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Este é o Domínio da Guerra da Rádio Observador, sempre com o Major-General Arno Moreira. Bom dia.
Olá, bom dia a todos.
Bem-vindo. Recordo que também nos pode acompanhar com imagem através das nossas redes sociais. E começamos por falar de Portugal, que foi eleito membro não permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas. General, temos razões para estar satisfeitos, não temos?
Parabéns a Portugal.
Parabéns. Parabéns a nós.
Parabéns à diplomacia portuguesa e parabéns aos diplomatas que conduziram a campanha que permitiu este sucesso. Eu julgo que nós, portugueses, não estávamos à espera de outra coisa. Isto é, já considerávamos como nosso aquele lugar, mas, na verdade, os concorrentes eram concorrentes de peso. Havia dois lugares e havia três candidaturas na Europa: a portuguesa, a alemã e a austríaca. A austríaca beneficiava daquele seu estatuto de neutralidade anunciado e muito propagandeado pela Áustria. A Alemanha era um peso pesadíssimo e nós passamos à vontade esta nomeação. Isto deve encher-nos de orgulho. Não é um facto menor na política internacional nós termos deixado a Alemanha para trás, concorrendo directamente com ela. Não é um facto menor. Isto significa que nós continuamos a ser olhados no mundo com muito respeito por aquilo que considero as nossas posições equilibradas no sistema internacional. E essas posições muito equilibradas e a capacidade de ouvir, ouvir foi uma palavra que foi bastante escutada durante este período, a nossa capacidade de ouvir o Sul, de ouvir um conjunto de países que não têm o poder das grandes nações, dos grandes países, julgo que contribui também para muitos votos que são dados a Portugal, que reconhecem em Portugal uma capacidade de articulação de posições, de estabelecer pontes, de estabelecer diálogos, que é uma coisa que vai faltando nas Nações Unidas, que, como eu já aqui uma vez disse num programa anterior, faz parte daquela teorização dos dois cadáveres. Sobre a utilidade desta eleição, uma coisa é o reconhecimento, outra coisa é a utilidade. A utilidade ainda estamos para ver, porque o cadáver das Nações Unidas tem muita dificuldade em se rearticular. Mas enfim, esse processo vai ter que ser feito mais tarde ou mais cedo, o processo de rearticulação. Se for feito durante o mandato em que Portugal ainda está presente, certamente Portugal terá bons contributos para dar nesse sentido. Estamos de parabéns, isso é evidente.
É verdade. Durante a semana passada reinou um certo otimismo sobre um possível acordo entre o Irão e os Estados Unidos. Entretanto, durante o fim de semana, o Irão terá exigido o fim da ofensiva israelita no Líbano como condição para regressar à mesa das negociações. E depois disso, seguiu-se um telefonema aparentemente tenso entre Donald Trump e Benjamin Netanyahu. Em que ponto estamos depois de tudo isto que aconteceu, General?
Recordemos que nós, na semana passada, havia um certo tom de otimismo nas declarações. Não é que estivéssemos por horas, mas podíamos estar por dia ou dois dias. Falava-se em dias, estávamos muito perto. As versões que corriam é que do ponto de vista dos mediadores, tinham ido tão longe quanto possível, que o texto poderia estar pronto para ser apresentado para uma validação de natureza política. E era isso que nós estávamos à espera, era que durante o fim de semana pudesse ocorrer a tal validação de natureza política que desse condições para o acordo avançar.
Quem avançou foi Israel.
Avançou Israel no Líbano. E o Irão aproveitou a deixa, que o Irão não tem vontade nenhuma em fazer acordo nenhum.
E tudo é motivo para não fazer.
