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Está tudo pronto para o lado bom da vida. Hoje falamos de filmes e para isso precisamos de quem tem sempre as melhores dicas para si, a Catarina Santos, editora coordenadora de multimédia do Observador. Olá, Catarina, bom dia.

Olá, bom dia.

E hoje propões um mergulho no baú do cinema português. Isto soa-nos muito bem, vamos a isto.

É um mergulho que a Cinemateca Portuguesa nos está a oferecer a partir desta semana no seu site gratuitamente. E o baú abriu-se com duas pérolas. Uma delas é: "Lisboa: Crónica Anecdotica", de José Leitão de Barros. O filme é de 1930 e é um retrato da vida cultural lisboeta do final dos anos 20. Mistura um estilo documental com episódios encenados e a versão disponível agora no site da Cinemateca foi restaurada e conta com o acompanhamento musical do piano de Filipe Raposo, gravado em 2017, que estamos a ouvir aqui em fundo.

E tem esse bônus então. Catarina, isto é certamente uma viagem, promete uma viagem a uma Lisboa muito diferente daquela que conhecemos hoje. Que cidade é esta que podemos ver e perceber pelo lente de Leitão de Barros?

É uma Lisboa que se exibe desde o nascer do dia até ao pôr do sol e que promete mostrar como se nascia, vivia e morria na capital naqueles finais dos anos 20. O filme começa por focar os nascimentos na Misericórdia e as crianças na escola e termina com velhos nos asilos a construírem os seus próprios caixões, num toque de humor negro que diria que estamos mais habituados a ver lá para terras de Sua Majestade. Pelo meio, vai mostrando sítios que desapareceram, como o Mercado da Praça da Figueira, as varinas, os ardinas que distribuíam os jornais acabados de imprimir ou a Praia da Cruz Quebrada, num tempo em que era bastante procurada. Nas cenas ficcionadas, Leitão de Barros recorreu aos atores populares da época, o que contribuiu muito para o sucesso do filme na altura. São rábulas, digamos assim, onde cabe Nascimento Fernandes a fazer de polícia sinaleiro trapalhão, que causa o caos no trânsito e que espirra para a mão a dada altura sem lenço, num gesto que hoje seria condenável. Temos ainda Vasco Santana a fazer de revisor do elétrico ou o Chaby Pinheiro a interpretar um inglês perdido na Feira da Ladra.

Isto promete. Catarina, mas há mais nesse baú da Cinemateca. Outra oferta disponível online esta semana é o clássico "Verdes Anos".

É verdade, e vale sempre a pena revisitar o filme de Paulo Rocha, que o descrevia como a história da iniciação de dois jovens provincianos nos problemas da cidade e do amor, e que João Benardo da Costa definia como a matriz e pedra angular do cinema português. Tem a guitarra inconfundível de Carlos Paredes e leva-nos também por uma Lisboa de outros tempos, dos anos 60, pela mão dos jovens atores Isabel Rute e Rui Gomes, uma empregada doméstica e um sapateiro vindos da província. Está disponível para ver ou rever numa versão restaurada em cinemateca.pt. E entretanto vão estrear outros filmes do catálogo. Para já, sabe-se apenas que entre as novidades da próxima semana estarão películas sobre o 25 de Abril.

Filmes agora para a época que se aproxima. E para além desses filmes, há mais cinema para ver neste site da Cinemateca?

Há mais cinema para um público diferente. Há uma iniciativa desenhada especificamente para o público infantil, que se chama a Cinemateca Júnior Vai a Casa. Lá dentro estão filmes de animação, comédia ou filmes de proezas, como estão descritos no site. Na secção de comédia há, por exemplo, um pequeno episódio de 1953 com Vasco Santana a descrever os vários tipos de analfabeto. Não sei se conseguimos ouvir uma pequena passagem.

Há vários tipos de analfabetos perfeitamente classificados: inconscientes, estúpidos, sorumbáticos, arrependidos, orgulhosos, tíbios, crónicos e não discriminados. Estes são os piores, os que têm orgulho da sua própria ignorância.

Temos aqui Vasco Santana na pele do conferencista José Vasco, que dissertava sobre os vexames que sofrem os ignorantes, relatando a sua própria experiência e indicando possibilidades de recuperação. Este e outros filmes da secção focam uma época em que o índice de analfabetismo era muito alto em Portugal e estes episódios eram campanhas para convencer os cidadãos a voltar à escola. Eram exibidos em salas de cinema e também em carrinhas com projetores portáteis que percorriam o país.

Tinham outra função nessa altura. Agora estamos a vê-las outra vez, não é?

Exatamente.

E estes filmes de proezas incluem que tipo de histórias, Catarina?

Vão, por exemplo, do naufrágio de um paquete na praia da Boa Nova, em Leça da Palmeira, em 1913, à escalada da Torre dos Clérigos, de Raul de Caldevila, que tem como título alternativo e muito mais poético, "Um chá nas nuvens". O filme retrata um episódio real, que aconteceu em 1917, de uns acrobatas galegos que treparam a Torre dos Clérigos, no Porto, para um anúncio a uma marca de bolachas. Cada um destes capítulos de filmes está acompanhado de fichas de atividades que explicam o contexto das imagens e que convidam, e passo a citar, a mergulhar no mundo dos avós, bisavós, trisavós e tetravós, e perceber que não vivemos sempre assim, que houve tempos sem internet, sem telemóveis, sem televisão, sem trânsito, sem pressa, sem poluição, quase sem carros, sem aviões, sem liberdade, sem democracia e sem sapatos.

Bem, que ótimas sugestões. Acho que ficamos todos convencidos e rendidos.

Sim, é um país a preto e branco, grande parte dele já não existe, já não está como o conhecemos agora, e a Cinemateca disponibiliza-o online para podermos rever nestes dias.

A jornalista do Observador, Catarina Santos, no lado bom da vida. Até para a semana, Catarina.

Até para a semana. Um bom dia.

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