sinceramente devia haver ali uma conjugação cósmica que eu nem percebi muito bem porque é que eles recusaram. Mas até agora tinha sido só isso. E hoje à noite recusaram-me o halterofilismo. E depois tu pensas assim: "Mas se calhar é porque está a apertar." Não, não está a apertar, porque eu, por exemplo, para amanhã tenho marcado os quatro jogos dos quartos de final do torneio de basquete masculino e que tem jogos, por exemplo, os Estados Unidos com a Espanha, por exemplo, que normalmente é um high demand event, não é propriamente fácil entrar, mas já tenho os quatro aprovados. Existem aqui estas coisas. Uma coisa é certa, isso eu já aprendi: se eles dizem que não, é que não, se eles dizem que sim, é que sim, e nem vale a pena estarmos a discutir muito mais do que isso.

O jeitinho português não existe em Tóquio.

Não, não vale a pena. Eles até a dizer que não, são simpatiquíssimos.

Olhando aqui também a canoagem, Fernando Pimenta ainda tem hipótese de lutar por medalhas, é uma das grandes esperanças no contingente português, não é?

Sim, ele de manhã vai fazer a meia-final. A meia-final do Pimenta não vou ver, assim como a Teresa Portela também vai fazer a meia-final do K1 200. A meia-final não vou ver porque amanhã vou arriscar um bocadinho mais. Não vale a pena dizer, fisicamente qualquer pessoa que ande aqui nisto de um lado para o outro já começa a notar. E hoje foi o melhor exemplo, porque hoje estávamos a ver a prova da Liliana Cay, e acho que isso foi bem visível na televisão. Estava a chover torrencialmente. Pode parecer que o tempo não está assim tão quente, mas enquanto estava a chover torrencialmente estavam 30 °C e a humidade muito mais do que tem sido normal. Só isso até te cansa. Eu amanhã, mesmo assim, vou arriscar. Não vou à meia-final do Pimenta, que em condições normais vai garantir a qualificação para a final, que é às 04h20 da manhã daí, portanto 12h20 cá. E não vou porque às 09h00, aqui no Estádio Olímpico, vai começar a qualificação do triplo salto, que tem não só o Pedro Paulo Pichardo, que é um dos favoritos à vitória na final, mas também o Nelson Évora. Eu sou um adepto, um ídolo do Nelson Évora, porque acho que ele tem uma capacidade para desafiar o impossível, que não é normal nós encontrarmos nos atletas portugueses. Mas pela primeira vez, eu quase que estou tentado para dizer, acho que nesta altura é impossível o Nelson fazer muito.

Mas por causa da operação ao joelho?

E não só. A operação também não ajudou, mas ele nessa altura já não conseguia saltar ao nível que os outros vão estar a saltar. Agora, há uma coisa que eu aprendi: eu nunca digo nunca com o Nelson, neste qualquer prova. E portanto, seja para fazer a despedida que ele merece em termos olímpicos, seja para perceber como é que ele vai a uma final, parece-me que é mais importante estar aqui e depois ir a correr para a canoagem e pelo meio dessa corrida ir tentar uma coisa ainda mais impossível, mas que eu acho que valeria muito a pena, que é passar pelo centro de imprensa e tentar garantir um bilhete para entrar na prova da Simone Biles da trave, que vai ser também amanhã.

Vais ganhar uma medalha para andares a correr de um lado para o outro, Bruno.

Claramente, eu vou merecer uma medalha no final. Eles podem escolher à vontade o que eles quiserem. Não podes entrar no halterofilismo, mas estás a fazer tanto cardio, já não precisas de ir ao ginásio. Ele vai chegar cá em grande forma. Mas depois não perco peso, que é uma coisa que me chateia. Eu ando aqui armado em atleta, as próprias pessoas que nos veem a correr de um lado para o outro, até vão dando dicas do gênero: "Atenção, não bebam água, bebam Aquarius, porque o Aquarius tem sal" e essas coisas todas. Mas depois, quando olho para mim, cá continua esta barriga lindíssima que me remete só para o halterofilismo ou para o beisebol. Porque eu no outro dia estava vendo um jogo de beisebol. Exatamente. No lançamento do peso também há umas barriguinhas. O peso também, sim. Mas o beisebol eu achei curioso. A República Dominicana um dia desses ganham o jogo e eram todos obesos como eu, mas ganharam tranquilamente. Tu não és obeso, Bruno. Não, eu sou só um bocadinho abaulado.

