Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
"Olha a figura que estás a fazer, não sejas ridícula. Toda a gente vê que tu és um falhanço. Olha pra isso, estás a falhar a toda a gente". Ela reconhece que nunca trataria ninguém da maneira como se trata ela própria. Esta voz autocrítica não respeita nenhum dos valores e princípios que a pessoa usa na sua vida e acha que está certo. E no caso da Isabel, é muito extremo mesmo. Chamo-me Ana Muniz, sou psicóloga e sou psicoterapeuta e exerço há 24 anos. A Isabel tem 45 anos e entrou em contato comigo para marcar uma sessão de psicoterapia depois de ter tido contato com o meu trabalho num webinar que eu tinha feito sobre liderança para mulheres. A Isabel é uma gestora numa empresa de IT, muito competente naquilo que faz, com uma carreira de muito sucesso, muita responsabilidade, muitas viagens, por isso uma carreira muitíssimo exigente. Tem uma filha de seis anos e é casada. Aquilo que ela dizia é que percebe que às vezes começa a ficar muito perto do limite. E quando eu lhe perguntava como é que chega ao limite, ela explicava que tinha a ver, sobretudo, com o trabalho, com a incapacidade de dizer que não e mais do que a incapacidade de dizer que não, a disponibilidade sempre para tudo. Isabel tem aquilo que são os traços de personalidade perfeccionistas, muito rígidos. Os traços perfeccionistas podem levar facilmente a sintomas depressivos ou sintomas ansiosos. Há muitas vezes uma ansiedade permanente com o que pode estar a falhar e um não descansar e um não conseguir desligar. E a certa altura é um pouco, às vezes, a exaustão da luta, que aí as pessoas entram em fases depressivas. E ela conhecia bem essas fases depressivas, em que não consegue dormir, não consegue concentrar-se, choro fácil, não tem vontade de se levantar da cama, não tem vontade de se arranjar. Ainda por cima ela era muito exigente em tudo isto, que é muito típico também, que é por muito que esteja cansada, é preciso maquilhar-se, arranjar-se, ir ao cabeleireiro. Tudo tem que estar perfeito. Temos aquilo que se chama a tempestade perfeita, que é termos uma exigência muito forte de fora, que se junta a uma exigência muito forte de dentro e as pessoas podem chegar ao limite. É isso que acontece muitas vezes, porque as pessoas mais perfeccionistas, quando a exigência de fora aumenta, em vez de se apoiarem e protegerem, pressionam-se ainda mais. E a certa altura não há um espaço seguro, é só pressão. Houve uma sessão em que a Isabel me trazia a ideia de que teria que viajar no dia seguinte para os Estados Unidos e não aguentava mais. E por isso ela própria dizia que as ideias de morte estavam muito fortes. E estavam muito fortes porque ela não aguentava mais. E a pergunta é: "Então, o que pode fazer para não ir amanhã para os Estados Unidos?" E ela dizia que nada, não pode dizer nada porque está tudo marcado, estão a contar com ela e ela não pode fazer isto à empresa. E esse foi o momento em que eu lhe devolvi: "O que me está a dizer é que aceita mais facilmente acabar com a sua vida do que dizer que não a uma viagem, dizer que não ao seu chefe acerca de uma viagem de trabalho". E isto foi impactante pra ela, porque parou e acho que nem disse nada, só ficou no absurdo da situação e ao mesmo tempo no quanto ela não estava a conseguir dizer que não. E este é o extremo que me faz falar deste caso, que é o quanto a falta de liberdade e o quanto as pessoas podem chegar a um ponto de ruptura, no sentido em que não estão a aguentar a vida que têm. Não estão a aguentar todas as exigências, a exaustão, a sensação de falhanço, a pressão, o medo de falhar, que acompanha muito o funcionamento perfeccionista, e não sente que tem o direito de viver de outra maneira. Acho que dos aspectos mais difíceis do trabalho é ter ao mesmo tempo à minha frente uma pessoa só, mas que ao mesmo tempo é a agressora e a vítima de si própria. Na Isabel impressionou-me muito a intensidade da crueldade consigo própria, que contrastava tanto com a ternura e a maneira muito afetuosa como ela olha para as outras pessoas, como ela olha para o mundo. As barreiras à eficácia do processo terapêutico, neste caso, era os momentos em que eu não consigo chegar à Isabel mais sensata. E tenho sempre a Isabel autocrítica à frente. E ela domina tanto a Isabel que é difícil passar para o outro lado. Para as pessoas à volta dela, ela é uma pessoa muito empática, que está sempre disponível pra ajudar, que ouve sobre as fragilidades, aconselha, etc. Mas ela própria nunca se expõe. E como nunca se expôs ao longo do tempo, foi criando também esta ideia de que "se eu me expuser, as pessoas vão rejeitar-me". E por isso eu tenho a noção que, com ela, eu estava ali numa posição mais perto do que ela permite que outras pessoas estejam. E é um privilégio, nesse sentido. E acho que esses aspectos também fazem com que a relação terapêutica se fortaleça, que é eu vejo aquilo que outras pessoas não veem e eu não a rejeito, eu não a julgo. A Isabel esteve cerca de dois anos em terapia, mas ia e vinha. E eu aceito muito facilmente que aconteça. Tem a ver também com o processo terapêutico. Aliás, a Isabel é aquilo que nós chamamos um dropout, que desmarcou uma sessão e depois não voltou a marcar. As conquistas que ela teve neste processo comigo foi que ela conseguiu mudar de trabalho, que foi importante. Conseguiu mudar, que era uma coisa que ela tinha muito medo. Ela estava há muitos anos neste trabalho. Foi muito importante, acho que foi uma conquista boa. Acho que houve mais conquistas em relação a haver algumas brechas e conseguir olhar pra si própria com mais compaixão, em algumas alturas. Ela ter permitido que uma amiga se aproximasse mais também teve algum impacto. E eu gosto de imaginar que a Isabel continua a saber que a terapia comigo e eu existimos e, por isso, se ela precisar, é um recurso. Também dá alguma segurança saber que se for preciso, pode recorrer.
O Mental é uma parceria do Observador com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine. Conta ainda com o apoio científico do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos.