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"Esplendor e a Infâmia" na Rádio Observador com Pedro Jorge Castro, diretor adjunto do Observador. Olá, Pedro, bem-vindo.

Olá, Ricardo. Olá, Judite.

Olá.

São mais fãs de Cebolinha, Lucky Luke, Peter Pan ou do Speedy Gonzales?

Sabes que eu hoje estive a pensar nisso. Eu acho que de todos estes, o que gosto mais é o Lucky Luke.

Sem dúvida.

Se quiseres um ranking é Lucky Luke, Peter Pan, Cebolinha, Speedy Gonzales.

Muito bem.

Ok. Eu, se tivesse que fazer um ranking, diria Lucky Luke e a seguir diria Turma da Mônica, Cebolinha.

Estamos a falar disto porque foram quatro protagonistas hoje do debate no Parlamento. Estávamos à espera de graves declarações ou sobre o relatório do Presidente da República sobre o comboio de Tempestade ou sobre o escândalo do SIRESP. E não, numa manobra de antecipação de Hugo Soares, resolveu trazer a banda desenhada para o barulho e de facto com isto acabou por conseguir que André Ventura caísse num engodo e muito do tempo depois deste debate vai ser preenchido a falar de banda desenhada e não de coisas sérias, como vamos falar nesta rubrica.

Isto nem é sequer a Infâmia ainda.

Não, ainda não. Melhor fazer já o alerta que da banda desenhada vamos passar para uma bolinha vermelha no canto do rádio, porque vamos falar de prostituição.

Vamos à Infâmia. Pedro Passos Coelho encontrou-se ontem com André Ventura na apresentação de um livro do constitucionalista Carlos Blanco de Moraes. Na intervenção, o ex-primeiro-ministro atacou o que chamou de políticos postiços, que segundo diz, tentam imitar os populistas, mas acabam por ficar, e agora vou ter de citar, como prostitutos sem caráter. Há aqui infâmia, Pedro?

Há infâmias. Eu começo só com a conversinha entre Passos Coelho e André Ventura à entrada. À frente das câmaras. Eu posso estar muito enganado, mas eu duvido muito que Passos Coelho tenha sido apanhado de surpresa com a presença de André Ventura naquela cerimónia. Se ele sabia que André Ventura ia lá estar, ele não preparou este momento de todo, ao contrário do que fez o líder do Chega, que tirou deste momento tudo aquilo que quis. Uma coisa é nós vermos André Ventura e termos visto André Ventura nos debates a dar a entender que Passos Coelho o apoia. Outra é vermos os dois lado a lado. Eu estava à espera de alguma distância mínima em qualquer coisa. Aquilo não é um encontro de cortesia. Ele não precisava de ser rude. Não precisava de ser mal-educado, não é nada disso. Mas sair daquilo com graça. Não era caso para deixar de ser político assim todo, podia ser uma bicada à proposta das formas antecipadas do Chega, podia ser outra coisa qualquer, mas estranho que ele não tenha noção do impacto que aquele momento iria ter. Estavam os microfones à frente, as câmaras a filmar. Eu acho que ele sabe o que é que iria sair dali e não preparou o melhor desfecho para ele, para aquilo que seria o seu interesse. A única discordância que se ouviu foi sobre o estado de espírito dos portugueses. Com André Ventura a dizer que estão desanimados face à lentidão das reformas do governo e Passos Coelho a insistir que estão impacientes. E na verdade, quem parece impaciente é Pedro Passos Coelho, neste momento, por não ver nenhum caminho evidente para regressar ao poder e mostrar como é que se faz. Eu acho que é fácil dizer que as reformas não estão a avançar com o ritmo desejado. Isso é aquilo que tem vindo a acontecer. O difícil é dizer exatamente como é que seria. Eu sei que ele já deu a entender que o governo devia aproveitar esta maioria de direita no Parlamento com o Chega. Mas parece-me que isso se enfrenta a uma enorme prostituição política, porque precisamente quem utilizou esta expressão foi André Ventura num debate com Luís Montenegro na campanha. Acusar o PSD de prostituição política e Luís Montenegro usou isso precisamente para lhe dizer que só com isso mostrava que não era uma pessoa de confiança. Então as pessoas foram a votos com base nessa premissa, de que eles não se iriam aliar, e logo a seguir às eleições passavam a uma aliança de facto. Acho que nenhum eleitor compreenderia isso, e isso se calhar tornar-se-ia mais compreensível chamar Luís Montenegro um prostituto político. O uso da expressão é completamente desnecessário. Eu sei que ele não chamou formalmente ao primeiro-ministro isto, mas qualquer pessoa que tenha ouvido, eu acho que é a leitura que tira daqui, não vejo outra, pelo menos é a leitura que ele permitiu que fosse tirada. Se ele quisesse outra, tinha a obrigação de o dizer com clareza. Eu acho que ele arrisca-se a que muita gente pergunte: ao namorar o líder do Chega publicamente, ao usar a linguagem do Chega e ao silenciar aquilo em que, em tese, ainda o afasta de André Ventura, está o próprio Passos Coelho a prostituir-se politicamente para cimentar um futuro apoio do Chega para quando for preciso? Eu acho que seria um exagero dizer isso. Não vou ser eu estar aqui a chamar prostitutos políticos às pessoas quando estou a criticá-las precisamente por chamar a prostitutos políticos. Mas também, da mesma forma, acho que é um excesso acusar o primeiro-ministro de prostituição política. Claro, não são em reformas, há muita coisa por fazer, muita coisa a criticar, mas parte do que leva Passos Coelho a denunciar prostitutos políticos tem a ver com aquilo que é governar sem maioria absoluta em 2026. E isso implica negociar apoio parlamentar com os outros partidos, implica dar grande atenção à conjuntura e às razões de queixa que vão surgindo. Passos tem falado como se não tivesse percebido que um dos seus problemas é uma aparente insensibilidade que demonstrou enquanto governante e também tem falado como se só conseguisse governar com uma maioria absoluta.

