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Começa agora uma nova edição do Bom, o Mau e o Vilão. Olá, Miguel Pinheiro, bom dia. Bom dia. Miguel, o teu bom é Aguiar Branco? Sim, é José Pedro Aguiar Branco, porque como os nossos ouvintes já terão percebido, há uma guerra interna na Comissão Nacional de Eleições. Há queixas de descontrole financeiro, queixas de falta de transparência. A coisa está tão feia que o presidente do Parlamento determinou a realização de uma auditoria, tendo em conta que a CNE é um órgão externo tutelado pela Assembleia da República. E segundo parece, José Pedro Aguiar Branco até admite vir a propor a extinção da Comissão Nacional de Eleições. E eu acho que seria uma belíssima ideia, porque a CNE tem um longo historial de decisões incompreensíveis. Eu quero só lembrar duas, para as pessoas que nos estão a ouvir, duas decisões da CNE nas últimas eleições europeias. A primeira foi esta: quando foi votar, a cabeça de lista do PS, Marta Temido, disse o seguinte: "Quanto melhores os nossos resultados, melhor defendidos estarão os portugueses e os europeus." E a CNE achou que isto violava a lei. Certo. E ordenou, e este é que é o ponto delicado, aos órgãos de comunicação social que pura e simplesmente deixassem de dar estas declarações, como se os jornalistas estivessem sujeitos aos serviços de censura de uma ditadura. Portanto, aquilo aconteceu, Marta Temido disse aquilo em público e os jornalistas tinham que censurar aquilo, não podiam passar aquela informação. Nós aqui no noticiário não podíamos passar. No site, imagino que quisessem que apagássemos a notícia. Enfim, nem sei bem, porque obviamente nem vale a pena ligar a uma coisa destas. Mas é assim que a CNE vê o jornalismo numa democracia. E segunda decisão, esta ainda é mesmo de gargalhada. Portanto, naquele mesmo dia, era eleições europeias, portanto, estava-se a votar em toda a Europa e como nos países da UE se vota em dias diferentes e em horas diferentes e há regras diferentes, foram sendo conhecidos resultados. Em diferentes países, foram aparecendo resultados. E essa informação, além de estar em todos os jornais internacionais, esses resultados até iam sendo divulgados, imagine-se, no site oficial do Parlamento Europeu. Mas a CNE, como cá até às 20h não se pode dizer nada, decidiu que nenhum órgão de comunicação social português podia dar estas notícias. Nenhum. A informação estava em todo lado, mas nós cá em Portugal, censura. Isto também é extraordinário, obviamente. Enfim, nós pelo menos aqui não ligámos nenhuma. Eu espero que ninguém tenha ligado nenhuma nos outros jornais. E isto só mostra que na CNE a falta de bom senso é tanta que a coisa só se resolve mesmo com a extinção. Pode ser que seja desta e que se resuma uma futura organização, ou que se distribua as funções da CNE por outros organismos que tenham um bocadinho mais de bom senso e que se limitem a aplicar a lei, em vez de se armarem nem sei bem em quê. Não se sabe muito bem o quê. Eu já acendi uma velinha pra ver se esta ideia de Aguiar Branco segue em frente. Então vá, já vamos em duas. Duas velas. Era preciso mais, porque isto, de facto, trazer uma instituição do século XVIII para o século XXI não é fácil. Não, então vai, eu acendo duas. Miguel, quem é o teu mau? Olha, é Mário Mourão, o líder da UGT, deu uma entrevista ao Público onde explicou as razões da central sindical para chumbar o acordo sobre o pacote laboral. Enfim, diz uma série de coisas que seriam esperadas, culpa a ministra por tudo o que aconteceu de mal. Mas depois a dada altura, Mário Mourão vai mais longe e diz isto, vou citá-lo: "O governo está determinado a introduzir em Portugal um regime de escravatura para os trabalhadores." Eu vou repetir. Há pessoas que estão a arrumar a loiça, outras estão no trânsito, eu vou repetir: o governo está determinado a introduzir em Portugal um regime