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"Ivens Douré" na Rádio Observador. Hoje um pouco mais curto porque vamos ter futebol a seguir. Este "Ivens Douré" está disponível na Rádio Observador em direto, também no YouTube, também em direto, hoje com a Judite França, o António Costa e a Raquel Pecas. Eu sou o Ricardo Conceição e hoje vamos falar sobre o falhanço do negócio entre a MEO e a Galp, mas começamos pelas manifestações deste sábado e pelas ausências muito sentidas do primeiro-ministro e do presidente da República, Raquel.
Sim, eu acho que são dois silêncios com consequências e leituras diferentes. O silêncio do presidente da República, do meu ponto de vista, é aquele que junto dos portugueses em geral é menos compreendido. Este é um teste de fogo para o novo presidente da República e eu gosto de lembrar qual era o apelido que se dava a António José Seguro quando ele era secretário-geral do Partido Socialista. Na altura chamavam-lhe de Tozé Inseguro. E isto demonstra que talvez essa característica não tenha desaparecido do personagem, apesar de ele ter evoluído e ter chegado a presidente da República. Eu acho que António José Seguro achou que lhe bastava chegar a Belém e ter um perfil e uma forma de atuação completamente contrária à do seu antecessor. E que, portanto, ficaria fechado no palácio a fazer conversas de bastidores com os partidos políticos, que ele já convocou para falar sobre coesão social, com o primeiro-ministro nas reuniões semanais, e o Conselho de Estado também, e que assim restituía aquele estatuto que Marcelo Rebelo de Sousa terá retirado à figura do presidente da República. Só que isto é um cargo político e é um cargo que precisa de uma leitura contínua e permanente. E o país está há duas semanas a viver uma situação que promete não ficar por aqui, que aliás tem correspondência noutros países europeus, e que reflete, no fundo, um ponto de situação a que se chegou na Europa, que é uma falta de expectativa para os jovens, desde logo no que respeita à habitação, mas também em relação ao futuro dos seus salários, às suas oportunidades de vida, etc. E é muito estranho que o presidente da República se mantenha na pista dos bastidores numa situação como esta.
E o primeiro-ministro?
O primeiro-ministro, eu acho que as razões são diferentes. Ele começou mal. Começou com uma declaração que fez ricochete, com aquela ideia dos egoístas que foi rapidamente utilizada pelos manifestantes para usarem como arma de arremesso contra o atual governo. Eu acho que no início tentou recatar-se por causa disso, mas acho que já passou tempo suficiente. E eu acho, sinceramente, que o governo está muito preocupado com aquilo que se está a passar. Acho que aquilo que era a previsibilidade política pode já não ser tão certo como nós acharíamos há duas semanas. Há cada vez mais pessoas, e eu acho que todos nós também que observamos isto, a comparar esta situação com aquilo que foi o buzinão da ponte no tempo de Cavaco Silva. Só que este é um governo minoritário, é um governo muito frágil, é um governo que agora apostava tudo numa lei das rendas que provavelmente não irá passar. Vamos ver como é que André Ventura conduz este processo até ao fim, mas também isso vai depender muito do que for acontecendo nas ruas. E, portanto, eu acho que Luís Montenegro está aqui a temer uma crise política que possa chegar mais cedo do que ele previa. É bom lembrarmos que amanhã começa o debate do orçamento, que é também sempre um momento sensível, sobretudo para governos minoritários, embora este já esteja à cabeça aprovado. Agora, estas imagens de um governo a fugir dos jornalistas para não ter que falar e de um primeiro-ministro desaparecido com aquilo que se está a passar nas ruas, não dá uma boa imagem do governo, nem uma imagem de que o governo saiba o que é que deve fazer perante estes protestos.
António.
Eu tenho outro protesto, é que sinto-me um bocado Santana Lopes, porque fomos ultrapassados pelo futebol, mas ficamos aqui só até às 20h08. E não é o Mourinho, mas é o Benfica.
Santa Clara e Benfica.
