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Olá, seja bem-vindo a mais um "Observadores Como Nós". Eu sou a Maria João Simões e esta tarde tenho o gosto de receber Gabriel Alves, jornalista e o comentador desportivo que todos conhecem, mas que é também pai, um apaixonado por jazz. Há muito para conhecer na próxima hora. Olá, Gabriel, bem-vindo. Quanta honra. Obrigada por ter aceitado o convite.
Muito feliz por estar no meio de tantos observadores.
Nasceste em Lourenço Marques, agora Maputo, Moçambique, a 23 de outubro de 1947.
Verdade.
Qual é a tua primeira memória, Gabriel?
A minha primeira memória não é propriamente de Lourenço Marques, dado que os meus pais foram viver para o norte de Moçambique. A minha primeira memória é aquilo que nós chamávamos lá o mato. Pequenas vilas por onde o meu pai, ao nível do seu trabalho, circulava. Morrumbala, Alto Molócué, Mutarara, onde viviam o meu avô e a minha avó. Da casa deles via-se e vê-se aquela grande ponte sobre o rio Zambeze para comboio. Tenho essas imagens da Morrumbala, do rio Chire, a atravessar o rio Chire, onde atravessávamos de batelão, o carro chegava não havia ponte. O Alto Molócué era diferente, era uma localidade de altitude. E lembro-me de Mocuba, por onde se passava, por onde se tinha que ir, que era, eu diria, um entroncamento. Lembro-me muito bem da passagem por Mocuba. Umas vezes passávamos a cem, outras vezes ficávamos por ali com alguns amigos. Lembro-me de Namacurra, que era a mais próxima de Quelimane. E entretanto eu fui crescendo.
E como é que eras em miúdo, Gabriel? Já gostavas de desporto?
Em miúdo eu era muito slumbático, muito calmo. Eu gostava mais de observar, de ver. Gostava muito de frequentar, porque o meu pai levou-me sempre comigo para o chamado mato. Para os trabalhos que ele executava, o meu pai era agrimensor, depois também para aquilo que se fazia na altura e hoje se faz, normalmente, que era as chamadas ir à caça, fazer um acampamento e estar três dias fora no meio de um acampamento, no meio do mato. Há sim boas recordações dessa época, independentemente depois de todos nós irmos crescendo. E depois tenho a de Quelimane, foi onde eu comecei a minha escola.
Fizeste até ao quinto ano, não foi? Ao antigo quinto ano.
Eu fiz até ao antigo quinto ano e depois acabei por fazer lá o sétimo ano. Tínhamos uma vertente que tinha muito pouco a ver com aquilo que era a metrópole. Éramos escolas mistas, éramos escolas que, sobre o ponto de vista transversal de tudo, de todas as raças e costumes. Todas, e mais africanos, indianos, asiáticos eu até gostaria de pôr, porque nos asiáticos havia indianos, havia paquistaneses, havia chineses. Eu habituei-me muito cedo a lidar, desde menino, desde criança, seis anos, a lidar com todas essas civilizações, o que me apraz muito e que me ensinou muito, porque todos nós crescemos a conhecer-
Outros hábitos, outras culturas
Outras culturas e outras maneiras de estar perante as coisas da vida. E foi muito interessante esse meu crescimento da escola primária.
E Gabriel, foi também em Moçambique que te estreaste na rádio. Houve um concurso e tu ficaste no emissor regional da Zambézia. Quantos anos tinhas? Nem 20.
Não, ainda não tinha 20.
17?
Eu lembro-me de ter feito a revista do ano para o emissor regional da Zambézia em 1966. Mas a verdade é que eu em 1964 saí de Moçambique e vim para a chamada metrópole, estudar para o Liceu de Santarém. E para mim não foi uma experiência muito válida. Se calhar por minha culpa, erro meu, não responsabilizo ninguém, eu serei sempre o epicentro dessa responsabilidade. Porque de facto havia um comboio, às 18h em Santarém, que vinha para Lisboa. E eu conhecia bem o caminho para descer. Aprendi a conhecer Lisboa. Foi nessa altura, ainda menino, que eu conheci Lisboa a pé. Eu sei sítios de Lisboa porque conheci Lisboa a pé. E não foi só Lisboa, conheço outras cidades exatamente da mesma maneira, a pé, porque é assim que se conhece. E a verdade é que acabou o ano letivo, o sexto ano, onde conheci pessoas muito interessantes, quero já dizer, e ainda hoje mantenho. Foram meus colegas.
