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Olá, bem-vindos ao primeiro episódio do programa "Only the Best". Eu sou Rui Ramos, historiador, e comigo está o João Carvalho Dias, diretor adjunto do Museu Calouste Gulbenkian. Este programa é quinzenal e resulta de uma colaboração entre o Museu Calouste Gulbenkian e a Rádio Observador. O objetivo é falar da história por detrás de uma das mais importantes coleções privadas de arte de todos os tempos. A coleção que o homem de negócios de origem arménia, Calouste Sarkis Gulbenkian, reuniu durante uma vida inteira e que é hoje a base do Museu Calouste Gulbenkian em Lisboa. Foi uma coleção que Gulbenkian reuniu entre o fim do século XIX e meados do século XX e que o fez percorrer, como colecionador, muitos tempos e lugares, do Egito dos faraós à Paris do modernismo. "Only the Best" é uma frase de Calouste Gulbenkian que resume, de uma certa maneira, o critério que ele usou para fazer a sua coleção. Aqui vamos seguir Gulbenkian nessa viagem, a propósito de algumas das mais interessantes peças dessa coleção e descobrir de onde vieram as peças, o que motivou o interesse de Gulbenkian e como foram adquiridas. São histórias fascinantes, como verá. Hoje, neste primeiro episódio, vamos começar pelo princípio da vida do colecionador de Calouste Gulbenkian, precisamente com uma coleção de moedas gregas antigas. As moedas antigas parecem ter sido um dos primeiros interesses de Gulbenkian e segundo eu, ou segundo a lenda, por causa de um presente do pai quando ele tinha 14 anos e era bom aluno. Não foi? Ou talvez não tenha sido bem assim, João Carvalho Dias.

Olá. Então vamos falar um pouco sobre esse episódio. Talvez não tenha sido necessariamente assim, mas o ingrediente está lá. O Gulbenkian provém de uma família abastada, arménia, no contexto otomano. Nasceu em 69, isto só para situar.

1869.

1869, no lado asiático de Istambul e cedo, com uns 14 anos, parte para Marseille. É alguém a quem a família investe na sua formação. Entre os 15 e os 18, muda-se de Marseille para Inglaterra, portanto este francófono torna-se anglófilo e de alguma forma isto vai moldando a sua própria personalidade. Relativamente ao episódio em causa, esse episódio chega-nos através da narrativa do genro, Kevork Essayan. E era uma espécie de lenda familiar, algo que ele ouviu contar e outros já continuaram a contar, que efetivamente o pai, pois ele se tinha portado bem e tinha tido bom resultado escolar, lhe teria oferecido umas piastras e com essas piastras ele no mercado teria duplicado no sentido de adquirir moedas. Nós não sabemos que moedas, mas podemos supor que seriam moedas locais. Ou, atendendo ao fato do bazar ser um lugar de muitos mundos, um sítio onde tudo se trocava, podemos imaginar que fossem moedas antigas. Isso de alguma forma serve para intensificar e até certo ponto justificar o fato de durante toda a vida ele ter colecionado moedas. Nos primeiros anos, cerca de 1892, há registros da venda pelos Gulbenkian, enquanto sociedade comercial, ao Museu Britânico. Há um negócio em torno.

Há um negócio já de antiguidades.

De antiguidades, isso também é interessante. E em 1896 surgem efetivamente as primeiras moedas inventariadas. Quer dizer que eu escolho que elas estejam na minha coleção, isso já se torna mais sério.

Como disse, o Calouste Gulbenkian nasceu no que é hoje a Turquia e era então parte do Império Otomano. O Império Otomano abarcava os Balcãs, na Europa, a atual Turquia e todo o Medio Oriente, isto é, correspondia ao que tinha sido o Império Romano do Oriente ou o Império Bizantino, e também ocupava as regiões que tinham constituído na antiguidade o Império de Alexandre, o Grande, que tinham sido a área de influência das cidades-estados gregas do tempo do filósofo Platão, o mundo da Bíblia e o mundo dos faraós do antigo Egito. É uma imensa região cheia de ruínas, de monumentos, desde templos gregos a pirâmides egípcias e também com uma longa tradição de artesanato, de objetos preciosos, como tapetes, joias, etc. E no século XIX, esta região era uma das grandes fontes do comércio de antiguidades que existia na Europa. Portanto Podemos dizer que era o mundo ideal para um colecionador nascer, não é?

