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O Pedro Jorge Castro que já está conosco para mais um O Esplendor e a Infâmia. Bem-vindo, Pedro.
Olá, como é que estão? Já fizeram o nosso votômetro?
Eu ainda não.
Também não.
A sério?
Tem assim tanta certeza sobre o seu voto?
Trabalhamos muito, percebes?
Sem tempo é isso, Vanessa. Boa, Vanessa. Pedro, tu já fizeste?
Já fiz.
E ficaste surpreendido com o resultado, de alguma forma?
Achas que eu ia estar a revelar assim se fiquei surpreendido ou não? Nem o resultado. Mas olha, não só fiz o votômetro como me inscrevi para votar antecipadamente.
Olha, eu também.
O domingo de eleições é sempre um dia comprido.
Pois é.
Assim talvez fique já despachado este fim de semana.
Enquanto esperamos que saia agora fumo do conclave, esta outra eleição, vamos começar pelo esplendor ou pela infâmia?
Vamos pelo fumo negro, portanto vamos à infâmia. Pode ser que acabemos com fumo branco.
Neste espaço dedicado à infâmia, queres falar de Joana Amaral Dias? Vem a propósito o debate de ontem entre os pequenos partidos?
Vieram ao debate ou não?
Sim, eu vi.
Transformou-se no momento imperdível das campanhas eleitorais, sobretudo desde que é moderado por Carlos Daniel. Claro que eu acho que a maior parte das pessoas vai à procura de momentos humorísticos, que têm sido pródigos neste tipo de debates, e que acabam por demonstrar porque estes partidos são pequenos partidos e os candidatos dificilmente conseguem eleger. Ou seja, para conseguirem eleger, têm que passar por este crivo, têm que se sobressair ali, mas há aqui um problema: quem consegue manter uma postura moderada dificilmente consegue dar nas vistas o suficiente para vir a ter um número de votos importante. Portanto, quem consegue passar este crivo são as pessoas que têm uma atitude mais excessiva, digamos assim. No caso, Joana Amaral Dias, é o juiz. Isto anda muito à volta destas figuras. Mas sobre Joana Amaral Dias, vamos ouvir aqui um pequeno excerto para ganharmos balanço.
Tom Petty com este "Keep a Little Soul". Isto é um recado para a ex-deputada do Bloco, Pedro?
Eu não mando recados. Mas o que leva esta música a ver a prestação ontem da ex-deputada do Bloco, sim, dizes muito bem, sobretudo a parte do aborto. Ela foi uma das principais ativistas noutras lutas, no início da sua carreira política, e vê-la agora a dizer estas coisas, como que as mulheres devem pagar para serem submetidas à interrupção voluntária da gravidez, deixou-me absolutamente em choque. Já temos visto esta transformação, isto não é de agora, não foi ontem que aconteceu, tem vindo a suceder ao longo do tempo. Ela já passou por seis partidos, creio, ou já apoiou, ou envolveu-se ativamente em seis partidos desde a saída do Bloco, mas ontem bateu no fundo. Este contraste, este keep a little soul, manter um cadinho de alma. Eu acho normal que as pessoas mudem, que evoluam.
Tentei que não.
