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Nós aqui a criticar a lentidão dos nossos tribunais, mas do outro lado do Atlântico também a coisa não está muito diferente. A Justiça norte-americana acabou de fixar a data oficial para o início do julgamento do homem acusado de ser o grande arquiteto e mentor dos atentados do 11 de setembro de 2001. Sabem para quando? Junho de 2028. Mais precisamente para segunda-feira, dia 5 de junho de 2028.
É importante saber que é uma segunda-feira.
É numa segunda-feira, dia 5 de junho. Os ataques às Torres Gêmeas e ao Pentágono aconteceram em setembro de 2001. Houve perto de 3 mil mortos. Quando este homem finalmente se sentar no tribunal, já terão passado cerca de 27 anos. O réu principal chama-se Khalid Sheikh Mohammed, hoje com cerca de 60 anos. Foi ele que apresentou a Osama bin Laden a ideia de treinar pilotos para sequestrarem aviões comerciais e os usarem como mísseis contra edifícios americanos. A história de detenção é surreal. Ele foi capturado pela CIA no Paquistão, logo em março de 2003. Esteve três anos escondido em prisões secretas da CIA e em setembro de 2006, ou seja, já há 20 anos, foi transferido para a base militar de Guantánamo, em Cuba, onde continua preso com outros três cúmplices. A pergunta é: como é que uma superpotência demora 27 anos a julgar o maior atentado da sua história?
Se calhar, dá-lhe jeito tê-lo lá preso sem julgamento.
Pois. E também há aqui todo um pesadelo burocrático e jurídico. O processo foi suspenso, depois foi reformulado em 2012. Desde aí, está atolado em recursos sobre a validade das provas, muitas obtidas sob alegadas torturas nos interrogatórios da CIA. Chegou a haver um acordo de confissão de culpa no ano passado para evitar a pena de morte, mas um tribunal de recurso anulou o acordo e mandou avançar para julgamento. Agora, o juiz militar decidiu que são precisos mais dois anos inteiros só para resolver as disputas pré-processuais. Claro que as famílias das vítimas estão indignadas e exaustas. Em declarações à imprensa, os familiares perguntavam: "Esperamos 25 anos, por que temos de esperar ainda mais dois? Está na hora de haver justiça para as vítimas." Por isso, da próxima vez que ouvirmos falar aqui num processo em tribunal em Portugal, que está a demorar uns aninhos, é pensar que o mentor do 11 de setembro só vai a julgamento, a tribunal, 27 anos depois dos atentados do 11 de setembro.
E este é muito importante.
É mesmo, sempre.
Claro, o caso. Muito bem, imaginem agora uma coisa diferente. Passar mais de três meses não é prisão, é atenção. Sem ver a luz do sol, sem sentir o ar fresco da rua e a partilhar um espaço fechado onde cada segundo é rigorosamente controlado. Foi essa a rotina do engenheiro português Diogo Paupério Abreu. Ele foi escolhido, ele e mais cinco pessoas, a equipa de seis escolhida pela Agência Espacial Europeia, para participar numa missão extrema. No fundo, viver 100 dias completamente isolados para simular as condições de uma verdadeira viagem e permanência ao espaço. Durante esse período, a vida de Diogo e da restante equipa ficou confinada a uma sala branca de apenas 130 metros quadrados. Aliás, parte desta experiência foi feita com o Observador, é um trabalho do Martim Andrade. O dia a dia foi levado ao limite da disciplina, com regras muito restritas, muito apertadas, que ditavam desde o consumo d'água até à higiene pessoal. Por exemplo, no caso da higiene pessoal, era reduzida a apenas dois banhos por semana para racionar recursos, como é evidente, tal como acontece a bordo de uma nave numa missão espacial. Não se pode levar toda a água do mundo. Mas o grande desafio não foi apenas físico. Sem janelas, imaginem, sem referências naturais do ciclo entre o dia e a noite. No fundo, o cérebro enfrenta uma batalha psicológica constante contra aquilo que é chamado a ilusão do tempo. É uma monotonia do ambiente completamente estéril. A repetição das rotinas transforma o relógio num dos maiores adversários de um investigador durante uma experiência deste gênero. Toda esta resistência teve um propósito científico crucial. Ao longo destes 100 dias, foram acompanhados, monitorizados os dados biológicos da equipa, os níveis de estresse, a dinâmica comportamental do grupo que estava sob isolamento prolongado, e as conclusões do teste vão agora ajudar a Agência Espacial Europeia a compreender melhor como é que o corpo e a mente humanas reagem às futuras missões de longa duração, como por exemplo, a exploração de Marte ou o regresso à Lua. Regresso à Lua, que aliás, este fim de semana voltou a ser prometido por Donald Trump até ao final do seu mandato. É isso.
Que vai colocar uma pessoa na Lua. Eu nem quero imaginar Marte e o tempo que dura uma missão a Marte. De regresso à vida normal, Diogo Paupério Abreu traz agora na bagagem não só a experiência de ter estado, basicamente, como ele diz, no espaço, mas sem sair da Terra. A experiência em si. Estava em situação de normal gravidade. Mas também contributos valiosos para a ciência, quer nacional, quer internacional. No fundo, foi uma aventura de 100 dias que prova que o caminho até às estrelas começa, antes de mais, pelo domínio dos limites da mente e do físico humanos. Não sei se nós íamos argumentar esta experiência de 100 dias neste contexto.