Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Continuamos a falar da guerra na Ucrânia nas manhãs 360. É para lá, para a Ucrânia, que vamos agora em direto ao encontro dos enviados especiais do Observador, o Pedro Jorge Castro e o fotojornalista João Porfírio, que estão em Kiev. Pedro e João, bom dia aos dois.
Bom dia.
Bom dia.
De noite chega a notícia de um centro comercial bombardeado pelas forças russas. Sabemos que acabaram de chegar ao local. O que é que nos podem descrever? O que é que estão a ver?
A frente deste centro comercial, é um centro comercial bastante amplo, está quase intacta, mas na parte de trás está completamente destruído. É um centro comercial com dois andares, com 250 lojas, as maiores lojas são uma Leroy Merlin, um supermercado Novus e uma loja H&M, mas tem muitas outras lojas de moda. E depois tinha um edifício de cerca de 10 andares por trás, o que aparenta ser um edifício de escritórios. A estrutura mantém-se de pé, mas não há um vidro que não tenha sido estilhaçado neste edifício. E depois atrás, um parque de estacionamento, aquilo que aparenta ser um parque de estacionamento, com vários carros completamente destruídos, muito entulho, muitos destroços provocados por esta explosão. Nós chegámos aqui ao local, estava a ser traçado o perímetro de segurança, mas de facto é um cenário de destruição tremendo. Atrás deste espaço comercial, a toda a volta, há uma série de edifícios residenciais, alguns com 20 andares. E posso-te dizer, por exemplo, a 200 metros, logo o primeiro prédio tem o mesmo cenário. O prédio aguentou-se de pé, é um prédio residencial, mas também não há um vidro que tenha ficado intacto. Estão várias pessoas já a retirar o entulho de suas casas, imagino que isto tenha sido um sobressalto muito grande para estas pessoas que estavam aqui. Apanhámos aqui um vizinho, que tem um familiar que vive aqui precisamente num destes prédios em frente, mora a 3 km, veio aqui de bicicleta e diz que durante a noite, a 3 km, sentiu o impacto com uma violência tremenda, sentiu o chão a tremer. Isto dá bem a ideia do impacto que isto teve e da forma como isto foi vivido pelas pessoas que vivem aqui em Kiev.
João, percebemos, e o Pedro acabou de nos explicar, que foi montado agora um perímetro de segurança. Calculo que haja muita gente nas ruas por esta altura, quer os moradores desses prédios que viram os vidros partidos, quer mesmo ainda operações de socorro que estejam a acontecer. É isso, João?
Sim, é verdade. Muitas pessoas que vivem aqui nas imediações deste centro comercial estão a aproximar-se, a aglomerar-se junto a esse mesmo perímetro de segurança, esse perímetro que foi delimitado pelo exército ucraniano com umas fitas vermelhas e brancas. O perímetro foi alargado. Nós quando chegámos, o perímetro era bem mais curto, nós conseguíamos quase alcançar esses mesmos destroços. Entretanto, o perímetro foi alargado e as pessoas vão-se acumulando para tentar ver o nível de destruição que ocorreu depois da queda deste míssil aqui neste centro comercial de Kiev. Eu estou noutra zona, a zona oposta onde está o Pedro Jorge Castro, estou na zona onde morreram os civis. Fala-se de seis civis, mas esse número ainda não foi confirmado de forma oficial. Eu não consigo precisar esse número, mas já chegaram aqui o transporte desses mesmos corpos, houve vítimas mortais com este ataque. Não sei se conseguem ouvir, mas ao fundo há um barulho constante de tiros de artilharia. Isso quer dizer que há combates a poucos quilómetros do sítio onde nos encontramos, porque o barulho é constante, tiros de artilharia pesada. E como o Pedro dizia, todos os prédios à volta estão danificados, com os vidros danificados, e há muitas pessoas dentro desses apartamentos que estão a tentar reparar de alguma maneira os estragos que de certeza são avultados.
João, ajuda-nos a situar o local desse centro comercial e da zona residencial. Está muito longe do centro de Kiev?
Não, estamos a exatamente 9 km da Praça Maidan. Nós estamos alojados a mais ou menos 300 metros dessa praça e vindo até aqui de carro, demorámos mais ou menos meia hora, o que significa que são 9 km, obviamente já contando com o tempo de paragens, de checkpoints, de mostrar a identificação, passaporte, carteira profissional. Estamos a 9 km do centro da capital ucraniana.
Pedro Castro, este ataque mostra uma mudança de padrão por parte de Moscovo na hora dos ataques, mas também nos alvos.