Santa Clara e Benfica. Mas fica a nota, fica o registo.
Registado.
Mas eu acho que é incompreensível. Eu, por acaso, tendo a achar o contrário. Eu tendo a achar que é mais incompreensível o silêncio do primeiro-ministro, que tem poder executivo, do que o do presidente da República. Vamos lá ver, o presidente da República, nós vivemos neste dilema, ou queremos um presidente da República à Marcelo Rebelo de Sousa, depois vem um que é oito ou 80, de facto, é difícil encontrar o meio caminho, e estranhamos Porque a diferença é muito grande face a Marcelo Rebelo de Sousa. Mas, na verdade, quem tem que responder politicamente e mostrar iniciativa política de resposta ao que se está a passar é o governo. Vamos lá ver. Nós tivemos há duas semanas aquelas declarações infelizes e que eu até concedo que mal interpretadas. Acho que é um excesso, acho que foram mal pensadas, mal articuladas e o primeiro-ministro tem experiência política para não cometer aquele erro, e cometeu. Mas se eu for rigoroso na leitura, ele não diz que aquelas pessoas são egoístas por estarem ali, diz que não se devem deixar infiltrar por organizações que querem promover o egoísmo. Mas a dinâmica política imediata é a que é, e ele tem a obrigação de saber, saber tão bem ou melhor do que nós. Ponto dois, isto passou depois da intervenção policial do fim de semana para uma situação que vai para lá daqueles que têm dificuldades no acesso à casa. Foi o que se viu nas manifestações de domingo. A presença nas ruas de domingo ultrapassou muito isso e transformou-se numa coisa diferente.
No sábado. Não, no domingo. Ah, no domingo. Sim, desculpa, tens razão.
E o governo o que é que fez? Transformou a leitura numa questão de autoridade, pôs Luís Neves a falar e o porta-voz do PSD a falar em nome do governo sobre as 31 mil casas e sobre os 130 mil jovens, repetindo isto à exaustão e acrescentando que o PS não fez o que devia. Já sabemos, mas este governo já governa há dois anos e meio. Ora, se o governo foi capaz de ler o que se passava e pressionado, também é preciso dizer, por André Ventura sobre a imigração, tomando decisões logo no primeiro ano de mandato, importantes. Lembramos da Lei dos Estrangeiros no primeiro ano e da nacionalidade já neste segundo mandato, não teve a mesma capacidade de perceber o problema político. Não são as medidas, porque as medidas anunciadas, eu às vezes sinto-me um bocado isolado quando digo: são boas medidas, mesmo a dos senhorios, mesmo a famigerada dos 2300 euros. A das rendas ainda acho mais necessária, mesmo com problemas que têm que ser limados, mas os famigerados 2300 euros para as rendas moderadas também é politicamente mal defendida. Mas todas essas medidas demoram tempo e faltam outras. Os devolutos, devolutos de Estado.
Para ainda irmos à Galp.
Dito isto, acho que é mais incompreensível o silêncio.
Sim, mas eu não disse que era compreensível, eu acho que tem causas diferentes.
Eu sei, mas eu acho que é mais grave. Eu espero mais do que o presidente da República, quer dizer, que precisemos todos de nos sentarmos pra discutir que é o que ele pode dizer, porque então vai lá lançar a bomba atómica? Não, não vai lançar a bomba atómica.
Não, mas pode dizer outras coisas e foi eleito com 70%.
E eu digo esto, só mesmo pra terminar, deixo um desafio que é: a resposta política não vai ser em medidas, era criar o Ministério da Habitação.
Já dito. O António Costa já fez isso. António, o que aconteceu à Galp e à Renova?
Olha, não aconteceu. Não queres notas pra nada?
Quero, eu estou mesmo com pressa hoje.
Eu sei, eu dou um oito a Montenegro.
Eu dou um oito aos dois, aos aconchados. Aos aconchados. Eu dou um oito a Montenegro e dou um 10 a António Seguro. Então explica-nos lá o que é que aconteceu.
