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Está no ar mais um episódio do Bom, o Mau e o Vilão da Rádio Observador e que também pode ouvir em podcast. Olá, Miguel Pinheiro, bom dia.
Bom dia.
Bom dia, Miguel. Quem é o teu bom de hoje?
É o Papa. Não é comum.
Pois não.
Não é comum, mas é importante, porque o Papa encontrou-se com vítimas de abusos sexuais na Igreja Católica. E isto aconteceu muito pouco tempo depois, uns dias depois, de a Comissão Pontifícia para a Proteção dos Menores ter deixado muitas críticas à Igreja portuguesa. A comissão recomendou aos bispos portugueses que criem um mecanismo de auditoria robusto, recomendou-lhes que integrem, através deste mecanismo de auditoria, vítimas e sobreviventes. A comissão defendeu que seja implementada uma cultura de transparência e responsabilidade baseada em dados, porque infelizmente alguns bispos portugueses têm andado há muito tempo a fazer de conta que os abusos na Igreja não são um problema sério. O relatório da Comissão do Vaticano foi um primeiro aviso. Este encontro do Papa foi um segundo aviso e é extraordinário que ainda haja bispos em Portugal que se comportam como se os relatos de abusos fossem uma fantasia, uma insignificância. Vamos ver se é preciso um terceiro aviso do Vaticano para o que se passa em Portugal. Sei lá, pessoas que ainda ficaram muito presas a umas práticas do passado. E tendem a ficar lá e a não sair de lá. Pois, mas já deviam ter saído, porque já estamos em 2026. Convém, se calhar, apanharem um comboio, qualquer coisa, pra virem ter com as pessoas que já estão aqui no século XXI.
O bom é o Papa, o teu mau é uma ministra.
É a ministra da Administração Interna, Maria Lucía Amaral, falou ontem sobre a recente onda de crimes violentos e disse o seguinte: há, de facto, algum aumento da criminalidade violenta, mas não é tanto quanto se ecoa na comunicação social, o que gera nas pessoas um sentimento de insegurança quanto à realidade, que nem sempre coincide com o que efetivamente acontece. Eu peço desculpa por este português arrevesado, mas eu estava a citar a ministra. Mas eu traduzo: a culpa é dos jornalistas. Claro. Mas havia dúvidas, Miguel? Claro, eu acho que a ministra, em vez de usar tantas palavras, podia ser mais sucinta. Pronto, a culpa é dos jornalistas. Portanto, na passada terça-feira, houve dois casos de violência graves na Amadora. Na madrugada de quarta-feira, na Cova da Moura, um homem foi baleado na barriga. No domingo, um jovem foi deixado à porta do Hospital Amadora-Sintra com ferimentos no abdômen. E na madrugada de segunda-feira, um homem deu entrada no mesmo hospital com ferimentos de bala no joelho. Tudo isto aconteceu em sucessão e na mesma área geográfica. Tudo isto, naturalmente, provoca insegurança nas pessoas e tudo isto, como é evidente, é culpa dos jornalistas que relatam o que se passa. Mas o que lhes passou pela cabeça para estarem a relatar crimes que acontecem? Paulo, o que te passou pela cabeça? Eu não compreendo. Mas então pra ministra, Portugal seria um país ultrasseguro. Só era preciso uma coisa, mas temos que tratar disso. Portugal seria um país ultrasseguro desde que os jornalistas, como o Paulo e outros, mantivessem a boca fechada. Boquinha fechada e as pessoas sentir-se-iam ultrasseguras, claro, com certeza. É isso. Não há notícias de crimes, não há crimes. Paulo, se uma árvore cair na floresta, mas não estiver lá ninguém pra ouvir o barulho, será que ela caiu mesmo? São os casos órfãos. No limite, Paulo, não houve assalto nenhum, como diria um ex-ministro saudoso.
Miguel, o teu vilão é a Carris.
Pois é, o relatório preliminar do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e Acidentes Ferroviários, que foi divulgado ontem, mostra que a Carris é uma empresa em roda livre. Reparem, o cabo instalado no elevador da Glória não correspondia à especificação da Carris pra aquele veículo, não estava certificado pra ser usado no transporte de pessoas e não era o indicado pra ser utilizado com os chamados destorcedores nas extremidades, que é o que existe no elevador da Glória. Apesar de tudo isso, os cabos foram comprados, os cabos foram recebidos pela empresa em 2022, sem que houvesse alguém que tivesse detectado o problema e em 2024 aconteceu a mesma coisa. Pior, depois de comprarem e de receberem um cabo errado, a colocação foi feita, vou citar o relatório, segundo um processo empírico, histórico na Carris e passado de geração em geração de trabalhadores responsáveis. Ou seja, não existe qualquer procedimento escrito registrado. O que isto quer dizer? Isto quer dizer que a colocação do cabo é feita por ouvir dizer. Um trabalhador que já está aqui há muito tempo disse-me que isto faz-se assim. Não há um manual pra se ir ler, pra se ir ver como é que se põe o cabo, como é que não se põe o cabo. É o ouvir dizer. Isto foi tão elogiado pela esquerda há alguns tempos, esta coisa de passar de geração pra geração os conhecimentos. Isso é que era bom. E o gabinete que emitiu o relatório, atenção, isto convém sublinhar, não sabe se a causa do acidente foi o tipo de cabo utilizado, até porque ele foi usado sem problemas durante anos. Portanto, não sabemos, isto é importante, se o problema foi do cabo, mas há uma coisa em relação à qual não há dúvida: a Carris está a funcionar à toa, porque compra cabos que não é suposto comprar, recebe cabos que não é suposto receber, instala cabos que não é suposto instalar, e nem estou a entrar nos problemas de manutenção, que também são referidos no relatório. Ontem foi afastado o diretor de manutenção da Carris, mas isso não é suficiente. A Carris precisa de levar uma grande vassourada de alto a baixo, e não é preciso ficar à espera do relatório final. Isto é um relatório preliminar. O relatório final tem o prazo de um ano a contar da data do acidente. O relatório final é que nos vai dizer qual é a causa exata do acidente, mas o que nós já sabemos agora é que na Carris ninguém vê nada, ninguém ouve nada, ninguém sabe nada, e isso tem que ter consequências já, não é daqui a um ano, é agora, e não é a demissão do diretor de manutenção da empresa. E também me parece que não é propriamente muito surpreendente chegarmos a essa conclusão agora no relatório. Paulo, não sei, eu fiquei um bocadinho surpreendido. Fiquei. O que aquelas pessoas estão ali a fazer? Então chega um cabo, ninguém vê o cabo? As pessoas que vão comprar o cabo não vão ver se aquele cabo está de acordo com o que a própria Carris diz que deve ser usado? Depois chega o cabo, ninguém verifica. Eu fiquei muito surpreendido. Isto é muito pior do que eu estava à espera, mas enfim, tu és uma pessoa mais pessimista do que eu. Mais surpreendido e mais sábio. É, deve ser isso. Eu fiquei com os cabelos em pé.
Isso o Paulo já é mais difícil.
Pois.
Vamos ao resumo. O bom desta terça-feira é o Papa.
Desculpa, Maria João.
Estás a pensar no cabelo do Paulo.
Não, mas vamos ver. Falta saber exatamente as causas do acidente, mas isto é um assunto sério, que a Carris tem de levar a sério, que a Câmara de Lisboa tem de levar a sério. As pessoas não podem fazer de conta que não estão a ver nada. Não pode ser. Ao cair da noite, demitir um diretor de departamento, isso não é suficiente. É preciso fazer qualquer coisa, e rápido. Já acabei.
Vamos então ao resumo. O bom desta terça-feira é o Papa, o mau é a ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, e o vilão de hoje é a Carris. Foram as escolhas do Miguel Pinheiro.