Sim. Nós estamos aqui há uma semana, estamos aqui há exatamente uma semana aqui em Kiev, e até aqui havia uma regularidade quase na hora que soavam as sirenes, era sempre ali por volta das 9:00 p.m. daqui, que são mais duas horas do que em Portugal, e depois de manhã, nas primeiras horas da manhã. E normalmente havia um prédio bombardeado ao início da manhã, por volta entre as 5:00 a.m. e as 6:00 a.m., um prédio residencial, provocava uma a três vítimas mortais. Isto já se estava a tornar uma espécie de novo normal aqui em Kiev, um infeliz novo normal, mas a que as pessoas já se estavam a habituar. Aqui, de facto, há uma mudança, não só por causa da violência do impacto Estes rebentamentos foram ouvidos ontem em toda a cidade, tal o impacto que provocaram, também pela hora, porque foi à noite, e também pelo alvo. Este alvo é o maior centro comercial de Kiev. Obviamente, isto tem um impacto em toda a gente. É impossível ficar indiferente pela violência das imagens também e pelo que pode significar. Parece uma manobra de intimidação dos ucranianos. Recordo que esta noite terminava o prazo dado pelas autoridades russas às autoridades ucranianas para se renderem, assumirem a rendição em relação a Mariupol e, portanto, isto pode ser mais uma forma de pressão e também um sinal de que podem iniciar aqui uma espécie de tentativa de reduzir as hipóteses das pessoas de se abastecerem de mantimentos. Recordo que há um grande supermercado nesse centro comercial, onde as pessoas iriam buscar mantimentos para tentar prepararem para o pior. Tal como em Mariupol, obviamente, onde as pessoas não têm energia, não têm água, não têm mantimentos, não têm nada, não têm comida. Será um pouquinho mais difícil fazer isso aqui em Kiev, mas este pode ser um primeiro sinal.
Pode ser o tal ponto de viragem. Sim, Pedro.
Deixe-me só dizer que há aqui ainda uma dúvida, que é: não há certezas sobre o número de mortos. A indicação que há é que serão, de facto, seis mortos. Sabemos isto pela fotografia do colega da France Press, que captou uma imagem com seis corpos, mas ainda não há confirmação oficial disso e também não há confirmação se ainda haverá trabalhadores que possam estar vivos debaixo dos escombros. Quando chegámos aqui, estava um capelão militar ortodoxo que se dirigiu rapidamente ao local, antes ainda dos psicólogos, para prestar eventual apoio às vítimas ou sobreviventes, ou às suas famílias. Ele chegou mais cedo que nós e descreveu dois rastos de sangue no exterior do centro comercial, como se tivessem arrastado corpos a sangrar por aqui. Estamos agora a afastar das imediações do centro comercial, mas vamos ter que aguardar ainda por informações oficiais que confirmem o número de vítimas desta violentíssima explosão que arrasou esta zona de Kiev.
E conseguimos ouvir pelo som ambiente que há muita agitação à vossa volta. O João Porfírio dizia-nos que para chegarem aí-- sim.
Deixa só, Carla. É muito rápido, estou a chegar agora mais próximo de um dos prédios residenciais que fica aqui nas imediações e é visível. Há várias pessoas dentro das casas, de facto, a retirar tudo aquilo que têm, todos os destroços, todos os telhados, e a atirá-los pela janela. Tem aqui uma senhora do segundo andar a atirar vidros diretamente pela janela cá para baixo. Era só dar este apontamento. Desculpa, pode ir ao João.
Queria ir a um de vós que nos contasse, porque o João falou aqui dos checkpoints que tiveram que atravessar até chegar aí. Há um reforço desse tipo de controle? Notaram isso hoje?
Nós não notámos um reforço efetivo desse número de checkpoints, até porque os checkpoints já foram montados há alguns dias, desde o início da guerra que existem checkpoints. Estamos no 26º dia, salvo erro, da guerra e desde o início que Kiev tem sido fustigado pelas tropas russas e desde o início que esses checkpoints têm sido montados. Obviamente, ao longo do tempo, cada vez mais, mas não sentimos, estamos cá há uma semana, não sentimos diferença substancial de controle. Sentimos, sim, um grande controle. Param todos os carros, pedem para abrir a bagageira, controlar todos os passaportes e carteiras profissionais e depois seguimos normalmente. Não sentimos um reforço maior. O Pedro há pouco falava sobre uma infeliz nova normalidade e, de facto, é isso que provavelmente está a acontecer com o povo ucraniano.
João Porfírio e Pedro Jorge Castro, os enviados especiais do Observador à Ucrânia, estão em Kiev. João e Pedro, mantenham-se seguros. Continuação de bom trabalho.
Obrigado.
Obrigado.
Rádio Observador