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A esta hora temos feito ligação à capital ucraniana e as autoridades de Mariupol lançaram esta noite um pedido de ajuda porque têm residentes a morrer de fome. Não há alimentos na cidade que está cercada pelas tropas russas há três semanas e tem sido cada vez mais difícil também criar corredores humanitários para sair do local. Os enviados especiais do Observador a Kiev, Pedro Jorge Castro e João Porfírio, falaram com um casal de médicos que conseguiu fugir de Mariupol. Chegou esta semana à capital ucraniana. Em direto agora connosco está o Pedro Jorge Castro. Pedro, muito bom dia. Conta-nos a história destes médicos, o que é que eles viveram, o que é que eles te contaram antes da saída de Mariupol?

Mariupol, de facto, vai ser uma das catástrofes desta guerra. Sabemos muito pouco ainda sobre tudo o que aconteceu lá e tudo o que está a acontecer lá. Daí a importância deste testemunho. O Konstantin e a Ludmila são dois médicos que no primeiro dia da guerra foram se oferecer à Força de Defesa Territorial, como outras pessoas fizeram por todo o país. Naquele momento exato não precisaram deles como militares, digamos assim, e eles acabaram por encontrar um abrigo num complexo desportivo, o TerroSport, onde se começaram a juntar as pessoas para se protegerem dos bombardeamentos e começaram a viver lá e eles próprios pensaram, foram ter com o responsável deste espaço perguntar como é que podiam ajudar. Disseram-lhes: "São médicos, então montem as coisas para começar a prestar assistência às pessoas que necessitarem". E então a vida deles passou a ser isto, eles passaram a ser os médicos deste complexo subterrâneo onde estavam 4000 pessoas abrigadas. Eles já tinham experiência em medicina de guerra, o que ainda foi mais útil neste cenário. Passaram a ser eles os responsáveis por dar a assistência possível a todas estas pessoas. Agora imaginem o tipo de situações com que tiveram que lidar num cenário destes. Eles deixaram de ir à própria casa deles, passaram a dormir neste complexo, sem condições nenhumas, obviamente, isto foi tudo uma emergência, onde as pessoas dormiam no chão, espalhadas pelo chão. Se alguém se levantava, perdia o lugar. Era difícil até para eles caminharem por entre as pessoas que estavam deitadas ou sentadas dia e noite neste complexo subterrâneo. Eles iam a casa apenas duas horas por dia, enquanto conseguiam, para irem tomar banho, basicamente, e depois voltarem outra vez para o complexo, onde obviamente eram muito precisos. Nessas saídas à rua pela cidade, começaram a confrontar-se com a destruição, obviamente com os edifícios destruídos, com as filas nas farmácias, com o comércio todo destruído e com os cadáveres. Deixou de ser possível em Mariupol fazer funerais, tornou-se uma cidade que deixou de funcionar. Imaginem o desespero das pessoas a perguntarem às poucas autoridades que ainda existiam, o que podiam fazer com os cadáveres. A polícia disse-lhes que era necessário atar os corpos com mãos e pés e enterrar em algum lado para não ficarem à mercê dos cães vagabundos. E as pessoas faziam, de facto, isso. Há muitos corpos enterrados em Mariupol neste momento e que foram enterrados nestas circunstâncias. Até custa a imaginar a dor e a violência das pessoas que tiveram de fazer isto e que se viram numa situação destas. A maioria das pessoas que estavam neste complexo eram crianças, 2500 crianças. As crianças estavam proibidas, obviamente, de sair deste complexo subterrâneo, porque Mariupol estava constantemente a ser bombardeada. As pessoas sentiam as bombas constantemente, viam os aviões quando saíam à rua e as crianças estavam interditas de sair deste complexo e passavam o dia ali. Até podiam brincar com os cães e gatos e com os avós, mas passavam o dia basicamente neste complexo, dormiam nuns colchões que estavam espalhados pelo chão. Quando se levantavam, se deixavam de olhar para as coisas, podiam voltar e já não terem o cobertor ou a almofada. Isto, às tantas, transformou-se obviamente numa situação bastante selvagem. Depois começou a haver contágios quando as pessoas deixaram de ter acesso a eletricidade, água e gás, o que aconteceu ao