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Este é o Domínio da Guerra da Rádio Observador, sempre com o Major-General Arno Moreira. Bom dia!

Bom dia a todos.

Bem-vindo.

Bom dia.

Também nos pode acompanhar com imagem através das nossas redes sociais ou pelo YouTube. Na passada sexta-feira, Donald Trump surpreendeu a tudo e todos quando anunciou que tinha acabado de celebrar um acordo com Vladimir Putin e que graças a isso, o preço do diesel iria descer muito rapidamente. Esta história, na altura pouco detalhada, acabou por ter desenvolvimentos muito mais significativos com ataques pessoais a Zelensky, com o levantamento de sanções a Moscovo e com a ameaça de não vender armas à Ucrânia. General, que reviravolta é esta na política externa norte-americana, que já mereceu muitos reparos por parte dos europeus.

É verdade. Esta foi uma semana extraordinária do ponto de vista de todos estes acontecimentos. Esta, na verdade, foi a semana em que o presidente dos Estados Unidos resolveu contrariar as leis que ele próprio aprovou, promover uma alteração de regime em Kiev, contrariar os líderes europeus na política de sanções a Moscovo e oferecer a Vladimir Putin uma prenda pelo seu aniversário. Fez 74 anos no dia 7 de outubro. Nós daqui não enviamos parabéns. E tudo em troca de quê? Em troca de 300 mil toneladas de diesel russo, que é uma gota no oceano do diesel que é vendido, transacionado a nível mundial. A entregar agora já em outubro, para procurar influenciar as eleições intercalares. Isto é tudo demasiado sério. Vamos por partes, vamos ao filme dos acontecimentos. Na sexta-feira da semana passada, estava reunido, nos Estados Unidos da América, uma delegação da Ucrânia com Kushner e Whitcomb, para procurarem os termos de um possível cessar-fogo de natureza energética entre a Federação Russa e a Ucrânia. De repente, a delegação ucraniana foi surpreendida com a notícia, que lhe terá sido transmitida pelos mediadores, de que Donald Trump estava a preparar-se para terminar com as sanções a Moscovo, e que estaria disponível para fazer um negócio com Moscovo. Nós no final do dia ficamos a saber que tinha havido um telefonema entre Vladimir Putin e Donald Trump e que desse telefonema tinha resultado um acordo. Nessa sexta-feira ficamos a saber que esse acordo correspondia a três fases: numa primeira fase, uma entrega imediata das 300 mil toneladas de diesel, numa segunda fase, durante novembro, mais 500 mil toneladas e depois, eventualmente, mais 1 milhão de toneladas. Isto apanhou a todos de surpresa, deixou, naturalmente, a Ucrânia e os países europeus em alvoroço, porque era completamente inesperado. Lembramo-nos que o Congresso tinha aprovado, algumas semanas antes, uma lei que, pelo contrário, implementava sanções duríssimas relativamente à venda de produtos energéticos de Moscovo, inclusivamente sobre terceiras partes. E portanto, era um pacote duríssimo que tinha sido aprovado pelo próprio presidente Donald Trump. No sábado, perante estas reações da Ucrânia e da Europa, Donald Trump veio dizer que sugeria que talvez estivéssemos na altura de arranjar um novo líder na Ucrânia, porque o atual líder não era capaz de fazer acordos. Esta guerra nunca devia ter iniciado, é sempre o mantra de Donald Trump, e é tempo para a Ucrânia encontrar um novo presidente. Moscovo não teria dito de forma mais clara aquilo que Trump disse no sábado. O Zelensky reagiu um pouquinho talvez a quente e chamou a fraca esta decisão . Chamou fraca esta decisão. E disse que esta decisão não era mais do que uma prenda para Putin, cá temos o aniversário do dia 7 de outubro, 74 anos. No domingo, Donald Trump voltou à carga. E diz mais uma coisa extraordinária: que tinha entrado em vigor imediatamente um cessar-fogo energético entre as duas partes. Veio-se a saber, ainda no domingo, que afinal ele não tinha falado com nenhuma das partes sobre a entrada em cessar-fogo. Nós já aqui falámos, Donald Trump gosta de anunciar uma realidade e depois espera que através do seu poder de influência, as partes vão aderir a essa realidade. Portanto, a realidade antecede as negociações. Ele primeiro diz qual é a realidade que quer e depois espera que as partes vão atrás disto. A Ucrânia, perante este anúncio, ficou atónita, mas durante três dias respeitou a trégua. Não atacou as refinarias, à espera que houvesse uma reação por parte de Donald Trump e da Federação Russa. A Federação Russa continuou a bombardear as instalações energéticas. Ao fim de três dias, Zelensky diz: "Já chega, para nós não há trégua nenhuma energética", e recomeçou a bombardear as refinarias russas. Entretanto, ainda no domingo Surgem notícias de que os Estados Unidos estão disponíveis para bloquear a venda de armas à Ucrânia e que estão a fazer uma pressão sobre os líderes europeus para que cesse a entrega de armamento à Ucrânia. Ora, o que nós temos aqui? Temos que, de repente, Washington rendeu-se a Moscovo.