Contacto, sim.
Ainda hoje mantenho algum contacto, outros já partiram, infelizmente. E fui-me e voltei para África. Quando eu em 66 vou pra rádio, eu já tinha tido a experiência, digamos, metropolitana da situação.
Mas como é que foi esta estreia? Um show musical?
Era um show musical. Mas é um facto que é preciso ter em conta. Eu lembro-me muito bem. Eu quando entrei na rádio, eu só fiz o show musical seis meses depois.
Sim, foste aprender primeiro tudo, estiveste na parte técnica.
Técnica, como é que se gravava programas, como é que se punha a emissão no ar, aquilo era os jacks, como é que se metia e pra onde é que iam. Fui assistir e ver o que é que outros meus colegas faziam.
E só depois é que aprendeste a colocar a voz, a dicção.
Mas eu aprendi a colocar a voz várias vezes, atenção. Isso foi dependente da área onde funcionava. E foi interessante, depois deram-me um programa chamado Show Musical. Eu ainda tenho alguns guiões, eu guardei, tenho-os guardados. Posso fazer um show musical um dia daqui.
Era giro.
Com a música daquela altura.
Gabriel, tu ainda levaste um-
E eu lembro-me que em 1966 eles pediram para eu fazer a revista do ano e fiz. E terminei a revista do ano com o doutor Barnard, que tinha feito, era na altura Portanto, a questão do coração, dos transplantes do coração. Lembro-me perfeitamente ter dado grande incidência a isso e ter terminado o programa com a última valsa do Ennio Morricone.
Sim, fizeste também um programa sobre jazz, que é outra das tuas paixões. É a música que ouves em casa?
Sim, eu gosto de ouvir música na generalidade.
És eclético.
Sou eclético, adoro Ravel, adoro Beethoven, gosto de Wagner, há momentos em que acho que é um jazz fantástico, Wagner. Perdoe-me, mas é fabuloso Wagner. Isto para dizer que sou universal, embora naturalmente tenha no jazz aquilo que é. Por quê? Em 1964, quando eu vim para Portugal, eu tinha, que já morreu também infelizmente, um dos meus primos, em cuja casa fiquei, que era a casa dos meus tios, era um apaixonado de jazz e era um frequentador do Yacht Club Portugal. E foi aí tudo que aconteceu. Todas as coisas têm um verso.
Uma razão, sim.
E foi aí que tudo acabou por se desenvolver. E eu hoje, na minha discografia, grande parte, eu diria a maior parte mesmo, música jazz. Hoje as coisas são diferentes, mas eu quero dizer que tenho os meus CDzinhos e tenho os meus LPs. Eu recordo-me que aqui há uns anos, vários já, duas dezenas, três dezenas de anos, quando apareceu esta questão dos CDs, eu resolvi pôr um dia à venda. Eu tinha muitos LPs, até produções da minha vida de locutor na rádio, porque eu era locutor de rádio.
Sim.
E eu não sabia o que aquilo, pus um anúncio e tal. E apareceu-me um sujeito que foi lá buscar os discos, não sei, mais de mil. E deu-me na altura, acho que 100 contos por aquilo tudo. E eu tinha uns que ainda hoje tenho, separadinhos. E ele disse-me assim: "Você não quer vender aqueles?" "Não". "Mas dá-me licença que eu veja". E aqueles eram 100 discos, 80 discos. Ele foi ver e disse: "Dou-lhe o dobro daquilo que lhe dei". Eu disse: "Muito obrigado", mas precisamente porque não é para vender é que estão aí. Não só pela parte intrínseca musical, mas também pelas capas, pelas fotografias das capas, que têm muita importância, porque houve muitos deles que eu os comprei fora daqui.
Muitas viagens, não é, Gabriel?
Sim, eu já os comprava em Inglaterra.
Tu fizeste parte do serviço militar em Nampula e aí voltaste à rádio, vais pra Emissora Regional do Norte.
Sim, voltei quando fui pra Nampula.
E com alguns colegas do exército também.
Não, da Força Aérea. Ah, e do exército.
Do exército de Nampula, não é?
Sim, o António Santos já lá estava, que era uma figura conhecidíssima aqui da Rádio Renascença. E o Fernando Quinas, que era do Rádio Clube Português. Eu acabei por entrar na Emissora Regional de Nampula, porque já vinha da Emissora de Inhambane. Eu já fazia, de alguma maneira, parte.
