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Estou?

Estou. Vou-lhe pedir para não me fazer muitas perguntas. Eu sei que é jornalista. Não leio jornais, mas sei que é boa naquilo que faz.

Mas eu estou a falar com?

Não me faça muitas perguntas. Estou a ligar-lhe porque eu sei como é que estas merdas acabam. Que esse lixo é sempre para o mexilhão, mas foda-se, caguei. Você conhece a Pinheiro e Valbom?

A construtora? Sim.

Estamos a falar de pessoal forrado, pessoal com dinheiro mesmo a sério. E mesmo assim, o filho da puta do herdeiro está em falta com muito papel, e a gente não é de se assoar.

O herdeiro?

O filho do chefe daquilo.

O filho do Vicente Valbom? Sim.

Pode ser que se ouvir a cena nos jornais se borre todo e pague o que deve.

O que me está a dizer é basicamente nada para que eu possa escrever seja o que for. Nós estamos a falar de quê, especificamente? De jogo, de especulação?

Se eu disser o que é, lixo-me. Portanto, seja criativa. Sei lá, diga que o filho está metido em merdas. Olhe, não sei. O que eu sei é que o Betinho de merda anda armado em esperto. Faltam duas semanas para ele fazer anos. O que era bom era que o seu artigo fosse a prenda de anos do cabrão.

Mas eu não-

Escreva. Procure bem e escreva, ok?

"A Vicente Valbom, a figura do self-made man assenta que nem uma lula. E a aparente vida familiar exemplar dá-lhe uma imagem em que os portugueses confiam. Dá-lhe a imagem que os portugueses valorizam, mas será mesmo assim? Ao que a SETE pôde apurar, o filho, o Zé Valbom, 25 anos, herdeiro de..." Já disse que ele era filho. "Jovem estudante promissor foi apanhado com..." Porra, foi apanhado com o quê? Sei lá, pode ser tanta coisa. Droga, mulheres. E o outro gajo ia ligar a dizer logo isso. Merda, não tenho nada. Foi apanhado com o quê? Qual era o número do gajo? Nove, um, um, dois, três.

O número para o qual ligou não está atribuído.

Claro!

"Happy birthday to you. Happy birthday to you. Happy birthday. Happy birthday to you."

"O Zé faz 25" é um podcast de ficção para ouvir em oito episódios. Uma coprodução Coyote Fadil e Observador, da autoria de David Neto e Manuel Pureza. Com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Paulo Calatré, Beatriz Godinho, Sara Matos e a minha, Cristóvão Campos. A música do genérico é de Arthur Costa. Episódio quatro: Sociedade anônima.

Também nós não sabemos o que aconteceu ao Zé. Afinal, tudo é possível numa história de ficção. Mas sabemos uma coisa: não é impossível viver uma aventura todos os dias sem abdicar do conforto. Foi por isso que criamos o novo Citroën C3 Aircross, um SUV preparado para tudo, acessível para todos. Citroën C3 Aircross, ninguém resiste ao conforto.

Estou.

É da residência do engenheiro Vicente Valbom?

Sim, quem fala?

O meu nome é Joana Magalhães, sou jornalista da SETE. Estou a falar com?

José Valbom, filho do engenheiro Valbom. Ele não está.

José, boa tarde. Para dizer a verdade, eu queria era mesmo falar consigo. Se estiver disponível, claro. Eu sei que faltam poucos dias para o seu aniversário.

É verdade, mas desculpe, como é que sabe disso?

Sendo o seu pai uma pessoa influente, com fortes ligações ao governo, imagino que possa ser um peso para a família, uma responsabilidade.

Eu não vejo mesmo onde é que está a querer chegar.

Foi-me feita uma denúncia de alguém que lhe é muito próximo dando conta que o José andaria envolvido em práticas duvidosas. Desde esse telefonema que ando à procura de uma linha, de um ponto de vista sobre isto. É que sendo o seu pai uma figura tão influente, se uma notícia destas, sobre si, sai para fora, e ainda para mais sem a sua versão dos factos, pode ser complicado para ele. Pronto, e a fim de evitar essa chatice entre vocês, eu só queria mesmo uma conversa consigo. Não acha melhor encontrarmos o José? Repare, mesmo que não seja uma declaração on the record, o José pode ajudar-me a clarificar duas ou três coisas que não ficaram muito claras na acusação que me chegou. Limpava o seu nome, evitava que o nome do seu pai andasse na lama. O que é que acha? Vamos a um café?

Escreva o que quiser. Boa tarde.