Trump é um fantoche de Vladimir Putin.

Rendeu-se por razões de natureza conjuntural. Como eu digo sempre, Trump não é estrutural, é conjuntural, é o momento.

E fala para os mercados.

Exatamente, fala para os mercados, o que significa que não venha a rever a sua posição, se isso lhe der jeito e com enorme desfaçatez, daqui a pouco tempo. Claro que o ambiente era de festa em Moscovo, mas quem vê a imprensa de Moscovo, a forma como Donald Trump é gozado pela imprensa em Moscovo é tremenda. Quer dizer, depois de um favor imenso que está a fazer a Moscovo, ainda assim, Moscovo trata com desdém o presidente Donald Trump. Eu estive a listar aqui as vitórias de Vladimir Putin num único telefonema. Este terá sido talvez o telefonema mais importante de toda esta guerra. Eu listei aqui seis vitórias de Putin num único telefonema. Primeiro, colocou Trump contra o Congresso norte-americano que tinha votado a favor das sanções à Rússia. Segundo, colocou Trump contra a Europa, porque a Europa era pelo reforço das sanções e a Europa já manifestou a sua surpresa perante isto. Terceiro, colocou Trump a afirmar que Zelensky é um obstáculo à paz, é o verdadeiro inimigo da paz. Quarto, ganhou vários dias de descanso para as suas refinarias, porque entre confirmar e não confirmar aquilo, a Ucrânia deu uma pausa de vários dias às refinarias. Depois, ganhou fôlego económico e não é evidente que seja apenas temporário. Foram suspeitas durante seis meses as sanções da venda do diesel russo, mas não sabemos se isto não é para continuar. Portanto, ganhou para já muitos milhões de dólares com este negócio. Depois, humilhou Trump e a América. Na verdade, o maior exportador mundial de diesel são os Estados Unidos, têm 15% da cota mundial. A Rússia tem menos de 10%. E, portanto, é a Rússia que impõe as coisas, a condução do preço e não o maior exportador, que deveria ser o regulador dos preços, que são os Estados Unidos. E depois, a humilhação vai ao nível de Peskov, que é apenas um porta-voz do Kremlin, dizer o seguinte sobre o cessar-fogo energético: "Isto são apenas palavras de Trump". Isto são apenas palavras de Trump. E Trump não foi nada específico e por isso a Rússia não adere ao cessar-fogo energético. E ainda acrescentou: "Trump propôs uma trégua energética, mas não foi claramente definida, o que significa que ninguém pode dizer que a Rússia está a contrariar as palavras de Trump". Dito por Peskov! Isto é uma humilhação tremenda a que se sujeita Donald Trump por uma coisa que não vai acontecer. Isto provavelmente não vai alterar o resultado das eleições intercalares.

Entretanto, a meio desta semana, fontes próximas do sistema militar ucraniano deram conta da dificuldade de controlar os seus drones intermédios no ataque a posições russas, nos territórios ocupados da Ucrânia. Isto coincidiu com dificuldades no aviso às populações da chegada iminente de mísseis balísticos russos. São muitas coincidências, general, que explicações é que encontra para isso?

