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Sejam bem-vindos a mais uma de quatro Mobi Talks, mobilidade afirmativa. Neste programa vamos debater o AFIR, Alternative Fuel Infrastructure Regulation, o regulamento para a infraestrutura de combustíveis alternativos para o utilizador de veículos elétricos. Estão conosco Luís Barroso, presidente da Mobi.e. Viva, Luís!

Viva.

E também Pedro Faria, presidente da UVE, Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos. Olá, Pedro.

Olá.

Pedro, começava talvez por si. De que forma é que o AFIR pode facilitar a utilização de veículos elétricos agora e no futuro?

Nós, em Portugal, já de alguma forma cumprimos parte daquilo que é o AFIR, aquilo que ele vem exigir. Para os utilizadores, vai criar aqui um patamar extra de simplificação, que é algo que a associação já vem defendendo há muito tempo. Nós, com o AFIR, vamos passar a chegar ao posto e podemos pagar com cartão de crédito, de débito, portanto, vamos ter um pagamento num terminal.

Tal qual um produto qualquer.

Qualquer outro produto. E vai exigir, então, que nesse pagamento tenhamos um valor global de tudo aquilo que é a nossa sessão de carregamento, algo que não acontece por enquanto. Nós temos um cartão CEM que nos faz a parte da eletricidade e depois quando chegamos ao posto, temos a tarifa de operação e os impostos depois em cima. Portanto, temos aqui três componentes que para o utilizador, a maior parte das vezes, requer ter uma app para ter a sua simulação total do preço. Nalguns casos, já temos outros mais simplificados, mas essa é a regra geral. E o AFIR vai trazer essa simplificação. É algo que vai ter isso. Só através de um cartão de pagamento, um cartão de débito ou crédito. Coloco em dúvida que essa venha a ser uma solução muito utilizada pelos utilizadores, que vão ver as diferenças de preço, mas é uma simplificação e isso é muito importante para os utilizadores.

Luís Barroso, com a entrada em vigor do AFIR, a Mobi.e tem a expectativa de tornar a experiência de carregamento mais amiga do utilizador. De que forma?

Antes de tudo, proporcionar a melhor experiência ao utilizador foi o que esteve na base da criação do regulamento da mobilidade elétrica em Portugal, logo em 2010. Desde o início, inspirados no sucesso do Multibanco, o modelo Mobi.e permite que um utilizador carregue o seu carro em qualquer posto de carregamento, seja qual for o operador, utilizando apenas um único meio de acesso, um cartão ou uma app de um comercializador. Ora, isto é uma situação única no panorama mundial. Parecendo que não, passados 14 anos, agora o AFIR vem procurar chegar a esta realidade através de meios de pagamento bancários, com serviços bancários. Outro fator que o AFIR vem agora exigir é o acesso aberto à informação, característica que é base do modelo Mobi.e. Para os portugueses conhecerem em tempo real a informação sobre a localização de todos os postos, a sua potência, se está disponível ou não, quem é o operador e o próprio tarifário, é o seu dia a dia. Por força do AFIR, os outros países agora vão ter também que desenvolver as suas soluções. Apesar de estarmos tranquilos nestas matérias, há um aspecto para o qual temos vindo a trabalhar de forma a responder melhor às exigências do utilizador. O modelo Mobi.e tem uma característica que proporciona vantagens extraordinárias, que é o fato de estarmos integrados no setor elétrico. Também, como sabemos, os mercados das commodities, como a água, as comunicações e a energia, é fornecerem aos utilizadores a informação sobre os seus consumos e faturações com caráter periódico. Esse foi um aspecto que foi seguido no modelo português. Por outro lado, ao contrário do que acontece no abastecimento dos veículos a combustão, o carregamento de veículos elétricos depende de muitos fatores, o que torna, no atual estado de desenvolvimento tecnológico, impossível antecipar o custo de cada carregamento. Depende da potência da bateria, da potência do posto, até do nível de carga da bateria, das condições ambientais e, portanto, é quase impossível estimar à partida quanto é que é o custo. No entanto, a Mobi.e, fruto desta pressão sentida e no sentido de melhorar sempre a confiança dos consumidores na nossa solução, desenvolveu na nova plataforma ferramentas que permitem, neste momento, desde já, fornecer no final de cada carregamento os dados necessários para que os comercializadores possam, através das suas apps, fornecerem informação aos utilizadores de custos desta sessão. Por isso, nós esperamos que nos próximos meses, esta inovação seja também implementada nas apps dos comercializadores, que obviamente precisam de algum tempo para se desenvolverem estas soluções digitais, o que vai, estou certo Responderem muito às expectativas dos VE.