Foda-se! Este gajo está cordo, Joana, porra! Ok. Plano B. Apostada àquele do... Não. Um, nove, dois, três, quatro, cinco, nove, três, cinco. Ok. Estou? Boa tarde. Estou a falar com a Inês Oliveira?

Sim.

Olá, o meu nome é Joana Magalhães, sou jornalista da Sete. Estava a ligar-lhe para saber se me pode responder a umas perguntas sobre José Valbom. Está sim?

O que quer saber?

A Inês é da faculdade do José, certo?

Sim.

E pelo que percebi, o José está sempre muito envolvido nas atividades académicas.

E?

No fundo, eu queria lhe perguntar se conhece alguém que poderá ter alguma coisa contra ele.

Contra?

Vejamos. Um jovem tão sociável e tão bem-sucedido, é normal que seja alvo de algumas invejas. Alguma vez assistiu ou ouviu falar alguma coisa estranha, mexericos, más-línguas, algo assim?

Não. O José é um santo.

Claro. Não duvido. Ele e a Inês são namorados, certo?

Quem é que lhe disse isso?

As publicações nas vossas redes sociais. Faz ideia se ele está envolvido em alguma atividade ilícita?

Desculpe-la, mas eu não estou a perceber onde é que quer chegar com isto.

Eu não queria alarmá-la, Inês. Mas é possível que o Zé esteja em maus lençóis.

E ligou-me para me avisar ou para ver se espreme alguma coisa para um artigo qualquer.

Queria só tentar perceber melhor o Zé. E lembrei-me de lhe pedir ajuda. Só isso.

Eu não o conheço de lado nenhum. Está aí com acusações sobre o Zé, eu não a ajudava nem que fosse uma ceguinha a atravessar a estrada. Por isso não me ligue mais, porque eu vou bloquear o seu número.

Sim, Inês, espere.

Estou?

Pedro. Já passaram duas semanas.

Eu sei. Eu já perdi com o gajo, já lhe dei duas bofas.

Pedro, deixa-me te falar até ao fim. A ideia era simples, não era? Porque é que estão a complicar?

Eu não estou a complicar.

Deixa-me acabar de falar, se fazes favor. Hoje vai ser um dia bom, não vai? Hoje o artista faz anos e vai ser só chegar lá e trazer o prometido. Não vai, Pedro? Vai. À porta da tua casa está o telefone para deitar fora. Usa-o. Traz-me o meu dinheiro.

Ligou para José Valbom. De momento não posso atender porque estou a cagar. Obrigado. Com licença. Sim?

Atende a merda do telefone, palhaço. Andas armado em esperto a ignorar os meus telefonemas, mas eu faço-te a folha, cabrão. Eu estou a caminho da tua festa. Se não atendes, dou e vou andar em cima da tua namorada, estás a ouvir? Atende, filho da puta! Tu não sabes com quem te andas a meter. Eu não vou ficar entalado por causa de um beto de merda, estás a ouvir? Estou a caminho da tua casa e é bom que atendas. Se te apanho, rebento-te todo, cabrão. Caraca. Bora lá, plano B. Vais ver, betinho de merda. Deixa lá procurar. B. B de pita do Valbom. Bora.

Estou?

Por que é que demoraste tanto tempo a atender?

Quem fala?

Não te faças de parva.

Que merda é esta?

Diz ao teu namorado para se pôr esperto. Ele anda armado em campeão, mas qualquer dia lixas. Passa-lhe o telefone

Nota breve: a namorada afinal não ajudou nada. Lembrete: ouvir de novo a gravação da chamada. Será que eu perdi o jeito de sacar às pessoas aquilo que preciso que elas me digam? Nota: imaginemos que o José Valbom andava a comprar drogas a quem não devia. Ok. Está bem, e então? Quantos putos da idade dele que não fazem a mesma coisa? Lembrete: se foi droga, isto é muito mais parecido com uma novela mexicana do que eu imaginava. Nota dois: ok, não era droga. Podia ser outra porcaria qualquer que o miúdo podia andar metido. Ok, dever dinheiro a malta perigosa podia ser jogo. Ou seja, imaginemos, ele tem uma casa, uma sala de jogo ilegal. Mas depois é onde? É com quem? Ele vai jogar com quem? São demasiadas perguntas, porra. Como é que eu posso ser criativa se não sei absolutamente nada desta porcaria? Eu também não posso inventar. Ok. "Filho de peixe sabe nadar". Não, porra, isto é muito mau. Parece aqueles títulos clickbait. Vá lá, Joana. "Filho de empresário envolvido em escândalo?" Clássico, mas depois, está bem, e daqui vou pra onde?

