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Vila Museu do Baixo Alentejo, junto ao rio Guadiana, testemunha da ocupação islâmica e romana, Santuário Ibérico da Perdiz. É uma terra milenar que Miguel Sousa Tavares visita há 20 anos e onde já criou hábitos e rotinas. Miguel Sousa Tavares, onde fica o seu Portugal secreto?

O meu Portugal secreto não é no verão, é no outono, fica em Mértola, que é uma terra onde eu costumo ir caçar perdizes, o Santuário da Perdiz Ibérica, como a gente diz. É uma terra lindíssima, é uma terra romana e árabe. E eu costumo ir pra lá às vezes, ao fim de semana, à sexta-feira, pra caçar no sábado. Por vezes fico pra dormir domingo. E é o meu Portugal secreto por razões extraordinárias, porque é uma terra muito bonita, porque já tenho restaurante onde como, já tenho um hotelzinho onde fico e porque no hotel já tenho o quarto onde eu gosto de ficar virado pro rio Guadiana e virado pro castelo. E porque já tenho os meus rituais, já sei de cor o pequeno-almoço do hotel, já sei o percurso e depois conheço o campo ali à roda, onde vamos caçar de manhã cedo. É uma coisa que me dá um grande conforto e uma grande segurança de encontrar os lugares que nos são secretos e que nos são reservados. E eu acho que uma das coisas boas nos lugares que chamamos secretos é essa segurança, que é de saber que de ano pra ano e de visita pra visita, eles continuam lá, secretos pra nós.

Há quantos anos vai para Mértola caçar, Miguel?

Há uns 20, pelo menos. Uns 20 anos. Sim, há 20, tantos quantos tenho de caçador.

E é um sítio que tem permanecido imutável?

Por acaso, tem. Por acaso é dos raros sítios de Portugal que tem permanecido imutável. Tem visitantes, não turistas, mas sim visitantes, que é uma coisa muito diferente e muito melhor. Portugueses e estrangeiros são pessoas que vão em busca da história, porque Mértola tem muitíssima história, que está bem tratada, vão em busca da paisagem, vão em busca da gastronomia, vão em busca de coisas completamente diferentes daquilo que é o turismo em massas. E por isso eu chamo-lhes visitantes muito mais do que turistas, porque são pessoas que não estão lá só pra fazer número, nem para ir atrás dos clichês normais, mas estão lá, de facto. Há muitos que vão na época da caça, como eu, há outros que vão passear de bicicleta, fazer passeios a pé, fazer passeios da natureza. Mértola tem aliás muitos projetos de biodiversidade que ligam quer a sustentabilidade através da água, com a agricultura mediterrânica, com a própria caça. Tem gente a estudar lá nesse aspecto, a fazer projetos muitíssimo interessantes. E, portanto, eu acho que as pessoas que vão lá e que conhecem um bocadinho da história de Mértola, são visitantes muito informados, muito interessados naquilo que vão ver e cultos. É o tipo de visitante que uma terra como Mértola gosta e precisa.

Miguel, Mértola no outono, que importância que tem o lugar e a estação na sua vida?

É um reencontro. Eu vou lhe dizer o seguinte: eu antes de ser caçador, quando acabava o verão, eu só me apetecia suicidar.

Então!

