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O Esplendor e a Infâmia com Pedro Jorge Castro, director adjunto do Observador. Bem-vindo, Pedro.
Alô, guten Tag. Como é que está o vosso alemão?
Ora agora.
Mehr oder weniger.
Só eu é que fico aqui: "Bitte, bitte."
Não, Ricardo, eu também não percebi o que é que a Judite respondeu.
Eu disse mais ou menos.
Vou dizer uma coisa que te vai surpreender. Sabes que quando falam em línguas sexys, como italiano, francês ou português, eu acho o alemão uma língua sexy.
God.
Não estavas à espera.
Não estava à espera disto. Já fiquei em modo esplendor.
Já vamos perceber porque é que estás a falar alemão. Vamos ao Esplendor.
Tantas perguntas sobre o negócio da TAP. Será tão esplendoroso como pareceu pela postura radiante do governo? E já agora, quem é que sai melhor disto? É Miguel Pinto Luz, Pedro Nuno Santos, somos nós em geral?
Ótimas perguntas, Judite.
Saíram agora da cabeça.
Agora em alemão.
Estava eu aqui ainda nas nuvens com esta hipótese de passar a ser dono, tal como vocês, da maior companhia aérea da Europa.
Sim, 5%.
E obrigas-me a fazer essa aterragem forçada e vens trazer-me de volta à terra. Ainda há muita coisa aqui por perceber exactamente neste negócio, porque de repente, no meio disto, vamos ter um novo aeroporto. Será isto? Em Tancos? Vai dar mais jeito ir apanhar um avião a Tancos? Será para companhias low cost? Não sei. Há muita coisa aqui por perceber. Isto não é uma questão de mera matemática. Se formos à matemática, temos aqui um problema que é as contas ainda não batem certo. Ainda. Na melhor hipótese, se a TAP for vendida pelo preço em que foi valorizada hoje, isto dá 2,5 mil milhões, mas todos nos lembramos que o cheque que foi lá posto pelo Estado português foi de 3,2 mil milhões. Nós ouvimos os dois ministros e o primeiro-ministro enchermos a vista com outras operações, centros operacionais espalhados um pouco por todo o país, 100 aviões, mais oito aviões de grande porte. Mas temos que perceber exatamente se isso vai avançar, ainda é prematuro, como é que vai avançar, se vai haver restrições impostas pela concorrência ou não. Ainda é muito incerto se isto é ou não é um bom negócio, mas é notório que o ministro Pinto Luz estava, de facto, com ar eufórico a anunciar isto tudo, ou pelo menos estava a vender isto como se tivesse sido uma grande operação. E aqui temos o ponto de partida. Se o ponto de partida for o risco dos 3,2 mil milhões que pusemos lá, de os perdermos, se o ponto de partida for esse, eu diria que pelo menos já se salvou aqui qualquer coisa. Aparentemente, há qualquer coisa aqui que já foi salva. Se o ponto de partida for: "Espera aí, então e o resto onde é que está e como é que vamos receber, como é que isto vai ser saldado exatamente e vai tudo correr bem?", ainda é muito incerto e temos que esperar pra ver. Sobre as figuras, é muito interessante, de facto. Eu creio que, curiosamente, tanto Pedro Nuno Santos como Miguel Pinto Luz, não saindo completamente vencedores desse processo, saem a ganhar qualquer coisa. Pedro Nuno Santos, eu acho que deu validade à sua narrativa de que a TAP tinha valor, portanto demonstra-se que tem valor, mesmo não sendo o valor para já exatamente que foi lá antecipado pelo Estado português. Miguel Pinto Luz herdou este processo, não era este o negócio que ele queria fazer, queria vender já tudo. Acaba por haver esta situação até um bocado caricata, que é ele durante anos na oposição, argumentou que o Estado não devia estar no negócio da aviação e agora no fim da linha deste negócio, arriscamos, de facto, a ficar com 5% da Lufthansa. Portanto, vamos continuar no negócio da aviação. Mesmo sem responsabilidades executivas ou para receber dividendos, é preciso que corra bem. E os acionistas não são só acionistas quando corre bem, também são quando corre mal. Se tiver aí uma nova pandemia, qualquer coisa dessas, se calhar entramos aqui novamente em trabalhos que nem sequer controlamos assim tão bem. Diria que, curiosamente, ambos saem melhorzinho disto. Melhor do que pior. Depois, Miguel Pinto Luz acabou por conseguir concretizar pragmaticamente o negócio com o qual não concordava e consegue vender isto, pelo menos com este aparato, embora ele tenha recusado responder esta questão sobre Tancos, exatamente o que é que significa a abertura ao tráfego civil do Aeroporto de Tancos, que vamos ter aí. E depois ainda há a questão dos portugueses, esta questão macro. Então dos dinheiros, se calhar só em 2040 que se vai perceber exatamente como é que ficam os saldos entre o débito e o haver.
