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Notícias. Notícias das 16h com Miguel Videira. E Miguel, Volodymyr Zelensky já aterrou em Miami, vai encontrar-se daqui a pouco com Donald Trump. Em Mar-a-Lago, na residência privada do presidente dos Estados Unidos. De acordo com a CNN Internacional, o encontro está agendado pra 13h, 18h em Lisboa, daqui a duas horas, e tem como pano de fundo revisto acordo de paz, agora com 20 pontos. Antes da reunião, o presidente ucraniano estabeleceu como prioridade o tema, um dos pontos do acordo, das garantias de segurança para a Ucrânia no caso de nova agressão russa no pós-cessar-fogo. É nosso convidado desta edição das 16h, o especialista em Direito e Relações Internacionais, Francisco Pereira Coutinho. Bem-vindo, obrigado pela disponibilidade este domingo. Há uma grande expectativa, sob o ponto de vista midiático, em torno desta reunião. Esta expectativa é proporcional à possibilidade de ser fechado um acordo, um plano que seja do agrado de Estados Unidos e Ucrânia?

Muito boa tarde. Sim, sem dúvida. Essa parte, sim, ou seja, é muito possível que saia hoje um acordo total entre os Estados Unidos e a Ucrânia. Aliás, Zelensky há muito tempo que pedia uma reunião com Donald Trump, e Trump sempre disse que só se reuniria com Zelensky para fechar um acordo. E, portanto, se Zelensky viajou, foi porque Trump recebeu luz verde de um dos seus melhores amigos, Witkoff, e do seu genro, Kusta, que é a equipa negocial dos Estados Unidos com a Ucrânia. Zelensky disse que o acordo estava fechado a 90%, faltava discutir a questão do futuro da central nuclear de Enerhodar e Zaporizhzhia, a maior central nuclear da Europa, quem é que a vai gerir, se os Estados Unidos estarão envolvidos ou não. E depois a questão mais complicada, que é a questão territorial do Donbass. Há aqui várias ideias que foram lançadas para cima da mesa pelos Estados Unidos, uma zona desmilitarizada, uma zona de comércio livre. Zelensky veio dizer que só aceitaria algo desse gênero se a Rússia também aceitasse, eventualmente teria que submeter tudo a referendos ucranianos. E, portanto, estamos a falar de um documento de 20 pontos, já chegaram a ser 28 quando era a versão russa, que foi traduzida pra inglês e apresentada pelo mesmo Witkoff. E, portanto, também dá-nos a expectativa de perceber se este plano emagrecido será do acordo também dos Estados Unidos e até onde é que vai Zelensky nas cedências que pode fazer. Já sabemos que quanto mais ceder, estará mais próximo de chegar também às pretensões russas. É este o jogo que temos neste momento.

E até onde é que está disposto a ir Donald Trump para garantir a segurança pedida pela Ucrânia em caso de agressão russa no pós-cessar-fogo?

Essa foi a novidade que tivemos nas últimas semanas. Aparentemente, os negociadores americanos procuraram dar à Ucrânia tudo aquilo que a Ucrânia pediu. Portanto, não é possível entrar na NATO, porque isso era uma linha vermelha para Moscovo, e os Estados Unidos vão dar garantias à Rússia, pelo menos Donald Trump, que não aceitará a entrada da Ucrânia na NATO, apesar do seu antecessor, Joe Biden, ter dito que essa entrada é irreversível, e Putin sabe isso, sabe que isto são garantias apenas dos americanos, mas a possibilidade da NATO está posta de parte. Mas garantias de segurança tipo NATO, tipo Artigo Quinto da NATO, aparentemente os Estados Unidos disseram, inclusivamente, isto poderia ser feito, imagino eu, através de um tratado que iria ao Congresso. Portanto, garantias robustas de segurança possam ser interpretadas como garantias sérias por parte do Kremlin. Putin saber que se atacar, muito possivelmente os Estados Unidos irão responder, e também os europeus. A reunião de hoje será participada também remotamente pelos europeus. Portanto, essa parte eu creio que foi a parte que de fato se avançou mais, até de forma bastante surpreendente nos últimos tempos. Embora, claro, essas garantias de segurança vão depender muito, depois, sempre da vontade de Donald Trump de defender a Ucrânia caso a Ucrânia volte a ser atacada. Agora, da perspectiva de Zelensky, ele está a pensar já mais no médio e longo prazo, ou seja, Trump estará em funções três anos, mas é muito possível que Putin fique mais tempo e volte a atacar a Ucrânia daqui a uns anos. Portanto, ele quer mesmo garantias robustas de segurança que passem por os Estados Unidos se comprometerem a defender a Ucrânia, no caso da Ucrânia voltar a ser atacada pela Rússia. Portanto, isso é um dos pontos que levou Zelensky justamente a ceder em vários pontos nos últimos meses.