Já era o bichinho da rádio, Gabriel.
Sim, o bichinho da rádio e fazia parte da casa. Portanto, a casa já me conhecia, porque tudo aquilo, funcionando mesmo a nível regional, obviamente que era tudo coordenado e comandado a partir de Lourenço Marques.
Depois, de Nampula, regressas a Maputo, onde apresentaste o "Doce Lar". Com uma pessoa que recordas com muita saudade, Lizete Lopes, dizes que te ensinou muito. Por que dizes isso, Gabriel?
A Lizete, além de ter sido uma colega, foi uma grande amiga. E eu vi ela desfazer-se ao meu lado. Quando eu cheguei junto dela, convidada por ela pra fazer aquele programa, que era o programa das 16h.
Era um programa diário.
Diário, todos os dias. A Lizete era um fulgor. Um ano e meio depois, a Lizete era um farrapo. Morreu no Hospital Santa Maria.
Mas guardas com a saudade essa experiência, não é?
Recordo muita saudade dela. Aprendi, porque o coloquial como ela fazia o programa era interessantíssimo. A parte de comunicação. E eu vim a fazer um programa daqueles, onde havia quase tudo o que dizia respeito às senhoras. E foi um programa que me agradou muito fazer e que deu o tiro de partida pra os Programas Golo.
É aí que surge o desporto?
Surge por acaso. Eu quando vou às Produções Golo, o senhor António Alves da Fonseca, por quem tenho o máximo respeito, que fazia programas não só de desporto, chamava-se Golo, fazia os relatos do hóquei, essencialmente, e do basquete. E do futebol, obviamente, também, mas o hóquei e o basquete.
Mas por aí que começaste, hóquei e basquete, não foi?
Sim, exatamente. Eu fiz poucos relatos de futebol em Moçambique, fiz alguns, mas muito poucos. A verdade é que o senhor António Alves da Fonseca incitou-me nesta vertente. Quando eu vou trabalhar pra ali, lá fui eu outra vez aprender tudo de novo em relação à parte técnica, porque já era outra.
É outra dinâmica.
Outra dinâmica, e tinha passado desde 66 até 70, isto é pelos anos 70.
Sim, muita coisa evoluiu.
Tudo evolui à velocidade dos tempos. E lá estive eu outra vez que aprendi com todo o gosto. E então o João de Sousa, coitado, também já saiu e grande amigo, grande companheiro, grande senhor. Morreu há uns dois anos, tenho muitas saudades do João. Era o pivô principal de tudo o que ele fazia. Ele era da Golo, nem era da Rádio Golo. E então o João de Sousa também tinha que ter folgas. Então ele um dia pôs-me a fazer o Bom Dia Zinho, porque havia o programa da manhã do Rádio Clube, que era uma coisa, e havia o Bom Dia Zinho, que era do Rádio Clube C, porque havia a estação B, que era a LM Radio Portanto, é inglês, toda ela virada para Springbok, para a África do Sul, que é inglesa.
E tu ouviste também muitas gravações da BBC, não foi?
Muitas. A verdade é que fazia as folgas a fazer o "Bom Dia" do João, fazia publicidade, e um dia o senhor António Alves da Fonseca perguntou: "Você quer escrever um programa para a noite?" Porque ele sentiu que eu tinha conditions. Eu disse que sim. Lá não havia televisão ao tempo. Mas havia aqueles programas, das 22 às 23 horas, que era a "Extensão 10", que era das Produções Gold, e a partir das 23 horas havia um outro programa noturno que era das Produções Elm, uma concorrente. E eu fui fazer. Fiz um, eles gostaram, fiz dois. Passei a fazer três, quatro por semana. Lá fazia a "Extensão 10". Venho a Portugal, estou como militar em Lourenço Marques, estava lá a cumprir os meus afazeres. E há um dia que venho de férias, foi no Natal. E o António Alves da Fonseca também vinha. Eu deixei o programa feito, escrito, porque era o programa, as músicas, era tudo. A Maria Vale de Sousa era quem? Era a senhora que lia, uma grande senhora também da rádio em Moçambique. E o António Alves da Fonseca chega a Lisboa, também vai passar uns dias e telefonou-me. Queria falar comigo. Eu fui ter com ele. Foi no Monumental. E o António Alves da Fonseca e a esposa dizem-me: "O seu programa foi cortado e além de o seu programa ter sido cortado, o nosso programa foi anulado". E eu disse: "E o que eu fiz de grave?" Foi a minha pergunta. "Pôs lá aquela canção do Soldadinho Volta no Caixãozinho e não sei o quê, e eles não gostaram". Ok. Eu quando pus aquilo foi dentro de um teor, porque eu não tinha qualquer tipo de formação política.
