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Bem-vindo ao "Nota 20", programa da Rádio Observador, em parceria com a Iniciativa Educação. Olá, professor Nuno Crato.

Ora viva.

Professor, esta semana vamos abordar o tema da leitura e o seu impacto no desempenho escolar dos jovens, com uma especialista que é também ela autora de livros para os mais novos. Antes, vamos ao resultado da sondagem que mantivemos no Twitter na última semana. A pergunta que colocamos aos nossos ouvintes foi: todo o tipo de leitura que os jovens fazem tem impacto positivo no seu desempenho acadêmico? Opção A: nem todas as leituras. Opção B: o que importa é ler. Uma vez mais, professor, temos aqui opiniões divididas.

Muito divididas? Como é que ficou?

Ficou 50 e 50.

50 e 50? Pois. Eu também estou 50 e 50. À partida, estaria 50 e 50. Mas há investigação recente que mostra que há certo tipo de leitura que é mais útil que outro. E surpreendentemente para muitas pessoas, mas reconfortantemente para outras, e para mim, entre elas, é muito mais útil e muito mais proveitoso para os jovens lerem ficção do que lerem textos dispersos. Acho que isto é um resultado de investigação recente interessante, e nos leva a crer que, de facto, o prazer da leitura em romances e em textos longos é algo que traz benefícios grandes para o futuro.

Já vamos detalhar a questão da leitura com a nossa convidada. Chama-se Sara Almeida Leite, escreveu e ilustrou a primeira história aos seis anos. É autora da coleção "O Mundo da Inês", coleção dirigida ao público juvenil. Tornou-se autora por acidente, quando resolveu escrever uma história para ocupar a filha numas férias sem internet. Sara Almeida Leite, bem-vinda ao "Nota 20" desta semana.

Olá, obrigada pelo convite.

Sara, começava por lhe fazer esta pergunta: a leitura de todos os gêneros literários é vantajosa para os jovens ou há gêneros que são mais vantajosos do que outros?

À partida, se pensarmos já nessa expressão "gêneros literários", eu diria que sim, que todos os gêneros literários são igualmente vantajosos. Por quê? Porque quando falamos de literatura, estamos normalmente a falar de histórias. De textos que nos contam histórias, mesmo que sejam textos poéticos. No fundo, nós podemos sempre retirar dali uma história. E de facto, as histórias, sobretudo as mais extensas, são muito úteis para nós ganharmos conhecimento, aumentarmos a nossa competência linguística e desenvolvermos os nossos recursos, por exemplo, até a nível metacognitivo, ou seja, tornarmo-nos melhores leitores a nível da capacidade para gerir a própria compreensão na leitura.

Mas há gêneros que se apresentam como mais vantajosos. Por exemplo, a ficção. Ler ficção não é a mesma coisa que ler banda desenhada, ou é?

Sim, pois. Em termos de gêneros literários, estava a pensar na ficção. Que a ficção seria mais ou menos um sinônimo de literatura. De facto, podemos, sim, dizer que com base em estudos recentes, a leitura regular de textos de ficção é mais vantajosa para desenvolver competências cognitivas e linguísticas do que a leitura de textos de não ficção, do que a leitura de banda desenhada, de revistas, de jornais até, e de textos dispersos, como dizia há pouco o professor Nuno Crato, sobretudo textos online. Exatamente. Por quê? Porque, por exemplo, há um estudo de 2019, de Jeremy e Moss, que foi publicado numa revista da especialidade britânica e que se encontra até resumido no site da Iniciativa Educação, que eu recomendo. Aliás, entre esse e outros artigos, para termos uma ideia do que realmente se tem concluído nas investigações sobre este assunto. E o que acontece? A leitura regular de textos de ficção, de facto, está associada aos melhores resultados, ao melhor desempenho dos estudantes que fazem aqueles testes internacionais para aferir a sua capacidade para utilizar os conhecimentos que adquiriram na escola, como, por exemplo, o teste PISA.

Quando diz desempenho, é o desempenho acadêmico?

O desempenho no sentido de ser capaz de aplicar os seus conhecimentos e as suas competências em novas situações. Portanto, os testes como o PISA não avaliam propriamente a capacidade de memória. Não é uma questão de recordar, de papaguear, digamos assim, o que se aprendeu de uma forma passiva. É, antes, um teste que permite aferir se os estudantes, os jovens de 15 anos, são capazes de aplicar aquilo que aprenderam de uma forma mais ativa em situações novas. E, nesse sentido, há essa conclusão muito clara de que os que leram textos de ficção por gosto, por iniciativa, são os que apresentam melhores resultados, por exemplo, no teste PISA.

