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À quinta já sabe que falamos de filmes e quem nos traz as melhores sugestões é a editora de multimédia do Observador, Catarina Santos. Olá, Catarina, bom dia.
Olá, bom dia.
Vamos a isto?
Vamos a isto. Hoje vou começar por vos apresentar Frank Tassone, um professor modelo que se tornou supervisor do distrito escolar de Roslyn, em Long Island, nos Estados Unidos. O que aqui começamos a ouvir, em fundo, é a entrada triunfal de uma verdadeira estrela, por ter conseguido levar o liceu ao quarto lugar do ranking da região de Nova Iorque. É um excerto do início do filme "Bad Education", que está disponível na HBO e que coloca Hugh Jackman a dar vida a um profissional exemplar do sistema educativo. Todo ele transpira devoção ao trabalho e motivação, e empenha-se em passar essa energia a cada aluno e a cada pai que o aborda com dúvidas e dificuldades. É admirado pelos estudantes, louvado pelos pais, é o educador perfeito. Só que afinal não.
Pois. Sempre parecido com a tua história, não é?
Bota água fria logo assim.
É, já começava a suar. Bom demais para ser verdade. Quem é que é afinal este supervisor escolar, aparentemente exemplar?
É nada mais, nada menos que o protagonista da maior fraude escolar nos Estados Unidos. O filme de Cory Finley é inspirado numa história real, que aconteceu em 2002, e que foi reportada em vários jornais, que dois anos depois mereceu uma reportagem mais profunda na New York Magazine, mas que não teria sido conhecida sem este pormenor. Vamos ouvir.
"It's just a puff piece. You save the real stories for seniors. Rachel, it's only a puff piece if you let it be a puff piece. All right? A real journalist can turn any assignment into a story."
Esta que ouvimos é Rachel a falar com o senhor supervisor fantástico. Rachel trabalha no jornal da escola e estava a ouvir incentivos. Frank estava a explicar-lhe que depende dela transformar um artigo corriqueiro e sem importância numa grande história. Para azar do supervisor, Rachel fez precisamente isso. O que deveria ser uma pequena peça sobre a construção de um passadiço que iria unir todas as escolas do agrupamento, transformou-se numa investigação que começou a ligar pontas soltas de grandes despesas pagas com o cartão de crédito da escola para proveito pessoal de Frank e da sua assistente.
Pois, e feitas as contas, estamos a falar de uma fraude de que dimensão?
Ao longo dos anos, Frank Tassone lesou a escola em mais de US$ 20 milhões. Uma nota de curiosidade: é uma quantia muito próxima daquela que a HBO investiu para obter os direitos globais do filme. No caso de Frank Tassone, era dinheiro dos contribuintes que acabou a pagar mansões, viagens de luxo e a beneficiar familiares seus e da sua assistente. Esta assistente, interpretada por Allison Janney, foi a primeira a ser descoberta pela direção da escola e o supervisor Frank Tassone conseguiu habilmente fazer com que se despedisse discretamente e conseguiu também convencer a direção da escola de que seria pior revelar publicamente os seus desvios pela má imagem que daria à escola. E acabou esse dia, mais uma vez, com palmadas nas costas, mas era uma questão de tempo. Quando Frank cai, cai com estrondo e sem volta.
Catarina, esta é a sensação de que não se trata de uma personagem simples, parece um daqueles papéis com várias camadas, não é?
É mesmo. Frank é uma daquelas personagens que efetivamente levam muito a sério o serviço público que prestam, e são excelentes nessa missão, mas que em simultâneo defraudam as mesmas pessoas que servem. E consegue pelo caminho convencer-se de que não está a fazer nada de grave, comparando com todo o bem que conseguiu para o agrupamento. O realizador, Cory Finley, conta que estava especialmente interessado em retratar esta duplicidade. Alguém que leva tão longe a missão de ser a face perfeita das escolas, que acaba a enganar-se a si mesmo. Frank faz plásticas, gasta milhares de dólares em serviços de lavandaria para ter os seus fatos sempre impecáveis, tudo isto pago pela escola, e é, de facto, durante mais de 10 anos, o retrato aparente do educador perfeito. O argumento é de, mais uma curiosidade, é de Mike Makowsky, que era estudante em Roslyn em 2002, quando o escândalo rebentou. O realizador serve-se até de subtilezas da filmagem para mostrar estas duas faces da personagem. Enquanto Frank está em alta, nós vemos a câmera a enquadrá-lo de costas, projetando uma silhueta majestosa e poderosa, que caminha à nossa frente. Mas quando cai o pano e se revela a outra face de Frank, a câmera segue à sua frente, focando o rosto, a guiá-lo e a mostrar um homem muito mais frágil.
Catarina, isto sobretudo baseado em factos reais, como se diz, torna tudo muito mais interessante. Qual dirias que era o estado de espírito adequado para ver este filme? É um filme para relaxarmos ao fim de semana ou vamos ficar tão perturbados que é melhor prepararmo-nos para isto?
Acho que não, não há esse risco. A HBO coloca Bad Education nas categorias de drama e comédia, porque sim, ele tem uns pozinhos de comédia bem espalhados, e apesar de retratar este escândalo grave e verídico, o filme não tem uma narrativa pesada de maneira nenhuma. É, digamos, um entretenimento do fim de semana de sofá perfeitamente eficaz. E se quiserem ler mais sobre o filme, há uma crítica do Eurico de Barros no site do Observador.
Bad Education para ver na HBO, a sugestão da jornalista e editora de multimédia do Observador, Catarina Santos, no "Lado Bom da Vida". Até para a semana, Catarina.
Até para a semana. Um bom dia.
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