Claro. Não foi uma coisa intencional.
Entretanto, eu era militar. A minha chefia militar sabia o que eu estava a fazer. Eu fiz o programa dentro de alguma inocência, dentro de uma estrutura que achei que devia de fazer, mas nunca com um objetivo político. Mas aquilo ficou resolvido, porque deixou de ser "Extensão 10", passou a ser "Sintonia 22". E eu perguntei: "Eu estou agora a escrever para a Mana?" "Não, você vai continuar a escrever". E fiz esse programa. Tenho alguns dos textos também. Também tenho alguns desses textos e prezo muito. Às vezes quando lhes passei os olhos.
Viajas no tempo, não é?
Viajo no tempo, é engraçado. Depois é que apareceu o futebol. O futebol aparece que um dia eu chego lá e o senhor António Alves da Fonseca diz: "Você tem uma voz ótima para fazer futebol, vai começar a fazer o futebol nas relatos". Pense nisso. Nem me tinha passado pela cabeça. Até que lá fui eu de gravador.
Gravador.
O João de Sousa.
Depois ouvia, depois alterava.
Levava na cabeça do senhor António Alves da Fonseca e do próprio João. E até que houve um dia que sou alargado, num jogo de hóquei em patins com o João, depois sozinho, depois também relegado no basquete, finalmente no futebol. E é assim que tudo começa a minha vida-
E depois nunca mais paraste.
É assim que começa a minha vida no futebol.
Está à conversa com o Gabriel Alves. Vamos fazer aqui uma pausa para as notícias e já voltamos com a segunda parte do "Observadores Como Nós".
Me aponta a metralhadora. Mas o tipo reteve-se. E assim: "Se não fosse o Cabral, já estavas morto há muito tempo".
Este é o "Sargento na Cela 7", uma série para ouvir em seis episódios. Faz parte dos Podcast Plus do Observador.
E eu percebi que aquilo lá dentro enfiava fino, os rebeldes e não sei o quê. Eles estavam preocupados com o seu futuro.
Episódio cinco: A operação clandestina. Informo que estou rodeado por dois blindados e muitas tropas. António Lobato foi o português que mais tempo esteve em cativeiro na guerra de África: sete anos e meio. Pode acompanhar todas as semanas no site do Observador ou nas plataformas de podcast. Um novo episódio a cada terça-feira.
Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis. Segunda parte do Observadores Como Nós. Hoje é meu convidado Gabriel Alves, jornalista, comentador desportivo, mas com muitas outras paixões, entre elas os dois filhos. És pai da Raquel e do Francisco. És um pai babado ou eles é que são os filhos babados, Gabriel?
Olha, somos as duas coisas. Somos intrínsecos e equidistantes. Cada um tem a sua vidinha. Foram, obviamente, educados nesse sentido e felizmente cada um segue o seu caminho. Já têm tempo do mundo. Estiveram fora, minha filha na Ásia durante mais de uma dezena de anos, e ele no Medio Oriente, também mais de uma dezena de anos. Hoje estão cá Ela, à partida, ficará por cá. Ter a sua vida orientada no científico cá, eu acho que não.
Na tua página de Facebook e Twitter descreves-te como um simples amante da geometria desportiva. Já falámos também do teu gosto pelo jazz. E Gabriel, então e a tua paixão pelos vinhos, quando é que começou?
Quando deixei de fumar, há muitos anos. Eu deixei de fumar quando tinha 30 e tal anos, porque eu fumava quatro maços de cigarros por dia. As pessoas podem não acreditar, mas é verdade. Lembro-me que tinha sempre dores de garganta, andava sempre com a garganta inflamada, já não sabia o que se havia de fazer. O Sr. Dr. Ruas fez-me uma série de tratamentos, de terapias, até que um dia ele me chamou. E ele, de uma forma muito franca, virou-se para mim e disse-me assim: "Olhe, eu não sei se o tabaco o vai matar ou não. Isso é um problema seu. Você tem que resolver consigo. Agora, há uma coisa que eu lhe vou dizer: a sua ferramenta de trabalho termina dentro de três meses, que é a voz".
Pois.