Porque pra mim o verão é como dizia o Rilke, que tinha uma frase que dizia: "Só o verão é que vale a pena". E eu também achava, e quando acabava o verão, eu só tinha vontade de me suicidar, a pensar que vinha aí o outono, o inverno e tudo. E depois, muito tarde na minha vida, tornei-me caçador e então descobri que o verão não era o fim de tudo, que a seguir havia a caça e havia o outono. E o outono é, sobretudo, a descoberta do campo. Assim como o verão é a descoberta do mar, o outono é a descoberta do campo. Devo tudo isso quase à caça. E Mértola, pra mim, é o apogeu da caça, porque é o sítio onde, de facto, se caça a perdiz ibérica, que pros caçadores que gostam de caçar tiro ao voo como eu, e que gostam de comer perdiz, sabem que isto é quase um santuário. Em Espanha, praticamente já não há perdiz selvagem. E em toda a Península Ibérica, Mértola é o santuário dela. Mas pra além disso, o outono ali no Alentejo, naquele Alentejo, na margem esquerda do Guadiana, é uma coisa extraordinária, porque primeiro a gente vai muito cedo pro campo. O cheiro a esteve é uma coisa extraordinária, magnífico. A terra está seca, mas ainda não está completamente seca, porque o verão ainda não foi há muito tempo. As cores são absolutamente magníficas. Às vezes há dias de sol, outras vezes não há. Há frio, mas ainda não há frio demais. As cores são de final de verão, de princípio de inverno. Há uma imagem que eu tenho retido uma vez que pra mim é quase transcendente. Eu tinha acabado de chegar ao campo, ia à procura de uma posição para caçar e, de repente, a lua estava a desaparecer, era uma lua cheia, o sol estava a nascer. E de repente eu vejo um alto com cabeça recortado contra a lua que estava a desaparecer. Um veado, parado. Uma coisa absolutamente transcendente. Quer dizer, aquilo que eu pensei: "Isto é uma visão incrível". Era como se o veado tivesse a dar os bons dias ao mundo, ao novo dia que estava a nascer, e ao sol que nascia, e eu do lado da lua Encontracampo com a Lua. Era uma imagem absolutamente incrível, daquelas que, de facto, é preciso ter ido ali para ver aquilo. E tenho muitíssimas imagens dessas. Eu tenho uma frase que, aliás, cito num livro meu. Uma vez estava a caçar em Mértola. Tinha acabado a caçada e eu estava sentado numa pedra a descansar, num sítio onde o rio Adiana encontra o rio Vascão, que é um afluente e que são uns penhascos enormes cá para baixo. E a paisagem era lindíssima. Eu estava ali sentado e passou um pastor. Aquilo era um sítio onde era suposto nem sequer passar ninguém, passou um pastor. Ele viu-me de tal maneira absorto na paisagem que disse esta frase que eu achei deslumbrante. Disse assim: "A terra é do dono, mas a paisagem é de quem a sabe olhar".

Fantástico.

Eu achei uma frase linda, tanto que a pus no livro.

E são paisagens que o inspiram, por exemplo, a escrever. Posso estar enganado, mas acho que nunca vi descrito nos seus livros referências a Mértola e sobretudo a esta época do outono.

Mértola especificamente, talvez não. Mas essa frase que eu acabei de dizer entra num livro meu, por acaso. Há dois livros meus, pelo menos, que têm cenas de caça que eu aprendi ali. "O Equador" tem alguma cena de caça com o Dom Carlos, que é passado na Mata Real de Vila Viçosa. Mértola especificamente não, com esse nome não. Agora, há muita coisa que eu aprendi, não só na caça, mas sobretudo graças à caça, na natureza e em relação ao campo.

Por exemplo?

Por exemplo, os animais, os sons que a natureza fazem, os sons que os animais fazem. Por exemplo, distinguir se o verão foi seco demais, se não foi, se há rios a correr, se não há, se já começou a chover, se não há. Por exemplo, quando já choveu, quando os riachos têm água, é uma coisa completamente diferente, muito mais bonita, muito mais emocionante, que é um sinal de vida, do que quando está tudo seco. Às vezes chegamos a dezembro e a janeiro e ainda não choveu e aquilo tem um ar quase de tragédia. Outras vezes, quando chove em novembro, como deve ser, como é ideal, os ribeiros estão cheios de água, a água corre por ali, é um sinal de vida fantástico. É mesmo a sensação de que vai haver outro ano, o mundo não vai acabar este ano, a natureza não vai acabar este ano, os animais não vão morrer de sede, as plantas não vão morrer de sede. E isso é a ideia da continuidade das coisas. E tem um pouquinho que ver com o tal sítio secreto ou tais lugares secretos e reservados de que nós falamos neste programa.

