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Sejam bem-vindos a mais uma Mobi Talk, mobilidade afirmativa dedicada ao AFIR, Alternative Fuel Infrastructure Regulation, em português, Regulamento Relativo à Criação de uma Infraestrutura para Combustíveis Alternativos. Hoje sobre os municípios. São intervenientes nesta talk, Luís Barroso, presidente da Mobi.e, a empresa que gere a rede nacional de carregamentos elétricos, e Ricardo Gonçalves, presidente da Câmara Municipal de Santarém. Bem-vindos os dois. Luís Barroso, quão importantes são os municípios na criação e também consolidação de uma rede de carregadores de veículos elétricos?

Os municípios são essenciais, são atores fundamentais enquanto gestores do espaço onde os carregadores vão ser instalados. São fundamentais e daí, desde o início, quando começou o projeto de mobilidade elétrica em Portugal, foram envolvidos na criação da rede piloto. Agora que é necessário crescer, obviamente, ainda mais essenciais, até porque os desafios são enormes. Temos que acelerar o processo. O mercado está extremamente dinâmico e para podermos acompanhar o ritmo de crescimento do mercado, e é muito mais rápido vender uma viatura elétrica do que instalar um posto, é essencial termos os municípios como nossos parceiros, e é assim que os vemos. É um trabalho conjunto, onde a Mobi.e, sempre que é solicitada, procura colaborar e dar o seu know-how aos municípios.

Ricardo Gonçalves, qual é o papel dos municípios no futuro da mobilidade elétrica, tendo em conta agora os pressupostos do AFIR?

Primeiro agradecer o convite para estar convosco e dizer que os nossos desafios são enormes. O município de Santarém desde a primeira hora que aceitou os desafios da Mobi.e. Fomos projeto piloto na primeira fase, ainda no ano 2009, que todos reconhecem, foi muito embrionário, mas também serviu para que a partir de 2015 houvesse aqui um salto mais afirmativo relativamente àquilo que é a mobilidade elétrica. Nós temos que fazer transposições de tudo que aquilo que se passa na União Europeia e termos uma rede de infraestruturas para combustíveis alternativos é algo que está nas normas da União Europeia e que nós temos que começar a antecipar no nosso país. Nós sabemos que ao nível daquilo que é a rede transeuropeia de transportes, até 2025, 60 em 60 km vão ter que haver para veículos ligeiros, postos de carregamento, como eu disse, 60 em 60 km, 150 kW, mas para os pesados, 350. Mas vejam, nós sabemos que são mais específicas aquelas infraestruturas que estão nesta rede, mas nós, se calhar, olhando para aquilo que a União Europeia nos está a pedir, e nós não nos podemos esquecer que 2050 é já amanhã. Os objetivos de 2030 são muito claros, mas 2050 também são claros, queremos neutralidade carbônica. Portanto, os municípios, na minha opinião, e Santarém está a trabalhar nisso, é começarmos desde já olhar para aquilo que a União Europeia nos pede para as infraestruturas mais importantes, mas nós, se calhar, temos que replicar dentro dos nossos conselhos aquilo que nos é pedido para o futuro e antecipar o futuro, que é muito que os municípios fazem. Dizer ainda que temos também aqui um desafio, que é nós sabemos que hoje os carros elétricos em Portugal, e há relatórios de 2024 recentes, dizem 1%. Eu acho que ao nível daquilo que são os incentivos para a aquisição de veículos elétricos, ao nível da União Europeia também, Portugal terá que negociar outro tipo de apoios, que eu acho que isto é fundamental e não nos podemos desviar também desse pressuposto. Agora, os municípios estão a trabalhar para mais rapidamente fazerem a transposição daquilo que a União Europeia está a produzir.

Luís Barroso, como é que o AFIR vai impactar as cidades e as vilas de Portugal?

