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E já cá temos conosco a Ana Garcia Martins para a edição desta semana de "O Que é Que Sucede?".

Olá, como vai?

Ana Garcia Martins, num sábado juntos.

É verdade. Sinto que estamos aqui a criar uma bonita amizade.

Sim, e um belo programa de sábado.

Isso é sempre, estejas tu ou não.

E como é que andam as redes?

Olha, as redes andam animadas, andam agitadas. Tem sido uma semana profícua em acontecimentos.

"Profícua" é uma boa palavra.

Não é?

É.

E usa-se pouco, está a cair em desuso. Portanto, vim eu para recuperar o "profícua".

Obrigado por isso.

Pronto, só estou cá para isto. Vamos começar por uma coisinha com o nosso presidente Marcelo, que se viu metido em mais uma polémica. O senhor não tem tido descanso, tem sido um desassossego.

Até tem falado menos.

Fala menos.

Mas mesmo assim.

Ele não fala, mas vai fazendo. O problema é esse, vai fazendo pela calada e essa é que é a grande chatice. É que ele poderia falar e está sossegadito.

O que foi agora?

Olha, o que foi agora? Ainda não resolvemos o caso das gêmeas e já temos novamente Marcelo a enervar pessoas. Então, o que é que sucedeu desta vez? Sucedeu uma condecoração meio à socapa feita ao Marechal António de Spínola. Isto aconteceu em julho do ano passado, já há quase um ano, e trata-se do Grande Colar da Ordem da Liberdade, que é a mais alta insígnia da Liberdade.

É bonito.

É muito bonito, é uma joia que vai muito bem. E que neste caso em específico, foi um título recebido postumamente. Eu sei que passo a vida aqui a indignar-me com coisas, mas eu vejo-me obrigada a isso. Porque eu sinto que eu também podia ter sido agraciada com um grande colar.

Não postumamente, ainda.

Preferencialmente. Um grande colar ou uns grandes brincos. Quem diz um grande colar, diz uns grandes brincos, uns sapatos de qualidade, mas não, é tudo para os outros e eu sempre a vê-los passar. Vários problemas com esta condecoração a António de Spínola. Para começo de conversa, não é uma figura particularmente consensual. Agora vamos ter aqui um momento Wikipedia. Spínola foi o primeiro presidente da República indicado pelo Movimento das Forças Armadas. Demitiu-se poucos meses depois do 25 de Abril.

Ninguém aguentava muito tempo nessa altura.

Ninguém aguentava muito tempo. E ele acabou mesmo por abandonar o nosso Portugal, depois de uma tentativa falhada de golpe de Estado em março de 1975. Em 2022, já se tinha falado do nome de António de Spínola para receber a Ordem da Liberdade, mas na altura várias personalidades, entre as quais Francisco Louçã ou Fernando Rosas, juntaram-se numa carta aberta para impedir esta condecoração. Acabou mesmo por acontecer, em 2023. Incluiu também o Marechal Francisco Costa Gomes. E o que está a gerar mais comichão é o facto de ter sido uma coisa meio às escondidas. Não foi escondidas, uma cave escura às 04:00, mas também não foi uma coisa com pompa e circunstância.

Com o Popas, o César.

Nem o Popas esteve presente. Não foi assim um evento-

Mas isso já foi o ano passado.

Já foi o ano passado.

Por que lembraram-se agora disso?

Depois, não houve um croquete. Só agora é que se descobriu. O jornal Público, que foi quem avançou com a notícia, diz que a Presidência da República nunca fez nenhuma referência pública a este acontecimento, o que reforça a tal tese de a condecoração ter sido feita na clandestinidade. E só mesmo pesquisando a página das ordens honoríficas portuguesas, se quiseres saber, se foste condecorado.

Já lá fui uma vez.

Se calhar foste e não sabes, também foi à socapa e não sabes. Só em "likes" se consegue encontrar qualquer coisita sobre o tema. Por que isto foi feito assim? Diz o Público que isto pode ter sido interpretado como uma forma do presidente evitar uma polémica pública. O objetivo não foi conseguido, porque o tema não só se tornou público, como está a ser alvo de muitas críticas, nomeadamente nas redes sociais. Comentários. Alguém que diz: "Isto está em linha com o caso das gêmeas. O Marcelo gosta de jogar à apanhada e pensa que o governo é o último a ser apanhado e que a justiça salva todos". Lembras do salva-todos?

Não.

Era quando chegavas a um sítio, era o coito. Ias para o coito a correr.

Não, o que é isso?

Não sei, que salva todos.

Isso era uma brincadeira de crianças?

Era às apanhadas, então isto é uma analogia com a apanhada.

Não sabia. Não apanhei. Na minha terra não se brincava dessa maneira.

Não se brincava.

Era mais com substâncias.

Alguém que diz também, que eu gostei deste: "E depois digam lá que não vivemos mesmo no absurdistão".