Há bocado o Nelson falou agora do lançamento do peso e temos a Liliana Cá no lançamento do disco. Isto correu muito mal hoje. Correu muito mal para ela, do ponto de vista do que lhe aconteceu depois de ter caído.

Ainda assim, mais um diploma.

Não, de resto foi uma prova ótima, mas caiu e magoou-se a sério.

Sim, e depois há uma outra curiosidade, que eu acho que essa não se vê na televisão, que é quando começou a chover um pouquinho mais a sério. Isto durante o dia só choveu um pouquinho à tarde, mas durante o dia esteve abafado como sempre, uma humidade enorme. E do outro lado, em relação à final do disco, estava a ser feita a qualificação do salto em altura, do salto com vara, aliás.

Mostraram a americana a dizer: "Suspendam isto, porque senão nós vamos cair."

Exatamente. E sabes o que é que aconteceu depois? É que essa americana caiu mesmo a sério, porque a vara dela partiu e ela quando a Liliana Cá estava acabado de falar conosco aqui na zona mista, a chorar, mas já era um misto de tristeza e de alegria, já eram lágrimas quase de descompressão, estava a Sandy Morris a passar numa cadeira de rodas com um saco de gelo na perna, porque ela quando a vara dela parte, a maneira como ela caiu arranjou um problema a sério, portanto não vai à final e ela podia ser eventualmente candidata a medalha, até porque ela ganhou a medalha no Rio de Janeiro, se não me engano, foi a prata. Era candidata a ganhar a medalha. Ela avisou: "Atenção, não vale a pena estarmos a brincar com isto enquanto estiver a chover muito", e parecia que estava a adivinhar aquilo que aconteceu. Aquilo que aconteceu com a Liliana Cá foi exatamente a mesma coisa, mas no disco. Era preciso alguém cair e aleijar-se para eles perceberem que aquilo teria mesmo de parar.

Sim, aliás, eles são responsáveis. Isto foi uma rótula que saiu do sítio, não é nenhuma brincadeira.

Mas ela tem mesmo esse problema. Ou seja, ela falou aquilo de uma maneira quase natural, como se fosse normal. Mas já percebi que aquilo é um problema que ela tem, que é a rótula sai, mas depois volta ao sítio. O problema ali é uma coisa que nós cada vez mais vamos falando, que é o medo que se ganha. Ou seja, a partir daquele lançamento, e por mais que os voluntários andassem ali a secar aquela zona de lançamento, um: ela já tinha o pé esquerdo condicionado, portanto ela não conseguia fazer a rotação por completo. E dois: ela, que é normal, sabia o que é que lhe tinha acontecido e sabia a queda que ela tinha dado. E portanto, é normal nós até inconscientemente ficarmos um bocadinho mais resguardados e não fazendo aquela explosão que ela precisava. Trazes aqui também duas histórias muito curiosas em que podem incluir a abertura de uma nova empresa de exportações de pinos portugueses para Tóquio e também, pela tua parte, a compra de artesanato local. Ou eu percebi mal estas duas histórias que te aconteceram aqui nesta noite dedicada ao atletismo? Não foi compra, se eu fosse um turista português nas Caraíbas, foi tudo regalos, foi tudo "recuerdos". Mas conta-me lá então como é que foi essa história. Acho que me disseste que o senhor se chamava Kay, espero que não seja o Cobra Kai Era o Kai. Ele com o dedo pareceu-me desenhar um I, mas até admito que possa ser um Y, porque eu estava a lhe tentar pedir para ele me explicar o que era Kai, mas pareceu-me um I. Vamos assumir que é o Kai. Eu hoje fui pela primeira vez ao polo aquático, uma experiência que não vou lá voltar, porque o polo aquático é o único local onde eu já estive que não tem ar-condicionado daqueles potentes. Imaginem uma piscina, que por si só já é abafada, e não haver ar-condicionado não é a melhor sensação e, sobretudo, já com sono pelo meio. Nem o jogo foi muito interessante. Foi Sérvia e Montenegro. Quem quiser ir ler a história, pode ir ler a história observador. O jogo também não foi nada de especial. E depois vim mais cedo aqui para o Estádio Olímpico e primeiro cruzei-me com o Kai. E por que eu fui falar com o Kai? Porque é a primeira pessoa que eu vejo que tem mesmo uma placa a dizer "troco pins", que em termos de Jogos Olímpicos, é a atividade paralela mais recorrente e provavelmente mais lucrativa que existe, porque depois há pessoas que chegam a comprar ou a vender pins de edições antigas de Jogos Olímpicos por 2 mil, 3 mil, 4 mil, 5 mil euros. Isto é mesmo um negócio em si. Só que é um negócio que deixou de ser por causa da pandemia. Na aldeia olímpica, pelo que percebo também de alguns atletas, vai havendo ali algumas trocas, mas não é assim nada muito significativo. A única pessoa portuguesa que eu já vi que tinha o colar todo a acreditação cheio de pins era o pai do Gustavo Ribeiro, que é também o treinador dele, o Gustavo Ribeiro do skate. O pai dele ao terceiro ou quarto dia já tinha aquilo tudo cheio de pins, mas não é normal. E hoje o Kai aquilo que explica é: ele tem um trabalho normal, etc., e depois o hobby dele é colecionar os pins de edições passadas de Jogos Olímpicos e a ideia dele é estar sempre a ver se consegue encontrar mais de um maior número possível de países. E a partir de agora vou ter até domingo de arranjar um qualquer de Portugal.