Foi tudo taxativo. Lembro-me perfeitamente. Era ele o meu otorrino. E eu fui para casa, pensei e deixei de fumar. E nunca mais fumei um cigarro. Consegui, porque isto é tudo uma questão mental e uma questão de mãos também.
Sim, de estarem ocupadas.
E as mãos ocupam-se depois com outros.
Com um copo de vinho, por exemplo, um bom vinho?
Sim, mas aquilo começou que eu comecei a guardar o dinheiro do tabaco para um objetivo. Até que um dia um objetivo apareceu de eu comprar umas caixas de vinho ali no Douro, e eu já lá tinha uma boa maquia. E é aí que tudo começa. Depois é o desenvolvimento das coisas normais e naturais. Tive o prazer e a felicidade de me dar com pessoas ligadas ao vinho, produtores, viticultores, enólogos. E como gosto de aprender, quando vou para essas reuniões e consigo ter esses contactos, ouço mais do que falo. E normalmente quando falo é para perguntar, porque eu não sei e gosto de ficar a saber. Portanto, quando estou numa reunião de vinhos, eu não sei nada. A única coisa que sei é aquilo que estou a provar, os aromas que sinto e obviamente os sabores que também me chegam. E obviamente que também ao longo dos anos tenho vindo a apurar e tenho conhecimentos que naturalmente que chegam. Agora tenho, de facto, uma grande paixão pelos vinhos. É uma bebida de que eu gosto muito.
No teu Instagram, além de fotos de tempos passados, recordações dos teus vinhos, tens também muitas fotos de refeições com amigos. É como mais gostas de passar o teu tempo livre, rodeado de amigos e família?
Completamente. Família, amigos. Amigos que gostam de vinho e também daqueles que não gostam de vinho. Também tenho, tenho uma amiga que não bebe, só bebe água. Quando estou só com ela, também só bebo água. Sim, eu gosto muito de estar rodeado de amigos e tenho um bom núcleo, eu diria, versátil e duro, ligado aos vinhos. Tudo gente boa, tudo gente que sabe o que está a fazer, o que não quer e o que quer. E tenho no meio dos produtores também, em todas as regiões, de norte a sul, grandes amigos. É evidente que a questão do futebol também ajudou, porque todos eles ou são do Porto, ou do Benfica, ou do Sporting. Gostam, têm decepções, têm alegrias. Eu conto aqui só muito rapidamente. O Francisco Ferreira, se estiver a ouvir. Aqui nos anos 2000, o meu primo, esse tal meu primo do jazz, diz-me assim: "Olha que saiu um Valado aí que é fantástico para se fazer publicidade". "E então, aquele era o de 97". "Vai ao Continente". Eu vivia em Cascais na altura. E lá fui ao Continente, e quando fui ao Continente para ir buscar o Valado, o Valado não existia. O 97 tinha esgotado. Fui ao Expresso, jornal, porque tinha saído umas semanas antes uma reportagem sobre o Valado. E eu fui lá à procura e lá consegui encontrar as coisas. E telefonei. E atende-me um senhor e o senhor diz-me assim do outro lado: "Sim, mas nós não temos desse vinho. Ou melhor, somos capazes de arranjar se o Sr. Gabriel Alves vier cá buscá-lo". E eu disse: "Ó promessa, não vou daí aqui ao Porto, Lisboa, ao Porto, para ir buscar uma caixa de vinho". "Olhe, é a única solução". "Ah, é? Eu vou pensar no assunto". Fiquei com aquilo atrás da cabeça. Oito dias depois telefonei. "Olhe, boa tarde, sou eu. Olhe, eu afinal pensei e vou aí buscar o vinho. Mas olhe, já que há pouco vinho desse, eu quero trazer seis caixas, se houver seis". "Venha que tem seis caixas". Isso a conversa começou por via dele. Ele é do futebol clube do Porto. O Tomás é da Quinta do Crasto, que estava lá, que é um sportinguista. Portanto, eu granjeei logo ali conhecimentos e a partir dali as coisas depois sucedem.
Gabriel, na primeira parte falámos muito de rádio, já vamos voltar para falar aqui da Rádio Observadora. Então e a televisão? Foram mais 30 anos na RTP, passaste também pela TPA. Tens saudades de estar no pequeno ecrã?
