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O que é que sucede na Rádio Observador com a nossa Ana Garcia Martins?

Não sei se as pessoas ouviram um "ptum!" em casa, porque eu entusiasmei-me com o genérico. Gosto sempre muito.

Gostas muito deste genérico, não é?

A anima puxa para si.

Uma pessoa entra logo com outra coisa.

Alegra a pessoa.

Não mentiu.

Não percebi que já estávamos no ar.

Como está você?

Estou muito bem.

Como se encontra?

Obrigada, graças a Deus, Nosso Senhor, está tudo muito bem. Por aqui também.

O André Maia decidiu abandonar-nos.

Estava aqui há três segundos. Ele faz sempre isto, eu começo a falar e ele sai do estúdio.

Ele diz: "Malta, para mim deu, vou partir."

E isto não acontece poucas vezes. Bastante.

Bastante até, não é?

Bastante.

Nós temos de ir investigar esta situação.

Vou ter de ter uma conversinha com a direção para sabermos o que é que se está a passar. Olha, vamos então aqui aos temas da semana. E esta semana, no Brasil, tivemos um caso que se tornou viral. Eu não sei se a nível mundial, mas pelo menos chegou cá em força e tornou-se um dos temas mais comentados do Twitter em Portugal. Falo de quem?

É a stalker?

É o tio Paulo.

Achava que era a stalker brasileira que andava atrás do Harry Styles e foi com nada.

Porque escreveu-lhe mais de 8 mil cartas. Eu acho pouco. Se a pessoa não escreve cartas, é porque não escreve cartas. Escreve 8 mil cartas, também já é de mais.

Pronto, afinal não é.

Não, é o tio Paulo. Como é que tu não ouviste falar do tio Paulo?

Sinto que agora passei a semana toda numa caverna.

Estavas numa gruta com o wi-fi desligado.

Por favor, conta esta lisa.

Conheces? Não, não conhecias, porque o senhor infelizmente já foi desta para melhor.

Já sei.

Já conheces o tio Paulo.

Sei, por favor, continua.

Então, por que o tio Paulo se tornou viral? Isto é tétrico, mas ao mesmo tempo isto é tão inusitado que dá a volta.

E tomo rima disto, é mesmo macabro.

É isso, mas é que não dá para não rir. Uma mulher foi a um banco no Rio de Janeiro tentar pedir um empréstimo. Até aqui tudo bem, não é assim nada de mais. Nos dias que correm, uma pessoa tentar fazer um empréstimo. O problema foi o estratagema que ela inventou para conseguir este empréstimo. Então, a mulher entrou no banco a empurrar uma cadeira de rodas, cadeira essa onde estava um idoso sentado. Ora, na hora de tratar da papelada para o empréstimo, percebe-se que o idoso não reage. E nesse momento, alguém começa a filmar, acha que aquilo está ali um bocado estranho e a mulher, a cuidadora, começa a dizer coisas como: "Tio Paulo, está ouvindo?"

Você tem de assinar.

"O senhor precisa assinar, se não assinar, não tem como. Eu não posso assinar pelo senhor, tem que ser o senhor. O que eu posso fazer, eu faço." E ela vai dizendo isto enquanto segura na mão do senhor e a põe em cima do papel com uma caneta para que ele assine. Ora, entretanto, ouve-se a voz de uma funcionária do banco que diz: "Eu acho que ele não está legal."

Querida, não está não.

"Ele não está bem, não. A corzinha não está legal", diz ela. Moral da história, o tio Paulo não estava legal porque o tio Paulo estava morto. É verdade.

Tem uma altura do vídeo que ele até está assim com a cabeça para trás e ela dá-lhe esse toque e vai para a frente.

Ela puxa-lhe a cabeça para parecer.

Muito assustador.

Há quanto tempo é que tio Paulo estava morto, não se sabe muito bem, mas o banco chamou a polícia e a mulher acabou detida. A mulher não era sobrinha, tratava-o por tio Paulo, mas era uma prima, supostamente cuidadora dele, era um senhor já idoso. E ela estava a tentar fazer o levantamento de 17 mil reais, qualquer coisa como 3 mil euros, de um empréstimo que já tinha sido pedido e que ela estava a tentar então resgatar. A grande questão agora é saber se o homem já estava falecido quando foi levado ao banco ou se isso aconteceu quando lá estava. A mulher diz que ele só morreu no banco, jura por todos os santinhos, obviamente, mas o INEM lá do sítio, que foi chamado ao local, garantiu à polícia que ele já estava morto há pelo menos duas horas. Meu Deus do céu, há pelo menos duas horas. Portanto, ela andou a passear com o senhor. Aquela agência do banco ficava num centro comercial. Ela levou de Uber até lá e depois transportou.