É o mínimo.

Sim, não sei como, mas vai ter de acontecer. Mas entretanto já tenho dois que ele me quis dar só por simpatia.

Tinha os repetidos. Estavam repetidos.

Provavelmente. Mas eu que não tenho nenhum pin, já tenho dois.

Estás em dívida agora.

Sim. E depois uma segunda vez, porque vamos imaginar que eu era uma pessoa que no meio do estresse, se calhar precisava de fumar um cigarro. Isto é completamente proibido de fumar em qualquer parte, é proibido também de fumar na rua. E agora, entretanto, encontrei aqui ao pé do Estádio Olímpico um hotel que tem no oitavo andar uma sala de fumadores e é para onde os narcisas vão a correr e depois voltam para cá outra vez. É uma coisa de 10 minutos e depois voltam. E quando voltei foi quando conheci uma senhora que se chama Masako, que estava com os dois filhos, uma filha que devia ter à volta de uns cinco anos e um pequenino de dois. E então aquilo que Masako fazia era: tinha uma imagem do mapa-mundo, dava-nos quatro cores a escolher, que era amarelo, vermelho, azul e verde, e nós tirávamos a bolinha autocolante de uma cor, colávamos no nosso país e aquilo que nós tínhamos direito era dentro do saco daquela cor, uns brincos que são feitos pelos filhos. E era isso que ela estava a fazer.

E que ficam lindamente, não é, Bruno?

Ainda não usei, porque eu tenho uma coisa que é bastante espetacular. Eu estava a ver se evitava falar nisto até sair daqui de Tóquio, mas já estou um bocadinho por tudo. Eu tenho um calo na orelha esquerda por causa da máscara.

A sério?

A sério, é verdade.

Sim, porque aí não dá para tirar em lado nenhum, não é?

Não. É a máscara todo o dia, de preferência uma nova, apesar de andar a fazer teste todos os dias e continuar a dar tudo negativo.

Não é no nariz o calo, é mesmo na orelha?

Não, é mesmo na zona onde assenta o elástico da máscara.

Isso vai ser complicado para tratar, isso só um pedicure de orelhas é que poderá resolver isso.

Alguma coisa vou ter de me fazer.

Depois lavar muito bem o equipamento.

Sim.

Vai ser um desgaste de pedra-pomes que vais ter aí nessa orelha.

Eu já olhei aqui com olhar maroto para uma coisa que há aqui que é departamento médico, alguma coisa assim, mas ainda não ganhei coragem para ir lá.

Sabes o que tu precisas? Precisas daquelas fitas que prendem os elásticos.

Que é o que eu ando à procura, mas as lojas de conveniência têm tudo, menos isso.

Não, são umas fitas que se põem aqui atrás.

Ok, amarras na cabeça e não nas orelhas.

Prende na cabeça.

Já estava a imaginar de bandlete Bruno Roseiro em Tóquio.

Bandlete e brincos.

E brincos, sim.

Os brincos vou experimentar logo, não. Olha, em relação ao Estádio Olímpico, mais vale, até porque há aqui pessoas também portuguesas a trabalhar de organização, qualquer dia arranjam-nos e um saquinho de cama, porque isto fecha às duas da manhã, que é a hora que eu vazio daqui, às 20h30, já cá estou outra vez. Portanto, mais vale arranjar aqui um saquinho de cama.

Muito bem, Bruno Roseiro em direto de Tóquio, sempre depois das 16h com a "Missão Olímpica". Bruno, contamos contigo amanhã para novo "Missão Olímpica". "Arigatō"!

E com uma medalha.

Sim, espero bem que sim.

Com mais uma.

Um abraço, Bruno. Até amanhã.

Adeus, até amanhã. Obrigado.