Que mudem a perspectiva sobre políticas, enfim, tudo. Mas caramba, ela veio da extrema esquerda para a extrema direita. Para a extrema mais extrema da extrema-direita, e isso não deixa de fazer um pouquinhos de impressão. Fui à procura do início da carreira dela no Bloco. Ela substituiu Francisco Louçã no Bloco de Esquerda. Eles tinham um sistema de rotatividade dos deputados. Miguel Portas teve que abdicar e dizer que não queria ocupar aquele lugar para ir Joana Amaral Dias. Vejam bem donde é que isto vai. E uma das primeiras propostas que ela subscreveu tinha a ver com a lei da nacionalidade e era para defender que todos os filhos de imigrantes deviam ter nacionalidade portuguesa. E agora vê-la atacar os estrangeiros desta maneira, eu sei que passaram 22 anos, na altura ela tinha portanto 27. Mas mesmo assim já era crescida, não era uma coisa de adolescente, 14, 15 anos, que apesar de tudo já era suposto ter um pensamento consolidado. Aliás, de tal forma que chamou a atenção de vários partidos políticos. E depois ver que foi escolhida como mandatária da última campanha de Mário Soares, que era uma instituição. E vê-la acabar agora aqui, eu imagino Mário Soares a dar voltas na tumba, a olhar cá para baixo e a ver naquilo em que se transformou a sua mandatária da juventude. Mesmo assim, ela faz muito barulho para dar nas vistas e não é impossível. Já há sondagens a dar a possível eleição como deputada, há a questão da confusão do AD, ADN, que vinha das últimas eleições. Nem sequer é impossível. Deve haver muita gente que gostava de ver isto todos os dias no Parlamento e de ver debates com todos e com ela também, aos gritos, como esteve ontem. Mas queria chamar a atenção para isto. Isto não é vir a casaquismo, é ir de um extremo ao outro mesmo e não pode deixar de chocar qualquer eleitor. E na verdade, muda muito até, acho eu, afeta a imagem que as pessoas têm dos políticos em geral. Joana Amaral Dias é a política que acha agora e defende agora aos gritos coisas completamente diferentes do que defendia há 20 anos e isto não pode deixar de fazer impressão a qualquer pessoa.
Vamos agora ao baú.
E no baú desta semana recuperas, Pedro, a figura de Fernando Nogueira, ex-líder do PSD. Imagino que a propósito do almoço de ontem, que Luís Montenegro juntou vários dos seus antecessores à mesa na sede do partido.
Imaginas muito bem. Tem música este baú, vamos ouvir um clássico que todos conhecem. Traduzido este tema dos Queen à letra é mesmo: os amigos vão ser amigos quando precisares de amor e atenção.
E achas que lhe correu bem a operação de marketing eleitoral que foi este almoço?
Por contraponto a Pedro Nuno Santos, que tem aparecido muito sozinho, há grandes dúvidas sobre a forma como ele se identifica ou não com o legado dos antecessores, o apoio que lhe prestariam ou não, parece que foi um sucesso. De facto, a quantidade impressiona. Tem pesos muito diferentes. Um foi presidente da República, apesar de tudo, outro é candidato a presidente, outro foi primeiro-ministro. Há ali alguns líderes transitórios, mas a quantidade impressiona, a capacidade de juntar toda aquela gente. Estavam todos tão desocupados numa terça-feira à hora de almoço para se conseguirem juntar naquele momento. Claro que eles não são amigos, mas o poder e a atração do poder têm muita força, portanto acaba por ter esta capacidade de juntar tanta gente que não são amigos, à volta de uma mesa com este objetivo comum. E sim, em contraponto com Pedro Nuno Santos, mostra que Pedro Nuno Santos está sozinho e Luís Montenegro, numa altura em que ainda pode haver muita gente com dúvidas sobre a sua seriedade, conseguiu juntar ali pessoas.
E dá um certo respaldo.
Nomeadamente Cavaco Silva e Pedro Passos Coelho sempre fizeram da ética e da seriedade na política valores que sempre propalaram como valores importantes. O facto de estarem ali presentes quase que é uma absolvição do atual líder do PSD e recandidato a primeiro-ministro, como quem diz: "O Spin off está morto, portanto esqueçam isso e podem confiar neste homem." Isso tem um certo efeito, acho eu, para uma parte significativa dos eleitores que possam ser sensíveis. Está ali muita gente que conseguiu maiorias absolutas, conseguiu ganhar eleições e toda essa gente pode ser sensível a este apelo.
E sobre Fernando Nogueira, que é talvez o menos conhecido de todos aqueles que estiveram presentes no repasto, que história nos trazes?