Vai basicamente acelerar todo o processo e toda esta dinâmica que nós temos vindo a promover e com isso vamos ter, certamente, os municípios muito mais descarbonizados. Agora, é importante também termos em atenção que tudo isto só faz sentido se cada vez mais olharmos a mobilidade como uma integração modal, ou seja, as cidades é importante a eletrificação, mas temos que definir nos planos dos municípios onde é que entram os veículos particulares, onde é que entra o transporte público, onde é que funciona o last mile, que agora também está muito em voga, e tudo isto é muito importante para de facto termos o sucesso. Relativamente ao AFIR, nós neste momento temos no país inteiro já mais de 8200 pontos de carregamento, cerca de 37% deles são postos rápidos ou ultrarrápidos, e os objetivos é atingirmos até 2050 cerca de 82 mil. Portanto, é quase crescer 90%. Estamos basicamente em 10% deste caminho. Por isso, a Mobi.e tem vindo, de facto, enquanto dinamizador e catalisador de toda esta transformação, a fazer o seu trabalho, não só apoiando, primeiro que na constituição da rede piloto, depois no desenvolvimento com vários projetos, e aqui com o município de Santarém, desde a primeira hora, como o senhor presidente acabou de dizer, também colaboramos no projeto dos postos de carregamento ultrarrápido, e agora esperamos que também neste desafio que a Mobi.e acabou de lançar, que visa as ruas elétricas, que também Santarém venha a entrar nele.

Já vamos falar desse projeto. Ricardo Gonçalves é autarca em Santarém. Que contributo é que podem dar os municípios na implementação das determinações do AFIR?

Aquilo que referi ainda há pouco, nós temos que antecipar os desafios que a União Europeia nos coloca, e nós temos colocado mais postos de carregamento. Neste momento, temos 16. Os nossos munícipes falam cada vez mais disso, mas há uma coisa que eu gostava de referir. Nós estamos num ponto muito central de Portugal, Santarém, e há uma coisa muito curiosa. Nós somos reconhecidos por uma boa gastronomia, temos grandes restaurantes, tivemos agora o chef Rui Castelo com uma estrela Michelin, mas há uma coisa que é muito curiosa. Os nossos restaurantes todos, eles próprios estão a colocar postos de carregamento para que os seus clientes parem lá. Postos rápidos também, alguns deles. E isso demonstra que há essa procura e é diferenciador hoje, isto fique claro, dentro dos nossos restaurantes.

É um plus ao cliente.

É um plus, sim, senhor. E vejo, eu estou a meio de uma viagem, onde é que eu vou parar? Paro em Santarém. E nós claro que fazemos a nossa parte com o aumento e vamos também em maio aceitar o desafio da Mobi.e, mas dizer que esse caminho está a ser feito não só pelo município, isto gostava que ficasse aqui também registado, porque é a nossa obrigação, e nós cada vez que requalificamos espaço público em Santarém, colocamos novos carregadores. Agora requalificamos junto às nossas Portas do Sol, que é um espaço emblemático, e lá está um carregador, e é assim sucessivamente. Não há já espaço público que não seja tratado em Santarém, que não seja olhado à mobilidade elétrica.

Portanto, os restaurantes estão já sensibilizados para esta nova realidade. E os munícipes, por exemplo, levam o assunto às assembleias municipais?

Não falo nas assembleias municipais.

Ou escrevem para a câmara.

Escrevem o e-mail a perguntar se na zona vai existir ou não, quando veem e percebem que vão haver requalificações urbanas ou novas construções de alguns espaços dentro do concelho, porque nós também temos as freguesias mais rurais, algumas delas, perguntar se vão existir postos de carregamento.

Portanto, já há essa preocupação. Luís Barroso, estamos a falar de cidades. Como é que está distribuída a atual rede e qual é a meta?