E entretanto avançou com esta ideia que enquanto perdurar a ofensiva israelita no Líbano, não há acordo para ninguém. E isto conduziu ao tal telefonema de Trump. Este telefonema merece aqui um bocadinho da nossa atenção. Primeiro lugar pela substância e depois pela forma. Vamos começar pela substância. Não é evidente que Israel se sinta contente com este telefonema de Donald Trump. Na verdade, Donald Trump interrompeu uma operação de natureza militar que Israel estava a fazer no sul do Líbano. Interrompeu isto. Interrompeu a pedido daquilo que é o Irão. Portanto, de alguma maneira, Trump ajudou o Irão naquilo que era o problema de natureza militar que se estava a colocar ao Hezbollah. Do ponto de vista da substância, há aqui também um problema de fundo, isto é, Donald Trump, para procurar garantir a continuidade das negociações, decidiu mandar parar a ofensiva do seu aliado sobre o Hezbollah. Isto é a parte do conteúdo. Depois temos a parte da forma.Nós até pensámos que estava um bocadinho exagerada, mas as duas partes vieram reconhecer que talvez tenham ultrapassado aquilo que Donald Trump chamou uma vez as pancadinhas de amor. Foi um bocadinho esta coisa das pancadinhas de amor. Na verdade, os termos não são termos radiofónicos que possamos utilizar com ligeireza, mas os termos utilizados ultrapassaram um bocadinho aquilo que era a necessidade. O que mostra que Donald Trump estava um bocadinho fora de si. Isto é, não estava à espera que esta iniciativa militar de Israel, na verdade, ultrapassasse o rio Litani e ameaçasse ir mais para norte no Líbano. O que é que resultou daqui? O que resultou daqui foram duas coisas que me parecem muito interessantes. Israel perdeu a iniciativa que estava a ter no Líbano e Trump não ganhou, do ponto do Irão, o reconhecimento da sua intervenção e que o Irão estava disponível para continuar as negociações. Conclusão: o Irão acabou por ganhar aqui um tempo fantástico, porque andámos entretidos com isto. As negociações não avançaram. Entretanto, aproxima-se o início do Campeonato Mundial de Futebol e, portanto, as condições para ataques de natureza militar diminuíram outra vez e o Irão vai estar agora aqui três semanas ou mais, mantendo em lume brando esta coisa das negociações. Acho que esta é a semana que eu definiria a semana do impasse. Isto é, nenhuma das partes ainda conseguiu descobrir uma maneira de pôr o processo em andamento. Só uma questão final que tem a ver com a ligação entre Israel e os Estados Unidos da América. Alguns viram nisto o rompimento de uma relação e eu não é essa a minha leitura. Israel continua a precisar dos Estados Unidos por três ou quatro razões, que eu rapidamente aqui explico. A primeira é: algum do armamento de Israel, Israel é um grande produtor de armamento a nível mundial e produz grande parte do armamento que necessita. Nalguns setores, nomeadamente na sua Força Aérea, tem uma ligação umbilical muito forte aos Estados Unidos e, portanto, Israel não pode também prescindir do apoio militar norte-americano, sobretudo para a sua Força Aérea. Depois, os Estados Unidos dispõem do direito de veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Isto tem evitado muitas preocupações a Israel, porque muitas das condenações das Nações Unidas a Israel esbarram nesse veto dos Estados Unidos. Portanto, Israel, segundo aspecto, precisa dos Estados Unidos. E depois precisa também do apoio político dos Estados Unidos, porque este apoio político é importante numa altura em que Israel está muito isolado politicamente na cena internacional.
Aliás, ele terá dito a Netanyahu que se não fosse os Estados Unidos, estaria preso.
Sim, exatamente. E que também todos te detestam e estas coisas. E portanto, o apoio político dos Estados Unidos quebra um bocadinho o isolamento político internacional de Israel. E depois, o Irão precisa dos Estados Unidos para uma coisa, é que de vez em quando são precisas operações musculadas militares sobre o Irão e isto só pode ser feito com o apoio dos Estados Unidos. Israel precisa dos Estados Unidos, apesar de precisar também, temos que reconhecer isso, alguma autonomia estratégica para poder defender as suas populações e o seu território. E por que os Estados Unidos precisam de Israel? É que esta relação tem dois lados. Israel tem uma localização geográfica muito privilegiada, com acesso ao Mediterrâneo e ao Mar Vermelho, na ponta daquilo que é o Médio Oriente, portanto, é uma plataforma extraordinária de confiança. Isto é, a confiança que os Estados Unidos têm sobre o aliado Israel é muito superior à confiança que têm sobre os outros países do Médio Oriente, onde inclusivamente há bases norte-americanas. A confiança sobre Israel está num patamar muito superior. Depois, porque Israel tem uma doutrina militar muito semelhante à dos Estados Unidos, o que facilita o desenvolvimento de operações militares conjuntas. E depois, porque Israel dá aos Estados Unidos aquilo que os europeus não dão: confiança nas operações de natureza militar. À última hora, os europeus não estão disponíveis para empregar a força militar e Israel está disponível para isso. Temos aqui um conjunto de razões para um lado e para o outro, pelo qual este telefonema tem que ser entendido como conjuntural, fruto das circunstâncias e da pressão enorme que existe sobre estes líderes, mas que não altera esta ligação estrutural entre os Estados Unidos e Israel.
General, no último episódio falamos aqui da ameaça do Kremlin de uma campanha sistemática de bombardeamento de Kiev. Esta semana tivemos o exemplo da intensificação desses ataques e depois disso a resposta ucraniana sobre São Petersburgo. Entretanto, hoje temos a carta aberta de Zelenskyy dirigida a Putin, propondo um encontro entre os dois. O que podemos esperar depois de tudo isto, general?