Menos conhecido, sobretudo para pessoas mais novas do que eu e tu, Miguel Gouveia. Nós se calhar ainda nos lembramos que ainda o apanhámos como ministro, era o ministro todo-poderoso Cavaco Silva nas maiorias absolutas e que depois foi o sucessor num disputadíssimo congresso, aliás, através do qual se calhar muita gente da minha geração começou a apaixonar-se por política. É um congresso que opôs Fernando Nogueira, Durão Barroso e Pedro Santana Lopes. Foi um furacão que durou noites inteiras e prenderam pessoas à televisão. Nunca mais houve nada assim, com essa espetacularidade. E depois acabou por perder as eleições legislativas contra António Guterres. Cavaco perdeu as presidenciais e ele demitiu-se logo a seguir. Mas recupera uma história dele muito interessante à luz dos tempos que correm. Claro que o melhor sítio para procurar histórias sobre o cavaquismo é o jornal "Independente". Não fui folhear as capas do jornal. Há um livro do Filipe Santos Costa e da Helena Valente que recupera algumas dessas histórias e tem lá uma deliciosa cuja manchete era Casa Nostra, e então era sobre um escândalo de uma casa de Fernando Nogueira. E a história inicial é: Fernando Nogueira comprou uma casa com um empréstimo de 3500 contos do PSD. Há sempre esta dificuldade agora, dificuldade ou a falta dela, mas tem sido tema na compra de habitação. E depois o escândalo seguinte era que havia ali uma trapalhada qualquer fiscal à volta da casa, como se tivesse num paraíso fiscal, a casa dele e do pequeno Mendes, como o Independente chamava a Marques Mendes, também teria um escândalo qualquer deste ano. Isto acabou com um processo judicial e o Independente foi condenado. Esta parte da história, ele admitiu a parte do empréstimo, era um empréstimo secreto feito pela cúpula do partido, só seis pessoas sabiam, mas não a parte das ilegalidades à volta da situação fiscal da casa. Nessa parte, o Independente foi condenado. E é interessante recuperar esta história, porque as casas dos candidatos continuam a ser tema ainda hoje em dia.
Falta só o esplendor.
Ainda não há fumo branco no Vaticano, mas queres já dedicar o esplendor ao cardeal Tolentino Mendonça. Estás assim com tanta fé que venha a ser o novo Papa? Não estou com fé, nem deixo de estar, mas não quis desperdiçar a oportunidade. Acho improvável, tendo em conta o número de cardeais e sobretudo a idade dele. É curioso que um dos argumentos contra ele seja o facto de ele ser tão novo e portanto, se fosse ele, ficaria muitos anos e então os outros cardeais não quererão escolher alguém tão novo, porque isso no fundo diminui as hipóteses de algum deles ainda vir a ser Papa. Mas não sou que o digo, foi o La Repubblica, é um jornal italiano, isto quando vem de fora tem mais valor que eu, nomeou como um dos Papabili. E achei isso interessante. Eu acharia journalisticamente espetacular ter um Papa português. Não imagino como é que seria a cobertura disto. Esse é o primeiro ponto. De resto, a figura de Tolentino, não só por aquilo que fez com o Papa Francisco. Se calhar a ponta mais visível tem a ver com o discurso do Papa quando esteve aqui nas Jornadas Mundiais da Juventude, mas também com a forma como juntou todos os humoristas no Vaticano. Todos não, mas muitos humoristas dos mais conhecidos no Vaticano. Estas duas coisas sensibilizam qualquer não católico e chamam a atenção para um homem que está aqui que de facto é muito diferente. Depois há esta característica que são os poemas, a forma como ele escreve, a sensibilidade que ele demonstra nisso. Imaginar um homem destes na cadeira mais poderosa da Igreja não deixa de ser de certa forma aliciante. E precisamente a propósito de poesia, para acabar em grande este esplendor, pedi aqui à nossa Vanessa Cruz, que também adora poesia, para ler um poema que eu acho absolutamente fascinante de Tolentino Mendonça.
Vamos a isso. "Isto é o meu corpo. O corpo tem degraus, todos eles inclinados, milhares de lembranças do que lhe aconteceu. Tem filiação, geometria, um desabamento que começa do avesso e formas que ninguém ouve. O corpo nunca é o mesmo, ainda quando se repete. De onde vem este braço que toca no outro? De onde vêm estas pernas entrelaçadas? Como alcanço este pé que coloca diante? Não aprendo com o corpo a levantar-me. Aprendo a cair e a perguntar."
Bonito, não é? Não foi? Muito bem.
Muito bonito.
Que nos permite acabar desta forma poética e esplendorosa esta rubrica semanal da tarde política. Pedro, próxima semana, última semana de campanha eleitoral, vamos ter o esplendor e infâmia?
Vamos torcer por isso, claro.
Vamos, muito bem. Então fica por aqui a edição desta semana de esplendor e infâmia pelo olhar do Pedro Jorge Castro.