Se me permites tentar esclarecer aqui duas ou três coisas rápidas sobre isto. Há vários estudos internacionais que são regulares, ou inquéritos internacionais que são regulares, o mais conhecido dos quais é o PISA. O PISA faz-se de três em três anos, é feito pela OCDE. Incide sobre três áreas, sobretudo, que são a leitura, a matemática e as ciências. E este último ano, que foi 2018, o último ano conhecido, incidiu, sobretudo, sobre a leitura. E portanto, dá-nos muitos dados sobre a leitura. Outros inquéritos que existem, como é o caso do Teams, são inquéritos que incidem mais sobre os programas, portanto, estão mais ligados aos programas, mais aos conhecimentos curriculares. O PISA, não. O PISA foi concebido para os jovens de 15 anos, portanto, para aqueles que teriam terminado, na altura em que foi concebido, ainda no fim do século passado, aqueles que estavam a terminar a escolaridade obrigatória. E, portanto, a ideia do PISA é: como é que estes jovens estão preparados para a vida? Será que eles conseguem ler, interpretar bem o que leem? Será que eles têm os conhecimentos científicos básicos, sabem distinguir um vírus de uma bactéria, etc. E, portanto, este PISA é muito interessante por isso. Mas os outros também são. Cada um tem as suas áreas especiais.

Uhum. E já percebemos, de acordo com o que diz a Sara Almeida Leite, que há uma relação direta entre o desempenho dos jovens no PISA com a leitura. O que a ciência nos diz sobre o prazer da leitura e o suporte? Por exemplo, ler em papel ou em formato online é a mesma coisa? Quem lê por gosto, lê de maneira diferente de quem lê obrigado?

Sim, eu diria que são duas variáveis ou duas realidades distintas. Portanto, por um lado, é notório que a leitura por gosto dá mais resultados, melhores resultados do que a leitura por obrigação, digamos assim. Por quê? Porque quando nós lemos por gosto, nós mais facilmente entramos no texto, digamos assim. Nos deixamos influenciar de maneira que o nosso entusiasmo favoreça uma certa imersão que permite uma leitura mais profunda. Portanto, a leitura por gosto é uma leitura que dá mais frutos em termos de desenvolvimento de competências, até pelo próprio fato de não estarmos tão interessados no texto, que fazemos um esforço para superar, por exemplo, eventuais dificuldades de compreensão. Se não estivermos muito interessados, provavelmente não faremos esse esforço. Por outro lado, a questão do suporte, de fato, também tem sido estudada. No sentido de perceber se as pessoas leem melhor ou se percebem melhor o que leem em papel ou num ecrã. E o que também se tem concluído, há vários estudos que apontam para isso, é que a leitura em ecrã é uma leitura mais superficial. Portanto, quando os leitores leem em formato digital, tendem a fazer uma leitura mais imediata, mais rápida, porque estão normalmente à procura de uma resposta para uma questão que têm. Portanto, assim que encontram a resposta, consideram-se satisfeitas e a leitura não é muito aprofundada nesse sentido. Portanto, o papel favorece uma leitura mais aprofundada. E depois há aqui outra questão que eu acho que é muito interessante e digna de referência, que é o fato de os leitores que preferem o ecrã serem mais autoconfiantes e até demasiado autoconfiantes. Portanto, têm a tendência a pensar que perceberam melhor do que se calhar perceberam. Os que preferem o papel não são tão autoconfiantes. Isso também está na literatura que tem estudado esta questão.

Sara, só um parêntese muito rápido. Há aqui uma coisa que julgo que também é importante nestes estudos todos, que é: o papel é, sobretudo, bom para quando se está a estudar uma matéria, ou seja, para um manual escolar, é muito melhor o papel, porque a pessoa pode olhar, pode voltar atrás, tem uma ligação diferente do que tem no ecrã. E portanto, para os nossos jovens, acho que isso é uma lição interessante. Quer dizer, ler notícias online, tudo bem, etc. Mas se é para estudar, então é bom um livrinho, um papel, um lápis, etc.

Uhum. Falamos do gosto e do suporte, o que nos leva à pergunta se é possível desenvolver o gosto e o prazer pela leitura e como é que isso se faz.

De fato, é um bocadinho difícil.

É a pergunta do milhão de dólares.

É difícil porque realmente exige a motivação intrínseca. E a motivação intrínseca não é qualquer coisa que se possa fazer surgir nos outros. Só podemos fazer isso em relação a nós.

Dou a volta à pergunta. Vamos da família para o indivíduo. Por exemplo, pais que leem muito são mais propícios a desenvolver o gosto pela leitura junto dos filhos ou ao contrário, os filhos seguem o exemplo dos pais ou têm a tendência para seguir mais o exemplo dos pais?

Seria desejável, mas não necessariamente. Aqui o que, de fato, faz alguma diferença é a leitura para os filhos. Não é que as crianças que vejam os pais a lerem para eles próprios em silêncio, mas crianças que tenham pais que leem em voz alta para os filhos, de uma forma expressiva, histórias que sejam do seu agrado. Isso sim, é efetivamente uma boa medida para tomar desde muito cedo, quanto mais cedo melhor.

O ritual de contar uma história para adormecer, por exemplo.

