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Não se fala de outra coisa. Não é do casamento do Ronaldo e da Georgina. Já lá vamos aos três toques.

Casaram duas vezes em poucos dias.

Portugal vai ser palco de um eclipse solar histórico. A última vez que vivemos algo assim no nosso país foi a 17 de abril de 1912, no ano em que o Titanic se afundou e quando a República Portuguesa tinha apenas dois aninhos. Foi dada dispensa aos alunos para assistirem ao eclipse. Fomos invadidos por astrónomos famosos e milhares de forasteiros, como diziam os jornais da época. Isto em 1912. A má notícia para os apressados, para os mais ansiosos, é que depois do de hoje, o próximo eclipse total em Portugal só acontece em 2144, daqui a 118 anos.

É um bocadinho tarde. Acho que já tenho uma consulta marcada nesse dia.

Eu tenho uma almoçarada lá em casa. Toda a gente diz que o eclipse dura 26 segundos e que é em Bragança, mas a verdade é que a faixa de totalidade a 100% toca apenas uma fatia no extremo nordeste do país, no Parque Natural de Montesinho, na aldeia de Guadramil. Aí, sim, o sol desaparece por completo durante 26 segundos, por volta das 19h30. Mas o fenômeno completo dura quase duas horas em todo o país. Começa por volta das 18h30, depois junta-se ao pôr do sol. Ainda assim, quem não está em Bragança vai ver no resto do país um eclipse parcial profundo, impressionante. Por exemplo, no interior Norte, cerca de 98% do sol vai ficar coberto. Na região de Lisboa, entre 94% e 95%. Açores e Madeira desce drasticamente entre 74% e 77%. Aí a pessoa não vai sentir tanto. E os Açores estão com má visibilidade. Exatamente. E cá a costa litoral Norte e Centro. Era isso que eu ia dizer agora, especialmente nos distritos de Viana do Castelo e Aveiro, pode haver mais dificuldade, porque vai haver muitas nuvens, mas a ideia é deslocar-se para cidades mais do interior, mais afastadas do mar. Aí já não terá problemas em ver a lua a tapar o sol. Estamos numa semana de calor, com temperaturas a rondar os 40 graus, como eu dizia há pouco, mas durante os minutos de pico do eclipse, a luminosidade desce drasticamente. E a temperatura pode cair vários graus em poucos minutos. É aquela sensação estranha de continuar dia, mas de repente sentimos aquele fresquinho na pele.

Levem uma malinha.

Não sei se será caso disso, porque é muito curto. Mas vai notar-se a diferença para quem é mais sensível.

Junto ao mar é mais fresco ainda.

Sobre os animais ficarem baralhados, tal como explicou o astrofísico e investigador Rui Agostinho, aqui na Rádio Observador, no guia para o eclipse, como o fenômeno ocorre ao final da tarde e não, por exemplo, ao meio-dia, o impacto no comportamento animal vai ser mais ligeiro, ainda assim visível em várias espécies, como as aves, que vão recolher aos ninhos e os animais de quinta ou gato vão procurar abrigo como se fosse hora de dormir. Nunca é demais avisar que a Proteção Civil e os médicos deixam o aviso: nada de óculos de sol normais, radiografias ou vidros fumados. Não resolve e faz mal à vista, e pode ter efeitos irreversíveis. Mesmo para quem tem óculos certificados, a recomendação é não olhar continuamente por mais de 12 segundos seguidos, para não danificar a retina. E atenção também às câmaras do telemóvel. Apontar diretamente ao sol sem filtro pode queimar o sensor. Por isso, óculos a postos por volta das 18h30. Olhem para o Oeste. É aproveitar, porque isto é o espetáculo astronômico de uma vida. Não vamos estar cá no próximo. Já vamos estar um bocadinho pior das cataratas, é só por isso.

Não confies nos avanços da ciência.

