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Já está conosco em estúdio o Pedro Jorge Castro, diretor adjunto do Observador. Bem-vindo, Pedro. Bom ano, não sei se ainda se pode dizer.
Já não se diz bom ano, já não viram isso.
Não seja antipático para os ouvintes, faz favor.
Obrigado. Então, um esplendoroso 2025 para todos os ouvintes, para a nossa rádio, para vocês e para mim. Olha, para já começa bem, vejam só. Já tive a sorte e o privilégio de estar a fazer um programa também de entrevistas com o Rui Ramos, a acrescentar a este o "Esplendor e a Infâmia".
Pois é, a vida em revolução estreou na passada segunda-feira com Marçal Grilo. São conversas sobre o dia a dia nos anos de 1974 e 75.
Ainda não consegui ouvir tudo, ouvi uma parte, mas estou a guardar o resto para uma viagem ao Porto.
Eu também estou a guardar para ouvir depois do "Fora do Baralho".
Fazemos muito bem. Então repete aqui na rádio no domingo às 9:00 e na próxima segunda-feira, à 13:00, vamos ter Zita Seabra no segundo episódio. Portanto, Judite, se fores ao Porto depois, até pode juntar os dois episódios em podcast. Como se diz agora, fica a dica para os nossos ouvintes também.
Estamos a ficar com ciúmes.
Agora que já fizeste publicidade ao teu outro podcast, vamos começar pelo esplendor ou pela infâmia?
Venha a infâmia.
Venha a infâmia? Então venha ela .
Pedro, na infâmia queres falar esta semana sobre segurança. Estiveste a ouvir o debate de ontem no Parlamento, que foi pedido pelo CHEGA, precisamente sobre este assunto. Qual é que foi a parte da infâmia?
Há várias, na verdade. Para começar, deixa-me notar esta coincidência tramada. O debate foi pedido pelo CHEGA, depois daquele tiroteio no Palácio do Gelo, em Viseu, lembram-se disso? O atirador entregou-se à polícia ontem à tarde, depois de uma negociação com as autoridades, numa altura em que estava cercado e com receio de ameaças da família da vítima. Portanto, ele entregou-se para não ser alvo de justiça feita pelas próprias mãos. Esta informação só foi tornada pública esta manhã.
E que diferença teria feito?
Apesar de tudo, houve no debate uma ideia geral de impunidade, que podia ter sido um pouco desbatida, a partir do momento em que se sabe que o atirador está detido.
Logo por azar, pouco antes do debate de ontem começar, soube-se daquela rixa entre dois jovens que ficaram com as mãos cortadas com uma catana à porta de uma escola.
Exato, um crime horrível, que foi logo usado por Pedro Pinto, líder parlamentar do CHEGA, na abertura. Quase todos os partidos usaram muitas estatísticas, supostamente as estatísticas devem ser dados objetivos, mas há a ideia que todos os partidos martelaram as estatísticas e usaram as estatísticas que quiseram para tentar provar o seu ponto. Voltou muito a conversa sobre a percepção da insegurança, sempre a tentar desvalorizar, como se a percepção fosse uma coisa menor. Ora, não há estatística que rebata uma percepção. Eu vou dar um exemplo: assaltaram a casa de uns familiares meus e no bairro onde vivem, diz que houve 30 assaltos a apartamentos no último ano. Isto até só pode ser uma estimativa e provavelmente exagerada, mas eu sei que estão os vizinhos todos, neste momento, a engendrar formas de se protegerem com câmaras de videovigilância e alarmes. Ora, a estas pessoas não vale a pena dizer que Portugal é o sétimo país mais pacífico do mundo.
Rui Tavares chegou a acusar o CHEGA de estar a fazer eleitoralismo porque vêm eleições autárquicas e presidenciais.
Pois bem, isso é sempre assim. Claro que vêm eleições e claro que a segurança se tornou uma das maiores preocupações dos eleitores, e claro que estarão muito atentos às propostas dos partidos nesta questão.
Mas aproveitou-se alguma coisa?
Nem por isso. Eu acho que ninguém saiu muito bem do debate, logo, ganha o CHEGA. Para os outros partidos, seria um erro deixarem o CHEGA falar sozinho sobre segurança, mas depois acabam por fazer comparações com outros governos e entram num jogo de passa-culpas que diz muito pouco às pessoas. Ou isso, ou aproveitarem este debate para outros jogos políticos, como Hugo Soares, que elegeu José Luís Carneiro apenas para atacar indiretamente Pedro Nuno Santos.