E é isso que por tudo muito espetacular, que vem uma maquia.
Pronto, vamos ver. E depois, se calhar, a pergunta que a maior parte das pessoas até faz é: espera aí, os voos vão ficar mais baratos ou não? Esta é que é a grande equação que entra diretamente no bolso das pessoas que têm a sorte de poderem planear férias.
Isso continua a voar para o mesmo sítio.
Claro, se continuam a ter as rotas. A partir disso, parece estar salvaguardado, segundo aquilo que foi dito esta tarde na conferência de imprensa. Mas, de facto, aquilo que as pessoas depois querem saber, e podemos até ver mais voos pra Alemanha e para o resto da Europa Central, vai haver mais voos pra América do Sul e pra América do Norte. Estes voos, muitos vão fazer escala em Lisboa. É isto que significa. Eu acho que isto ainda está muito turvo neste momento. Depois, já sabemos que isto vai tudo resumir-se à lei da oferta e da procura. Se houver mais concorrência e mais aviões para serem preenchidos, esperemos que os preços baixem. E no fundo, toda a gente quer ir cantar a música dos Odetones: "Anda comigo ver os aviões."
Agora vamos ao bau. O maior acionista da Lufthansa, que tem 20%, é um fundo que pertence a Klaus Michael Kühne. Deve ser assim.
Está limpo.
A minha pronúncia alemã é mais do sul da Alemanha.
Isso era só pra nós vermos que também tens uma pronúncia sexy a falar à mão, Ricardo.
Exato. Não é sexy.
Claro que é.
Pedro, foste tropeçar em duas histórias do passado deste multimilionário.
Pois foi. Primeiro, deixa eu notar que ele acabou de morrer. Morreu em agosto. Era o homem mais rico da Alemanha.
Já não viu o negócio catado.
Deve ter estado envolvido ainda na parte inicial, mas não viu este desfecho. Mas morreu em agosto, não deixou herdeiros. Tem a viúva, claro, que está ligada a este fundo, esta fundação que gere todo o seu vasto património. Ele alternava normalmente com outro milionário alemão na lista dos dois mais ricos da Alemanha, consoante a valorização bolsista das empresas de cada um. Ele fez fortuna com negócios de logística. E aqui dois detalhes curiosos. Um que tem a ver com o passado nazi da empresa. O pai e o tio dele, em 1933, quando Hitler ascendeu ao poder, livraram-se de um sócio judeu que tinham, aderiram ao partido nazi e depois fizeram, de facto, grande fortuna a transportar mobilias, peças de arte, de 70 mil apartamentos e casas de judeus nos países ocupados diretamente pra Alemanha nazi. Em 2015, este senhor Klaus, que era um miúdo na altura, portanto não é responsável, obviamente, por nada disto. Se calhar não há tanta gente na Alemanha que tenha passado ao lado do regime nazi e que tenha conseguido enfrentar o regime. Também sabemos o que é que acontecia a essas pessoas. Mas em 2015, ele encomendou um estudo histórico sobre a empresa familiar, sobre este império familiar, que tinha 125 anos na altura, e quando o estudo histórico chegou, tinha um capítulo precisamente sobre a ligação entre a empresa e o regime nazi, e ele decidiu não publicar o estudo. É pena não termos aqui mais informação sobre isto, teria sido interessante, e é pena que não tenha publicado o estudo. Várias outras empresas alemãs falaram abertamente e promoveram estudos precisamente sobre essa relação com o passado nazi. O outro detalhe curioso, e que acho que pode ser interessante, tendo em conta que isto já não vai acontecer, porque ele já não está vivo, mas ele era um enorme adepto do Hamburgo, o clube alemão, tornou-se acionista do clube, mas depois vinha dar entrevistas a criticar o treinador, os jogadores. E consequência disto, apesar de ele ter imenso dinheiro no clube e de estarem sempre a pedir lhe pra ele injetar mais milhões pra gestão corrente do clube, os adeptos não gostavam nada dele, insultavam-no quando ele ia ao estádio, portanto ele acabava por não ir ao estádio e preferia ver os jogos em casa porque não gostava dessa agressividade.
