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Não se fala de outra coisa. O Fórum de Davos não ficou só marcado pelo discurso do primeiro-ministro do Canadá, pelo discurso de Donald Trump, discurso entre aspas.
Intervenção.
Intervenção. Pela criação do Conselho de Paz para o Médio Oriente. Outro dos temas foram, já aqui falámos, os óculos de Emmanuel Macron. Carla, falaste sobre isto há dois dias. Na altura, falámos nos Ray-Ban por causa do modelo, mas eu estava a achar estranho que o presidente francês fosse usar uns óculos de uma marca norte-americana num momento de grande tensão entre Estados Unidos e Europa. Não. É uma marca francesa, Maison Henri Julien, e o ponto é este: tem sido inundada por pedidos de todo o mundo desde que o Macron apareceu com os óculos. Sem esperarem, acabaram por ter uma publicidade impossível de comprar. Quando a notícia se espalhou, o site da empresa foi abaixo. Sou eu que estou aqui a apitar, se calhar, não é?
Não, está só a apitar.
Estás com muita pilha.
Foi há dois anos que o gabinete de Macron entrou em contacto com a empresa para comprar um par de óculos de sol do modelo Pacific S01 Double Gold, no valor de €659. Mas era um presente diplomático para a reunião do G20 e depois queria também um segundo par para o próprio presidente francês. O dono da empresa que fabrica esta marca, este modelo, disse que ficaria feliz em enviar um par pra ele, mas disseram que não. Macron não quis que fosse presente, quis comprá-los pessoalmente e prestou muita atenção ao fato de os óculos serem inteiramente fabricados em França, neste caso, na região de Jura, no leste do país. Até aqui, os 10 funcionários produziam cerca de mil óculos de sol por ano. De certeza que este número vai disparar.
Aos dezenas, quase.
Sim. São os óculos feitos à mão e usando aquilo que a Eye Vision, a empresa italiana que comprou a marca em 2023, chama de uma técnica ancestral, onde o ouro é fundido, em vez de banhado ao metal.
Faz toda a diferença.
Muita diferença.
Torna-os mais resistentes. As lentes UV com tonalidade azul são produzidas pela Dalos, outra empresa sediada no leste da França, portanto, são mesmo 100% franceses. O responsável pela marca diz que não são uns óculos comuns, são produto de luxo, um investimento, como uma joia, como um relógio. São óculos disponíveis em óticas de todo o mundo, inclusive na Ucrânia, devastada pela guerra. Mas a empresa até aqui ainda não havia encontrado um distribuidor no Reino Unido. Agora, certeza que depois com esta publicidade não vão faltar ofertas. Os dez artesãos é que vão precisar de ajuda, pois não vão ter mãos a medir depois disto que está a acontecer.
Ou então sobem os preços, mantêm as quantidades e sobem os preços.
Mas se tornam-se ainda mais exclusivos.
Claro. É assim que se promove um produto nacional. Esta é uma ótima ideia para os nossos políticos que querem alavancar as exportações do país.
É pôr os olhos nisto e expor.
Claro. Têm que conseguir, têm de fazer por isso.
Sim, andar com um galo de Barcelos no olho.
Um pastel de nata.
Pastel de nata já não precisa. Já está com um lenço de Viana ao pescoço agora, em vez de uma pulseira.
O Álvaro Santos Pereira teve razão antes do tempo.
Sim, agora é preciso encontrar outras marcas.
Imaginem um político a comer um pastel de nata enquanto fala.
Ou bolo rei, sei lá.
Ou bolo rei.
Se alguém se lembrasse disso alguma vez. Olha, nós vivemos tempos muito estranhos. Enquanto acontece essa explosão de venda de óculos de sol iguais aos de Emmanuel Macron, há uma imagem que já está a percorrer, tem poucos dias, foi na terça-feira, creio, tem poucos dias, mas já está a correr a imagem de uma criança de um menino de cinco anos que foi detido pelo ICE, pelos agentes de imigração nos Estados Unidos, à porta de casa. Ele tem um barrete de malha azul, percebe-se que está muito frio na rua e ele está com um ar abandonado em frente a um carro preto. Ele estava a chegar da escola, chama-se Liam Ramos e foi retirado de um carro da família que estava ainda com o motor ligado e um agente o levou até à porta de casa e pediu-lhe que fosse ele a bater à porta pra ver se estava mais alguém em casa. Ou seja, tornando, na prática, esta criança como um isco para deter o pai. Esta imagem, esta história, está a chocar muito, embora o ICE tenha outra versão. Depois da indignação generalizada, recorreu ao X para garantir que a agência não usou, nunca usou uma criança como isco. A criança tinha sido, isso sim, abandonada. E dizem que o pai, natural do Equador, aparentemente estava legal, que o pai é que era o alvo da operação, mas o ICE acabou por deter também a criança, porque a criança estava abandonada e neste momento estão detidos em conjunto, aparentemente, e diz a CNN, estão numa instalação dos serviços de imigração e alfândegas no Texas. Isto é só mais um caso. É claro que sempre que há uma imagem, torna-se mais duro, mas é só mais um caso de uma criança envolvida nesta campanha de deportações em massa que está a ser levada pela administração Trump, mas ainda recentemente, há outros casos, outros três alunos que também foram levados pelo ICE. Um outro caso, um estudante de 17 anos que ia a caminho da escola quando foi detido por agentes armados e encapuzados. Ainda na semana passada, outros agentes do ICE entraram no apartamento de uma outra estudante de 17 anos e da mãe. Foram ambas detidas. Podemos olhar ainda, recuar para uma aluna do quarto ano, de 10 anos, que foi levada também por agentes do ICE quando se dirigia para a escola com a mãe e que neste momento está num centro de detenção no Texas. Esta campanha está a ser muito criticada, tem sido marcada por táticas consideradas agressivas por parte destes agentes armados, só a pose e o tamanho, só o aspecto faz com que pareça haver aqui uma enorme desproporção de forças. Tem havido um aumento também dos protestos, com uma resposta repressiva também por parte destas forças de autoridade. Mas é assim em algumas partes dos Estados Unidos que estamos agora. Esta imagem, se calhar, vai ficar no balanço deste ano de 2026, que ainda agora está no início.