Senhor Pedro Catal. Senhor Pedro, meu nome é João Durães e eu sou o inspetor encarregue do caso do desaparecimento do senhor José Valbom. Eu presumo que saiba que é por isso que estamos aqui, frente a frente. Bom, o senhor foi apanhado pelos meus colegas a sair por uma janela quando chegamos ao local.

Não me lembro.

Vá lá, senhor Catal, não vá por aí que nos vai fazer perder muito mais tempo. Quando a polícia chegou e deu conta do ocorrido, o senhor estava a sair por uma janela traseira da casa. Está a ajudar, aquilo que eu lhe estou a dizer é real. Foi interceptado por um elemento de um dos carros-patrulha que estava no local.

Quer que lhe diga o quê?

Eu quero que me conte aquilo que se passou.

Ia a sair pela janela e fui parado por um colega seu.

Afinal lembra, senhor Catal.

Eu não queria estar ali.

O que vais fazer?

Vou entrar na festa. O teu namorado não atende, vai ter de apanhar um pinhão outra vez.

Não, espera. Não faças isso, eu vou encontrá-lo e mando-o ir ter contigo aí fora.

Não, esquece. Tenho nada a ver com aqueles betinhos de merda. Mas o Zé era meu coleguinha dos tempos que jogávamos à bola no Fofó, em Benfica. E era os anos dele. Tinha de lhe dar um abraço, não é?

Diga-me uma coisa, conhecia mais alguém na festa?

Não. Ia lá mesmo só dar um abraço ao gajo e saía dali assim que pudesse. Era bateria a mais e eu já tinha combinado umas coisas com outros amigos.

Se eu encontrar o gajo, isto vai cair numa merda.

E então? Estou na casa dele. Consegues resolver isso ou tenho que ser eu? Não, eu trato. Não foda.

Deixa-me entrar.

O que estás a fazer? O que estás a pensar, chaval?

Não lhe faças nada, Pedro. Eu faço o que for preciso, mas não lhe faças nada.

Tu tens um namorado de merda, não tens? É rico como o caralho e ainda precisa da namorada pra o defender de levar na tromba por não pagar aquilo que deve. Baza, sai-me da frente.

Não.

Ou sais ou levas na boca também. O teu namorado está metido em merda até o pescoço, mas ele a mim não me fode. Baza, Pita, deixa-me passar.

Como?

Hã?

Como?

Estás maluca ou o quê?

Alguma vez?

Toda a gente me viu entrar para aqui contigo. Provavelmente o Zé está por aí algum estancado com uma puta de uma merda qualquer e toda a gente sabe que ele anda pelos cornos. Ninguém sabe quem tu és. Por isso, ao menos que me sirva para alguma coisa esta merda desta festa. Beijas-me e ia embora.

Então deixe-me lá ver se eu percebi. O Pedro ia cumprimentar um velho colega de equipa pelo aniversário, mas acaba a tentar escapar por uma janela. Pelo meio, não conhecia ninguém, mas queria sair dali rapidamente.

Sim, foi isso mesmo.

Portanto, eu imagino que alguma coisa se tenha passado entre uma coisa e outra, porque entrar à procura de dar um abraço a um colega até sair por uma janela, vai um tiro de canhão. Ou não? É uma forma de expressão, tiro de canhão.

Não percebi.

O que é que aconteceu para você sair pela janela da casa?

Nada. Acho que fiquei assustado com a vossa entrada, de repente. Achei que íamos todos dentro, sei lá.

Por que nós havíamos de fazer isso?

E por que não? Eu vi cada coisa tão difícil de explicar feita por vocês. Sei lá, não sei dizer isso.

Chegou a ver o Zé?

Sim, cheguei.

Sai tu primeiro e vaza. Eu faço com que ele pague o que deve até sexta-feira. Basta que ele ouça que isto aconteceu para abrir a pestana.

Tu és completamente apanhada dos cornos.

Perdão, lá. Já tiveste o que querias.

Javala? Eu não queria nada. Tu não bates mesmo bem, pois não?

Se eu achar que tu querias muito isto, ainda me serve melhor. Nunca mais te quero ver. Vaza.

Ok.

Pedro? Então? O que estás fazendo aqui? Teu amigo. Preciso falar com ele. O que queres com ele? Onde é que o gás está, pá? O quê? Onde é que o gás está, pá? Calma. Está ali, entrando na cozinha agora.

Anda comigo agora.

Eu?

Sim, já.