O sucesso deste plano de paz depende, claro, daquilo que a Rússia queira fazer. E o que a Rússia quer fazer? Ontem, Sergey Lavrov, chefe da diplomacia russa, dizia que a Ucrânia não está verdadeiramente empenhada num processo de paz. O que isto indicia?

Indicia, assim à primeira vista, que não estão interessados neste plano emagrecido de 20 pontos. Estariam interessados no plano de 28, que foi o plano que foi apresentado por Witkoff e pelo encarregado de negócios do comércio russo, Dmitriev, e esse era um ponto muito mais próximo das posições russas. Não estão tão interessados neste plano emagrecido. Agora, eles também não estão interessados em serem objeto de mais sanções por parte dos Estados Unidos. E eu creio que Trump, neste momento, joga em Putin aceitar os ganhos que teve na Ucrânia até agora e não ir atrás das pretensões maximalistas, porque isso pode ter um efeito bumerangue e levar a que possivelmente fique numa posição ainda mais enfraquecida nos próximos tempos. Agora, eventualmente, Putin poderá ter outro cálculo e achar que é uma questão de tempo para conquistar o resto da Ucrânia, pra levar a que exista uma cisão entre os europeus e os Estados Unidos, uma cisão entre a Ucrânia e os Estados Unidos. E, portanto, é evidente que os russos não vão dizer que não imediatamente a este plano. Agora, resta saber se querem um cessar-fogo neste momento. As indicações, neste momento, vão no sentido de que não querem. Mas o Kremlin, em larga medida, é uma caixa negra, portanto, tudo está dependente de um homem, Vladimir Putin. Portanto, esta guerra terminará no dia em que ele achar que é tempo de terminar. E, portanto, ontem estava vestido com roupa militar, o que é um sinal que aparentemente está ainda em pé de guerra, mas vamos ter que esperar mais algumas semanas, provavelmente, pra tentar perceber se há alguma inversão nas posições russas.

Um eventual não de Moscovo a este plano de paz põe em cobro os esforços diplomáticos dos Estados Unidos para encontrar uma solução negociada pra este conflito?

Eu creio que não. Primeiro, porque provavelmente não será um não rotundo. Será um não, mas estamos abertos a negociar e farão uma proposta qualquer mais próxima daquela que tinha sido apresentada em novembro. É muito provável que o processo negocial continue e que os americanos não percam esta vontade de acabar a guerra, porque é preciso também lembrar que Donald Trump fez aqui uma promessa de que acabaria a guerra em 24 horas e conseguiu acabar, pelo menos cessar, com o cessar-fogo, a guerra no Médio Oriente e cria este grande ganho diplomático para ganhar o Nobel. É muito pouco provável que os Estados Unidos simplesmente se desinteressem deste conflito, apesar de Donald Trump já ter dado indicações que esse poderia ser um dos resultados, justamente não se chegar a lado nenhum. Mas aquilo que vimos nestas últimas semanas, com esta atividade diplomática absolutamente frenética dos americanos, é que estão muito empenhados em conseguir mediar uma solução de paz, e isso é muito meritório, independentemente por vezes, a forma como o fazem ser bastante criticável, no sentido em que procuram sempre pressionar a parte mais fraca, que é a Ucrânia. Resta saber o que é que os Estados Unidos vão fazer caso os russos digam "não". Ou seja, vão aumentar a pressão sobre a Rússia, se vão decretar sanções secundárias, se vão enviar mísseis Tomahawk. Trump tem ameaçado que vai fazer isso ao longo do último ano, mas isso tem sido sempre bluff. Não tem feito absolutamente nada para pressionar a Rússia. Se de facto, depois deste esforço diplomático, os russos não dão nenhum sinal de que pretendem a paz, então Trump possivelmente perderá a face e terá que fazer alguma coisa ou simplesmente desistir. Mas eu apostaria que os americanos vão continuar com os esforços diplomáticos, pelo menos durante mais algum tempo.

Professor Francisco Pereira Coutinho, muito obrigado pela sua disponibilidade, pela sua análise e por nos ajudar a antecipar este encontro que vai juntar daqui a pouco em Mar-a-Lago, na residência privada de Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos e Volodymyr Zelensky, com este plano revisto de 20 pontos, tendo em vista um cessar-fogo no leste da Europa em pano de fundo. Foi Filipa, tema único desta edição das 16h. É isso. Às 16h30 trazemos outras notícias. Miguel Vieira com o "Jornal das Quatro".