Olha que giro. Nunca tinha ouvido.

Absurdistão.

Já tinhas ouvido?

Não, nunca tinha ouvido e vou adotar como se fosse meu.

Vamos adotar, acho que sim.

Como se fosse meu, a partir de agora.

Vamos tentar dar uma força a essa palavra.

E por fim-

Quem sabe não é a palavra do ano.

Absurdistão. Adoro. E dá para decorar para muitos países, não se aplica só a nós, atenção. É muito bom para Portugal, mas isto não pensem que é só para nós. E por fim, este comentário que diz: "O presidente que não nos poupa sobre qual o sabor do gelado que mais gosta, que fala a toda hora sobre tudo, que comenta tudo e um par de botas, condecorou António de Spínola em secretismo. O cargo de presidente não é seu, está de passagem, é do povo, não pode haver secretismo."

Adoro essa toada de certos comentários que são tipo: "Eu estou aqui para fazer pagar isso".

E que falam mesmo com a pessoa e acham mesmo que a pessoa em causa vai ler, neste caso, que Marcelo estará-- mas eu gosto de acreditar que há um momento na vida destas pessoas em que alguém lhes faz uma súmula. E todos os dias têm que ler uma hora de comentários das redes.

Casa da Presidência, se calhar.

Vamos aqui sentar, senhor presidente, vir ao jantar e vai ter que passar uma hora a ouvir comentários.

Mas já se sabe que Marcelo também não ouve muita gente, pelo que se sabe. Até o seu staff é relativamente curto.

Mudando de cena, quem também saltou para a ribalta e também não foi assim por os motivos mais-

Saltar para a ribalta também gosto.

Gostas?

Gosto, também gosto.

Mas este és um bocado old school.

É um bocadinho.

Aqui 1993. Mas eu também sou uma pessoa idosa.

É da família do abanar o capacete.

Perdi-se a rir. Queres usar outra expressão? Não estás à espera?

Não, vamos essa, eu gosto dessa. Super bem.

Então quem também esteve debaixo dos holofotes é igual.

Vamos estar de ribalta.

E que não foi assim pelos motivos mais incríveis, foi Pedro Passos Coelho. O nosso ex-primeiro-ministro, que tem andado particularmente ativo, apresentou o livro "Identidade e Família: entre a consciência da tradição e as exigências da modernidade".

Vais comprar?

Só pelo título, a pessoa já começa com o olho a tremer do camadão de nervos. E, por outro lado, boceja, porque este título é grande como o caraças. Esta magnífica obra reúne textos de várias personalidades nacionais, por exemplo, Manuela Ramalho Eanes, Jaime Nogueira Pinto, João César das Neves ou o Cardeal Manuel Clemente e versa, mais uma boa palavra, passo a citar, "sobre a importância de um pilar central da vida em sociedade: a família". Nós temos textos/críticas sobre a homossexualidade, ideologia de género, divórcio, papel da mulher. Ideias que Bagão Félix, um dos coordenadores desta grande obra, considera valores claramente de esquerda, acrescentando que alguns deles, de facto, vão contra a ideia estável da família.

Uma vez Bagão Félix disse-me que não é Félix. Dito pelo próprio.

Félix.

Sim.

Félix, não é?

O João pode ser Félix, eu sou Félix. Não sei.

Pronto. Jamais em tempo algum voltarei a repetir este erro. Peço imensa desculpa a António Bagão Félix.

Félix, sim.

Ou Feliz.

Dito pelo próprio.

Pelo próprio.

Ele é um ótimo agricultor, não é? Outro dia vi umas reportagens, ele é agricultor, tem umas plantações, uns tratores.

Faz tudo sentido. Neste contexto, faz tudo sentido. Na apresentação do livro, Pedro Passos Coelho achou por bem dizer: "Uma coisa são os autores, outra são as pessoas que fazem a apresentação." Mas para que ninguém pudesse ficar com algum tipo de dúvida sobre o seu posicionamento em relação a estes assuntos, disse também: "Eu posso dizer que li o livro e que me revejo em muitas das perspectivas que aqui estão, embora sejam muito diversas." Fomos todos apanhados de surpresa com isto. Na plateia, várias figuras conhecidas, entre as quais André Ventura, que dizem as más línguas, que sou eu, neste caso, tratou de comprar vários exemplares para distribuir na Assembleia da República, sempre aquelas horas mais mortiças, em que não têm nada para fazer. Podem ler.

Sempre põem os senhores deputados a ler qualquer coisa, também. Eles agora são 50.

Mas ele vai distribuir por todos os quadrantes, vai dar para toda a gente. Comentários nas redes. Temos, por exemplo: "Moço!" Adoro.

Moço?

Moço.

Mas a falar para Passos Coelho?

