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Começa agora uma nova edição do Bom, Mau e o Vilão com Miguel Pinheiro. Fala Miguel, bom dia.

Bom dia.

Bom dia, Miguel. Quem é o bom desta segunda-feira?

O bom é o governo, que este fim de semana apresentou o seu programa. Convém não esquecermos que um programa de governo é apenas um pedaço de papel, ou seja, é preciso agora torná-lo uma realidade. Mas de qualquer forma, há ali duas medidas importantes para se tentar resolver dois problemas de que eu falo muito aqui, relativos aos transportes públicos, que, como se sabe, estão capturados pelos sindicatos. A primeira medida é a necessidade de acabar com os abusos do direito à greve. No programa do governo afirma-se que é importante equilibrar o direito à greve com necessidades sociais impreteríveis. Vamos ver agora que equilíbrio é este que o governo quer tentar alcançar. E a segunda medida é o aumento da concorrência. Na ferrovia, o governo compromete-se a lançar concursos para concessão de linhas ferroviárias específicas e aceleração da abertura à concorrência nas linhas que permitem a operação simultânea de vários operadores. É isto que lá está escrito. Isto é básico, existe em vários países da Europa. As linhas de caminho de ferro são do Estado, mas os comboios que as usam podem ser de privados e podem ser concorrentes. Pode haver mais do que uma empresa a usar a mesma linha de caminho de ferro, os mesmos carris. Isso não é extraordinário? Excelente, não é?

Incrível.

Pois, mas é possível. Nas estradas, o governo quer fomentar a oferta de transporte público rodoviário, limitando as restrições de operabilidade nas áreas geográficas cobertas por concessões e todas as barreiras relacionadas com a utilização de terminais, paragens ou outras. O que acontece aqui? Já há concessão a privados, mas os privados comportam-se como o Estado. E então não deixam que mais nenhum privado utilize, por exemplo, um terminal rodoviário. Dizem que aquilo está cheio, não cabe mais ninguém, não podem entrar. E então o governo quer agora forçar maior concorrência. Por que eu me preocupo tanto com isto? Não é porque sou tolinho. Maria João.

É isto que eu disse. Não é.

Não é. É porque os transportes públicos são usados por quem não tem dinheiro para ter carro. Quem mais precisa que eles funcionem mesmo são as pessoas que não têm o privilégio de poder ter carro. E o governo, em primeiro lugar, deve se preocupar com essas pessoas, e não com os sindicatos que usam as empresas de transportes públicos ou com os privados que usam as concessões para se imporem a estas pessoas que precisam mais de ajuda. Com estes modernistas de ter transportes públicos a pensar nas pessoas, não sei onde é que vamos parar, mas tudo bem. São toleiras.

Completamente. Pensar nos utentes, nas necessidades das pessoas. Miguel, o teu mau meteu-se onde não era chamado.

Pois, eu fiquei a olhar para a Guilha e nem estava a perceber bem. Por que então? Quem é que se meteu onde não era chamado? O PS do Porto. Há dias houve um desentendimento físico, chamemos-lhe assim, entre o candidato independente à Câmara do Porto, Filipe Araújo, e o diretor de comunicação da candidatura de Pedro Duarte, Vasco Ribeiro. Não se sabe quem começou, nem quem fez o que exatamente. Eu não estava lá, portanto, não sei. Sei que Filipe Araújo jura que levou um murro e Vasco Ribeiro garante que houve agressões mútuas. Mas o mais importante politicamente não é isso. O mais importante politicamente, não é de um caso de polícia, politicamente, é que este assunto era um problema para a candidatura independente, quando muito, e para a candidatura do PSD. Quem estavam envolvidos eram pessoas destes dois sítios. Mas, em vez disso, a coisa rapidamente se transformou num problema para quem? Para o PS do Porto, que nem sequer está. Isto foi num festival de música, no Primavera Sound. O PS do Porto nem sequer estava lá, nem sequer estava a ver a música nem nada e foi-se metendo no assunto. Acho eu que não estava, se calhar estava. O candidato Manuel Pizarro divulgou um comunicado onde escreve isto: "Condeno em absoluto a agressão ao candidato Filipe Araújo por parte de um destacado dirigente da candidatura do PSD." E foi imediatamente criticado por quem? Pelo também socialista Francisco Assis. E por quê? Isto é tudo uma novela. Por que Francisco Assis o criticou? Porque Vasco Ribeiro foi assessor de Assis e Assis acusa Manuel Pizarro de estar a tentar assassinar o caráter de Vasco Ribeiro por não ter tido o apoio dele. E depois disto, Pizarro ainda veio afirmar que Assis está a branquear o comportamento de um colaborador, porque Vasco Ribeiro foi colaborador de Francisco Assis. Bem, então, conclusão de tudo isto. O PS não perde uma oportunidade de cavar o seu próprio buraco. E não perca os próximos episódios. Sim! Estão bonitos. Isto agora ainda vai entrar a génia má, a génia boa. E vem aí o São João.