Nós andamos todos à procura de empresas com escala É um problema, porque nós não as temos. A Galp começou a discutir com a espanhola MOL V, antiga Cepsa, talvez seja mais fácil para quem nos está a ouvir. Que, na verdade, de espanhola só tem o mesmo nome, porque os donos são um fundo de Abu Dhabi e um fundo americano, o Carlyle e o Mubadala, que são os donos dessa empresa. E andaram a discutir, durante meses, uma fusão de duas áreas. A Galp tem participações em poços de petróleo, isso estava fora de negócio. Discutir a fusão da redistribuição dos postos de combustíveis, era uma empresa, e das refinarias, duas empresas da Cepsa, a MOL V, e uma da Galp, em Sines. Houve dois problemas aqui. Um é onde normalmente os negócios falham, provavelmente não conhecendo bem a natureza de acionista da Galp, Paula Amorim, apesar da diferença da dimensão de capital. Do que se sabe, a MOL V apresentou um valor de valorização do ativo, que é esta refinaria de Sines e da distribuição, tão baixo, que tornou impossível qualquer margem de entendimento. Portanto, havia entendimento sobre o valor, o sentido de juntar as duas empresas num grande player ibérico, isso seria muito importante para a economia ibérica, para a Galp, obviamente. Depois, não havendo esse acordo, sobra uma coisa que não é irrelevante. O governo meteu-se neste negócio, este negócio não era a dois, mas era a três, porque o governo português entendeu que deveria sentar-se à mesa de negócio para, vou simplificar, proteger a soberania nacional, que é sempre o discurso que os partidos têm. Já nos lembramos a TAP, é sempre a mesma coisa. Neste caso, o governo queria que o Estado tivesse uma participação nesta nova empresa. Isso não resolve o essencial. Não houve negócio. Eu acho que obviamente não houve negócio porque os acionistas, nomeadamente a Galp, entendeu que o valor não era o correto e aí está tudo bem. Não se resolveu o problema principal que ressaltou deste negócio, o que fazer com Sines. O governo acha que tem ali uma coisa extraordinária.
Um maná.
Um maná. Mas o maná, como a TAP, como outros manás, vão ter que ser pagos por nós. E convém que nos digam isso. Por quê? Porque as refinarias, como estamos a ver em todo o mundo, estão a receber investimentos de milhares de milhões. Agora até estão a dar dinheiro, e estão. Mas há anos em que não deram dinheiro e é preciso investir muito. O que se percebe do que a Galp anda a dizer publicamente, por meias palavras, é: se o governo está tão interessado em que Sines seja protegida e destas fusões, tem que criar condições, tem que apoiar, tem que pôr lá dinheiro. E ficou esta coisa que foi uma pena, de fato, que não se fez o negócio. O governo vai dizer publicamente: "Salvamos a soberania nacional e este negócio, ainda bem que não houve. Vamos acabar", eu desconfio, "a pagar também a refinaria de Sines, não sei muito bem para quê."
E tu tens uma nota?
Eu tenho um 10 à falhanço de negócios. Vamos lá ver, a Galp e Paula Amorim entenderam que a oferta não era boa e chumbaram. É como quando queremos vender uma casa e nos dizem: a casa vale 100, nós achamos que ela vale 500 e não vendemos. Não podemos ser acusados disso. É uma pena que não se tenha criado este grupo ibérico.
Eu hoje dou um 11 ao vencedor, porque acabamos a horas.
28.
Aprecio mais. Mas temos aí o Santa Clara-Benfica, já à espreita. Tenho que falar com alguém que mande nisto pra ver como é que isto se organiza. Amanhã de manhã temos, depois das 08h30, mais uma edição do E o Vencedor É, com o Rui Pedro Antunes, que se junta ao Samuel Fernandes, ao Paulo Ferreira, ao Bruno Vieira Amaral. E hoje, também por causa do futebol, não há Ideias Feitas em FM, na rádio, mas vai haver em podcast. Daqui a nada já vai ser publicado.