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Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio também em 98.7, na Grande Lisboa, e 98.4, no Grande Porto. E como é hábito, à segunda-feira falamos de música e quem melhor para lhe sugerir boas escolhas do que o jornalista da seção de cultura do Observador, Gonçalo Correia. Bom dia, Gonçalo.
Bom dia. Sinto-me sempre lisonjeado, Maria João, com as tuas apresentações.
Nós é que sentimos por te ter aqui. Vamos a isto?
Vamos.
Queres começar por quem? Por Halloween?
Sim, acho que é a notícia dos últimos dias. Acho que foi a notícia do último fim de semana. Estamos a ouvir esta voz cavernosa já aqui em fundo. O Alan Halloween, pra quem não souber, é um rapper. Rapper e cantor, mais rapper que cantor, na verdade. Anunciou este fim de semana que iria deixar a música pra se dedicar à religião. Acho que houve um abalo sísmico entre todos os fãs dele.
É normal. Rapper, religião, ficamos sempre assim.
É verdade.
O que ele quer dizer com isto?
É verdade. Ele é testemunha de Jeová. Há alguns anos que vinha ameaçando, de certo modo, dizendo que idealmente um dia deixaria a música para se dedicar mais tempo aos ensinamentos de Jeová e tentar passar um bocadinho mais desse credo. Agora, pelos vistos, anunciou que está consumado e que é a altura de se dedicar.
E o que é que fazia dele um músico especial ou a música dele? O que é que a música tinha de especial?
Quando ele apareceu nos anos 2000, o primeiro disco dele é de 2006, chama-se Projeto Mary Weeds. O hip-hop era muito diferente do que é hoje. Não era uma coisa tão popular, era uma coisa mais de nicho, mas ainda assim já começava a ser muito ouvida aqui em Portugal. E já tinham aparecido muitos rappers a falar de questões como da vida nas ruas, nos bairros sociais, nas periferias e em tudo isso. Pensar, por exemplo, no General Lee, nos Chullage, que apareceram antes do Alan Halloween. Mas o som que o Halloween traz, aquilo era uma coisa que Portugal nunca tinha ouvido. Quer dizer, falar da pobreza, da miséria, das drogas, do crime, da violência, que eram os temas que ele narrava, porque era aquilo que ele assistiu enquanto cresceu.
Sim, foi isso que marcou na altura, não é?
Sim, aquilo chocava. Não havia filtro nenhum, não havia polimento, a linguagem era muito crua.
Muito dura, até. Era a realidade.
Sim, mas com um léxico muito próprio. Acho que muita gente terá descoberto o que é que acontecia nesse submundo nas periferias de Lisboa, nos bairros sociais à volta da capital, através, por exemplo, de filmes como o Zona J, mas também através da música do Halloween, porque até aqui nunca se tinha ouvido alguém com esta voz rouca a contar tudo aquilo que era prática diária numa rua.
Mas que era desconhecida pra grande parte das pessoas.
Que era desconhecida.
Abriu uma porta.
Abriu uma porta completamente. E sobretudo a forma como ele descrevia bairros sociais que eram guetos dos quais as pessoas nunca saíam e aos quais estavam destinadas pro resto da vida. Quer dizer, quem crescesse num gueto parecia que estava condenado a nunca sair dali. Aquilo era uma espécie de cosmos, universo em que se movia e o Halloween conta muitas histórias. Eu acho que ele é, sobretudo, um cronista. Mais do que um rapper, vai nos contando personagens, vidas, que hão de ser retiradas de pessoas reais que ele conheceu ali, pessoas marginais, criminosos, pessoas com vícios, e vai nos contando um bocadinho isso. Acho que foi um artista que marcou muito a música portuguesa, sobretudo com dois discos depois desse primeiro, o "Árvore Criminal" de 2011 e o "Híbrido" de 2015, que é o disco do qual faz parte este tema que estamos aqui a ouvir. Acho que são dois discos absolutamente essenciais na música portuguesa. É uma pena, mas eu percebo a decisão de se dedicar mais à religião.
Olha, e mudando de assunto, o ano está a chegar ao fim, vieste também fazer uma espécie de antevisão breve dos concertos que vamos ter em 2020. É isso, Gonçalo?
É isso, exatamente. Penso que durante o dia de hoje, se não hoje, o mais tardar amanhã, no site do Observador, um guia com os concertos para o verão.
E são tantos, não é?
São muitos.
É impressionante. Já convém ter aqui uma agenda com as datas todas.
É uma lista infindável, eu penso que terá mais de 10 mil caracteres, mas veremos, confirmaremos isso depois.
Que bandas é que queres destacar?
Começando pelo primeiro trimestre do ano de 2020, vamos ter gente a começar digressões pelo país, por exemplo, o Manuel Cruz, os Capitão Fausto e a Carminho vão andar em várias cidades, um pouco do norte a sul, vão andar a correr as capelinhas todas. Mas também vamos ter concertos internacionais, vamos ter, obviamente, a Madonna, que vai dar oito concertos no Coliseu dos Recreios em Lisboa.
Quando é que foi a última vez que um artista deu oito concertos?
É estranhíssimo. Eu acho que havia aqui uma ideia da Madonna de apresentar este último álbum, que é um álbum muito inspirado na sonoridade de Lisboa. Estamos aqui a ouvir a batuca que foi gravada com as batucadeiras de Cabo Verde, que ela conheceu aqui. Mas apresentar em salas, por exemplo, ela podia ir à Altice Arena, o antigo Pavilhão Atlântico, é a maior sala do país, mas ela quis ir pro Coliseu dos Recreios e um pouco em todo lado. Preferiu fazer mais concertos em salas mais pequenas.
Mais emblemáticas também, mais íntimas.
Mais íntimas, com mais história. Se bem que ela já cancelou concertos nos Estados Unidos por questões de saúde e por precisar descansar. Vamos ver se conseguirá fazer os oito concertos cá. Mas vamos ter também, nos primeiros meses do ano, a Angel Olsen, por exemplo, o Patrick Watson, o Deftendra Barnhart e os Dive, em Lisboa e no Porto. Vamos ter os Tindersticks, a banda com cinco concertos que vão um pouco Também pelo país, uma mini digressão que vai do Porto ao Algarve.
Que também já é um clássico em Portugal.
Que também já é um clássico. Eles estão muito presentes e os Metronomy, que vão estar no Coliseu dos Recreios também no primeiro trimestre do ano. Além de outras coisas nacionais, teremos, por exemplo, o rapper Plutónio no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, e no Art Club, no Porto, e o Salvador Sobral a cantar Jacques Brel.
A sério?
É verdade. Ele tem em Lisboa, no Porto e em Aveiro, no início de fevereiro. Com interpretações desse grande mestre da canção francófona. Depois, no segundo trimestre do ano, temos o festival Ai Di No Limits, no Estoril, em abril. Temos nomes como o Slow J, o Kainé e a Kelsey Lu, que fazem parte dos já anunciados por este festival. Vamos ter, em abril também, os Bon Iver e, obviamente, o grande Nick Cave, que estamos a ouvir aqui.
Estava à espera pela deixa.
É sempre maravilhoso.
É sempre maravilhoso. Faltou-me no meu sapatinho de Natal. Não me arrependo desta.
Eu percebo, eu senti o mesmo. Ele vai apresentar este disco novo, do qual estamos a ouvir aqui um tema, o "Ghosteen", que foi considerado quase unanimemente um dos grandes discos deste ano de 2019, na Altice Arena, em Lisboa, em abril. Vamos ter também a Maira Andrade nos Coliseus de Lisboa e Porto, ainda em abril, e depois em maio, por exemplo, os Guns N' Roses.
Sim, voltam.
Que voltam. E o Harry Styles, antigo membro dos One Direction, que também vai dar um concerto.
Portanto, há de tudo e para todos os gostos e todas as idades, gerações.
É um menu completo de Nick Cave a Harry Styles. E teremos em junho também, depois no verão, o Primavera Sound, que pra já tem apenas os Pavement anunciados, o regresso dos Pavement aos concertos, e o Rock in Rio com os Foo Fighters e a Camila Cabello, por exemplo, já anunciados.
Promete ser mais uma grande edição. Portanto, Gonçalo, o artigo sai quando no Observador? Pra sabermos disso tudo e mais algumas. Ainda este ano.
Ainda este ano, garantidamente até esta terça-feira, mas provavelmente ainda durante esta segunda-feira deverá sair. E só pra terminar, teremos também ainda no verão o John Legend no CoolJazz.
Xi, que maravilha!
Os Aerosmith e os Kiss, os Iron Maiden no Estádio Nacional, em Oeiras. Vamos ter depois, na rota dos festivais, um Nos Alive que se está a compor com o Kendrick Lamar, com a Billie Eilish, com os The Weasel, com a Taylor Swift e com o Anderson Paak, por exemplo. Vamos ter um Sudoeste com o Bad Bunny, pros fãs de reggaeton também terem o seu espaço. Vamos ter, no Festival de Paredes de Coura, nomes como os Idles, os Bad Bad Not Good e o Mac DeMarco. E a fechar agosto, que este artigo será sobretudo sobre os concertos até agosto, depois voltaremos pra rentrée, teremos uma jovem prodígio chamada Tess Sultana, que se apresentou, estreou em Portugal, num palco muito pequeno do Festival Nos Alive, ainda este verão, em 2019, e salta desse palco para um concerto no Coliseu dos Recreios, o que mostra bem que não sei sequer se a organização estava preparada pra quantidade de gente. É um daqueles fenômenos da internet, vão aparecendo alguns, que nós nunca percebemos bem que dimensão é que têm, até vermos que de fato há muita gente a segui-los.
Até que se põem bilhetes à venda.
É isso mesmo. Tem acontecido muito. E bom, temos assim um menu, pelo menos até janeiro, agosto, tá um pouquinho de tudo.
Eu diria que 365 dias não chegavam, porque você está a dizer que é só até aos primeiros oito meses do ano.
É verdade.
As sugestões do Gonçalo Correia, jornalista do Observador, pra começar o ano com boa música. Na quinta falamos de estreias no cinema. Até já, Gonçalo. Obrigada.
Obrigado.