Exatamente. Só que, curiosamente, corresponde também ao período em que ele sai desse território. Ele torna-se efetivamente um oriental. Efetivamente, ele continua a olhar pra esse mundo, o mundo que muito bem descreveu, mas ao mesmo tempo, ele torna-se um europeu, na medida em que se desloca para os grandes centros da Europa. Paris e Londres eram epicentros, não só porque tinham grandes impérios coloniais, portanto, havia um lastro de cultura um pouco por todo lado, mas ao mesmo tempo, ele começa a colecionar como um europeu, ainda que com uma característica muito particular, que é esse olhar outro do oriental. É nessa conversa que ele vai conseguir ser excepcional, porque nós encontramos, para o mesmo período, colecionadores que estão muito focacionados na arte oriental, por exemplo, porcelana chinesa, estampas japonesas, por aí fora, mas também há outros que só gostam de pintura europeia. E ele gosta de tudo.

Ele gosta de tudo.

É, e isso é muito interessante.

Vamos agora falar mais particularmente destas moedas, porque a ideia tinha começado com as moedas gregas. E estamos a falar dois lotes, um primeiro de 1896, aliás, o João já falou dele, e um outro de 1947. O que é que são essas moedas e como foram adquiridas? E o que é que essas condições de aquisição nos dizem, de alguma maneira, sobre a evolução do Gulbenkian como colecionador?

É interessante porque nós temos um primeiro momento em que os primeiros passos são ainda errantes, e isso é curioso porque é transversal a toda a coleção. Acontece com a arte egípcia, com a arte do livro, com a própria pintura, em que ele mais tarde vem a trocar alguns desses objetos adquiridos nos primeiros momentos, os primeiros passos deste colecionismo. E à medida que ele vai não só tendo o apoio de grandes conhecedores na área, neste caso, numismatas, o Hill e o Stanley Robinson são fulcrais pra constituição da coleção. E portanto, de alguma forma, ele vai crescendo enquanto colecionador. Uma coisa é certa sempre: o gosto dele vai prevalecer muitas vezes sobre a qualidade da própria moeda. Ele tem essa noção, mas em detrimento do valor histórico, ele vai, obviamente, escolher o valor artístico, portanto, a qualidade artística do objeto.

Mas ele sempre acompanhado por especialistas, por conhecedores, até desta relação com o Museu Britânico, não é?

Sim, exato. A relação com o Museu Britânico é fulcral, porque se ela se dá naquele primeiro momento que falamos, enquanto Gulbenkian vendia objetos, neste caso, moedas, com esses especialistas, que são curadores.

Exato, dois curadores.

Dois curadores muito importantes, e um deles vai ter mesmo uma relação de amizade, que é o Stanley Robinson, convida a mulher e ele próprio vem em Lisboa. Ele envia-lhe fruta da Normandia, ameixas de Alvas, coisas e iguarias que no tempo da guerra eram muito valorizadas, naturalmente. E muito cedo ele também teve a ideia que Robinson seria o autor do seu catálogo. Isso é fundamental. Aliás, também Robinson que tem um papel muito importante na aquisição dos medalhões de Abu Qirq, que é uma das obras principais da coleção, ainda que não seja de numismática, porque eram medalhões que se destinavam só a ofertar aos vencedores de jogos, mas que são peças absolutamente extraordinárias que ele compra nos Estados Unidos.

Nessa relação, estes especialistas eram alguém que Gulbenkian consultava depois de ter contato ou conhecimento das peças a adquirir, ou eram até pessoas que às vezes lhe indicavam ou lhe podiam indicar, dar sugestões sobre aquisições? Como é que era as duas coisas?