Vamos à infâmia. E esta semana, duas infâmias.
Pelo preço de uma. A primeira é ainda sobre a entrevista de Pedro Passos Coelho, pra assinalar aqui este detalhe. Muito bem, muito interessante, claro. Estávamos à espera deste momento, que ele falasse desta forma, com esta visibilidade toda. Ele já tinha andado a falar espalhado pelo país em pequenas conferências em que não permitia a entrada de jornalistas. E agora falou, há aqui um ganho de clareza, muito bem, ele está disponível para vir a ser primeiro-ministro, e acentua muito a crítica à falta de reformismo do governo, mas a tônica da entrevista tem a ver com coisas que já não interessam muito, na verdade, que é a história de que ele teria tentado promover um acordo com o Chega e com a Iniciativa Liberal para encontrar estabilidade de governação. Isto já não interessa, não tem três minutos, já não existe. Na verdade, na altura em que isto aconteceu, em que o Luís Montenegro ganhou as eleições, ganhou com base no pressuposto do não é não, portanto, não haveria pior do que violar esse pressuposto logo a seguir ganhar as eleições. Eu creio que os eleitores não perdoariam uma coisa dessas. E o próprio Chega e a Iniciativa Liberal, pelo menos a Iniciativa Liberal, sempre disse que não seria coligar com o Chega de maneira nenhuma. Portanto, isto só vale como sinal pro futuro, mas pro futuro, no fundo, aquilo que ele tentaria fazer, eu só espero que isto seja tudo clarinho no momento de os vários partidos irem a eleições. Tenho pena que toda a sua veia reformista não seja depois traduzida noutras coisas mais em concreto, se calhar isto teria sido mais útil. Coisas que ele acha que deveriam ser feitas em determinados setores, como fazer e como chegar lá. A segunda infâmia da semana é sobre esta nova polêmica do Ministério da Administração Interna. Tivemos um longo comunicado do Ronaldo na semana passada. Esta semana temos um longo artigo do secretário-geral da Administração Interna demitido, portanto, aperta-se o círculo. José Luís Carneiro já pede a sua demissão. Deixa-me dizer que é surpreendente o nível de detalhe das denúncias feitas ali, não é nada habitual nós vermos isto. Isto pode acontecer mais vezes, mas normalmente as pessoas não vêm falar disto desta maneira. E não o fazem também porque este secretário-geral demitido, Carrilho, passa a ter um alvo na testa também. Nós todos vamos estar atentos ao desfecho disto. Isto vai abrir uma caixa de Pandora de vinganças e de escrutínio também àquilo tudo que ele disse. Toda gente vai ver se isto está a fazer o jogo de algum partido ou isto é puramente altruísta em defesa do bem comum. Vamos todos seguir esta novela com atenção, mas creio que reduzem-se cada vez mais as condições para o Luís Neves continuar no governo sem este nível de explicações, pelo menos com o mesmo nível de detalhe que o artigo de opinião do secretário-geral contém.
E pra semana há mais esplendor e infâmia.