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Se de repente um desconhecido de óculos de sol meter conversa consigo no meio da rua, desconfie. Ou então, para não ser muito alarmista, não dê muita confiança. É que a tecnologia que nós vestimos está a ficar tão discreta que a diferença entre um simples acessório de moda e uma câmera escondida praticamente desapareceu. E o que está a acontecer neste momento em França mostra isto mesmo. O Ministério Público de Paris acabou de abrir vários inquéritos por causa de uma nova moda preocupante. Nas redes sociais, há cada vez mais vídeos de homens a usar aqueles óculos inteligentes, que têm as câmeras quase invisíveis na armação, para filmar mulheres na rua sem elas fazerem a mínima ideia. A conversa é quase sempre a mesma: aproximam-se, fazem uma pergunta banal ou metem-se com a pessoa só para provocar uma reação, e horas mais tarde esse vídeo vai parar ao TikTok ou ao Instagram, ganha milhares de visualizações, gera comentários invasivos e ainda dá dinheiro a quem o publicou, tudo à custa de quem não sabia sequer que estava a ser gravado. A coisa ficou tão séria que a própria polícia de cibercrime comprou vários destes óculos para testar no terreno e perceber que crimes estão em causa. Em França, filmar e publicar a imagem de alguém sem autorização pode dar até dois anos de prisão, €45.000 de multa, e se a brincadeira envolver qualquer tipo de contacto físico não consentido, passa a ser então investigado como assédio ou agressão sexual. A discussão agora é que estes óculos deveriam avisar quem está à volta. Eles até têm uma luzinha muito pequena na armação, que se acende quando estão a gravar, mas quase ninguém repara nisso no meio da rua. E pior, até já há tutoriais na internet a ensinar a tapar essa luz com fita preta ou com outras coisas. Tudo isto abriu o debate. Há empresas a perguntar se podem proibir estes óculos nos escritórios. Os cinemas da Inglaterra começaram a proibir a entrada com eles postos, e há quem defenda que as marcas deviam ser obrigadas a mudar o próprio formato dos óculos para ser mais perceptível que não são óculos normais. São smart sunglasses. E aqui a questão deixou de ser o que a tecnologia consegue fazer, mas antes, até que ponto ainda temos direito a andar na rua descansados, sem termos uma câmera a apontar para nós.
É verdade, que isso é outro nível. A videovigilância, por exemplo, já está nas ruas.
Já está nas ruas e aceite.
E aceite. Seja oficial, das autoridades. Isso é avisado nas zonas.
Exatamente, com vigilância tem aquelas câmaras.
Mas depois há as câmerazinhas que há à entrada de cada loja, de cada restaurante, que ali naqueles metros filmam.
Sim, até câmaras de segurança de casas próprias.
Claro.
Sim, nos Estados Unidos, aliás, isso é matéria-prima para muitos documentários.
Acabei de ver uma série que tinha isso, que era fundamental numa investigação.
Sim, há um documentário que até esteve nomeado para os Oscars, sobre a vizinha do lado.
Eu vi.
Que é extraordinário, que é praticamente só feito com imagens de vigilância, quer das bodycams dos polícias, quer das câmaras de vigilância das casas. E consegue-se contar uma história só com essas câmaras.
Claro, agora isso é outro nível.
Direitos individuais e da proteção. E esta questão de mudar o formato dos óculos para que seja mais perceptível que não são óculos de sol normais, mas acho que não vai por aí.
Claro. Por falar em outro nível, e também tem tudo a ver com a tecnologia, esta história que está contada no Washington Post. Um professor prestigiado de Estatística e de Matemática da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, começou este ano, assim do nada, a publicar uma quantidade invulgar de trabalhos científicos. Neste ano só, portanto, estamos a falar de nove meses, foram mais de 200 artigos e 14 livros.
Em quanto tempo?
Nove meses.
É uma situação.
Ó Bruno.
Eles estão a falhar.
É o tempo de gerar uma criança.
Espera aí, mas eu agora vou descobrir o segredo.
Vais te inspirar.
