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Este é o Som do Bom, o Mau e o Vilão da Rádio Observador, sempre com Miguel Pinheiro. Olá, Miguel, bom dia, boa semana.
Bom dia.
Bom dia, Miguel. Quem é o teu bom de hoje?
O bom é a Ordem dos Advogados. O bastonário fez uma proposta para acabar com espetáculos como aquele a que estamos a assistir, no caso do José Sócrates, que já teve dois advogados a renunciarem à defesa, está agora desesperadamente a procurar o seu terceiro advogado. Ele nem deve dormir com o tempo que isto está a demorar. E a ideia do bastonário da Ordem é ter um grupo fixo de advogados oficiosos destacados para cada megaprocesso que chega a tribunal e assim, se houver uma renúncia, eles estarão totalmente por dentro do caso e não precisarão de vários dias para se prepararem. Como é óbvio, esta ideia não é perfeita. Há poucas ideias perfeitas no mundo. Várias pessoas chamaram a atenção para as dificuldades em aplicar isto, mas pelo menos há alguém que se está a mexer. A Ordem dos Advogados podia ter feito de conta que não é nada com ela, mas não, chegou-se à frente. Os advogados, os juízes e o governo têm agora de arranjar uma forma de isto resultar e têm de continuar a arranjar formas de evitar as espertalhices judiciais a que temos assistido. Eu acho que era preciso mobilizar todo o sistema judicial para aprender com o que está a acontecer.
Claro, isso até a Ordem dos Advogados acha que há aqui um problema, num caso em que naturalmente a Ordem dos Advogados quer sempre ter mais recursos à disposição das defesas, não é?
Sim, e é um ótimo exemplo de não corporativismo. Porque, de facto, existe aqui, na base disto, o reconhecimento de que existem advogados que recorrem a manobras dilatórias. E uma das críticas a isto foi essa: "Então agora estamos aqui a partir do princípio que os advogados fazem estas coisas horríveis?" Pois estamos.
Parece que sim.
É, estamos a partir desse princípio, sim, senhora.
Miguel, o teu mau são os candidatos presidenciais.
Sim, António José Seguro e André Ventura, nenhum deles teve um bom fim de semana. No caso de Seguro, está a receber apoios que se calhar não queria. No sábado foi publicado o manifesto Não Socialistas por Seguro, que juntou 250 figuras de direita, do centro-direita. Esse manifesto tem dois problemas. O primeiro problema é que tem erros. Diz, por exemplo, que Ventura defendeu a hipótese do regresso à pena de morte. Ora, em 2020, o Chega referendou a pena de morte e o não ao regresso da pena de morte venceu no partido. E além disso, Ventura disse expressamente que era contra essa possibilidade. Admitiu o referendo, porque, diz ele, tem um partido democrático, mas ele era contra. Portanto, eu não sei muito bem. Não sei se me escapou aqui qualquer coisa. Estive à procura se haveria alguma coisa posterior de André Ventura. Não encontrei. Não sei muito bem onde é que isto vai. O outro problema do manifesto é que tem várias pessoas respeitáveis, sem dúvida. Claro que sim, mas também junta muita gente da direita dos negócios. Estão lá nomes que valha-me Deus. A sério, mas enfim, António José Seguro é assim, as pessoas recebem estes apoios. Já André Ventura, que também tem apoios pouco recomendáveis, claro, começou a perder a disciplina no fim de semana, precisamente por causa deste manifesto. Em vez de manter a narrativa de que esta eleição é entre a esquerda e a direita, Ventura começou a dizer que esta é uma luta entre quem quer acabar com o sistema e quem quer defender o sistema, ou citando-o, uma luta entre quem quer acabar com os tachos e os tachistas. E parece-me que Ventura tem de decidir: ou quer fazer uma campanha para os eleitores do Chega, e então se quer fazer uma campanha para os eleitores do Chega, pode passar o tempo a falar em tachos e em tachistas, ou então quer fazer uma campanha para o resto da direita, quer continuar a fazer aqueles dias que levaram à confusão de Cotrim de Figueiredo, em que ele parecia o outro. Tem que decidir. Agora as duas campanhas, é que não é possível de manhã falar na esquerda-direita e à tarde falar em tachos. Isto aqui provoca curto-circuito.
É uma enorme caldeirada, isso.
Sim, aliás, há uma música assim.
Não há tachos que aguentem uma coisa dessas.
Não! Ó Paulo, de tanto bater, aquilo vai ao ar.
O teu vilão está com um problema.
Eu diria que sim. Eles, pelos vistos, acham que não, mas o vilão é a Iniciativa Liberal. Este fim de semana, João Cotrim de Figueiredo lançou um movimento cívico-apartidário a que deu o nome Movimento 2031. Cotrim conseguiu juntar 900 mil votos na primeira volta das presidenciais. Não quer que eles desapareçam para os poder mobilizar novamente noutras eleições, nomeadamente as próximas presidenciais. E no fundo, o que o antigo presidente da IL está a dizer com este movimento é que a Iniciativa Liberal não é capaz de fazer isso, não é capaz de fidelizar esses votos e que, portanto, tem de haver outro veículo político para esse fim. Ou seja, é ele próprio a reconhecer que o partido não vai lá. Incrivelmente, alguns dirigentes da IL, incluindo a presidente Mariana Leitão, acham que isto é uma ótima notícia para o partido e pode até dar força à IL. Parece-me uma extraordinária falta de noção da realidade. Nós vermos a Iniciativa Liberal contente com a criação do movimento de João Cotrim de Figueiredo é mais ou menos o mesmo vermos um peru a dizer que gosta muito do Natal. "Olha, chegou a minha altura preferida do ano. Mal posso esperar pelo dia de amanhã."
Pois. Não é fácil perceber como é que uma coisa ajuda a outra, de facto.
Não, quer dizer, com certeza, a Iniciativa Liberal pode ser engolida pelo movimento, mas enfim, quem tem de zelar pelo partido seguramente não acha que este atestado de incompetência passado por um dos seus ex-presidentes é coisa boa. Acho eu.
Vamos ao resumo: o bom é a Ordem dos Advogados, o mau são António José Seguro e André Ventura, e o vilão de hoje é a Iniciativa Liberal. Foram estas as escolhas do Miguel Pinheiro nas manhãs 360 que também pode ouvir em podcast.