Todos os métodos. O próprio Robinson, na introdução do catálogo, fala como ele trazia nos bolsos as moedas e como não quem quer a coisa, mostrava e dizia: "Isto vale a pena, vale a pena eu ficar com estas moedas". Ou então, ele sabia que havia uma determinada moeda e ele tinha que ter essa determinada moeda. Isso é o que conduz à compra da Coleção Jameson, por exemplo, são aquisições que ele faz por atacado. A coleção dele é vasta, mas não é muito vasta. Estou a falar em volta de 1100 moedas. Só que são de primeiríssima qualidade, e isso faz com que ele seja um numismata de referência, sem nunca ter tido a pretensão de o ser, no sentido numismático, e sim um colecionador de moedas, e com uma preferência muito particular pelas moedas gregas. E isso é também um dos outros aspectos que o ajuda a concentrar-se na sua área de colecionismo.

E que de alguma maneira tem a ver também com aquela região de onde ele vem, que é a região do Império Otomano, que era a região do Império Romano.

Um pouco a Magna Grécia. Porque de alguma forma, muitas das moedas que ele tem são de centros emissores das colónias. Das colónias gregas na península itálica. Tudo isso são absolutamente marcos da cunhagem com valor estético absolutamente extraordinário.

Estas moedas antigas são uma fonte muito importante para os historiadores, porque contêm informações sobre, por exemplo, quem reinou numa determinada época ou lugar, na medida em que frequentemente têm a efígie de um monarca. E também são fontes importantes sobre as finanças e a economia de um Estado, pela sua frequência, isto é, pela frequência com que aparecem as moedas e pela riqueza das ligas metálicas e do trabalho numismático que contêm. Já aqui fizemos referência a isso e vamos voltar a falar disso. Mas não era como historiador que Gulbenkian se interessava pelas moedas antigas. Ele via-as e valorizava-as como objetos de arte. Ou até melhor, como coisas belas.

Exatamente. Eu diria mesmo que é como amador de coisas belas, que ele junta uma série de objetos, sejam eles de pequena dimensão ou de grande dimensão. Eles nunca são extraordinariamente monumentais e isso é também uma das características da Coleção Gulbenkian. Talvez um dos objetos de maiores dimensões seja um conjunto de estatuária já dos anos 20, portanto, Art Déco. Mas esta visão quase que minimalista no sentido da escala, algo que é transportável. A arte móvel, uma arte que é móvel. Eu diria que se ele tivesse a coleção constituída em Istambul quando saiu, muitas dessas coisas teriam vindo com ele. Nós não sabemos nada do que ele tinha em Istambul, do ponto de vista artístico. Seria muito curioso perceber quais eram os gostos, mas não sabemos. As moedas para ele eram efetivamente esse marco de civilização, isso não tenho dúvida nenhuma. A civilização grega para ele é matriz e a matriz clássica europeia é transversal a toda a coleção ocidental. E isso é interessante porque ele poderia ter tido outras referências. E até os vários neoclassicismos que vão acontecendo ao longo da história, sobretudo no século XVIII e depois o XIX, que já reinterpreta, está tudo na coleção. Diria que há uma matriz grega clássica que ele abraça desde muito cedo e que permanece na coleção. Muitas vezes isso é invisível para o leitor, para o visitante, mas está lá. E está lá a partir das moedas. As moedas digamos que é o marco, porque elas estão na gênese da coleção. Estão entre os primeiros objetos adquiridos. Logo, isso dá-nos essa pista, que é uma pista fundamental para perseguir todo este caminho.

Achei também interessante essa referência que fez a uma coleção transportável, que é quase uma coleção doméstica, uma coleção que se pode ter numa casa, uma coleção que nos acompanha se viajamos. Obviamente, no caso das moedas, pode colocá-las no bolso, mas outras peças ele também as pode transportar com ele. É mesmo uma coleção privada, ou seja, ele não esteve sempre a pensar num museu, ele esteve a pensar na sua coleção privada, nos seus gostos, naquilo que gostava, naquilo que queria ter em casa.