É melhor não perder o de hoje. E não perder também a emissão especial que preparámos para os nossos ouvintes. Entre às 17h e às 20h, a equipa da Tarde Política e muitos convidados vão estar em direto a partir do telhado do Mate, junto ao Tejo, em Belém, em Lisboa, e com reportagem em todo o país, em especial, claro, em Bragança, único ponto onde se vai ver o eclipse a 100%.

Que haja qualquer coisa que faça alguma coisa pelo interior remoto.

Sim, exceto que é só de 100 em 100 anos.

E têm que ser os astros.

Vamos mostrar o eclipse na rádio, em vídeo, mais logo a partir das 17h, que se não tiver hipótese de ver o eclipse, é não ficar triste.

Na rádio ou no site?

No site, sim, exatamente.

Não é que ia vai ser difícil.

Não, por isso é que eu disse também em vídeo no YouTube.

Claro, desculpa. Só queria precisar.

Este não é o único fenômeno celeste da semana. Durante a madrugada, por volta das 3h, é esperada uma chuva de estrelas das Perseidas, considerada como uma das melhores do mundo, do ano. E já agora uma sugestão: estão a ler o artigo do Observador sobre como foi vivido o eclipse solar de 1912. Está muito giro. Como é que olharam para o sol? Será que já havia óculos como aqueles que vamos usar hoje? Como é que os jornais fizeram a cobertura mediática do acontecimento? Está tudo num artigo assinado por Martin Andrade. Vale muito a pena ler, muito curioso.

Muito bem. E porque não se fala mesmo de outra coisa, vamos só aqui a mais um detalhe, que é o impacto do eclipse na produção elétrica. Aquelas coisas que não nos passa pela cabeça, mas existe. E a REN, a empresa que gera redes energéticas nacionais, que gera a rede das autoestradas de eletricidade, já fez as contas e prevê que o fenômeno reduza em 45% a produção de energia solar que estaria prevista para aquela hora. Temos comparáveis para ontem ou para amanhã, por exemplo. Isto é uma perda de geração solar estimada em 405 megawatts, o que representa cerca de 7% do consumo elétrico e 45% da produção solar, da parte da energia solar do sistema elétrico nacional, que está prevista para aquele horário, isto considerando esses tais valores médios. Ora bem, para mitigar este impacto da perda de geração de energia solar, e as empresas prepararam-se para isso, vai ser necessário mobilizar reservas adicionais de eletricidade produzida de outra forma, nomeadamente hídrica, barragens, se quisermos, ou térmica. Porque a solar vai estar um pouco impedida naquele momento. A eletricidade tem esta característica de não poder ser armazenada. Isto é, o consumo em cada momento tem que ser alimentado com produção em cada momento, porque não temos baterias em escala para armazenar energia elétrica. Este eclipse quase total tem menos impacto, dado o horário, ainda assim, em que vai ocorrer, que é o final da tarde, onde, por regra, a produção solar a essa hora já está em queda. Portanto, já não estamos no pico do sol ali a meio-dia.

Já estamos no ocaso, ao descer do sol.

Exatamente. E por isso também é fácil de complementar aqui essa perda. Estamos fora da hora de ponta de consumo também já, a essa hora. Já não estamos com a indústria, sobretudo, em grande produção, na maior parte dos casos. Só que uma nota sobre a questão da energia. Em julho, portanto, no mês passado, a produção solar abasteceu 19% do consumo e foi precisamente o primeiro mês em que esta forma de produção de eletricidade solar foi a dominante, foi a mais importante no sistema nacional. A seguir veio a hídrica, as barragens, se quisermos, com 16%. Depois a eólica, 13% e a biomassa com 5% do consumo nacional. O solar cada vez mais a ter um papel primordial e à frente na produção de energia, logo durante essas duas horas.

É quando damos por falta dele que percebemos a importância.

Sem dúvida, é sempre assim, Carla. É sempre assim.

É preciso sentir a falta para dar valor.

Logo durante aquelas duas horinhas vamos estar a olhar para o céu e a pensar: "Olha, energia solar. Eletricidade."

E agora como é que tomo banho de água quente?

Exato.