Não necessariamente para adormecer, eu diria, mas sim, se for para adormecer, que seja, mas não necessariamente. Pode ser em qualquer altura do dia, porque quando nós contamos para adormecer, nós queremos é que as crianças durmam. Portanto, queremos que aquilo acabe o mais depressa possível. E eu acho que não é muito boa ideia. Se nós queremos desenvolver o gosto pela leitura, não é muito boa ideia fazê-lo quando, ao mesmo tempo, queremos que as crianças adormeçam. A mim não me parece a melhor altura do dia, mas se os pais só têm essa altura do dia para ler para as crianças, então que a aproveitem, sem dúvida.

Até porque há aqui um dado particular: o gosto pela leitura é genético

Também. O gosto por estudar em geral, o gosto por adquirir conhecimento, diz a literatura, os estudos sobre esse assunto, que se não me engane, 40% pode ser hereditário, pode ser genético. E portanto, nesse sentido, a diferença que faça ou não os pais lerem ou darem um bom exemplo, é relativa. Podemos pensar que seja boa quando há pais que leem, mas também não devemos pensar que quando os pais não leem, os filhos não irão ler, porque eles podem ter essa apetência por eles próprios. E o fato de os pais não lerem é só não os influenciar.

Mas é sempre bom ajudá-los, porque a genética não é propriamente determinística. Ou seja, se nós lermos mais, temos uma influência mais positiva.

Depois também há o acesso. É preciso que os jovens leitores tenham acesso aos livros, porque senão, se eles não tiverem acesso, por exemplo, a uma grande diversidade de gêneros, para poderem escolher os que mais lhes agradam, aqueles com que mais se identificam, eles não vão conseguir alimentar a eventual fome que tenham de leitura e de conhecimento inicialmente.

Ajuda, por exemplo, crescer numa casa cheia de livros ou com muitos livros?

Eu acho que sim. Eu diria que sim. Se a casa não tem livros nenhuns, é muito mais difícil que a criança se entusiasme pela leitura. Eu fiz essa experiência com a minha filha.

Aquele contato visual diria.

Eu acho que resulta. Eu tinha uma estante com livros ao nível do chão e, portanto, ela ainda nem sequer conseguia andar, mas já conseguia tirar os livros da estante e folheá-los. Não conseguia ler, nem pouco mais ou menos, mas aquilo eu quero acreditar que foi uma boa estratégia para que ela se entusiasmasse pela leitura e, de facto, entusiasmou-se muito pela leitura. Talvez tenha sido graças a esse acesso fácil que tinha quando ainda era tão pequenina.

Sara Almeida Leite, muito obrigado por ter vindo ao "Nota 20" esta semana.

Nada, foi um prazer.

Professor Nuno Crato, notas finais das ideias que escutámos aqui nos últimos minutos.

Bem, são ideias muito ricas, mas deixe-me talvez começar por uma coisa importante: é que para ter prazer em ler, é preciso ler bem. E por isso a fluência da leitura é o primeiro passo. E nós temos um programa nesse sentido, que é o programa "A a Z: Ler Melhor, Saber Mais." À medida que as pessoas desenvolvem, que os jovens desenvolvem fluência, torna-se mais fácil ler e, portanto, sendo mais fácil ler, mais fácil é desenvolver o gosto pela leitura e com tudo o que isso traz, com o vocabulário, com o contacto com situações diversas, etc., com o mundo novo que tem. Eu acho que, além disso, há outro aspecto aqui muito interessante, que vale a pena focar outra vez, que é o aspecto da literatura. A literatura tem um efeito sobre os jovens que lhes permite ganhar muito maior conhecimento do mundo e muito maior fluência ela própria na leitura. Portanto, a literatura tem um efeito bom sobre a própria leitura, que acho que é interessante e é reconfortante. E finalmente, esta discussão sobre o papel versus a internet. Nós às vezes pensamos que o computador em geral, tem grandes vantagens, e tem grandes vantagens, mas há coisas para as quais o bom velho papel continua a ser o melhor meio.

Muito bem. E o próximo programa é sobre o impacto das férias de verão na aprendizagem da escrita. Vamos ter como convidado Luís Querido, neuropsicólogo e doutorado em Psicologia Cognitiva. Antes de fechar o programa, deixo a habitual pergunta que dirigimos todas as semanas aos nossos ouvintes na rede social Twitter. A pergunta é a seguinte: todas as crianças esquecem o que aprenderam durante as férias de verão? Opção A: sim, são férias muito longas. Opção B: não, depende das crianças.

Deixe-me acrescentar uma nota, que é as histórias de "A a Z" continuam a aparecer todas as semanas. Agora, a última, que é o "Baile do Beabá", está já disponível na net. E o que é que são estas histórias? São histórias que permitem aos jovens ouvir e ler ao mesmo tempo, porque as palavras estão lá. E isto fica como sugestão também para as férias, porque as histórias vão continuar a aparecer.

No site da Iniciativa Educação.

Exatamente.

Professor Nuno Crato, até para a semana.

Até para a semana.