Tanto o CHEGA como o PSD invocaram a dada altura a Operação Caril, uma operação da PSP em 1999 no Martim Moniz, numa altura em que o presidente da câmara era João Soares, o governo era de António Guterres e o presidente era Jorge Sampaio, todos eles socialistas.
É mais um exemplo dessa utilização do passado, que eu acho que diz muito pouco às pessoas hoje em dia. Há um artigo do Público sobre essa Operação Caril, que se tornou viral, entretanto, nas redes sociais. Esse artigo está assinado pelo Ricardo Dias Felner. Na altura, era um jovem jornalista da seção local. Eu trabalhei com ele uns anos mais tarde. Hoje falei com ele a ver do que ele se lembrava e ele mandou-nos este WhatsApp.
Alô, Pedro. Foi uma operação policial de uma investigação que andava a ser feita. Aquilo era uma fraude com telemóveis. Eu dava ideia que o Martim Moniz era uma espécie de grande cabine telefónica, mas depois havia ali uma maneira de os telefonemas serem feitos. E estavam telefonemas para a Índia, ou ao Bangladesh, calculo eu também. Enfim, para vários países de onde esses imigrantes eram e outros. Não houve rusgas, não houve ninguém encostado à parede. Portanto, estar a fazer essa comparação parece-me um bocadinho abusivo. Isso foi uma operação dirigida a suspeitos que andavam a ser já investigados.
Vai daqui um abraço para o Ricardo. De facto, atenção, em 1999 havia telemóveis há muito pouco tempo e de facto esta questão das comunicações adquiria especial importância. Eu também lhe perguntei se o nome de mau gosto dado pela PSP à operação, portanto, esta Operação Caril, se tinha provocado alguma controvérsia. Ele não se recordou de qualquer polémica à volta disso. Claro que hoje seria impensável chamar Operação Caril a uma operação da PSP, acho eu. Isto mudou muito em 25 anos e em alguns casos, para melhor.
Escolheste ainda aqui um som de André Ventura neste debate, vamos ouvir.
Encostem-nos à parede uma e outra, e outra vez.
Isto é a parte final da intervenção de André Ventura no debate. Atenção, ele não está a pedir isto na primeira pessoa, este "encostem-nos" pode ser dúbio. Não é para o encostarem ele à parede, está a pedir para encostarem à parede, por esta ordem: os gandulos que incendeiam autocarros, os pedófilos, os imigrantes ilegais, os que roubam e destroem e os gangues de ladrões. Ora, tudo aquilo que ele está a meter no mesmo saco e a solução que propõe. Acho que comparar imigrantes ilegais a pedófilos define, de certa forma, André Ventura. Eu acho que não os queremos encostados à parede. Eu não os quero encostados à parede, eu quero que sejam detidos, julgados e condenados, se houver provas para isso. Não é questão de serem encostados à parede, define-se a justiça neste caso, ou não. No Texas, nos Estados Unidos, há umas placas à beira da estrada que dizem: "Don't mess with Texas", portanto, "não se metam com o Texas". Tem um nome um bocadinho assustador, mas na prática é para as pessoas não atirarem lixo para as bermas. Mas lembrar toda a gente que aquilo não é um faroeste. Ora Portugal não é o Texas, mas também não é esse faroeste. Portanto, eu acho que André Ventura merece ouvir aqui a Beyoncé.
E vamos agora, depois de ouvir a Beyoncé, ao Baú . Pedro, no Baú queres falar de Jean-Marie Le Pen, o líder histórico da extrema-direita francesa, morreu ontem aos 96 anos.
Sim, portanto, a Infâmia é muito centrada em André Ventura. O Baú faz sentido que seja sobre o Jean-Marie Le Pen, que é de certa forma um pai espiritual das políticas defendidas por André Ventura neste momento. Não quero falar exatamente sobre Jean-Marie Le Pen, o pai de Marine Le Pen, mas sobre uma das suas vindas a Portugal em 1990. Ele deu uma conferência de imprensa, foi interrompida abruptamente porque apareceu lá um ainda muito jovem Francisco Louçã, que era na altura líder do PSR, o Partido Socialista Revolucionário. Ele tinha uma carteira de jornalista, portanto isso permitiu-lhe fazer uma pergunta, e a pergunta foi feita quase num tom de comício, Jean-Marie Le Pen interrompeu a conferência de imprensa e vai-se embora. Depois cruzaram-se no corredor e é espetacular, porque a câmara da RTP que apanhou isto, filmou a discussão que eles vieram a ter em francês. Não vamos passar a discussão toda, até porque teria que ser dobrada, mas vamos ouvir só um pequeno excerto. Dá aqui a ideia de que Jean-Marie Le Pen estava a chamar mentiroso a Mário Soares, e Francisco Louçã a rebater isso. E depois, curiosamente, foram ouvir a reação de Mário Soares, que era presidente da República na altura, a isto, também temos aí um pequeno excerto do que ele diz.