São muitas coincidências e a Ucrânia já deu a entender que não acredita nas coincidências. Não acredita nestas coincidências. Aliás, durante o fim de semana tinham circulado notícias de que os Estados Unidos teriam avisado as capitais europeias que a sua disponibilidade para fornecer intelligence e para fornecer armamento à Ucrânia estava a ser reavaliada. Bom, e então o que tivemos no início desta semana? No início desta semana, a Federação Russa enviou sobre a capital ucraniana vários mísseis balísticos. Quando as sirenes de aviso tocaram, portanto, dando alerta à população, já os mísseis balísticos tinham caído. Isto é, não houve tempo para avisar a população ucraniana. Como é que isto funciona? Cada vez que um míssil balístico é disparado, o sistema de satélites de intelligence norte-americano verifica que existe ali um ponto de ignição, que é o lançamento, e avisa a Ucrânia de duas coisas. Avisa que há mísseis balísticos que estão a ser lançados, primeiro, e segundo, avalia a trajetória e diz qual é a probabilidade de ser atingido Kyiv ou Kharkiv ou um outro local qualquer. Portanto, isto vai fazer com que os ucranianos tenham tempo de avisar a população. O sistema de alarme não toca em toda a Ucrânia, toca de acordo com esta informação, em Kharkiv, em Kyiv, onde tiver que ser necessário. Só que desta vez, a informação chegou tão tarde do disparo dos mísseis balísticos, que os mísseis balísticos chegaram primeiro que as sirenes. E, portanto, isto causou mortes que podiam ter sido evitadas. Portanto, primeira questão, houve uma ocultação de intelligence às forças ucranianas e o aviso foi dado tarde demais. Primeiro aspecto Segundo aspecto: na quarta-feira houve a notícia de que, na frente de combate, os operadores de drones ucranianos estavam a perder o controle, durante vários segundos, daquilo que era a trajetória dos drones que estavam a lançar sobre as forças russas, e isto tornava impossível a operação. Houve várias operações de natureza militar que tiveram que ser canceladas. Isto por quê? Porque é preciso perceber o seguinte: o Starlink utiliza uma rede de satélites e continua operacional, mas sobre a mesma rede de satélites, existe um outro pacote de natureza militar que permite acompanhar os drones que têm velocidades superiores a 160 km/h. Portanto, até 160 km/h o Starlink normal funciona. A partir dos 160 km/h, só a versão militar do Starlink, que se chama Starshield, é que funciona. O Starshield terá sido desligado. Isto é, os ucranianos tinham Starlink, mas não tinham o Starshield necessário para controlar os drones que iam a mais de 160 km/h. Elon Musk, confrontado com isso, diz: "Não, o Starshield não tem nada a ver com o Starlink, que utiliza os mesmos satélites, mas este pacote é gerido pela Casa Branca e pelo Pentágono. Portanto, se houve alguma coisa, houve uma ordem da Casa Branca, que não foi minha, houve uma ordem qualquer da Casa Branca para reduzir a velocidade ou evitar que estes drones fossem utilizados". Na mesma semana, houve dois acontecimentos, que somados àquilo que tinha sido a posição de Donald Trump durante o fim de semana, confirmam aquilo que é o título do nosso programa. Washington está rendido a Moscovo.

Como falávamos há pouco, Vladimir Putin prometeu ao presidente Donald Trump 300 mil toneladas de diesel em outubro, como o general dizia há pouco, 500 mil toneladas em novembro e 1 milhão de toneladas depois. Eu estou confusa. Então a Rússia não tem escassez de produtos refinados.