de escravatura para os trabalhadores. É claro que nós devemos dar um desconto aos exageros retóricos. Quem nunca usou um exagero retórico? Eu sou o último a poder falar, mas o uso desta expressão é muito revelador, porque obviamente alguém que acredita numa coisa destas nunca poderia chegar a um acordo. E esta frase também nos ajuda a perceber melhor a cabeça de Mário Mourão, porque se é assim que pensa o líder da UGT, não é o da CGTP, é o da UGT, então realmente não vamos lá. Isto foi a propósito do banco de horas. Portanto, Mário Mourão acha que o banco de horas negociado- Individual. Certo. Com o coletivo, tudo bem. Claro, coletivo, sim. Mas individual é uma forma de escravatura. Isso só mostra que é impossível, seria impossível desde o início, um acordo com a UGT a pensar desta maneira, não dá. Claro. E se a UGT acha que isto é escravatura, o que achará das outras propostas? Com certeza. Miguel, o teu vilão publicou um texto. Foi, um textinho. O PCP é o vilão, porque este fim de semana muita gente ficou chocada com a reação pública dos comunistas à morte de Carlos Brito. Carlos Brito foi militante do partido durante 48 longos anos. Na ditadura, viveu 10 anos na clandestinidade, foi torturado, esteve oito anos na prisão, aliás, de onde fugiu de forma audaciosa. Depois esteve exilado no estrangeiro. Em democracia, foi diretor do Avante, que é o jornal do partido, foi líder parlamentar durante 15 anos, chegou a ser candidato à Presidência da RepúblicaFez parte do comitê central do partido ao longo de décadas e mais importante do que tudo isso, foi uma espécie de braço direito de Álvaro Cunhal, tinha um gabinete mesmo ao lado do líder na sede do partido. E depois, entretanto, toda mundo sabe, Carlos Brito entrou em dissidência com o PCP. E agora, depois da morte de Carlos Brito, aos 93 anos, o PCP publicou uma curtíssima nota no site do partido com o título "A pedido de vários órgãos de comunicação social sobre o falecimento de Carlos Brito". Portanto, se não houvesse pedido nenhum de órgãos de comunicação social, o PCP nem dizia nada. E o texto tem apenas um parágrafo, eu vou lê-lo, isto é muito rápido: "Sem prejuízo das conhecidas diferenças e distanciamento político, registamos em Carlos Brito o seu percurso antifascista e a sua contribuição na Revolução de Abril, nomeadamente no plano parlamentar." E este texto, se é que lhe podemos chamar texto, por causa da dimensão, provocou estupefação pela sua frieza, até um pouquinho desumana. Mas eu não percebo qual é a surpresa, porque desde a sua fundação, o partido nunca perdoou a dissidência, sempre considerou a dissidência uma ameaça existencial. Durante a ditadura, o PCP via os dissidentes como traidores que poderiam expor a organização à polícia política. Um dissidente era alguém que sabia demais e que, portanto, se falasse com a PIDE, poderia levar à desarticulação do partido e, portanto, a dissidência era o pior que poderia acontecer. E em democracia, o PCP vê os dissidentes como infiéis, que também podem contribuir pra destruição do partido, especialmente aqueles que conhecem os segredos todos. Carlos Brito conhecia os segredos todos. E bem se vê como é que o PCP reage com outros dissidentes que conhecem os segredos todos e que começam a contar aquilo que sabem. Por isso eu acho que só os ingênuos é que se indignam com o que aconteceu, porque o PCP sempre foi assim. O PCP sempre foi assim. E quem acha que o PCP é um partido fofinho, está muito enganado. Pois, isto leva-nos também pra questão da intolerância democrática, não é? Sobretudo aí. É, mas enfim, é um partido especial. Sujinho. O PCP é um partido especial. E, portanto, estas coisas são mesmo assim.
Vamos ao resumo. O bom desta segunda-feira é José Pedro Aguiar Branco, o mau é Mário Mourão e o vilão de hoje é o PCP. Foram as escolhas do Miguel Pinheiro nas manhãs 360, que também pode ouvir em podcast.