Sim, aqui a questão de passarmos a ter um custo em kWh no posto, este preço final poder ser em kWh para os utilizadores é fundamental. A inexperiência no nosso modelo que temos tido até hoje de ter um custo total em kWh é que pode não nos trazer uma experiência muito boa a nível de custo, mas veremos o que é que vai surgir.

Eu acho que o mercado deverá continuar a desenvolver os seus tarifários próprios, quer seja em kWh, que de facto tem uma vantagem, mas que tem outra desvantagem, que, por exemplo, quando se tarifa ao minuto, a ocupação do posto também é importante e obriga a rotatividade, o que é essencial para não termos postos ocupados sem estarem a ser utilizados. Tem que haver aqui uma racionalidade da utilização do posto e que muitas vezes não acontece. Ainda ontem tive uma infeliz experiência de querer ir carregar a minha viatura num posto público. Quando cheguei, das duas tomadas, uma delas estava ocupada, na outra tinha um carro de combustão interna a ocupar o lugar fisicamente. Portanto, esta falta de civismo.

Aí não somos um exemplo.

É um pouco por todo lado, não é só cá.

É importante trabalharmos também este civismo.

Pedro, o que é que os utilizadores de veículos elétricos privilegiam mais? É a distribuição geográfica ou a potência dos carregadores?

A questão não se pode colocar como um ou outro. Para os utilizadores, isso não existe. Até porque nós estamos numa fase inicial e a distribuição geográfica numa fase inicial é fundamental. Eu tenho que ir a qualquer lado e conseguir ter um posto para carregar. Mas a evolução exige maior potência, principalmente nas autoestradas. Potência leia-se postos de carregamento mais rápidos e que nos permite carregar em menos tempo o nosso veículo. E mais do que potência, exige também localizações multiposto. Nós temos que chegar a um local e termos vários sítios para carregar, não termos só um posto disponível, não termos só um ponto de carregamento. Isso hoje é fundamental nas autoestradas. Ninguém vai mudar para a mobilidade elétrica se faz uma viagem Lisboa-Porto e quando está a abastecer o seu carro ainda de combustível fóssil, está a ver dois ou três utilizadores à espera para carregarem o seu veículo elétrico. Isso não motiva a mudança.

É má publicidade.

É má publicidade. Nós temos uma rede distribuída e hoje, provavelmente, se andar para a próxima saída da autoestrada, consegue ter vários postos disponíveis. Mas essa é a imagem que fica naquele momento. O AFIR impõe metas tanto para a distribuição geográfica como para a potência global e localizada, principalmente nas autoestradas. O AFIR também nesse aspecto é uma defesa para os utilizadores. Quantos mais veículos tivermos na estrada, veículos 100% elétricos ou plug-ins, maior é a potência de carregamento que tem que estar na rede pública. Nós, desde há muito tempo que a Mobi.e faz isso no seu Mobi.Data, no seu site. Temos estado sempre muito acima daquilo que são as metas impostas pelo AFIR, continuamos acima, mas é algo que nós precisamos de estar muito atentos. Felizmente, a venda de veículos elétricos é muito forte todos os meses e isso obriga a um aumento da rede também muito significativo cada mês.

Oferta e procura têm de andar de mãos dadas. Luís, o que é que nos pode dizer sobre a atual distribuição geográfica dos carregadores? Todos os municípios estão cobertos e com o AFIR, o Pedro já deixou aqui a ideia, que os carregadores vão aumentar, não vão?