Miguel falou no início do facto de ir para Mértola já há muitos anos, há quase 20 anos ou há cerca de 20 anos, e que já tinha até lugares, sítios onde ia comer. Não lhe vou pedir para revelar onde é que costuma ir comer.

Onde é que dorme.

Nem onde é que dorme. Mas se nos pode dar alguns conselhos da boa gastronomia alentejana e da boa gastronomia de Mértola. O que é que aprecia?

Sopa de tomate. Sopa de tomate é um "must" local. A sopa de tomate para mim é fantástico. O cozido à graça é fantástico. Sopa de beldroegas para mim é uma coisa inacreditável. Eu acho que a beldroega, que é um vegetal selvagem, é absolutamente deslumbrante, fabuloso. O borrego, quando é muito bem feito, bem assado, para mim também é fabuloso. E depois há uma coisa que não é tanto daquela região, mas que é uma comida alentejana, que a mim me fez ficar fascinado pelo Alentejo, que é os pézinhos de porco de coentrada, para quem gosta. Há quem não goste, eu adoro. Acho absolutamente incrível. Não imagino haver em algum lugar do mundo. Uma vez estava a tentar explicar a um amigo meu americano o que eram pézinhos de porco de coentrada e ele olhava para mim como se eu fosse louco. Há outra coisa que eu adoro, que a gente come muito na caça, como entrada, que é fígados de porco, meio bem descabechos. Eu não sei como é que há que chamar aquilo. São fritos e são passados por azeite, por vinagre e por ervas, que eu gosto muito, que a gente come no taco. O taco é uma espécie de refeição, para quem não sabe, que os caçadores comem entre o pequeno-almoço, que é cedíssimo, e o almoço, que é tardíssimo. E então há ali uma altura em que a gente está cheio de fome, por volta das 11h, do meio-dia, em que se para e senta-se e a gente come coisas frias, normalmente queijo, presunto, às vezes chouriço, etc. Chama-se a isso o taco. E uma das coisas que costuma entrar em Mértola, justamente, é esse fígado de porco, que eu adoro.

Estamos a desvendar o Portugal secreto de Miguel Sousa Tavares. Miguel, tem algum hábito ou algum ritual de verão que não prescinde de realizar durante as férias?

Tenho vários. O primeiro é o primeiro mergulho que eu dou no verão, o primeiríssimo de todos. Eu costumo dizer uma frase, que era uma frase do Luís de Sttau Monteiro, que era muito usada dantes no "Diário de Lisboa", que é: "Agarra o verão, Guida". Não sei porquê.

Agarra o verão?

Guida.

Guida.

Que era uma frase dele que o "Diário de Lisboa" depois tinha uma secção que era o "Diário de Lisboa Jovem", do Dias Gomes, que já morreu. E chamavam a essa secção: "Agarra o verão, Guida". E eu não sei porquê, fiquei com essa frase na cabeça. E o primeiro mergulho que eu dou no verão, ainda vou no mar e digo: "Agarra o verão, Guida, agarra o verão". Esse é o meu primeiro ritual. E costumo dizer aos meus filhos: no dia que me virem entrar na água sem ser de mergulho de cabeça, eu estou pronto para o lar, para me internarem no lar.

E que outros rituais tem que queira partilhar connosco?

Rituais, não tenho. Tenho hábitos daqueles bons. Acho que o hábito que eu mais gosto é ir ao mercado de peixe todas as manhãs ou quase todas as manhãs. Eu não compro peixe no supermercado no verão. Vou mesmo ao mercado de peixe e acho que sou um bom conhecedor de peixe. E faço o ciclo completo. Se tiver a ocasião, pesco, se não tiver, vou ao mercado, amanho o peixe, cozinho o peixe e como o peixe. É o ciclo completo.

Muito bem. O Portugal secreto de Miguel Sousa Tavares. Mértola, no Alentejo. Obrigado, Miguel, e boas férias.

Obrigado.