Não, quer dizer, nunca fiz do pequeno ecrã o meu modo de vivendo. Quer dizer, era o meu modo de vivendo, mas não o meu modo de vivendo e psicológico. Aquilo também começou por acaso. Lá vai outra senhora da rádio. Em 1979, aí uma tarde, portanto há um jogo, Portugal joga com a Espanha ali na Galiza, e os comentadores um estava doente, o outro estava não sei quantos, e quem vem, quem não vem, e perguntaram à senhora, eu já vou dizer o nome dessa senhora: "Conhece lá alguém na Emissora Nacional que possa ir?". E ela deu o meu nome. E eles chamaram-me, o Sr. Serafim Marques, e tudo começou aí. Eu fui fazer esse jogo e a partir daí passei a fazer. A senhora que deu o meu nome foi a Sra. D. Maria Leonor.
Muitas recordações, não é, Gabriel? São muitas histórias, muitas pessoas que marcaram.
Ela trabalhava na emissora, eu também, era uma pessoa que eu cruzava com ela, ela era uma mulher atenta, uma senhora atenta, e achou que eu poderia fazer.
E fizeste.
E foi aí que tudo começou. Foi ela. Portanto, assim Que despertou a minha ida pra televisão. Não estou a dizer que não tivesse eu me mexido. Não, mas isso aconteceu assim. Ponto final.
As pessoas ainda hoje falam que nos teus relatos dizias a altura e o peso dos jogadores. Hoje já não é preciso dizer, está tudo em grafismo. Naquela altura não havia, a televisão era outra. Hoje é melhor ou pior, Gabriel?
Eu dizia tudo isso, que isso era tudo necessário pra informação. E aprendi isso porque o senhor Serafim Marques, uma das coisas que me disse quando eu lá cheguei: "Você tem um toque de rádio e tal, mas tudo". E deu umas cassetes da BBC pra eu ver como é que eram os comentários feitos em Inglaterra. Depois, como me dava bem com os treinadores, houve alguns que me ajudaram. A história do primeiro pau, do segundo pau, da meia distância, tudo isso me foi fornecido. São terminologias que acabaram todas por aparecer de alguns treinadores que conversavam comigo e gostavam da minha pessoa. Porque é assim, eu dei-me sempre ao respeito, nunca fiz fretes, nem farei. Quer fossem pessoas ligadas ao Benfica, ao Sporting ou Porto, eles sabiam que não havia fretes.
Só fazes aquilo que gostas, não é, Gabriel?
Faço aquilo que gosto e faço aquilo que entendo que devo fazer. E assumo os erros e assumo as outras também. E as pessoas sabiam. Eu vou te dizer, um dia uma pessoa foi muito importante pra mim. Um senhor do futebol em Portugal, por acaso ligado ao Benfica, em que eu, quando fizesse as análises aos jogadores, tivesse algum cuidado que não fosse agressivo, que eu tinha uma nota de agressividade. Eu podia dizer que ele não tinha jogado bem, mas que não fosse numa taça, digamos, ao microfone, porque isso caía mal, deixava mal no próprio. Eu passei a ter cuidado. Esse senhor chama-se Toné. Grande abraço. Obrigado.
Ao todo, são mais de 50 anos de experiência nos audiovisuais em Moçambique, Angola, Portugal, também passaste por Espanha. A tua voz a narrar, a comentar, é incontornável. Tens consciência disso. Ainda hoje te reconhecem pela voz, não é, Gabriel?
Sei lá, se eu chegaria ao café aí às 7h30 da manhã e ouvir um conjunto de pessoas que estejam no balcão e se eu chegar: "Por favor, dê-me um café", as pessoas olham para trás. Mas eu fico tranquilo, e tenho muitas pessoas mesmo que me encontram na rua.
Como é que és com essas pessoas que te abordam?
Tal e qual como estou aqui. Tranquilo. Nada de euforias, nada, converso com as pessoas.
Sempre foste assim?
Não me lembro. Sim, sempre fui assim. Eu só tive problemas num estádio e foi em Setúbal, mas ainda era na rádio. Aí é que eu estive num Setúbal e Benfica. E por acaso é engraçado, o promotor de tudo aquilo, em 75. Mais tarde, vim encontrá-lo pra aí em 2005. E ele é que me veio dizer: "Lembra-se de mim?" Eu disse: "Não, não sei quem o senhor é".
E ele é que te recordou do episódio?
Ele é que me veio recordar.
Mas que episódio foi esse, Gabriel?
