A Comissão Europeia propôs esta terça-feira que as decisões políticas na União Europeia passem a ter em consideração a possibilidade de o aquecimento global atingir 3ºC até 2100, após um verão marcado por temperaturas extremas no continente.

Em conferência de imprensa de apresentação deste plano, a vice-presidente da Comissão Europeia, Teresa Ribera, afirmou que “a crise climática não é uma farsa”.

“As alterações climáticas não são apenas reais, são uma causa direta de mortalidade: basta pensar nas entre 30 mil e 50 mil mortes prematuras que ocorreram este verão na Europa. E as alterações climáticas também estão a destruir riqueza e infraestruturas”, advertiu.

Após um verão extremo, marcado por recordes de temperatura em vários países europeus, níveis de água historicamente baixos em rios como o Reno ou o Danúbio — que provocaram o encerramento de centrais nucleares —, ou incêndios em Estados-membros com temperaturas tipicamente mais amenas, como a Alemanha, Bélgica ou Países Baixos, Teresa Ribera alertou também para os custos que as alterações climáticas têm na economia.

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“Se as condições registadas nos cinco anos mais quentes de cada país, entre 2014 e 2024, se repetissem ao longo de 2030, as perdas acumuladas de PIB poderiam atingir entre 5% e 7% nas economias mais expostas. Países como a França, a Itália, a Alemanha ou a Espanha poderiam registar perdas entre 120 mil milhões e 240 mil milhões de dólares”, salientou.

Por isso, a vice-presidente da Comissão Europeia defendeu que garantir que a União Europeia (UE) se torna resiliente às alterações climáticas não é “apenas um objetivo ambiental”, mas uma “condição essencial para garantir a competitividade a longo prazo”.

Nesse sentido, a Comissão Europeia decidiu apresentar esta terça-feira o que chamou de “Quadro Europeu para a Resiliência Climática”, que visa “proteger, planear e preparar a Europa para um clima mais quente”.

Desde logo, a Comissão Europeia defende que é necessário que se passe a ter em consideração a trajetória de referência do aquecimento global “para a tomada de decisões em matéria de políticas, ativos ou investimentos”, frisou o comissário europeu para o Clima, Wopke Hoekstra.

Isso implica preparar a UE, seja a nível de planeamento das cidades, de construção de infraestruturas, gestão de água, para um aquecimento global de 3ºC até 2100, quando comparado com os níveis pré-industriais, advertiu o comissário, ressalvando contudo que o bloco vai continuar a “fazer tudo” para que não se ultrapasse o limiar dos 1,5ºC acordado no Acordo de Paris.

Na iniciativa apresentada, a Comissão Europeia apresenta também várias medidas que visam ajudar as autoridades locais e regionais a lidarem com eventos climáticos extremos, entre as quais o que chamou de “Aliança para o Seguro Climático”.

“Atualmente, apenas um quarto das perdas provocadas por catástrofes está coberto por seguros privados. Isto significa que, demasiadas vezes, os orçamentos nacionais acabam por assumir o papel de segurador de último recurso”, indicou Hoekstra, frisando que o objetivo é “aumentar a taxa de cobertura dos seguros”.

O executivo vai também desenvolver novas ferramentas digitais, como um “Visualizador Climático” que, através do sistema de imagens por satélite Copernicus, permitirá que as autoridades públicas percebam o que “poderá acontecer” e se consigam preparar quando está previsto um episódio climático extremo.

O pacote apresentado propõe também a criação de um único “plano estratégico nacional”, em vez de vários, que pede aos Estados-membros que estabeleçam “uma definição clara de quem é responsável pela gestão dos riscos climáticos” a nível nacional.

Na conferência de imprensa, o comissário europeu para o Clima defendeu que o pacote esta terça-feira apresentado é “uma iniciativa pioneira à escala mundial”, mas salientou que a Europa não pode considerar que o trabalho está concluído.

“A UE ainda tem muito trabalho pela frente”, avisou.