A falar para Passos Coelho. Deve ser um algarvio, não é? Esta expressão, moço, usa-se muito no Algarve. "Regressa à tua insignificância. Inimigo da família é o salário baixo, as horas excessivas de trabalho, o cansaço, maus transportes públicos, pouco investimento no SNS. Noção." Temos também: "Eu tinha alguma consideração por Pedro Passos Coelho, porque apesar de tudo, liderou o país numa situação terrível de falta de soberania. Depois de ver isto, perdi a consideração que tinha, porque isto é a agenda do Chega."

Gostava, mas agora já não gosta.

Agora já não gosta. E por fim, temos também: "A saúde mental já não é um estigma. Passos Coelho seguramente conseguirá ultrapassar esse vendaval que lhe varre os neurónios."

É pá, enfim.

E há muita gente, mas isto culpa da imprensa, muita gente das redes sociais a achar que Pedro Passos Coelho é o autor do livro.

Sim.

Porque muitas das notícias eram precisamente Passos Coelho lança livro e ele só apresentou, não escreveu nada. Mas podia, que aquilo eram 22, não era? Vinte e dois, 24, já não me lembro.

Faz 22, faz 23, não é?

Sim, está bem. Um a mais, um a menos. E eu tenho a certeza que-

Devia ter feito pelo menos o prefácio. Nem isso.

Passos Coelho também teria coisas.

Foi só o MC, portanto, da cerimónia.

Exatamente. Vamos aqui rapidamente a uma coisinha que descobri nas redes.

Vamos a ela.

Enquanto por cá nós andamos a preocupar-nos com assuntos menores, como as famílias, o papel das mulheres.

O que é que isso interessa?

O que é que isso interessa?

Realmente.

Há países que estão ralados com coisas que importam verdadeiramente, coisas que fazem a diferença na vida das pessoas. Falo, por exemplo, da Chechénia. Sabes o que a Chechénia aprontou?

Já vi qualquer coisa, recorda-me.

Decidiu controlar o tipo de música que os seus cidadãos ouvem.

Mas é a velocidade, não é?

É, o veredito saiu e diz que estão proibidas todas as músicas que sejam demasiado lentas ou demasiado rápidas, ou seja, músicas que estejam fora das 80 a 116 batidas por minuto.

BPMs. É verdade.

O que isto significa?

Se calhar a Malia não passa. É muito lento, não sei.

Se calhar há umas mais mexiditas.

Olha as senhoras extraterrestres. Esse país se calhar já-

O suficiente para ultrapassar.

Reggaeton acabou nesse país.

Isso não é mau. A grande maioria da música pop que se ouve atualmente vai ser banida da Chechénia, lá está, o que não é necessariamente mau, porque isto anda para aí também tanta porcaria que valha-me Nosso Senhor. Também não há cá música techno, música house, rave, nada dessas coisas moderninhas. O objetivo da medida: preservar os valores tradicionais chechenos. Chechenos? É assim, chechenos. Era um fofinho checheno.

Checheno é fixe.

Se tivesse um cão, podia ser um checheno, acho bom.

Um plush.

Um plush. Portanto, preservar os valores tradicionais, adaptando a música à mentalidade chechena. Segundo o ministro da Cultura da Chechénia, Musa Dadayev: "É inadmissível tomar emprestada a cultura musical de outros povos" e portanto, acatou a decisão do chefe da República Chechénia, Ramzan Akhmatovich Kadyrov.

Muito bem.

Estive anos a pronunciar bem este nome. De que a partir de agora, todas as obras musicais, vocais e coreográficas devem corresponder àquelas tais 80 a 116 batidas por minuto. A medida é para entrar em vigor depressinha. Ao que parece, os artistas locais terão recebido um prazo até 1 de junho para reescreverem as músicas que não satisfazem os critérios. Se não o fizerem, não são autorizados a apresentá-las em público e podem ir cantar para outra freguesia, neste caso para outro país.

Por acaso não conheço a música da Chechénia, mas se algum dia for à Eurovisão.

Não conheces o grande hit?

Mas eles estão a tentar contrariar isso. Eles querem valorizar a cultura chechena e a música chechena.

E a partir de agora vais ver o próximo grau.

Isto deve ser ilegal, a Constituição lá do país. Quer dizer, não sei se eles têm Constituição.

Eu acho que não deve ser. E se era, adaptou-se a Constituição.

Isso é uma entrave à liberdade artística.

Mas será que vai ser?

Será que eles podem fazer músicas mais aceleradas, mas depois têm um edit?

Que fazem

Exato. Sim, pode ser. Podem fazer isso.

Mas será que bombaria mesmo? Imagina, será que podes ouvir à socapa, tipo as condecorações do Marcelo?

Podes, mas depois também podes ficar sem um dedo. Ou uma orelha.

Sem uma orelha. Neste caso, uma orelha faz mais sentido. Pronto, é isto.

Está feito por esta semana.

Está feito. Isto é muito esquerdinho.

Sábado está de regresso a Ana Garcia Martins com mais uma edição de: "O Que é Que Sucede?" Até lá, Ana.

Adiós.