E na escala da própria casa. Há a adequação do objeto à escala e ao espaço que ocupa. E ele vai se tornando cada vez maior à medida que as peças e a coleção também vão crescendo. Isso também é muito interessante, até que chega um momento, que é um momento zero, que é um momento português, digamos, 1942, em que não há nenhuma peça com ele em Lisboa, à exceção de um conjunto de moedas, exatamente compradas em 1946 e que já não regressaram a França e que ficam depositadas num banco em Lisboa e que é o único setor da coleção que existe em Portugal à data da morte.

À data da morte. A história começa com moedas e de alguma forma acaba com moedas.

Ainda que não sejam as últimas aquisições, as moedas. Mas o facto é que há aqui uma coincidência feliz de elas estarem efetivamente em Lisboa. Julgo que ele não iria pedir ao banco para as ver de vez em quando, porque também é interessante, num tempo em que a fotografia ainda não era o meio que nós hoje em dia temos à nossa disposição, era através das molares, portanto, dos moldes de gesso, que ele recebia muitas vezes a ideia de moeda. Porque era algo tátil também.

Podia ver a dimensão.

A dimensão, o rigor da qualidade de punção da peça, isso tudo contribuía para a sua decisão final.

Para comprar ou não comprar. Era assim que lhe eram enviadas então as propostas de aquisição através de moldes de gesso.

Ainda que alguns dos merchants intermediários enviassem mesmo moedas, corriam enormes riscos.

Sim. Imagina-se que era uma pessoa de extrema confiança. E também daquele gênero de, às vezes, aquelas compras ou vendas que ainda se fazem no tipo bazar, que é: "Leve o tapete, veja se quer".

"Tem uma semana pra ficar com ele, veja se gosta."

"Veja se gosta" e traz. Portanto, a moeda também.

Mas isso é muito curioso falar nisso, porque com Gulbenkian era isso mesmo. Alguns livros manuscritos, estou a pensar livros de horas, ele dizia: "Eu levo pra casa. Se passado uma semana eu gostar dele, eu compro". Às vezes não eram amores à primeira vista, mas ele sabia que o dia a dia, o olhar, o reolhar, o folhear, esta constante apreensão do objeto, e com as moedas muitas vezes era também o mesmo. Portanto, é o mesmo método.

Isso é muito interessante porque, de alguma maneira, relaciona Gulbenkian como colecionador com Alguém que está a fazer compras hoje e que também gostaria de ter aquele objeto e depois devolve. E isso é interessante. Nós hoje conhecemos a coleção como um museu, mas foi de facto uma coleção privada, muito relacionada com a pessoa.

E essa é uma dimensão que eu acho muito interessante trazê-la, porque é essa dimensão que se perde no museu. O museu é algo que é fechado e contém estes objetos e para o visitante é só aquilo que ele comprou, quando não é. A coleção é muito mais aberta do que isso. Houve muita coisa trocada, muita coisa oferecida. E, portanto, a oferta está constante durante a vida do colecionador e muitas vezes ofertas bastante generosas. Até porque deixou de fazer sentido para ele aquela peça e se calhar fará mais sentido oferecê-la a alguém.

Finalmente, em que sala então do Museu Gulbenkian, em Lisboa, é que os nossos ouvintes podem admirar estas moedas gregas antigas?

Elas estão na segunda sala do museu. Ela é dedicada à antiguidade de um modo geral, portanto, poucas peças da Mesopotâmia, Grécia e Roma, e muito particular as moedas, que é talvez um dos núcleos principais da Coleção Gulbenkian.

Obrigado ao João Carvalho Dias. Voltaremos daqui a 15 dias para falar de outro interesse de Calouste Gulbenkian, a arte do Egito antigo, e da história de uma das suas mais magníficas aquisições como colecionador, que envolve o homem que descobriu o túmulo de Tutancâmon, em 1922. Até lá e contamos consigo para continuar esta viagem.