E isto serve de inspiração para uma ida ao pau.

Isto porque, por falar em prostituição política, não resististe a ir ver outros casos em que a expressão foi usada em Portugal. O que encontraste nesse baú?

Dois apontamentos muito rápidos antes de irmos a um caso mais intenso. Rafael Bordalo Pinheiro, criador do Zé Povinho, no jornal A Paródia, em 1901, satirizou as permanentes negociações secretas entre o chefe do governo, Henriques Ribeiro, e o líder da oposição, José Luciano de Castro, e acusou este último de ser uma engatadeira e uma solícita alcoviteira.

Engatadeira.

Engatadeira.

Foi muito além da prostituição política com estas imagens. Depois, muito mais tarde, em 1979, um deputado do PS, Jorge Nunes, acusou o governo de Mota Pinto de prostituição política por ter vendido armas à ditadura da Nicarágua, que foi derrubada pelos sandinistas. Mas isto não é nada comparado com o que aconteceu no Parlamento português no dia 19 de março de 1980, quando os deputados António Campos e Francisco Sousa Tavares se levantaram dos seus lugares, ameaçando-se mutuamente, é isto que está descrito na ata da Assembleia da República. Na verdade, iam-se engalfinhando, o que levou um deputado do Partido Socialista, um histórico, Raúl Rigo, a dizer uma expressão que eu não vou utilizar aqui, mas vou traduzi-la, dirigindo-se a Francisco Sousa Tavares: "Vá para a prostituta que o pariu." Isto suscitou um enorme bruá no Parlamento nesta altura. Já não estávamos no PREC. E todo o tempo que se seguiu foi passado a discutir isto, porque tiveram que interromper a sessão. Francisco Sousa Tavares chamou-lhe descarro. Foi por aqui por um enorme crescendo. O líder da bancada do Partido Socialista era Salgado Zenha, com quem Francisco Sousa Tavares tinha sido advogado também em comum de vários casos durante o PREC, e ali tiveram que se picar mutuamente. Francisco Sousa Tavares a recomendar ao líder da bancada parlamentar socialista que tivesse atenção aos bêbados que tinha na sua bancada. Mas acabou de forma cordial, apesar de tudo, e tudo isto começou por causa de uma discussão sobre os apoios a proprietários de terras que tinham sido concedidos no ano anterior, se eram todos da mesma família, se não eram. Um engalfinhamento épico.

Riqueza linguística ao serviço da política. Vamos ao esplendor.

E no esplendor, colocas o relatório do Presidente da República sobre o comboio de tempestades, mas havia alguma hipótese de isto ter corrido mal, António José Seguro?

Não havia. É Portugal, podia ter corrido muita coisa mal. Acho que isto era um momento crítico para vermos se o presidente ia ser fiel àquilo que prometeu em campanha, na sua forma de comunicação e na forma como iria ser consequente nas suas ações. De facto, todos vimos a presidência aberta, foi anunciado na altura que iria haver o relatório. O relatório foi rápido. Ainda não vi ninguém a discordar daquilo que está no relatório. Está bem, claro, se calhar sai uma série de banalidades, mas há uma força no facto de estarem escritas. E isto vincula o governo e vincula toda a gente a verificar se aquilo vai ser implementado ou não. É inevitável que tenhamos outras situações de crise, seja climática, sejam outras, muito em breve. Infelizmente, o país caminha para aí e vai ser cada vez menos aceitável verificar-se que não conseguimos reagir de forma coordenada a apoiar as pessoas no terreno de forma célere, a dar atenção, a envolver os meios militares no terreno com uma voz de comando clara. Eu creio que tudo isso será mais difícil depois deste relatório. Não é impossível, porque em Portugal nada é impossível, mas acho mais eficaz isto ter ficado escrito num relatório, em vez de ser umas declarações de circunstância todos os dias durante a própria presidência aberta, que se calhar teria sido o que teria feito Marcelo Rebelo de Sousa e não teria tido tanta eficácia. Lamento apenas que o relatório não esteja ainda disponível na íntegra. Nós sabemos excertos disto pela imprensa. Acho que é um aspeto que o Presidente da República ainda vai a tempo de corrigir.

E para a semana há mais Esplendor e Infâmia.

Ai, ya!