Nós, na semana passada, já aqui tínhamos dado conta, porque não foi esta segunda-feira, foi na segunda-feira anterior, tinha havido um telefonema entre Lavrov e Marco Rubio, em que Lavrov anunciava, recomendava até aos Estados Unidos a saída dos seus representantes diplomáticos de Kiev, anunciava aquilo que ele chamou um bombardeamento sistemático de Kiev ao conjunto de instalações de natureza militar, de produção de drones e também à parte do comando militar. Esta ameaça teve depois uma aplicação. Esta aplicação, nesta segunda-feira, por exemplo, a Rússia enviou 656 drones e 73 mísseis sobre a Ucrânia. Só para termos uma ideia, eu estive a ver, no último ano, houve cinco operações de bombardeamento da Rússia sobre Kiev que envolveram mais de 720 vetores, drones e mísseis de várias naturezas. Houve cinco operações deste gênero. Dessas cinco operações, no último ano, três ocorreram nos últimos 15 dias. Portanto, isto dá-nos ideia de como a Federação Russa tem vindo a aumentar a sua capacidade de produção, sobretudo de mísseis, e como isso se tem traduzido numa intensificação do bombardeamento sobre Kiev. Portanto, acima dos 720 vetores, já houve três intervenções da Federação Russa nos últimos 15 dias. A Ucrânia continua com grande capacidade de destruição, sobretudo dos drones. Destes 656, a Ucrânia abateu cerca de 90%. Mas como os números são grandes, passam ainda alguns. Apesar dos 10% que sobram, ainda continuam a ser muitos drones e a causar estragos. Mas sobre os mísseis, a capacidade ucraniana já só conseguiu abater metade dos mísseis. Houve metade dos mísseis que passou completamente. E alguns mísseis não conseguiram ser abatidos. O Zircon, que é um míssil hipersônico, foram disparados oito pela Federação Russa e a Ucrânia não conseguiu abater nenhum dos oito mísseis Zircon. Portanto, a Ucrânia está numa situação muito complexa, que levou Zelenskyy a escrever ao presidente dos Estados Unidos e a escrever ao Congresso norte-americano, a alertar para o facto de a guerra no Irão não é a única guerra que existe no mundo, há mais guerras a ocorrer no mundo, não podem os meios norte-americanos que sustentam as defesas antiaéreas irem todas para o Irão e não haver nada que sobre para a Ucrânia. A Ucrânia, entretanto, respondeu ao ataque russo. É que há alguns meses a Ucrânia não tinha capacidade de retaliação e agora já tem capacidade de retaliação. E desta vez a resposta foi até muito interessante, porque coincidiu em hora e local com o início do Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo, que é uma espécie de Davos, de grande cimeira Davos, que Putin promove na Federação Russa e em São Petersburgo. Ora, ao atacar um centro de armazenamento de combustível em São Petersburgo, criou uma coluna de fumo que vai perdurar durante dias. Isto é, enquanto duram os três dias do fórum, vai haver lá o fumo para relembrar a presença dos drones ucranianos naquele local. Portanto, fez bem em não atacar o fórum em si, mas deu suficiente visibilidade àquilo que é a sua ação. É importante verificar que a Federação Russa e Vladimir Putin têm vindo a dar, sobretudo depois da invasão da Ucrânia em 2022, uma importância acrescida a este fórum econômico. Este ano tem 20 mil convidados, número muito impressionante, e estão representados 130 países. Significa que isto é, do ponto de vista político, utilizado por Putin para mostrar que apesar de tudo, ainda reúne aqui um conjunto muito significativo de países que estão disponíveis para ouvir as oportunidades de natureza econômica que eu tenho para oferecer e que esta coisa das sanções da comunidade internacional à Federação Russa não produz a mossa que achavam que isto ia produzir. Para terminar sobre este assunto da Ucrânia, nós tivemos esta quinta-feira uma carta aberta de Zelenskyy para Vladimir PutinCarta aberta. Ela será entregue pelas vias oficiais, certamente através de mediadores, mas já foi publicada e temos o conteúdo. Há três ou quatro aspectos que são importantes destacar. Primeiro, Zelensky lembra a Putin que ele não é eterno. Lembra a Putin que metade do seu mandato foi utilizado numa guerra contra a Ucrânia e que está na altura de deixar como legado a paz e não a continuação da guerra. E propõe que se considere que a linha da frente atualmente existente entre as forças terrestres russas e ucranianas seja o ponto de partida para a diplomacia. O Kremlin já respondeu através de Dmitry Peskov, dizendo: "Se Zelensky quer encontrar-se com Putin, pode vir até Moscou".
Já sabia.
Já cortou.
Não estávamos à espera de outra coisa.