Filho da puta. Calma, porra! Deixa-me respirar. Paga-me a merda do dinheiro já. Eu não tenho o guito comigo. Porra! Já te disse. Pedes ao teu pai. Caguei. Não é assim. Solta-me. Paga-me a merda do guito. Tu não fazes ideia com quem é que estás a meter. Tu tinhas de ir dizer merda aos jornalistas. Não te estiques, cabrão. Se esta merda continua assim, o teu pai vai-te andar a apanhar aos bocados por aí. Não, eu pago-te. Tens medo dele, não é? Tens medo que ele descubra e te faça a folha, não tens? Eu pago-te esta semana. Ei, olá. Então, estás boa?

Estúpido. Andava aí uma miúda à tua procura no alto dos quartos.

Levanta-te lá.

É melhor ires rápido antes que ela mude de ideias.

Quem?

Quem? Quem será que é?

Esquece. Eu vou lá.

Espera aí, não vás. Então, tu estás cheio de tonturas.

Com tonturas?

Bebe uma água.

Tu andaste a fumar alguma merda dentro de casa? Já não basta tudo o que temos para limpar antes deles virem. É amanhã.

Cala-te, idiota. Sai-me da frente.

Eish, tatu.

O que estavas a fazer na casa de banho com a namorada do meu irmão?

Hã?

Ya. Tu e ela estavam na casa de banho ao mesmo tempo, ainda há bocado.

Ela queria fazer ciúmes ao teu irmão?

Eu perguntei o que estavas a fazer. Não perguntei por que estavas a fazer.

Não se pode fumar dentro de casa.

Os meus pais chegam amanhã, portanto davas jeito que não. Usa essa janela que dá para o terraço.

Arranja-me lá um cigarro.

Toma.

Até já.

Não, nada de mais. Bebi duas cervejas. Estava bem. Dancei um bocado. E depois quando fui à cozinha, ouvi aquele aparato de berros, tu a gritar "socorro" e não sei mais o quê. Assustei-me e saltei pela janela.

Conhece a família Vale?

Não. Conheço o Zé e o pai dele da televisão

A irmã, a Margarida, sabe quem é?

Uma assim baixinha, de cabelo liso, os olhos grandes, não é? Deu-me um cigarro nessa noite.

Um ex-desportista a fumar.

Que eu saiba não é proibido.

Calma, seu Pedro, estava só a meter-me consigo. Fuma tabaco, presumo?

Sim.

Mais alguma coisa?

Não há cá heróis, senhor inspector.

Terá sido isso que o fez saltar pela janela naquela noite?

Não, senhor. Estava a fumar um cigarro. Um cigarro apenas.

Porra, merda é esta, pá? Polícia!

Galera, pessoal, é a polícia. Deu merda.

Abram a porta, por favor.

Merda.

Você estava a fumar um cigarro que a Margarida lhe deu e assustou-se.

Sim, foi isso.

O que é que faz, Pedro?

Eu já pus isso na ficha lá fora.

Não, mas relembre-me.

Sou recepcionista numa pensão no Almirante Reis. Dá para pagar a renda.

Certo. A bola não vingou, é isso?

Não. Foi o meu joelho que me lixou. Senhor inspector.

Sim?

Vocês vão encontrar o gajo ou não?

Estou a fazer por isso. Bom, seu Pedro, mantenha-se contactável. Por agora não tenho mais perguntas, mas a qualquer momento podemos ter que voltar a conversar. Passe bem.

Ok.

Onde é que tu andas, Zé?

O Zé faz 25 é um podcast de ficção para ouvires em oito episódios, produzido pela Coyote Vadio e pelo Observador. Escrito por David Neto e Manuel Pureza, com realização de Manuel Pureza, direção de elenco de Rita Tristão da Silva e direção de som de Jonathan Costa. A sonoplastia e a música do genérico são de Artur Costa. Paulo Calatré é João Durães. Beatriz Godinho é Joana Magalhães. Tiago Teotónio Pereira é Zé Valbom. Madalena Almeida é Guigas e José Raposo é Vicente Valbom. Sara Matos é Inês, Vicente Wallenstein é Delgado e Helena Caldeira é Luísa. Rafael Medrado é Guedes e Cristóvão Campos é Pedro. Carla Maciel é Sofia. Miguel Pires é Cândido. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A coordenação do projeto é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. Obrigado por ouvirem. Voltamos no próximo episódio de "O Zé faz 25", disponível no site do Observador e em todas as principais plataformas de podcasts. E se virem o Zé, por favor, avisem.

Este podcast de ficção tem o apoio da Citroën.