Foi de Uber até lá?

Sim.

O senhor ia na cadeira de rodas?

Não, a cadeira era do centro comercial, portanto ela chegou, depositou-o numa cadeira, andou com ele e supostamente já tinha tentado ir a outros bancos fazer a mesma brincadeira.

Há pessoas que não estão bem da cabeça, desculpa.

Tu quando pensas: "Não, nada nos vai surpreender." É impossível.

Chega aqui.

Chega o tio Paulo.

O tio Paulo. Eu estou sem palavras.

O que vale é que mesmo no meio das coisas mais macabras, as pessoas conseguem sempre encontrar o caminho, o humor. A net explodiu com tantos comentários e tantos memes sobre o assunto.

Uma nabira.

E temos coisas como: "Ela pediu para ele assinar e ele disse só por cima do meu cadáver." Parece que ela levou isto demasiado a sério.

Foi mesmo literalmente, é que às vezes ela leva literalmente.

Opá.

Ai, adoro a internet.

Temos também: "Já tinha ouvido falar de sugar daddy, mas sugar dead é a primeira vez." Nós somos más pessoas, nós vamos todos acabar.

Eu acho que estamos todos via verde para o inferno, vamos só descer.

Vamos todos acabar no inferno. E por fim, tenho aqui só mais um que diz: "Acho que o tio Paulo estava vivo e morreu quando viu os juros do empréstimo."

Também é bem possível. Ai, coitado do tio Paulo.

Pronto, olha, tio Paulo, aguardamos notícias. Entretanto, apareceram na internet umas fotos que ela tinha tirado tipo dois dias antes com o tio Paulo no hospital. Tio Paulo estava vivo, dois dias antes, pelo menos, estava. Tinha tido um problema qualquer de saúde e estava no hospital.

Descansei em paz o tio Paulo e que esta situação se resolva.

E isto é o verdadeiro caso de alguém que se torna famoso a título póstumo, não é?

Exatamente.

É o caso perfeito. Olha, vamos a uma musiquinha para te abertas. Vamos lá.

Aqui com uma vibe Inspetor Gadget.

É, não é? Tudo misterioso. Eu não sei se já deste conta, mas nós vivemos numa época de abundância, não necessariamente dinheiro, nisso se calhar somos mais modestos, mas vivemos numa época em que temos muita coisa. Temos muita tralha, muito mais do que aquilo que precisamos. Para teres uma ideia, estima-se que cada pessoa possui, em média, 148 peças de roupa e que apenas 6% de nós já usou todas essas peças. Eu falo por mim, eu uso para aí 3% do meu roupeiro. Estou sempre a queixar-me que não tenho nada.

Eu tenho lá umas botas que comprei nos saldos e fiquei: "Eu vou usar mesmo isto." Não usei uma vez, ainda está a etiqueta.

É o problema dos saldos é esse, é que a pessoa deslumbra-se.

Consigo entender esse estudo.

A questão é que a grande maioria de nós nem sequer se dá conta disso, que temos demasiadas coisas, não necessariamente só roupa, muitas outras coisas, e parece que vivemos ainda assim num permanente estado de insatisfação que nos leva a querer sempre mais e melhor. E a verdade é que esta insatisfação tem um lado bom, porque foi o que fez a humanidade evoluir e garantiu a nossa sobrevivência, porque se estivéssemos sempre contentados com aquilo que tínhamos, provavelmente ainda estávamos a fazer fogo com duas pedrinhas e muito felizes com isso.

E bem, estávamos ótimos.

Ou seja, a evolução teria estagnado porque nós não teríamos sido capazes de olhar à nossa volta e perceber que havia ali algumas áreas que precisavam de desenvolvimento.

Claro.

O problema é que nos dias que correm nós passamos para o outro extremo. Nós estamos tão habituados até às coisas mais incríveis da vida, que damos por nós num permanente estado de insatisfação. Queremos sempre mais.