Sim, aliás, a Mobi.e promoveu um estudo e que apresentou as conclusões em outubro passado e que demonstram que vamos instalar até 2050 mais 74.400 postos que vão acrescer aos mais de 8.100 que já dispomos hoje em dia. Estima-se um crescimento potencial, exatamente por força dos critérios do AFIR, que o Pedro há pouco referiu, que tem a ver com a necessidade das redes disponibilizarem potências de 1,3 kW por cada veículo 100% elétrico em circulação e 0,8 por cada plug-in em circulação. O crescimento irá acontecer. Ao contrário também dos outros países, nós em Portugal, fruto de beneficiarmos desta rede integrada, desde abril de 2022, quando a Mobi.e lançou o Mobi.Data, que o Pedro referiu há pouco, monitorizamos esta potência. Obviamente que tem vindo a reduzir-se a margem, mas continuamos acima, fruto também dos excelentes resultados que temos vindo a ter na transição energética, que nos tem posto à frente de outros países europeus muito mais fortes.

Sobre a atual distribuição geográfica dos carregadores e todos os municípios estão cobertos.

Estão cobertos, isso foi uma das imposições que o governo impôs à Mobi.e em 2016, quando nos incumbiu de recuperar a rede piloto, foi alargar a própria rede a todos os 308 municípios. Nós ficamos com a incumbência no continente, nos 278 municípios, e acompanhámos os governos das regiões autónomas nos 30 municípios que formam a Madeira e os Açores.

Gostava de falar sobre o futuro da mobilidade elétrica na ótica do utilizador. Pedro, como é que antevê O futuro da mobilidade elétrica. O Pedro que representa os utilizadores.

Eu costumo dar um-

Nunca chega.

Nunca chega. Eu dou um exemplo que acho que é muito visual, que é: nós podemos estar 100 pessoas numa sala a discutir a mobilidade elétrica, vermos cada um apresentar a sua visão, e não vamos, de certeza, ter a visão global daquilo que vai ser o futuro.

Mas hoje tem algumas certezas, ou não?

Temos. Nós vamos ter que chegar à rede pública ou qualquer carregador, ligar o nosso carro e fazer todo o processo sem qualquer intervenção. Isso é aquilo que me parece ser uma experiência para o utilizador perfeita, e isso vai ter que acontecer. Nós já temos vários sinais de que a nossa rede pública se está a preparar para isso e acho que isso vai acontecer. Também não vamos conseguir ter um carregador para cada veículo. Isso acho que é lógico já hoje. E, portanto, vamos ter que ter soluções nos bairros de carregamento ultrarrápido. Aquela ideia romântica de que teríamos todos os lugares de estacionamento num bairro com um ponto de carregamento não vai funcionar. Isso é mobiliário urbano, muito visual na estrada e nos bairros que não vão resultar. Portanto, vamos ter que ter aqui uma solução global e diferente.

Luís, como presidente da Mobi.e, como é que antevê o futuro da mobilidade elétrica na ótica do utilizador?

Na ótica do utilizador, vamos continuar esta senda de melhorarmos o mais possível a experiência para o utilizador. Estamos, inclusivamente, neste momento, à procura, e o facto de termos já o trabalho de casa muito bem feito, liberta-nos também para pensarmos em inovações. Queremos muito desenvolver um sistema de plug and charge, que é, no fundo, passarmos a viatura, o utilizador liga o cabo ao posto e o carro comunica com o posto e o utilizador não tem que fazer mais nada. Isso é fácil, já existem soluções dessas quando é a marca de um carro para o posto da marca. Agora, quando temos multimarcas, como é o nosso caso, é um desafio, mas que queremos seguir. Mas também por isso queremos pôr o ecossistema da mobilidade elétrica a discutir soluções, futuro e desenvolvimento, e por isso vamos promover, porque achamos que faz falta no panorama nacional, que já existem muitos eventos sobre mobilidade sustentável, sustentabilidade e tudo mais. Existe, inclusivamente, o evento da EMF-

O Congresso Nacional de Veículos Elétricos, sim

...promovido pela UVE, mas queremos fazer um evento para os stakeholders, onde os stakeholders discutam estas ideias e vamos fazê-lo já no dia 19 de abril, destinado sobretudo aos stakeholders, para discutirmos as implicações do AFIR e os desenvolvimentos que vamos ter que fazer numa perspectiva global, de forma a respondermos melhor a estes desafios. Este evento, porque fazemos a ligação entre postos e carros, fazemos entre stakeholders, vamos chamar o Mobi Connect. É praticamente em primeira mão que dou esta novidade.