Não estávamos à espera de outra coisa. Mas houve uma coisa que foi importante esta semana: Marco Rubio, que eu gosto muito de ouvir, porque é alguém que fala com muita clareza, contrariamente à grande confusão que vai nesta administração Trump. Rubio foi à Câmara dos Representantes, à Comissão de Negócios Estrangeiros, dizer duas coisas que são muito importantes no relacionamento dos Estados Unidos com a Ucrânia. Primeiro, nós não somos mediadores imparciais neste conflito. Nós não damos armas à Federação Russa e nós fornecemos armas à Ucrânia. Primeiro aspecto. Segundo, nós não impomos sanções à Ucrânia, mas nós impomos sanções à Federação Russa e, portanto, nós estamos claramente de um dos lados. Isto dito pelo secretário de Estado, merece ser aqui ressaltado, porque esta clareza não tem estado presente em muitos dos discursos que temos ouvido na administração Trump.
Na Federação Russa, fala-se de campo de trabalho para as férias das crianças e na permissão destas começarem a trabalhar em part-time aos 12 anos. General Arno Moreira, isto é um regresso aos tempos soviéticos, é uma cortina de fumo, o quê?
Há uma enorme paixão na Federação Russa pela recuperação das tradições soviéticas. Aliás, não é só na Rússia, em Portugal e noutros países há muita gente com saudades de um regime que caiu por si próprio, não é que alguém o tenha deitado abaixo. O regime soviético faliu. Não foi capaz de corresponder às expectativas sociais e económicas.
Ainda se há quem o lembre com nostalgia.
Ainda assim, há muita gente que se sente órfã do regime soviético. E no discurso oficial do Kremlin e das pessoas ligadas ao regime, de vez em quando vem este saudosismo pelo Kremlin. E agora, a pessoa que é a provedora dos direitos das crianças, veio relembrar como era bom, no tempo soviético, os campos de trabalho para as crianças, em que as crianças, durante as férias escolares, eram enviadas para trabalhos agrícolas em campos destinados a crianças para trabalho agrícola. Estamos a ver o retorno outra vez a uma coisa que me parece muito importante: estão a retirar as crianças das famílias e a entregar a sua educação ao Estado. Isso é cada vez mais visível nos programas que também começam a ser implementados nas escolas. Isto é, a educação das crianças é uma tarefa do Estado e a sua formatação é uma questão de que o Estado não abdica. Isto é, retirar aos pais aquilo que são as competências de natureza educativa e de formação das crianças e puxá-las para o Estado. Isto tem a ver com aquilo que ainda é mais grave: hoje em dia, uma criança para trabalhar na Rússia, só o pode fazer a partir dos 16 anos. Dos 15 anos, se tiver já a educação completa e dos 14, se tiver autorização dos pais. Agora falam em 12 anos, as crianças trabalharem part-time. A Rússia está a preparar-se para empregar na indústria de armamento em part-time estes miúdos, em vez de estarem a montar peças de Lego, estão a montar componentes para os drones que depois se destinam a matar os ucranianos. Nós estamos a assistir a um percurso perigosíssimo na Federação Russa, que é retirar a educação da responsabilidade dos pais, atribuí-la ao Estado e o Estado formatar as crianças desde tenra idade para aquilo que são os grandes desígnios da mãe Rússia.
Hoje colocamos o nosso Ponto de Mira no Castelo de Beaufort, no Líbano, uma fortaleza medieval do tempo das Cruzadas, que foi tomada esta semana por tropas israelitas. General, o que importa saber sobre este patrimônio histórico?
É patrimônio histórico, está outra vez com uma bandeira israelita. Este castelo foi construído no século XII pelos Cruzados. Por que foi construído ali? Foi construído ali porque domina as passagens sobre o rio Litani. Este castelo tem sido utilizado ao longo de toda a sua história por todos os impérios que por ali passaram, o Otomano também, mas também mais recentemente por militantes e combatentes do Hamas, palestinianos, pelo Hezbollah e também por Israel. Isto é fantástico, como um castelo do século XII continua, do ponto de vista militar, a manter aqui uma importância fantástica. Por quê? Porque as operações militares dependem muito do terreno e aquilo que era importante no século XII, que era ter uma posição elevada de domínio, mantém-se exatamente hoje em dia. A capacidade que aquela localização oferece para controlar as passagens sobre o rio Litani, ter uma vista fantástica para um lado e para o outro, que permite dominar pela vista e pelo fogo aquilo que são as movimentações e as operações militares a norte e a sul, continuam a conceder ao castelo de Beaufort, 900 anos depois, uma importância militar extraordinária.
General Arno Moreira, muito obrigada por mais um Ponto de Guerra.
Bem, prazer. Bom fim de semana a todos.
É sempre. Bom fim de semana.
Muito obrigado.