Isto começou exatamente pelo fato de a Federação Russa ter, em julho, no verão, resolvido acabar com as exportações de diesel, porque tinha falta de diesel no seu mercado. E agora, passados estes meses, já consegue exportar estas toneladas. Tem aqui uma cortina que é preciso desvendar. Eu começo por recordar aquilo que foram as palavras de Trump no ano passado, quando se zangou com o Canadá. Quando se zangou com o Canadá, disse o seguinte: "Não precisamos dos seus combustíveis, não precisamos da sua energia, não precisamos do seu petróleo e gás, não precisamos de nada que eles tenham". Esta foi a maneira Trump, a maneira simpática de se dirigir ao Canadá. Na sexta-feira, depois do tal anúncio das 300 mil toneladas e 500 mil e 1 milhão, Donald Trump, à saída da Casa Branca, disse o seguinte aos jornalistas, e este comentário é importante para percebermos tudo isto. Disse o seguinte: "Para ser honesto com todos vocês, eu quero agradecer ao presidente Putin. Temos a chegar quantidades massivas de combustíveis e é diesel, que é o que nós queremos. Por isso, muito obrigado". Só faltou colocar-se de joelhos. É porque quem tem que agradecer tudo isto é Moscovo. Moscovo é que tem que agradecer todos estes favores. Até parece que a Rússia ofereceu o diesel. Não ofereceu, vai vendê-lo aos Estados Unidos e deixa de ter sanções durante seis meses para vender o diesel no mercado global. Dizer que esta gota de diesel vai fazer baixar o preço do diesel nos Estados Unidos até às eleições é muito improvável. As 300 mil toneladas, mais as 500 mil toneladas, mais o tal milhão, se forem entregues até final de dezembro, representa apenas quatro dias de consumo de diesel pelos Estados Unidos. Portanto, a capacidade disto influenciar os preços não parece ser uma possibilidade que tenha uma grande credibilidade. Um dos especialistas que foi ouvido sobre isto, um especialista em mercado de combustíveis, diz que este potencial impacto poderá ter, no máximo, uma descida de €0,05. E acrescentou: "É demasiado pouco e demasiado tarde para ter reflexos eleitorais". E Matt Randolph, um outro especialista, ainda é mais cauteloso e diz: "Não vai haver impacto nenhum, porque transportar diesel de um lugar para o outro não faz baixar o preço. O que faz baixar o preço é ou produzir mais ou reduzir o consumo". São as duas coisas que alteram o preço. Andar a transportar diesel de um lado para o outro não aumenta a quantidade de diesel disponível no mercado. Portanto, isto não tem influência sobre os preços. Putin prometeu uma quimera, prometeu votos eleitorais a Trump. Foi isso que Putin prometeu, mas através de oferecer uma coisa que não tem, que é diesel. Isto é, só terá diesel se forem cumpridos um conjunto de condições que Putin não está em condições de garantir. Isto é, que cessam os ataques Da Ucrânia às refinarias e que ela pode entrar em full production como era antes. Ela tem uma redução neste momento de 30%. Este círculo todo é fantástico e do meu ponto de vista, ainda não chegamos à explicação. E a explicação é essa cortina de fumo que eu trago agora. A guerra está a demorar muito tempo para aquilo que são os interesses econômicos de um círculo muito próximo de Donald Trump. Esse círculo está danado para fazer negócios com a Federação Russa e já não pode esperar mais. Este negócio que agora se anuncia do diesel é apenas o primeiro de um conjunto muito grande de negócios que vamos ver a seguir. O que estava a condicionar até agora era a esperança de que houvesse uma paz e que, portanto, com base na paz entre a Federação Russa e a Ucrânia, fosse moralmente aceitável fazer negócios com a Rússia. Mas como a paz tarda muito e já não há esperança que ela possa ser alcançada, começaram, entretanto, os negócios. E agora fala-se no interesse de empresas norte-americanas em adquirir o Nord Stream. Para quê? Para serem os americanos a fornecer gás à Europa. É claro que o gás é russo, mas já são os americanos agora a fornecer gás à Europa. Isto é, os negócios não podem esperar pela paz na Ucrânia. Este é o meu entendimento e explica toda esta cortina de fumo que nos foi lançada este fim de semana.

Precisávamos de mais tempo para esta cortina de fumo, não é, General? Um dos grandes receios do Donald Trump relativamente à composição do Congresso, depois das eleições intercalares de novembro, é que se reúnam condições para o seu impeachment. Estamos frequentemente a falar de impeachment. Afinal, o que significa este processo, General?

Todos os dias falamos em impeachment, mas, na verdade, normalmente não sabemos o que é isso. Em português, podíamos traduzir a palavra impeachment como um processo de formalização de uma acusação. Impeachment é realmente mais fácil do que processo de formalização de uma acusação. E que pode evoluir até à destituição do próprio presidente. Este é um processo de natureza jurídica e política que é conduzida pelo Congresso dos Estados Unidos. Quem pode ser alvo de impeachment? As autoridades oficiais de alto nível, como o presidente, o vice-presidente, juízes federais, funcionários civis, antigos funcionários, etc. Portanto, só pessoas com altos cargos na administração do Estado podem ser alvo desta investigação por parte do Congresso. Quem não pode? Os congressistas não podem, os militares não podem, os cidadãos comuns não podem, os funcionários de nível mais baixo também não podem ser. Que motivos podem ser invocados? Eles estão na Constituição dos Estados Unidos. Traição, suborno ou outros crimes importantes e contravenções graves. É por isto que pode ser feito este processo de acusação. Ele é conduzido em duas fases. A primeira fase é da responsabilidade da Câmara dos Representantes e corresponde genericamente à formulação da acusação. Há um processo de investigação que conduz a uma acusação, que depois é votada. Isto é, basta a maioria na Câmara dos Representantes para que um presidente seja impeached, isto é, seja formalmente acusado. Mas a Câmara dos Representantes não faz o julgamento, é o Senado que o faz. E o Senado precisa de dois terços para fazer a destituição do presidente. O que normalmente é muito difícil de conseguir. Portanto, a acusação, Câmara dos Representantes, o julgamento e a decisão é do Senado. Ora, até agora nunca nenhum presidente dos Estados Unidos foi destituído, mas impeachments já houve vários. Já houve três presidentes dos Estados Unidos sujeitos a isto. Destituído não, porque o Senado nunca obteve dois terços dos votos para destituir o presidente das suas funções.

General Arnaut Moreira, é sempre um gosto contar consigo.

Foi um prazer.

Obrigada, boa semana.

Bom fim de semana a todos. Muito obrigado.