Tentou arranjar lá uma cena decente pra me bater. E eu perguntei: "Já ganhou o juízo depois deste tempo todo?" E ele começou a se rir: "Desculpe". Ele é muito jovem agora. Mas foi a única situação e ainda estava na rádio, ainda nem sequer pensava chegar à televisão.
O que deve ter um bom relator de desporto? Tu, por exemplo, dizes que não decoras nada, que tens as tuas cábulas.
Eu, acima de tudo, quando me sento pra ver um jogo, obviamente tenho que saber os jogadores, conhecer os jogadores, ler aquilo que tenho que me documentar. Mas documentar com aquilo que vai ser o jogo, pra o jogo. Eu aprendi com o senhor Mário Castrinho, vamos lá falar disso, que era um conhecido e que me bateu muitas vezes, mas também me auxiliou, porque eu lia. Eu não tenho problema nenhum em ler as críticas e as crônicas, porque com elas aprendemos. Sei lá, posso ter pensado que numa ou outra ele foi injusto, mas noutras acho que ele estava correto, que eu retifiquei. Eu pouco tempo antes de ele morrer, um dia encontrei-o num restaurante ali no Cais do Sodré e ele, com um ar, nunca tinha falado com ele, disse-me: "Você aprendeu as coisas. Gosto". Bom, é pronto. É daquelas situações. Uma figura que eu acho que não há hoje um crítico de televisão com a dimensão do Mário Castrinho e se calhar era bom que Portugal tivesse um crítico com aquela dimensão, enfim, que fosse quem fosse, ou mais que um, não queria só um, mas a questão é esta: eu acho que o jogo é que interessa. E quando eu me preparei pro jogo, é aquele jogo que me vem. Tenho aquelas minhas cábulas e aprendi com o senhor tal. Elas só entram em função daquilo que o jogo está a dar. Eu não vou impingi-las. Não impinjo, é o jogo.
Não é porque estão lá que as vais dizer.
Não é porque eu as tenha.
É o jogo é que te diz.
O jogo é que me leva a que eu as diga ou não. Pronto, tem que ter o know-how suficiente. Agora, o que interessa é o jogo. É olhar o jogo. E há muita gente, felizmente, em Portugal, que assim faz. Há outros que não, há outros que têm outras técnicas. Façam o favor.
És conhecido pela forma, pelo estilo como comentas os jogos, entusiasmaste milhões com a tua paixão pelo futebol, deixaste pra posteridade dezenas de frases: "Um golo substantivo que nem pode ser adjetivado". "A força da técnica e a técnica da força" faz também parte das expressões que te popularizaram e que agora podemos todos voltar a ouvir na Rádio Observador. Isto além do: "E o campeão é..." e dos comentários dos jogos dos três grandes e da seleção. Como é que recebeste o convite para regressares à rádio, neste caso, à Rádio Observador?
Olha, com muita satisfação. Eu fiquei muito satisfeito, porque era um projeto novo e na altura que foi ainda mais jovem estava. Mas pra além de me ter sentido satisfeito com este regresso à rádio, eu gostei quando entrei aqui nesta redação do clima Gente muito jovem, gente menos jovem, gente mais adulta. Mas eu gostei do interface entre isto e achei que era, porque enfim, já estive em muitas redações, passei por muitas redações, achei que não havia vícios. E eu gosto. Gostei. E só espero é que as pessoas mantenham este registo. Elas próprias, porque é muito bom para elas manterem esse registo. E francamente, é uma redação simples, de gente simples, bem disposta, nota-se, e tem feito um excelente trabalho e isto tem crescido. E portanto, é muito agradável estar aqui, eu gosto muito de estar aqui. Gosto do projeto, sinto-me bem dentro do projeto. Gosto desta liberdade que existe neste projeto. Gosto das pessoas que estão envolvidas neste projeto. Tenho uma grande satisfação por estar a lidar neste projeto com adeptos do Benfica, Sporting e Futebol Clube do Porto. Gente racional, que não deixam a sua paixão adulterar o raciocínio. Portanto, pessoas muito claras, muito objetivas e é um prazer estar com o João Pinto, o João Castro, o Bruno Vieira Amaral, o Luís Pinto Coelho, porque podemos dialogar, podemos falar e podemos falar leve. O futebol não tem que ser falado. Eu cada vez meto menos estática nisto. Cada vez é tudo muito mais simples, porque quem está em casa a ver o jogo, sim, gosta de ser levado para alguma equação do que se está a passar do jogo, mas não é preciso fazer uma cátedra.