fim de 10 dias neste complexo. As crianças começaram a ficar muito doentes, começaram com febre e diarreia, o que ainda agravou toda esta situação. Não havia medicação para dar auxílio a todas estas pessoas. Enfim, isto tornou-se, de facto, uma situação bastante traumática. Contaram a história de um rapaz que estava abrigado neste complexo E que decidiu ir a casa buscar uns documentos para tentar sair. Ele conseguiu voltar, mas voltou completamente ferido. Tinha ferimentos no olho, nas pernas, e a médica perguntou o que aconteceu. E ele contou que começaram a disparar contra ele, nas costas dele. E aconteceu uma coisa terrível. No momento do último disparo contra ele, ele tropeçou num cadáver e caiu, e isso acabou por ser aquilo que o salvou, de certa forma, porque acabou por o fazer desviar-se das balas. Mas ele dizia: "Eu sou um estúpido, por que fui a casa buscar os documentos? Isto não tinha importância nenhuma, comparado com aquilo que acabei por passar". Os médicos ficaram 10 dias neste complexo e ao décimo dia chegou outro médico que tinha acabado de ter a sua casa bombardeada. Eles já estavam completamente de restos, depois de 10 dias praticamente sem dormir, a ir apenas duas horas por dia à casa, e viram aqui uma espécie de sinal, como se pudessem fazer uma passagem de pasta para outra pessoa que pudesse tentar fazer o possível para ajudar aquelas pessoas. O principal problema que eles sentiam até eram problemas psicológicos. Sentiam muitas pessoas absolutamente traumatizadas e também não tinham como as ajudar, não tinham medicação nem tinham forma de as conseguir ajudar. Decidiram então ir para casa. Começou a haver pilhagens um pouco por toda a Mariupol. Eles foram para casa e juntaram-se aos vizinhos e juntou-se ali numa espécie de tentativa de movimento de resistência. Os vizinhos que ficavam apesar das bombas estarem a cair permanentemente. Cada um juntou a pouca comida que tinha ainda armazenada em casa. Estamos a falar já sem qualquer energia, sem água, sem gás, sem luz. Cortavam árvores para fazer fogueiras, apanharam neve para ferver e terem água, pelo menos só para beber água e lavar os dentes. E ainda tentaram aguentar-se assim até ao momento em que houve um bombardeamento, que caiu mesmo junto à residência deles e eles acharam que não valia a pena continuar. E então, por muito perigoso que fosse fugir, encetaram essa fuga, vieram dois carros, 12 pessoas. E o horror continuou, em certa medida, porque tiveram obviamente de passar por 19 checkpoints de russos. Agora imaginem estas pessoas depois de passarem por tudo isto, ainda terem que se confrontar com os militares russos a mandarem disparar, a quererem ver os documentos, a quererem ver as coisas todas que tinham. Houve muita tensão, claro, mas conseguiram passar por eles todos. Eles contam que até passaram por um checkpoint em que um dos militares lhes pediu desculpa, um dos militares russos, o que até é um pouquinho surpreendente. Eles disse que quando foram para ali, não sabiam o que iam fazer e não sabiam que era isto que ia acontecer. Depois descrevem o alívio que foi o primeiro checkpoint ucraniano. Também conseguimos imaginar isto. Depois de 19 checkpoints controlados por russos, apanharam o checkpoint pela primeira vez do seu próprio país. E depois disso também, a sensação de voltar a estar no sítio onde conseguiam. Eles depois conseguiram chegar, ao fim de dois, três dias, a Kiev e conseguiram finalmente voltar outra vez a saber o que era um banho, por exemplo, a saber o que era uma refeição. Pediram uma refeição normal e obviamente ficaram absolutamente maldispostos porque já não estavam habituados a comer aquilo que comiam habitualmente. Isto é uma história que ajuda a descrever um pouquinho o horror que se vive em Mariupol e que as pessoas vão poder ler em breve aqui no site do Observador.

Ficamos também à espera desse relato que aqui fizeste na Rádio Observador, no nosso site observador.pt, esta história do casal de médicos que sai de Mariupol e está já em Kiev. Em Kiev estão também os enviados especiais do Observador, Pedro Jorge Castro e João Porfírio. Pedro, continuação de bom trabalho. Um abraço.

Obrigado. Rádio Observador