É verdade.

Que é o chamado efeito Diderot. E agora um pequeno momento Wikipédia. Quer se saber o que é o efeito Diderot? O Diderot foi um filósofo francês ali do século XVIII, que na altura de casar a filha, percebeu que não tinha dinheiro para pagar o dote e ficou ralaado. Sobretudo porque começou a perceber que encalhando a miúda ia ficar a viver lá em casa para sempre. Quem é que resolveu o problema? A Imperatriz Catarina, a Grande da Rússia, que lhe comprou a sua biblioteca e contratou-o como seu bibliotecário pessoal. Com este encame financeiro inesperado, o Diderot fez o que todos nós, sobretudo mulheres, faríamos: foi às compras.

Claro.

E comprou um bonito manto vermelho.

Que lindo!

"Se eu não gostar de mim, quem gostará?", pensou ele.

Hashtag self love.

Self love, blessed. Comprou então o manto vermelho, mas houve um problema. Chegou a casa contente da vida com o seu manto da Prada.

Imagina, Yves Saint Laurent.

Lá do século XVIII. E percebeu, sim senhora, aquilo era muito bonito, mas não ficava bem com nada do que ele tinha lá em casa.

Quem nunca? Também mais uma vez.

De repente atirou-se para uma compra assim de um valor maior e não batia com as coisinhas modestas que ele tinha lá por casa. Isto levou a uma reação em cadeia de compras como o efeito Diderot. Ou seja, é quando tu vais, tens aquela coisa, percebes que aquilo não está ali a bater certo com o que já tens. E em vez de estares chateado, vais comprar coisas para ver se se adaptam. E são coisas sempre mais caras e melhores, porque já têm que se conjugar com aquele estilo.

Portanto, o desgraçado do Diderot que começou aqui.

Isto, o efeito Diderot, é precisamente o que faz com que nós nos habituemos demasiado rápido às últimas conquistas do homem e com que mais rápido ainda nós já estejamos a reclamar e a querer mais. Eu falo de coisas como, por exemplo, reclamarmos de estarmos tantas horas num avião para atravessar o oceano, uma encomenda que demora mais do que um dia a chegar, um site que demora mais do que meio segundo a carregar. Já estamos em nervos. Tudo coisas que as gerações anteriores não tinham e que nós temos, mas já não damos o devido valor. Vai daí, o autor do site Mind Body Dad decidiu criar uma lista de 100 coisas que nós tomamos como garantidas. São coisas simples, feitas pelo homem, sem as quais provavelmente estaríamos perdidos. Qual é o objetivo da lista? Que a pessoa, ao pensar nestas coisas, evite os sentimentos negativos e tente antes passar para um estado de gratidão, que veja o lado positivo e benéfico das coisas.

A gente bem tenta.

Porque, filipa, se nós nos limitarmos a ver sempre o copo meio vazio de tudo, então não estamos a viver em plenitude. Vamos aqui ver alguns itens desta lista. Canalização. A pessoa pensa em canalização, pensa em coisas más. Entope, depois sai o pinga, dá chatice, é preciso chamar alguém, não está o canalizador disponível. Mas ninguém pensa no lado positivo. A canalização leva água até a nossa casa.

Sim, mas será que alguém consegue mesmo estar neste estado consciente constantemente?

Isto é um exercício que tens de fazer. Vais chegar a casa e vais acender uma vela aos teus canos.

Obrigada, canalização.

Obrigada, EPAL.

A ambos, a todos.

Ambos.

Amelius.

Outra: estradas. Primeiro pensamento, há sempre trânsito que se farta, há buracos, a sinalização é má. Tudo verdade, mas aqui estamos a trabalhar com o positivo, e o positivo é que as estradas nos levam do ponto A ao ponto B. Portanto, repete comigo: obrigada, estradas.

Obrigada, estradas. São umas lindas.

Limpa-pára-brisas. Há coisa mais poética do que uma pecinha que se mexe e que tanto afasta a água da chuva como a mosquitagem na A2?

Pois é.

Não há.

Mas depois enerva quando faz barulho. Quando a esponjinha

As coisas começam a estragar-se.

Exatamente.

Mas a culpa não é delas, é tua, que não as vais trocar. Tem um tempo de vida limite, não é para sempre.