Com 76 anos, Gabriel, o que é que ainda tens por fazer?
Tudo. De encontrar coisas novas. Nós não falámos aqui das minhas viagens, que foi uma das coisas que a comunicação social me proporcionou, e o futebol, nessa circunstância, eu percorri a Europa toda. Eu almocei no Hotel Nacional, em Moscovo, em 1976, o hotel do Lênin. E em 2000 e tal, fui almoçar ao Kremlin e comi no Kremlin dentro de uma barra espanhola. E não comi na italiana porque não quis, e não comi na francesa porque não quis. Lamentavelmente, não havia lá nenhuma portuguesa porque era no Kremlin. Obviamente, também direi, tinha o prazer de ter lá, na altura, um amigo meu, que se chama Carlos Pinto, que foi durante muitos anos o correspondente da RTP em Moscovo. Tive o prazer de conhecer uma cidade, que era Dresden, onde estava o Templo do Wagner. Eu falei disto a leste, mas Londres é uma cidade que me toca fantasticamente, adoro. Estou a pensar lá ir em breve. Tenho lá amigos, obviamente, bastantes, diria muitos mesmo. Foi uma cidade que há uns anos atrás ia lá três, quatro, cinco vezes por ano. Paris é aquela cidade que é uma mulher bonita que nós gostamos de olhar, mas só gostamos de olhar. Gosto de Roma, mas gosto muito mais de Milão e de Turim. E adoro ir a Nápoles. Gosto daquela maluquice toda. Eu era um fã de Barcelona, mas desde o momento em que a minha filha foi tirar pelo Erasmus o último ano de Direito a Madrid, e eu fui frequentemente a Madrid, passei a ficar apaixonado por Madrid. Madrid é uma cidade fabulosa. E eu gosto da Espanha na sua generalidade. Gosto de uma cidade que para mim é a mais bonita, que é Budapeste. Praga também é uma bonita cidade, sim, mas Budapeste bate tudo e todos. Gostei muito de passear nos países bálticos. Gostei muito, acho que são países com grandes potencialidades. E depois, tenho que dar aqui Nova Iorque. Para mim é a capital do mundo. Acho uma cidade fantástica. Nem vale a pena dizer muitos comentários sobre a cidade. Mas há uma cidade que eu tenho por ela estima, e quando eu lá fui a primeira vez, já não tinha idade para ir para lá. Mas eu quero dizer que é uma cidade que eu não me importava de ter feito a minha vida lá: Los Angeles. Uma grande cidade.
Conhece o mundo todo.
Não todo. Olha, Rio de Janeiro. Fui lá uma vez e não fiquei com vontade de voltar. A cidade é linda, mas é daquelas cidades que não me cativa mais. Por acaso poderia ter ido a São Paulo, não fui, porque também não me atraiu muito. Agora, a Tóquio, cheguei a ir quatro e cinco vezes por ano, que é a minha cidade, aquela que mais referências me dá.
E pretendes lá voltar?
Sim. Mal posso. E já tenho um amigo que anda aí a marcar, e ele não vive aqui em Portugal, vive no estrangeiro, algures no mundo, e já me anda aí a dizer: "Eu vou daqui e tu vais daí".
Encontram-se lá.
É, ele conhece bem Tóquio também.
Portanto, viajar.
Sim, viajei bastante. Tenho pena não conhecer a Argentina, Buenos Aires. Era algo que eu gostava de conhecer. Enfim, talvez ainda um dia destes. E o Chile. Eu tenho pelo Chile, por aquilo que leio e por algumas pessoas que por lá estiveram, e até por alguns amigos que nasceram no Chile, tenho vontade de ir ao Chile. Enfim, talvez possa ser.
Gabriel, és um homem sensível e também com sentido de humor. Nos teus votos para este ano desejaste no Facebook: "Que 2023 vos traga proezas Messi, salários CR7 e cabelo Jorge Jesus". Está a ser um bom ano até agora?
Olha, está a ser com saúde, que é para mim o mais importante. O resto vem para resto.
Gabriel Alves, obrigada pela oportunidade de ficar a conhecer mais sobre ti, para lá do jornalista e comentador desportivo que todos conhecem. Eu gostei muito. Obrigada pela tua generosidade, Gabriel.
Muito obrigado. E para todos os observadores, aquele abraço.
Eu sou a Maria João Simões. Obrigada pela companhia. Até ao próximo "Observadores Como Nós".