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O Miguel Pinheiro já está conosco para uma nova edição do Bom, o Mau e o Vilão. Olá, Miguel, bom dia.
Bom dia.
Bom dia, Miguel. O teu bom é Seguro.
Sim, Seguro está a conseguir fazer a campanha que quer. Ontem voltou a fazer uma campanha em que não cometeu erros, não disse disparates, não fez promessas tontas, não inventou inimigos. Pelo contrário, eu até ouvi o Jorge Pinto dizer aos seus apoiantes que compreendia se eles votassem em Seguro já na primeira volta. Enfim, daqui a pouco já falamos mais sobre isso. Ninguém sabe se Seguro passa à segunda volta. Nas sondagens, os candidatos aparecem demasiado perto uns dos outros para haver certezas. Além disso, por um lado, Seguro é muito chato. Não temos que ter medo das palavras, é muito chato. Por outro lado, não teve uma campanha de psicodramas. A vantagem de ser chato é que não há psicodramas. O dia de ontem correu sem sobressaltos, sem surpresas, e é mesmo isso que o candidato apoiado pelo PS quer, porque enquanto a direita se divide, ele faz de conta que não é nada com ele. E realmente não é nada com ele, é um problema da direita, a direita é que anda nisto. Ele vai andando.
O que não deixa de ser irônico, porque tudo isto começou com uma ideia de divisão à esquerda e só se falava de convergência à esquerda. E afinal os grandes problemas surgiram à direita.
É sim, senhor, é uma grande ironia. A verdade é que, vote-se nele ou não se vote nele, concorde-se com ele ou não se concorde com ele, António José Seguro fez e está a fazer uma campanha, e o dia de ontem foi um exemplo disso, sem erros.
Miguel, e quem é o teu mau?
O mau é João Cotrim Figueiredo, que adotou o tique populista do nós contra eles. Desde o início da campanha que Cotrim diz aos seus apoiantes que nós, ou seja, a campanha do Liberal, representa o verdadeiro povo e que eles, o sistema, vão fazer tudo pra o travar. E desde o início da campanha que Cotrim coloca no eles, no sistema, os jornalistas, que serão uma espécie de sicários do deep state contra esta candidatura do povo. Desde o início da campanha, sempre que teve problemas, contrariedades ou dificuldades, Cotrim apontou o dedo aos jornalistas, que o estariam a perseguir, e incentivou os seus apoiantes a apontarem o dedo aos jornalistas, insinuando que as redes são uma espécie do último reduto da liberdade de expressão contra uma comunicação social que combate e silencia os que querem mudar o sistema. Isto, obviamente, é um absurdo, uma desculpa e um erro. Como é óbvio, a partir do momento em que Cotrim falou sobre a acusação de assédio, e isto a propósito do que aconteceu ontem, tornou-se inevitável escrutinar o que está em causa, escrutinar Cotrim, escrutinar quem faz a acusação e escrutinar a Iniciativa Liberal, sendo que os responsáveis do partido têm de responder a muitas perguntas. Vários responsáveis do partido. Coisa diferente é discutirmos a forma como a acusação de assédio entrou na campanha. Eu disse isso aqui logo na manhã de terça-feira, e repito: Cotrim foi confrontado em direto com uma acusação de assédio sexual que andava a circular na manhã de segunda-feira nas redes sociais. Eu não faço ideia se a acusação tem fundamento ou não. O que sei é que não havia elementos pra que essa história fosse publicada por nenhum órgão de comunicação social, e aliás, não tinha sido publicada por nenhum órgão de comunicação social. Ela saltou diretamente das redes sociais pra um microfone aberto, e isso não pode ser, porque ao contrário do que argumenta Cotrim, não, as redes sociais não são o último reduto da liberdade de expressão e por isso os jornalistas não são porta-vozes ou meros amplificadores daquilo que se escreve nas redes sociais.
Mas a partir do momento em que a história é comentada pelo próprio, é obviamente tema de campanha e tema de perguntas, como é evidente.
Certo. Foi nestas circunstâncias que isso aconteceu. Já disse o que eu acho sobre essas circunstâncias, mas falando Cotrim em público sobre aquilo, sim, passa a ser inevitável um trabalho de escrutínio sobre toda a gente.
Miguel, só falta o teu vilão, que é um vilão que andou confuso.
Sim, Jorge Pinto andou ontem a tropeçar nas próprias palavras, mais uma vez. Passou todo o dia a avançar e a recuar ao falar sobre a possibilidade de apoiantes seus votarem em António José Seguro já na primeira volta. De manhã ele disse isto: "Que as pessoas decidam livremente. Não serei eu a julgar as pessoas pelo seu sentido de voto". Isto foi o que ele disse. Ou seja, se sentirem que é mais útil votarem Seguro, votem. Foi isto. À tarde, ele ainda foi um pouco mais longe. Vou citá-lo: "Estou confortável com a ideia de as pessoas votarem de maneira consciente e se isso significar um mau resultado pra esta candidatura, cá estarei "Votem de acordo com as suas consciências". Foi o que ele disse. A seguir, enviou uma carta aos militantes do LIVRE, em que afirmava que os eleitores devem votar livremente no nome que consideram que pode dar mais garantias de defesa da Constituição e em nenhum momento fez um apelo ao voto na sua candidatura. Depois 30 minutos passaram-se e ele começou a voltar atrás em declarações aos jornalistas e num discurso à noite atirou-se aos comentadores. "Os comentadores sempre com opiniões ultraformadas", disse ele. Nesse comício discursou também Rui Tavares. Naquele estilo Afonso Costa, Rui Tavares afirmou que quem vota no Jorge Pinto vota na festa da República. Mas olhando para tudo isto, para estas hesitações, para esta falta de convicção no que se está a fazer, nestas desculpas mal arranjadas para erros próprios, olhando para tudo isto, percebe-se que esta candidatura, cheia de truques e acrobacias até ao fim, não é uma festa, é, lamento, um circo. Isto, de facto, tem sido um circo político. Eu oiço muita gente a dizer que Jorge Pinto, que maravilha, que grande candidato, que ideias maravilhosas. Eu não vi nada disso, mas admito que o problema seja meu. Atenção, eu admito perfeitamente que um vírgula tal por cento do eleitorado esteja certo e que eu esteja errado.
Mas começou logo com tropração, com aquela espécie de consulta interna do partido.
Paulo, nem me lembres isso.
Vamos ao resumo. O bom desta sexta-feira é António José Seguro, o mau é João Cotrim Figueiredo e o vilão de hoje é Jorge Pinto. São as escolhas do Miguel Pinheiro, num episódio que daqui a instantes também fica disponível em podcast.