Atualmente, eu penso que Portugal deve ser o único país que tem uma capilaridade que cobre 100% dos municípios do país. São 308, e aqui também a juntar as regiões autónomas. Agora, há que fazer, há municípios que têm mais postos e também têm maior população, faz sentido. Há outros que ainda só têm aqueles que a Mobi.e instalou no âmbito da constituição da rede piloto, mas que agora é um caminho que temos que fazer para continuarmos a desenvolver e a crescer. Se bem que há aqui uma coisa que eu também gosto sempre de fazer notar. Normalmente, os municípios mais pequenos são mais rurais, onde o parque habitacional também é diferente, que permite soluções de carregamento privadas, onde a necessidade de carregamento público não é tão premente como acontece nas zonas das grandes cidades.

Há mais moradias e menos prédios, não é? Isso ajuda.

Ajuda. Se bem que temos que ter em atenção que estamos a tratar de mobilidade, as pessoas querem se movimentar e nem só os locais estão nos sítios, há pessoas de fora que passam e, portanto, necessitam também de encontrar as suas soluções de carregamento. Mas é um processo, não podemos querer tudo num dia. E, portanto, as coisas estão a correr, a meu ver, muito bem. E isso mesmo os resultados comparativos com outros países o demonstram. Por exemplo, no ano passado, a quota de mercado de veículos registados em Portugal, 100% elétricos ou plug-in, suplantou países como França, a Alemanha, que são produtores europeus de automóveis, o Reino Unido, quase que triplicou os níveis de Espanha e quintuplicou os níveis de Itália. Portanto, isso demonstra bem o sucesso que Portugal está a ter nesta transição energética, que, e muitas vezes quando estamos a discutir isso, esquecemos de focar este problema, que é vital para um país como o nosso, que apostou forte também na produção da energia verde, isto vai nos dar independência energética e também uma melhor sustentabilidade econômica e financeira do próprio país enquanto economia.

E que investimentos é que estão previstos no curto, médio e longo prazo, no que diz respeito às cidades?

Neste momento, acabamos de lançar um desafio, chamamos mesmo isto, que é um desafio e mais numa colaboração para todos os municípios. É um investimento cofinanciado com o fundo ambiental. Vamos investir cerca de dois milhões de euros para instalarmos postos de carregamento em zonas habitacionais ou comerciais onde não existe parqueamento privado, ou seja, onde não existem garagens. Portanto, queremos agora dar um novo sinal, ajudar os municípios também a adaptarem-se a esta nova realidade. É também um dos pedidos que muitos dos utilizadores têm vindo a fazer, que quem não tem garagem própria ou espaço próprio para carregar, não tem soluções durante a noite, ao fim de semana, e, portanto, procuramos responder isso. E queremos também que o mercado se adapte a esta nova situação, como, por exemplo, fomos pioneiros no lançamento dos hubs, que agora o próprio mercado já está a fazer hubs. Lançamos um primeiro posto de carregamento ultrarrápido em zonas do interior. Agora o mercado já está a lançar postos de carregamento ultrarrápido. E é este também o papel da Mobi.e, que é avançar primeiro

E catalisar o mercado e depois que ele se desenvolva. É muito importante nesses projetos também que os municípios tenham cada vez mais uma padronização no tratamento, quer dos licenciamentos, quer inclusivamente das próprias taxas de ocupação do espaço, que tantas vezes os operadores nos pedem a nossa ajuda.

Falou dos postos de carregamento rápido. Sei que foram instalados 10 postos de carregamento ultrarrápido nas principais cidades do interior. Que balanço é que faz dessa instalação? E se é para reforçar. É?

Claro que é. Aliás, o primeiro posto de carregamento ultrarrápido que instalámos no âmbito deste projeto foi em Castelo Branco, em 2021, se não estou em erro, em maio de 2021, e hoje em dia já existem mais postos de carregamento ultrarrápido em Castelo Branco. Portanto, o próprio mercado criou um dinamismo. Em Santarém também já temos um posto de carregamento ultrarrápido e certamente vão acontecer mais. Portanto, o sucesso é importante e é muito importante também para uma questão de coesão territorial em termos de mobilidade apoiada na tecnologia elétrica, em que as pessoas, normalmente, e isso é a realidade do nosso país, mais de 80% da nossa população está no litoral, mas também circula no interior e, portanto, é necessário também que a esta população se dê opções de carregamento para que possam se movimentar nessas zonas do interior.