Uma injúria, e só injuria quem é fraco. E isso não me surpreende.
O ataque de Le Pen a Mário Soares centrava-se no facto de ele ter sido marxista. De facto, Mário Soares foi um jovem comunista na sua juventude, mas é a pessoa errada para fazer este ataque, porque nesta altura já ele tinha sido o mais feroz opositor precisamente aos comunistas durante a revolução em 1975, e é consensual que foi graças a Mário Soares que não foi imposto um regime comunista em Portugal.
Sei que gostas muito da Infâmia, mas vamos lá virar agora para o Esplendor.
E esta semana é fácil, não é?
Vais falar de Eça de Queiroz.
Exato. Eça de Queiroz. Esta semana, de facto, não seria difícil encontrar um tema. Eça de Queiroz está vivo. Foi hoje enterrar mais uma vez, mas está vivo. Não me lembro de falar tanto de Eça como nestes dias. Eu espero que isto se traduza num interesse maior das pessoas pela sua obra, pelos seus livros e pela sua figura. Tem-se ouvido muitos excertos de Eça, ainda hoje na homenagem, mas eu vou pedir aqui ao Miguel Vieira que use a sua voz tão impactante, uma das vozes mais impactantes desta rádio, para ler uma carta escrita por Eça de Queiroz ao filho Zezé, no dia 23 de fevereiro de 1899, no dia em que o filho fazia 11 anos. Esta carta está no livro "A Arte de Ser Pai", junto às cartas de Eça aos filhos, com comentários de Beatriz Barrini e conta, por exemplo, que ele era meio distraído com as datas de aniversário e tinha de ser a família a lembrá-lo. Vamos então ouvir aqui o Miguel Vieira a ler um excerto desta carta.
Reza assim: "Meu querido Zezé, esta cartinha chega-te no dia dos teus anos e nela mando-te um muito grande e muito terno beijo. Estás pois com 11 anos já e com essa idade um rapaz deve começar a compreender o quanto ganha quando trabalha bem e é bem comportado e amável e tem boas maneiras. Espero, portanto, que continues a trabalhar com energia e que continues também a divertir-te a valer e que procures ter um bom comportamento sem deixar de ser uma pessoa alegre. Acima de tudo, é preciso evitar maneiras bruscas, obedecer sempre à mamã, facilitando a vida. Entretanto, diverte muito no dia dos teus anos. Com certeza irão beber espumante. E daqui eu também erguê-me a taça em honra do meu querido Zezé. Hurra! Teu papá que te ama."
Espetacular, Miguel. Obrigado por teres lido este programa dirigido para um miúdo de 11 anos, que eu achei fascinante. E é um bocadinho diferente dos excertos que temos visto, é um lado mais intimista de Eça e mais inesperado, de certa forma. Sobre a cerimónia de hoje, deixem-me só notar que, mais uma vez, tivemos um discurso, se calhar, melhor do Presidente da Assembleia da República do que os outros discursos que foram proferidos. Está-se aqui a tornar uma grande sombra para o Presidente da República e, sem se dar muito por isso, até vai demonstrando que, se calhar, pelo menos esta capacidade de fazer discursos com significado na forma como relacionou os escritos de Eça com o presente. A frase dele a dizer que o difícil é não encontrar semelhanças com a crítica e com os motivos de crítica para o presente, eu acho que foi na muche e é uma das ideias que marca a cerimónia. Para terminar, também temos uma música relacionada com Eça, a música de Mariza Monte e que tem um excerto de "O Primo Basílio", lido por Arnaldo Antunes na música. Vamos ouvir. E pronto. Ficou bonito isto, não é? Em brasileiro também soa bem a Eça. E assim nos despedimos até ao próximo Esplendor e Infâmia na próxima semana.
Na próxima quarta-feira, sempre com o Pedro Jorge Castro.