Muito bem, Mobi Connect. Já há data?

19 de abril.

19 de abril. Muito bem. Pedro, há muitas ideias e muitos mitos relacionados com a mobilidade elétrica, nomeadamente sobre a autonomia e eventuais dificuldades no carregamento das viaturas e até segurança. Sente que isso está a mudar ou não?

Está a mudar, mas muito lentamente. É o nosso principal foco na associação, é passarmos uma mensagem clara e credível, e é isso que nós tentamos fazer, é a principal missão da associação. Nós temos atualmente uma nova moda naquilo que têm sido as redes sociais, que é dizer que a venda dos veículos elétricos está em queda. Agora, genericamente, pega-se nesta ideia, e isso é uma terrível mentira. Os números não demonstram isso. Os números demonstram um aumento na Europa superior a 30%, na América do Norte cerca de 40% e na China de quase 100%. Portanto, estas afirmações dizem-se, mas depois não são factuais.

E o facto de a União Europeia ter imposto a proibição de venda de carros com motor a combustão, digo já, porque o futuro é sempre próximo, não é? 2035.

É amanhã.

Exatamente. Isso pode constituir um indutor para a mudança?

Sim, isso tem sido um ponto muito importante, mas não pode ser só uma data. Nós temos que ter passos pelo caminho e 2035 é uma realidade que não se vai concretizar se não tivermos passos pelo caminho.

Luís Barroso, como gestor da rede elétrica de carregamento de carros elétricos, sente que esta pressão de 2035 pode constituir um indutor para a mudança?

É mais um fator, e acho que tudo se está a trabalhar nesse sentido. Agora vamos ver, de facto, se vamos conseguir atingir ou não este desiderato. Pelo que conhecemos, inclusivamente, algumas das marcas fabricantes de carros até estão a antecipar o fim das datas de vendas de veículos a combustão. Portanto, ainda existe aqui muita coisa para acontecer, mas certamente que irá acontecer.

Muito bem. Vivemos numa comunidade sem fronteiras, o que significa que não pode haver barreiras para bens e serviços. O AFIR também cumpre esse desígnio, mas adaptado à mobilidade elétrica. De que forma, Luís Barroso?

É um facto, e acho que Portugal neste campo tem coisas para ensinar à União Europeia e ao mundo, em termos de interoperabilidade. Por exemplo, nós que gerimos uma rede totalmente interoperável, acho que seria útil para todos, e nas ligações aqui com os nossos vizinhos, a vizinha Espanha, por exemplo, temos a mesma solução de carregamento em que, exatamente como utilizamos um telemóvel em que circulamos por onde queremos sem termos que fazer novo contrato, pudéssemos fazê-lo com o cartão ou app que temos e utilizamos no dia a dia em Portugal, que o possamos utilizar em Espanha. Isso é possível fazê-lo. A Mobi.e, por si só, está disponível em apoiar os nossos comercializadores e operadores que queiram Facilitar a vida dos seus clientes nesse sentido é só a conjugação de esforços para seguirmos nesse caminho.

A interoperabilidade, Pedro Faria, isto é açúcar para os utilizadores, não é?

Infelizmente, a solução de interoperabilidade da União Europeia foi um cartão de pagamento, um cartão de crédito ou débito. E não deveria ser só essa a solução. Nós, felizmente, e como disse o Luís, já estamos mais à frente em Portugal e é isso que se pretende que venha a ser o futuro. É um princípio, foi aquilo que foi possível ter acordo e foi chegar a acordo para colocar este regulamento em aplicação, mas é apenas um princípio. Vamos ter que continuar a lutar e felizmente nós em Portugal estamos à frente daquilo que é este AFIR na Europa.

Muito bem, Pedro Faria e Luís Barroso, agradeço aos dois. Foi mais uma Mobi Talk dedicada ao novo regulamento europeu para a infraestrutura elétrica. Podem ouvir as restantes talks nas plataformas podcast e também no site do Observador. Regressamos brevemente para mais uma talk desta série. Até lá.