E como já percebemos, é um chamariz para parar em cidades como Santarém para, por exemplo, almoçar e carregar o carro. Falou há pouco do projeto Ruas Elétricas, em que é que consiste este projeto?

É muito simples. No fundo, nós vamos apoiar municípios para selecionarem dentro dos seus concelhos uma rua onde, dependendo da dimensão do município, vamos instalar entre dois a oito pontos de carregamento lento, para que os residentes ou as pessoas que normalmente utilizam aquela via possam ter uma opção de carregamento de longo prazo. Depois de os municípios selecionarem esses espaços, iremos fazer um concurso público para um operador de pontos de carregamento fazer a instalação dos pontos e, obviamente, ter a exploração, porque estamos a falar de postos de fraca rotação, ao invés daquilo que foram os projetos anteriores, que tínhamos concessões de cerca de 10 anos, agora propomos um pouco maiores, para dar também tempo ao investidor para ter o retorno do investimento. E, portanto, é isto. Esperemos que, se possível, alcançar os 308 municípios, uma vez que envolvemos todos. Se não for possível, pensamos que deixamos aqui, e atenção, isto será um piloto, que depois, provavelmente os próprios municípios irão, dentro dos seus planos, também lançar as suas próprias concessões com esta finalidade e ir misturando, carregamento lento, semirrápido, rápido e ultrarrápido, de acordo com aquilo que for o seu planeamento.

Temos aqui um autarca, Ricardo Gonçalves. Santarém já escolheu a rua para aderir ao projeto Rua Elétrica?

Já escolhemos a rua e dizer que do ponto de vista da coesão, não posso estar mais de acordo e dizer que apostou bem começar Castelo Branco, depois também Santarém. Eu cheguei a estar com o anterior primeiro-ministro nesse lançamento e eu sou conhecido por lutar muito contra a macrocefalia de Lisboa e muito defensor de um aeroporto em Santarém e, portanto, veja, já estava também a antecipar futuro. Sobre a rua, nós já escolhemos, já estamos a trabalhar, é até 30 de maio que vamos ter que apresentar a candidatura, em São Domingos, é um bairro populacional que a gente tem no nosso concelho.

Como é que ficaram essa rua?

Pelos critérios também que aqui foram referidos. Por quê? Porque é um bairro onde não há muitas garagens, portanto, é praticamente tudo só em prédios de seis, sete andares, quatro, cinco andares. E, portanto, é aquilo que nós, pelo menos do que lemos da tipificação e do edital que vão lançar, que nós chegamos a essa rua. Portanto, são cerca de seis mil habitantes que estão nesse bairro. Do ponto de vista de estacionamento, estamos sempre à procura de novas soluções de estacionamento naquele local e do ponto de vista daquilo que vamos candidatar, posso já antecipar, serão quatro postos, ou seja, com oito lugares, para dar ali uma solução naquela zona que já estava identificada como uma necessidade. Eu até antevejo, se me é permitido, quero acreditar que os meus colegas autarcas estão tão atentos como nós em Santarém, e eu quero acreditar que estes dois milhões rapidamente vão criar a necessidade que a Mobi.E possa fazer novos editais para nós continuarmos a concorrer para este tipo de soluções, que são muito importantes para nós.

Já lhe está a dar mais trabalho para os próximos meses.

É para isso que cá estamos e, de facto, o dinamismo que temos tido no mercado assim o exige e a Mobi.E, dentro dos possíveis, tem vindo a responder.

Luís Barroso, Ricardo Gonçalves, muito obrigado aos dois.

Obrigado.

Ressacamos brevemente para mais uma Talk dedicada à WAFIR. Até lá.