Já estou a descartar as culpas para os pára-brisas.

Já estás, já querias uma invenção, umas melhores, que durassem.

Pois é.

Olha, o alfabeto.

Mas esta lista é incrível. Alfabeto.

Alfabeto é uma coisa que usamos todos os dias e nem pensamos nisso. 26 letrinhas que nos permitem criar 600 mil palavras. Já viste? Não é lindo?

600 mil palavras.

Compras online. Precisamos? Não. Queremos e vamos comprar? Sim.

Ora, pois claro.

Pronto. Dobradiças. Alguma vez mostraram agradecimento?

Nunca na minha vida.

Ninguém, nunca.

Pois acho que ninguém, nunca, certamente.

Pronto. Olha, isto são só alguns exemplos, mas há muitos outros: o rato dos computadores, cortadores de relva, capacetes, papel, manteiga, testes de sangue, terapia, música ao vivo, GPS, supermercado. Olha, não sei se queres acrescentar.

Eu acho que qualquer coisa que nós possamos ver e utilizar

Diria sentido. Está válida para esta. Por este microfone que permite que a nossa voz chegue até aos ouvintes. Estás aqui super colocada. As pessoas lá em casa não estão a agradecer este momento. Não, por favor, porque se não houvesse microfone eu não tinha de ouvi-las e estava só a ter um sábado feliz. Na paz do Senhor. Lamento imenso, senhor ouvinte. Olha, para terminar aqui muito rapidamente, novidades no Instagram e no WhatsApp, no que toca à inteligência artificial, porque a inteligência artificial parece um polvo, ela infiltra-se em todo o lado, nós não conseguimos livrar-nos. E é óbvio que agora também vai chegar às redes sociais. A Meta vai integrar, já anunciou, um chatbot no WhatsApp e no Instagram, que pode responder a perguntas, criar imagens, recomendar conteúdos. Basicamente, tudo aquilo que nós já fazíamos a falar com pessoas a sério, agora vamos poder falar com uma máquina. Olha, então, no caso do WhatsApp, teremos um ícone específico no ecrã principal. Quando tocamos nesse botãozinho, damos então início a uma conversa, um bate-papo com estes chatbots, e temos várias opções de interação. Podemos fazer perguntas sobre o estado do tempo, séries de televisão, coisas mais random, tipo porque é que os gatos ronronam ou será que és capaz de ensinar-me a cantar? Não. E nada tema, podes perguntar à vontade, nenhum constrangimento, porque esta nova funcionalidade continuará tão segura como tudo o resto, vai estar devidamente protegida pela criptografia. Ora pois. Por outro lado, também podemos pedir que crie uma imagem em segundos, tipo: "Chatbot, cria aí uma imagem minha com menos sete quilos em cima do lombo." Ok. Olha o jeitaço que isto me vai dar. Assim já podemos morfar as bolas de ballet todas na praia. Pronto. No Instagram. Isto é para quê? Olha, filha, para quê? Porque a gente tem que se entreter com alguma coisa. Agora começaram com isto, não sabem parar. Segurem-nos. Pronto, no Instagram, isto também vai funcionar de forma mais ou menos parecida. Carregas no botãozinho e através da caixa de mensagens privadas consegues ter uma conversa com a inteligência artificial. Eu diria que para muita gente vai ser a primeira vez que vai conseguir ter uma conversa inteligente no Instagram. Pronto. Também podem perguntar uma data de coisas, tal como no WhatsApp. A grande diferença é que no Instagram podes pedir ao chatbot que te recomende reels sobre temas específicos. Olha que maravilha. Então se eu quiser ver reels de cães, eu posso pedir. Cãezinhos, fofos. Ó faz favor. Olha, peço desculpa, tenho que mudar. Lamento imenso. Agora não vale a pena estarmos já aqui todos muito contentinhos, porque isto já está quase a arrancar nos Estados Unidos. No resto do mundo, a Meta diz que não há data. Vai acontecer, sim, um dia, quem sabe? É sempre assim, os Estados Unidos chegam lá, tilassem. Não é? Primeiro eles. São uns richitinhos. Olha, então vamos ficar a aguardar por este chatbot. Aguardemos. Beijinhos. Olha, toma banho e joga para cima dos seus.