Vocês já estão a adivinhar qual é o segredo de Nicholas Paulson. Claro que a situação chamou a atenção de colegas, acadêmicos, durante o verão, quando notaram que o ritmo de produção era impossível para um ser humano. Portanto, estes 200 artigos, 14 livros publicados, porque além de estudos em estatística e econometria, que são a sua área de conhecimento, ele passou também a assinar trabalhos e a publicar sobre temas relativamente distantes da sua área, como inteligência artificial, atenção plena, genéticas populacionais, traumas sociais ou redes sociais.
Tinha que ser mais discreto, o senhor.
Ou redes sociais. Ele não descobriu o futebol, senão também teria publicado 30 livros sobre a melhor tática.
Tática, estatística.
Estatística, isso tudo. E as suspeitas confirmaram-se quando os investigadores analisaram os textos sob remotos, descobriram que os trabalhos continham marcas evidentes de terem sido feitos com apoio de inteligência artificial. Cá está o segredo, que não é segredo. Tendo sido mesmo lançados livros com títulos invulgares sobre espiritualidade e filosofia moderna.
Vai a todas.
O Nicholas Paulson não deixa nada.
Ele?
Ele ou alguém por ele.
Aquilo.
Claro.
Aquilo, é isso mesmo.
Claro que perante esta vaga anormal de publicações e as evidências, ou as elevadas suspeitas, se quisermos, de haver inteligência artificial ali a trabalhar, ou demasiada inteligência artificial, a plataforma acadêmica onde os trabalhos são partilhados, tomou medidas drásticas, removeu cerca de 250 artigos do docente, decidiu congelar as suas contas do utilizador e a comunidade acadêmica reagiu de facto com a perplexidade. Ao caso, nos últimos dias, vários colegas sublinharam que ele já tem a carreira e o posto de trabalho consolidados, portanto, é aquela história: o artista é um bom artista, não havia necessidade. E pelo que ele não precisava, de facto, deste volume de produção em massa para manter o estatuto. Ele responde às críticas, defende-se, diz que defende os seus métodos de trabalho, garante que todas as reações da comunidade científica são apenas, imaginem, fruto da inveja. Claro, obviamente.
Injustiça.
Ele até disse, inveja, a palavra com que-
Cabem aos cabinos.
Diz que é inveja com a sua capacidade de trabalho. Agora, este tema também não está nada resolvido. Ontem falámos disso, sobre o tweet de Cársio e Moedas. Eu acho que vamos chegar a um ponto de normalizar a participação da inteligência artificial nestas coisas.
Podia ser a inteligência artificial a assinar o livro e pôr lá por baixo: com a colaboração.
Com o prompt.
Claro, ao contrário.
Em vez do prefácio, o prompt.
O prompt da minha autoria.
Andamos à cata, nestes casos mais evidentes De evidências ou de sinais de inteligência artificial. Eu não imagino, porque passei por isso, mas quando apareceu a internet também foi uma ferramenta de trabalho. Não era inteligência artificial, não escrevia por nós, mas facilitou a pesquisa de forma incomparável.
Deixar de se utilizar a memória.
Deixar-se de utilizar a memória, recorrer a um dicionário.
Mas isso aconteceu com a imprensa, com os livros e com a difusão da imprensa. Aliás, dizia-se que isso era um problema para a memorização, que as pessoas iam deixar de memorizar. Sempre que aparece uma nova tecnologia, achamos que vai tudo mudar.
Mas estamos ainda assim, claramente, num outro nível, não é?
Absolutamente noutro nível, mas eu acho que isto vai ser normalizado a prazo, porque é impossível que seja de outra maneira. E depois há vários níveis de auxílio da inteligência artificial. Isto é, uma coisa é publicares um texto copy-paste que um LLM te dá, outra coisa é recorreres à inteligência artificial para fazer buscas, pesquisas e depois vais buscar aquilo e trabalhas o texto em cima daquilo. E aí é mais um instrumento. Eu acho que nós, mais tarde ou mais cedo, vamos ter que encontrar uma forma de assinalar a presença da inteligência artificial, mas normalizando a sua utilização.
Não, e isto cria uma grande desconfiança. Eu acho que essa é uma das grandes alterações, a desconfiança com que qualquer coisa passa a ser recebida, desde a escola até aos locais de trabalho, qualquer coisa que seja feita.
Depois onde é que fica o mérito da pessoa?
Ora aí está.
Exatamente.