E os martelinhos.

Os martelinhos.

Os alhos porros.

Não me falem nada.

O teu vilão é Marcos Mendes.

É, porque em Portugal o Presidente da República tem poucos poderes, mas uma das áreas em que tem algum poder é na política externa e por isso é bom sabermos o que pensam os candidatos antes de decidirmos em quem votar. Este fim de semana Marques Mendes explicou-nos o que pensa sobre o que se está a passar ali para os lados do Médio Oriente. E o que pensa é isto, eu vou citar. Isto sobre a intervenção de Israel contra o Irão. Disse isto: "Acho que é, de facto, uma intervenção completamente gratuita, profundamente desnecessária e, acima de tudo, muito perigosa." Ora, que é muito perigosa, não há dúvida. Aliás, é tão perigosa que todos os Estados ali à volta, e não só, se acobardam e não resta a Israel outra saída que não seja avançar sozinha. Agora, completamente gratuita e profundamente desnecessária, diz Marques Mendes. O Irão está a poucos meses, não se sabe bem, porque eles escondem as coisas, mas está a poucos meses, a um ano, enfim, não se sabe, de conseguir uma arma nuclear. E não há nenhuma negociação internacional que esteja a conseguir impedir isso. A cada dia que passa é um dia em que o Irão está ou estava mais próximo de conseguir armas nucleares. Se o Irão conseguir armas nucleares, acontecem duas coisas. Primeiro, vários outros Estados ali na zona vão querer o mesmo para se defenderem do poder que isso daria a Teerão. E, em segundo lugar, as lideranças teocráticas iranianas passariam a ter os meios para cumprir a sua promessa de acabar com o Estado de Israel. Sim, porque o Irão diz que quer acabar com o Estado de Israel. Só aqui para não nos esquecermos desse pequeno ponto. E, portanto, ou Israel se defende agora, enquanto não há armas nucleares, ou quando houver armas nucleares, ninguém vai defender Israel, porque todos terão medo de um Irão nuclear. Mas Marques Mendes, que disse tudo isto numa visita de campanha, na tranquilidade de Algueirão-Mem Martins, acha que não havia necessidade, como diria o diácono remédios. E realmente, não havia necessidade. Para que estas coisas? Estou eu aqui tão bem em Algueirão-Mem Martins e eles lá naqueles sítios esquisitos metem-se nisto. Mas realmente falar à distância é fácil. Falar de Algueirão-Mem Martins ou nós de Alvalade ou de outros sítios em Portugal é muito fácil. Estar lá é que é difícil.

Sem dúvida, e tentar largar a base de apoio também é uma urgência para muitos candidatos.

Pois é, Marques Mendes começa a achar que tem que ir buscar votos também à esquerda. Atenção, cenário mau: Marques Mendes está a dizer isto para tentar ir buscar votos à esquerda. Cenário pior: Marques Mendes acredita mesmo nisto. Isso é que é o pior cenário de todos. Se ele de facto acha isto, então é o pior.

Mas ao resumo, o bom é o Governo, o mau é o PS do Porto e o vilão de hoje é Luís Marques Mendes.