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Não se fala de outra coisa. Destacamos as histórias que marcam o dia e hoje é tema único. Bruno, Paulo, Carla, falamos de Fernando Mamede e dessa partida mais cedo do que se esperava.

É, Fernando Mamede, que foi um dos atletas mais marcantes do desporto português na década de 70 e 80. Também conhecido pelaquela histórica rivalidade. Era uma proximidade e rivalidade ao mesmo tempo com Carlos Lopes, dois dos maiores atletas da história do nosso desporto.

E da mesma equipa, ambos.

E da mesma equipa, orientados pelo mesmo treinador, Muniz Pereira. Eu lembro-me de ver uma entrevista há uns anos, do Muniz Pereira, que dizia que o atleta com melhores condições de base que ele tinha treinado, ou seja, o atleta mais talentoso, com melhores registros à partida, foi mesmo Fernando Mamede. É claro que Carlos Lopes também era um atleta extraordinário, mas havia uma diferença: Carlos Lopes tinha o lado psicológico que lhe dava uma vantagem e esse sempre foi o grande problema de Fernando Mamede. Não nos meetings, porque ele nos meetings tinha excelentes resultados. Foi recordista do mundo dos 10 mil metros, mas sobretudo nas grandes competições, naquelas que dão medalhas, como os Campeonatos do Mundo e os Jogos Olímpicos.

Não sei se tem esta visão, mas possivelmente há pessoas que o têm com uma imagem injusta por causa disto que estás a falar. De alguém que nestes momentos mais decisivos acabava por, não digo falhar.

Mas falhava, ele bloqueava, não conseguia. Ele contou várias vezes a história da participação nos Jogos Olímpicos de 1984 e era impossível ouvir o Fernando Mamede falar disto e não ficar angustiado com a angústia que ele sentia. Era um bloqueio. E que toda a gente tinha a consciência à volta dele e da sua equipa, do treinador, que esse bloqueio existia. Ele chegou a dizer que se fosse hoje, com o apoio psicológico que os atletas têm, e outras técnicas, outros métodos, talvez pudesse ter sido diferente, mas era um bloqueio mesmo muito forte. Ele conta a história de que estava no túnel de acesso para a final dos 10 mil metros nos Jogos Olímpicos e não conseguia, ele tremia.

Os de Los Angeles?

Os de Los Angeles. Não queria ir, não queria entrar e acabou por desistir depois. Ele não ia pra frente. Ele era o atleta com o melhor resultado, era o favorito. E ele não conseguia. Ele dizia que desde manhã, ainda no quarto do hotel, bloqueava completamente, tinha medo, não queria ir competir. Foi o Mário Muniz Pereira, o treinador, que o convenceu a ir.

É muito interessante que houve dois grandes atletas que conviveram, e aliás, falava-se da rivalidade, Fernando Mamede e Carlos Lopes, e a cabeça de Carlos Lopes fazia a diferença.

Totalmente diferente. Há também uma história, aliás, Carlos Lopes ganhou a medalha de ouro nesses Jogos Olímpicos na maratona de 84. E essa história já foi contada também várias vezes, por exemplo, pelo jornalista António Simões. E que ele conta a preparação, o nível de rigor e de detalhe da preparação de Carlos Lopes, até nível psicológico, para essa maratona. E eu há uns tempos estava a rever a maratona, não toda, mas a parte final dessa maratona, e o Carlos Lopes tinha perfeita ideia de que se estivesse acompanhado com um ou outro atleta por volta dos 40 km, ou dos 39, 40 km, seria aí que iria atacar. Ou seja, ele tinha um plano perfeitamente delineado para executar. E para se conseguir isto é necessário uma força mental, uma robustez psicológica que, infelizmente, Fernando Mamede não tinha, apesar de, como eu estava a dizer há pouco, Muniz Pereira dizer que em termos de talento puro, de capacidade física pura, Fernando Mamede foi o melhor atleta que ele treinou.

Isso também vem desafiar alguns estigmas, porque muitas vezes se diz e se fala que a saúde mental é uma doença mais presente e fala-se muito mais, uma "moda" do século XXI. E temos aqui o exemplo de que acabou por trair em alguns momentos o Fernando Mamede.

O que era inacreditável é que era, em particular, nas grandes competições.

Claro, porque a tensão é maior, a angústia é maior.

De medalhas. Quando o que está em causa é medalhas, ele ganhava meetings, ele bateu recordes do mundo. Não eram todos os momentos de pressão, porque também há pressão noutras competições. Era naquelas competições em particular. E lembro-me, eu era miúdo, tinha seis anos, ouvia toda a gente a falar que os nossos atletas favoritos para os Jogos Olímpicos de 84 eram Carlos Lopes e o Fernando Mamede, apesar de ainda termos tido medalhas da Rosa Mota e do António Leitão nesses Jogos Olímpicos. E depois, aquela frustração que houve, porque de facto o Fernando Mamede estava a um nível superior ao dos outros e foi traído por si mesmo. E eu lembro-me de ver entrevistas dele anos depois e era sempre extraordinariamente angustiante ouvi-lo falar sobre isso. Ele até o fim da vida, pelo menos aqui há uns dois anos, lembro-me de ver uma entrevista dele na Sporting TV, continuava a falar desse bloqueio com a mesma angústia, como se estivesse a vivê-lo.

Provavelmente se fosse o atleta hoje, teria outros recursos, outro tipo de apoio.

E era dada outra atenção e outra compreensão sobre isso.

E teria sido ainda melhor.

Ainda maior. Falávamos aqui do Sporting. Ele era visto como um símbolo de dedicação total, era assim que era referido pelo clube, um atleta obsessivo com o treino, como já disseste, Bruno, mas também muito generoso com os mais novos e, portanto, é assim que fica recordado Fernando Mamede, um dos maiores de sempre do atletismo. Partiu aos 74 anos.